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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

As outras faces

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Na viragem do milénio, um ainda adolescente SONDRE LERCHE foi a revelação musical mais jovem entre as muitas vindas da Noruega. Ao lado dos discos de estreia dos Röyksopp, Kings of Convenience, Flunk ou Xploding Plastix, "Faces Down" (2001) apresentou uma indie pop de câmara mais interessada nas heranças do jazz ou da bossa nova do que nas últimas tendências, guiada por uma voz que sugeria estar ali um crooner a acompanhar - e com uma maturidade inesperada.

 

Se os discos seguintes não se afastaram muito desse modelo inicial e pareciam estar acostumados à zona de conforto, "Phantom Punch" (2007), o quarto álbum, mudou de rumo ao atirar-se a um rock vitaminado, primeiro grande passo num baralhar de coordenadas que tem marcado o percurso do cantautor de Bergen nos últimos anos.

 

"Pleasure", aquele que será já o oitavo registo de originais, com edição agendada para 14 de Abril, promete continuar a alargar o espectro sem cortar de vez com sabor retro presente desde a estreia. "SOFT FEELINGS", o novo single, arranca com pulsão synth pop inspirada nos Pet Shop Boys ou New Order dos primórdios e pelo caminho reencontra o crooner, de repente já na casa dos 30 e com uma crise de identidade, mote de uma canção cujo videoclip o acompanha em deambulações até altas horas, da cidade à praia. Venham mais capítulos:

 

 

Quando o telefone toca

sinkane

 

Músico de ascendência sudanesa, SINKANE nasceu em Inglaterra mas vive nos EUA desde a infância, onde foi cultivando parcerias tão díspares como as suas origens: Caribou, of Montreal e sobretudo os Yeasayer contam-se entre os colaboradores de Ahmed Gallab, em disco ou nos palcos, e terão tido algum peso na fusão que é marca habitual do seu percurso a solo.

 

Desde "Color Voice" (2008), o álbum de estreia, o londrino tem cruzado pop, jazz, afrobeat, soul, rock ou R&B de forma despretensiosa, muitas vezes dançável, e a festa avessa a géneros estanques parece voltar a ser o pressuposto de "Life & Livin’ It", o próximo disco, que chega já a 10 de Fevereiro.

 

"TELEPHONE", o novo single, só vem reforçar essa suspeita. Com refrão forte e metais ao alto, esta conjugação de funk e disco podia ter sido banda sonora de uma noite boémia algures anos anos 70, mas o travo clássico não impede que fique entre as canções mais bamboleantes do início de 2017. O hedonismo mantém-se no videoclip, protagonizado pela bailarina Kelly Nakamura, a quem SINKANE se dirige com algum ressentimento no meio do frenesim ("You must be alone/ Why else you calling on the phone?") captado ao longo de um plano-sequência:

 

 

O capital humano

Entre o relato coming of age e o drama familiar, "HOMENZINHOS" dá razão a quem aponta Ira Sachs como cronista hábil tanto do quotidiano de Nova Iorque como das relações humanas modernas - aqui com o factor económico a moldar aproximações e despedidas.

 

homenzinhos

 

Filmes como "Deixa as Luzes Acesas" (2012) ou o mais recente "Love Is Strange - O Amor é uma Coisa Estranha", estreado em Portugal no ano passado, ajudaram a colocar Ira Sachs entre os nomes em ascensão no cinema independente norte-americano, elogiados pelo foco no humanismo das suas crónicas em ambientes nova-iorquinos e também pela quase recusa de grandes artifícios formais.

 

"HOMENZINHOS", sem pretender mudar muito a mistura de drama e comédia dominante noutras obras bem acolhidas em Sundance, não trai a reputação do seu autor e até a consolida ao apresentar um retrato fluído, empático e credível ao longo dos seus 85 minutos (algo económicos mas bastante certeiros).

 

A partir de duas famílias do bairro de Brooklyn e do impasse em torno da renda de uma loja, Sachs acompanha o dia-a-dia dos pais, que se vai tornando sufocante à medida que esse conflito burocrático não vai tendo solução à vista, e sobretudo o dos filhos, ambos recém-chegados à adolescência. E ao fazer conviver estes dois relatos, mesmo dando prioridade ao das personagens mais novas, o realizador e argumentista consegue deixar um olhar que tanto capta a inocência, deslumbramento e entrega das primeiras amizades como vinca, pela questão financeira que afasta as duas famílias, o preço a pagar quando elementos externos ameaçam desgastar ou mesmo aniquilar uma relação.

 

homenzinhos_2

 

Não por acaso, "HOMENZINHOS" arranca com o luto em torno de uma figura que funciona como elo entre as duas famílias, mas recupera esse estado emocional ao longo de uma história em que a cumplicidade tem tanto peso como a perda. À medida que os dois adolescentes vão aprendendo, como alguém diz a certa altura, a "deixar coisas para trás", Sachs deixa uma crónica coming of age (às vezes a insinuar um coming out) mais complexa do que muitos outros dramas juvenis, vincada por uma atenção rara ao detalhe e pelo afinco de todo o elenco (a juntar veteranos como Greg Kinnear, Alfred Molina ou Paulina García à dupla de estreantes Theo Taplitz e Michael Barbieri, actores sem experiência mas nos quais é fácil acreditar).

 

Se vários diálogos (e atitudes) dos dois jovens protagonistas são inevitavelmente caracterizados por alguma ingenuidade, a visão do realizador é decididamente adulta, o que só torna o antagonismo familiar mais difícil de solucionar ao recusar apontar bons e maus - até porque todas as personagens acabam por sofrer as consequências da gentrificação. E daí resulta também o sabor agridoce deste pequeno filme, mais envolvente e refrescante do que muitos retratos new yorker dos últimos tempos ancorados na classe média intelectual q.b. (de Woody Allen a Noam Bachmann, adeptos de um cinismo que não mora por estes lados). Numa altura em que as salas estendem a passadeira vermelha aos prováveis nomeados aos Óscares, vale a pena olhar para o lado e dar atenção a estreias como esta.