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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma enciclopédia que não tira as dúvidas

 

Um conhecimento enciclopédico da discografia dos Smiths, Beach Boys ou Pixies não basta para deixar um álbum capaz de ombrear com as influências. À terceira, os Drums levantam a voz e tentam uma mudança, mas "Encyclopedia" nem sempre os favorece.

Que os Drums ainda existam em 2014, cinco anos depois de um single-chave, "Let's Go Surfing", em que pareciam ser a nova banda indie da semana, já é por si só um feito e um exemplo de resistência. Até porque a vida de Jonathan Pierce e Jacob Graham não tem deixado de ser mais ou menos tumultuosa, tanto a nível pessoal como profissional, conforme a dupla norte-americana tem dito em entrevistas a propósito do seu novo disco. "Encyclopedia" chega três anos após o (de facto) "difícil" segundo álbum, "Portamento", que quase marcou o final do grupo - o maior dano acabou por ser a saída do baterista - e não replicou a simpatia com que muitos acolheram a estreia homónima.

Criadas no seguimento de um ano de 2013 vincado por projetos a solo, as novas canções não escondem as mazelas de um percurso musical conturbado q.b. nem de um quotidiano com conflitos regulares (e arrastados há anos) entre religião, amor e sexo. Tematicamente, "Encyclopedia" distingue-se por ser o álbum em que os Drums fazem alusões mais diretas não só à homossexualidade como à homofobia, opção que cimentou o fosso entre Jonathan e Jacob e o conservadorismo que apontam às suas famílias - e ao qual decidiram reagir, mesmo que o preço a pagar tenha sido o afastamento.

 

 
Tendo em conta esta viragem, percebe-se melhor a escolha de "Magic Mountain" para primeiro single do disco. Um single inesperadamente agressivo depois daquilo a que os anteriores nos habituaram, e não há mal nenhum nisso. Antes pelo contrário, a canção entrou directamente para a lista de melhores do grupo graças ao fortíssimo refrão gritado (e a pedir que gritemos por cima), aos coros tão celestiais como infernais, a uma bateria chicoteada ao lado do desvario da guitarra e à lógica para-arranca com uma sucessão de finais falsos. É talvez a grande canção que os Pixies não fizeram nos últimos anos e provou que os Drums não se esgotavam em pastiches da indie pop dos Smiths (com algum surf rock via Beach Boys).

Versos como "Inside my magic mountain/ We don't have to be with them/ Inside my magic mountain/ Our hearts are out", repetidos até à exaustão, deram conta do tom de catarse, numa fuga dos ambientes de praia para um refúgio na montanha - literalmente, uma vez que "Encyclopedia" foi gravado numa casa perto de um lago durante um período de isolamento.

Motivada pela raiva e solidão, a dupla prometia um disco mais cru e desconfortável e essa postura de "nós contra o mundo", irremediavelmente adolescente mas defendida com convicção, sente-se em boa parte do alinhamento. "They might hate you/ But I love you/ And they can go kill themselves", dispara "Let Me", inspirada pela forma como os homossexuais são encarados na Rússia. "Face of God" não é menos incisiva, com farpas evidentes ao fundamentalismo religioso num refrão que repete "I saw the face of God/ He showed me how to live/ I threw it back at him".



Em momentos como estes, "Encyclopedia" cumpre aquilo a que se propôs e mostra uma nova faceta dos seus autores, até porque as palavras têm correspondência numa moldura sonora austera e nervosa, com um braço de ferro entre guitarras e sintetizadores (estes últimos mais dominantes do que nos discos anteriores). Mas a mudança é só relativa, com o alinhamento a alternar episódios inspirados e (demasiadas) quedas para a mediania.

"Magic Mountain" e "I Can't Pretend", o segundo single (também da escola Pixies, também delicioso), fazem uma abertura perfeita e infelizmente sem continuidade num todo algo conformista, tão competente como perigosamente perto de uma indie pop genérica (em especial no último terço). O problema de momentos como "I Hope Time Doesn't Change Him", "U.S. National Park" ou "Break My Heart" não é tanto a candura twee - mesmo que pareça requentada -, mas o facto de os Drums esgotarem as ideias a meio da canção e as arrastarem até ao final.

Se aí a simpatia vai dando lugar à condescendência, "Bell Laboratories" sempre tem o mérito de inovar pela estranheza, com uma nuvem de electrónica cerebral comparável aos ambientes dos novos discos de Thom Yorke ou Simian Mobile Disco. Mas é o tipo de experiência mais apropriada para um lado B, a milhas de uma pequena maravilha como "Kiss Me Again", que prova que nem sempre é preciso mudar: longe da tensão da maioria do alinhamento, serve um oásis na linha dos primeiros tempos do duo, num breve regresso à praia (é difícil não pensarmos no otimismo orelhudo de "Let's Go Surfing").

Entre alguns achados e esforços menos estimáveis, "Encyclopedia" está tão longe de ser um regresso embaraçoso como do grande álbum que os dois singles de avanço sugeriam. À terceira não foi de vez: na enciclopédia da pop, mais ou menos indie, os Drums continuam a ser uma curiosa nota de rodapé, por muito que canções como "Magic Mountain" deem vontade de lhes dedicar uma página.

 

 

Recursos humanos

 

"Eastern Boys" é só o segundo filme de Robin Campillo mas conta com um savoir faire de que muitos autores mais experientes não se podem gabar. E não é por acaso: o realizador marroquino tem tido um percurso tão paciente como o ritmo deste drama, sobretudo ao lado de Laurent Cantet, com quem colaborou no argumento e edição de "A Turma" ou "Vers le Sud".

Dez anos depois de "Les Revenants", estreia a inspirar uma mini-série de culto em territórios do terror, o regresso à realização está mais próximo das obras realistas e sóbrias do cineasta francês. Mas se a influência de Cantet é visível, tanto pelo lado de drama social como pela ambiguidade moral e crueza formal, esta história de um executivo na casa dos quarenta que engata um adolescente imigrante de leste consegue manter uma respiração própria.

A longa sequência do primeiro contacto entre os protagonistas é dos melhores exemplos disso mesmo, com um perfeito sentido de espaço (exterior, numa estação de comboios parisiense) que se mantém nos capítulos seguintes (a maioria ambientada em interiores, na casa do homem mais velho).

 

 

A apontar alguma limitação a "Eastern Boys" será a de as melhores cenas estarem, aliás, logo na primeira metade. Se o arranque promete muito, com uma impressionante gestão de silêncios e olhares, a entrada no apartamento do futuro casal adiciona condimentos de thriller (acentuados mais para o final) numa também longa sequência de luta de classes através da dança. A nova música electrónica francesa ampara um retrato sobre a nova Europa que, como se vê depois, está mais interessado nas pulsões e emoções das personagens do que em utilizá-las como símbolos ideológicos de uma tese.

Até à recta final, Campillo consegue juntar temas habitualmente controversos como homossexualidade, prostituição ou imigração ilegal sem qualquer alarido ou oportunismo, valorizando sobretudo uma relação nascida da carência (amorosa, num caso; financeira, noutro) que se torna mais problemática quando vai deixando de ser fortuita.

Nos últimos minutos, "Eastern Boys" tem talvez a viragem mais surpreendente, mas também a que traz algum desequilíbrio ao tom da narrativa e à plausibilidade do argumento. Não é que mostre menos savoir faire: o realizador tem mão seguríssima para o suspense e acção, o elenco (de actores amadores) está sempre à altura, o retrato social torna-se ainda mais ambivalente e sobretudo angustiante. Só que a solução que Campillo encontra para o casal fica ligeiramente aquém da subtileza de tantas cenas anteriores, deslize que não chega a abalar muito o todo mas deixa uma segunda obra adulta, intrigante e recomendável a um passo de algo ainda melhor.

 

 

 

"Eastern Boys" foi um dos destaques do Queer Lisboa 18 e também faz parte da programação da 15ª Festa do Cinema Francês. Vai ser exibido na Casa das Artes, no Porto, a 16 de Outubro, às 21h30, e no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 2 de Novembro, às 21h45.

 

Pára ou a mamã dispara

 

Poucas séries recentes geraram tanta inquietação em boa parte dos fãs como "Segurança Nacional". Com a morte de uma das personagens principais no final da terceira temporada, muitos dos que acusavam a produção do Showtime de redundância - por não se fartar de aplicar variações ao jogo do gato e do rato entre a dupla protagonista - foram os mesmos que não perdoaram uma despedida impecavelmente orquestrada (e a mostrar coragem por parte dos criadores).

A estreia da quarta temporada vem provar, no entanto, que esse adeus, por muito doloroso que possa ter sido - para os espectadores e algumas personagens -, foi o melhor que poderia ter acontecido a uma série que ameaçava ficar refém da premissa inicial, mesmo que nunca tenha deixado de se acompanhar com interesse.

Carrie Mathison, muito bem defendida por Claire Danes, não concordará. Ser mãe não estava nos seus planos - ser mãe solteira ainda menos - e o facto de ter sido promovida para chefe de estação da CIA em Cabul não é grande compensação. Antes pelo contrário, já que uma decisão difícil que envolve um terrorista paquistanês corre da pior maneira e, além de lançar o rastilho para a acção da quarta temporada, é um dos momentos que marcam a maior viragem da personagem até agora.

 

 

Mais do que a mudança de local (dos EUA para o Médio Oriente), da entrada em cena de novas caras (como um adolescente paquistanês com um percurso nada óbvio) ou de um olhar mais atento a algumas das antigas (continua assim, Peter Quinn), o novo status quo de "Segurança Nacional" parte da postura estranhamente fria e distante de Carrie, um embate servido de forma crua no primeiro episódio (a que até outras personagens reagem com estupefacção) e mais aprofundado no segundo (quando compreendemos que nada tem de gratuito e é uma evolução natural das temporadas anteriores).


Se séries como "Os Sopranos", "Breaking Bad" ou "Mad Men" se distinguiram muito pelos protagonistas moralmente ambíguos, politicamente incorrectos e pouco empáticos, mas ainda assim (ou por isso mesmo) fascinantes, o caminho da personagem de Claire Danes sugere aqui contornos comparáveis (embora felizmente longe do extremo quase cartoonesco de um Kevin Spacey em "House of Cards").

Esta atitude mais impiedosa a nível profissional convive com o absoluto desnorte a nível pessoal, desta vez não pelas relações amorosas nem pela doença bipolar, mas graças a um papel de mãe recorrentemente adiado. O segundo episódio, quando Carrie não consegue esquivar-se a passar um dia com a filha (a propósito, é impossível não realçar o casting perfeito do bebé), consegue ir do espirituoso ao angustiante. Quase estica a corda na segunda vertente, é certo, mas também mostra que, apesar da popularidade e dos prémios, esta ainda é uma série disposta a correr riscos e a não facilitar a vida às personagens (nem aos espectadores) com um mundo a preto e branco - só assim é possível torcer pela protagonista com o instinto maternal mais questionável do pequeno ecrã.

 

 

Do desktop para a discoteca

 

Wolfram pode ser uma das contratações mais recentes da DFA Records mas não é propriamente um novato dentro da electrónica dançável, algures entre o disco e o electro, terreno de eleição da sua própria editora, Diskokaine, formada há quase dez anos.

Depois de um álbum de estreia homónimo, em 2011, festa irresistível com convidados do gabarito de Hercules & Love Affair, Holy Ghost!, Sally Shapiro ou o mais inesperado Haddaway, o austríaco regressou em Maio deste ano, já na etiqueta de James Murphy, com dois novos temas. "Can't Remember" e "Talking to You", mais expansivos do que singles anteriores como "Fireworks", foram bons cartões de visita da nova casa e o segundo tem agora direito a versão revista, condensada e melhorada numa club mix com videoclip a acompanhar.

O vídeo desta segunda colaboração com Andy Butler, dos Hercules & Love Affair (talvez para retribuir esta remistura), "custou menos do que um espresso e demorou o mesmo tempo a fazer", confessou o músico, produtor e DJ à revista BlackBook. Não é difícil perceber porquê, já que o resultado saiu directamente do seu desktop, juntando imagens do próprio a dançar no quarto ou no estúdio e de multidões a fazer o mesmo nos seus DJ sets, mas também de um passeio de carro ou de um "cameo" intermitente de Jack Nicholson. Tudo faz sentido quando a música também não é para levar muito a sério, embora seja tão lúdica e infecciosa como os momentos altos do álbum de estreia:

 

As rainhas da noite

 

Passo a passo, Eli Noble e Jennifer Skillman têm vindo a deixar cada vez mais motivos para serem consideradas apostas seguras, pelo menos dentro da pista de dança. Enquanto Eli & Fur, a dupla estreou-se em 2012 com a viciante "Sea of Stars", canção capaz de reter o melhor do (regressado e reavaliado) eurodance e já a abrir caminho para o flirt entre vozes sedutoras e house melódica mantido desde aí.

 

Ouça-se "Illusions", EP editado no ano passado e honrosa nota de intenções destas londrinas tão interessadas no formato 4/4 como em desenvolver uma sensibilidade pop com ligações a Maya Jane Coles (com quem já actuaram), Katy B (embora com mais BPMs do que o último álbum desta) ou AlunaGeorge (mesmo que sem tantas heranças do R&B).

 

Eli já compôs temas para as Girls Aloud e o gosto por refrãos fortes cruza-se agora com batidas house (deep ou acid), techno, trance, UK garage ou electro, combinação apreciada pelas reputadas Rinse FM ou Kitsuné e a encorajar uma crescente galeria de colaboradores. O produtor e DJ londrino Shadow Child é dos mais recentes e participa no novo tema da dupla, "Seeing Is Believing", cujo videoclip fica para ver abaixo. Apesar de aconselhável, não bate o single anterior, "You're So High", pérola dançável e talvez o melhor exemplo da aliança entre ritmo e melodia das Eli & Fur: