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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Vai-se andando

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"As partidas e as chegadas/ Andam sempre lado a lado", canta Ethan Hawke a certa altura de "Boyhood: Momentos de Uma Vida". E ao longo dos doze anos da acção - e também de uma rodagem tão ambiciosa como ponderada -, o novo filme de Richard Linklater tem mesmo nas despedidas e nos recomeços uma das suas marcas mais determinantes.

 

Essas mudanças regulares, intercaladas por cenas prosaicas que raramente têm tanto destaque no grande ecrã, ajudarão a explicar o travo agridoce mantido ao longo destas quase três horas, com uma coerência de tom difícil de sustentar mas que o realizador da trilogia "Antes do Amanhecer"/"Antes do Anoitecer"/"Antes da Meia-Noite" faz parecer simples.

Também é verdade que o tom da sua filmografia não costuma aceitar grandes variações, embora nunca o seu olhar sensível e esperançoso, nostálgico q.b., tenha gerado um objecto tão impressionante (e tão pouco preocupado em impressionar, ao contrário de exercícios mais cerebrais como "Tape", "Acordar Para a Vida" ou "A Scanner Darkly - O Homem Duplo").

 

A nível temático, "Boyhood: Momentos de Uma Vida" rima especialmente com alguns dos primeiros filmes do norte-americano, como o celebrado "Juventude Inconsciente" e o (injustamente) esquecido "SubUrbia", também eles relatos coming of age que não contavam, no entanto, com este nível de detalhe na aproximação às personagens nem com a maturidade do retrato - numa travessia que vai da infância até à entrada na idade adulta do protagonista, interpretado por Ellar Coltrane, entre as vinhetas espirituosas iniciais e sequências de maior fôlego mais para a frente.

 

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Além da própria singularidade do projecto (que manteve sempre os mesmos actores e equipa técnica), do realismo da maioria da acção (a dispensar quase por completo situações-limite) ou das muitas referências à cultura pop que ajudam a definir o zeitgeist de cada cena (vale quase tudo, de Britney Spears a Barack Obama, de Dragon Ball a Kurt Vonnegut, Lady Gaga ou tertúlias sobre os Beatles), o mais interessante talvez seja o contraste entre a perspectiva do (então) pequeno Mason, no arranque, e o modo de Linklater olhar para a forma como o protagonista vê o mundo já enquanto adolescente.

Não só o filme arrisca ceifar alguma empatia inicial como deixa que outros olhares se intrometam (através de comentários da ex-namorada, de um professor ou do segundo padrasto) e não legitimem apenas essa visão, porventura demasiado umbiguista mas compreensível tendo em conta a idade e as experiências que moldaram a personagem (muitas das quais conhecemos com uma proximidade rara).

 

"Boyhood: Momentos de Uma Vida" é também sobre isso, sobre como a imagem que temos de nós pode ser tão distante (ou quase sempre é) da que os outros terão, por muito perto que estejam. Mas que facilmente pode mudar, com cada partida ou chegada, ou pela atenção que dedicamos a cada instante, como Mason acaba por descobrir num (falso) final feliz, agarrado aos clichés boy meets girl e viagem de auto-descoberta.

 

Que Linklater nos faça aceitar e acreditar num lugar comum desses, com direito a pôr do sol no horizonte, é prova da força de uma experiência cinematográfica sem grandes paralelos, com a execução a valer tanto como a originalidade do formato e a ultrapassar muito bem ocasionais deslizes (do amadorismo evidente de alguns actores secundários, a cortar a espontaneidade de Ellar Coltrane, Patricia Arquette ou Lorelei Linklater, à pertinência questionável de alguns segmentos, como o do campismo ou da visita ao lado mais rural do Texas, talvez demasiado longos). 2014 já merecia um filme assim...

 

 

 

Um meet e um filme

Esta semana, calhou-me ser o destacado na rubrica Meet the blogger, dos Blogs do SAPO, pretexto para recordar alguns dos temas e histórias que têm passado aqui pelo blog ao longo de uma década (assinalada em Outubro, apesar de não me ter apercebido na altura).

 

E já que estamos em época de balanços, também deixei a minha escolha de filme do ano no especial O Melhor de 2014, selecção de cinema, música, livros ou séries feita por dezenas de bloggers do SAPO. O tal filme vai ser, aliás, assunto do próximo post e conta mais anos do que o blog...

 

O lobo de Bay Street

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Não era fácil manter o patamar de um dos melhores videoclips do ano e o novo dos Hidden Cameras ficará abaixo do antecessor. Mas "Doom", o single mais recente do recomendável "Age", mostra que ainda vale a pena continuar a dar atenção tanto à música como às imagens destes canadianos. E neste caso a encomenda ficou mesmo em casa, com o mentor e vocalista Joel Gibb a assumir também o papel de realizador.

 

O vídeo, baptizado pela banda como "The Wolf of Bay Street", segue o rapto de um grupo de jovens executivos de Toronto obrigados a repensar a rotina durante o período em cativeiro - que pode, ou não, ser prolongado quando começam a despontar sintomas do Síndrome de Estocolmo. O resultado é mais um lembrete eficaz para um álbum a recordar em finais de 2014:

 

 

Tão perto e tão longe

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Não se pode dizer que Kele Okereke não sabe separar o caminho a solo da discografia dos Bloc Party. O novo single, por exemplo, soa mais a um encontro entre os The xx (no arranque) e Katy B (no refrão) do que a qualquer tema da banda de "Silent Alarm". O que até é bom, já que o rock requentado de "Four" (2012), o último álbum do grupo, apenas acentuou o desinteresse crescente do percurso dos londrinos.

 

Já "Trick" é outra conversa. Sem querer inventar nada, o segundo disco a solo de Kele, editado há poucas semanas, teve sentido de oportunidade ao juntar algumas tendências da música de dança britânica recente num alinhamento a meio caminho entre a introspecção e as pistas. O breakbeat com sensibilidade pop de "Closer", diálogo emotivo que convida a também inglesa Jodie Scantlebury, era das faixas que pediam para ser single e resulta em mais um belo argumento em defesa do álbum, depois da enérgica "Doubt" ter aberto caminho. O videoclip é mais discreto do que o desse antecessor, mas a noite revela-se boa conselheira para esta troca de desabafos:

 

 

Três cuspidelas na depressão

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Entre os grandes regressos musicais de 2014 está o de Neneh Cherry, que já não editava um disco a solo desde "Man", de 1996 - ou seja, desde o álbum de "7 Seconds" e "Woman". "Blank Project" pode não ter nenhum single tão global como esse antecessor mas superou-o em urgência e criatividade, com Four Tet a ajudar na produção e a deixar detalhes valorizados por audições repetidas.

 

É por isso que, já no final do ano, este conjunto de canções continua a surpreender e intrigar. Uma das melhores é "Spit Three Times", o novo single, inspirada pela morte da mãe da cantora sueca e pelas tentações de depressão que se seguiram, entretanto superadas. O videoclip de Bafic, sombrio mas também esperançoso, reforça o ambiente nocturno do relato e não tenta eclipsar a força das palavras: