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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Anos 80 bem medidos

marnie

 

"Crystal World" provou, há quatro anos, que Helen MARNIE, uma das vozes dos Ladytron, era a melhor alternativa à falta de novidades da sua banda - que ainda está para editar o sucessor de "Gravity the Seducer" (2011). 

 

Com o segundo álbum a solo, "Strange Words and Weird Wars", agendado já para 2 de Junho, é legítimo continuar a esperar mais uma boa colheita de pop electrónica, provavelmente ainda mais devedora dos anos 80 do que o registo anterior. Ou pelo menos é que têm dado a entender os primeiros avanços: o excelente "Alphabet Block", o mais denso "Lost Maps" e agora "ELECTRIC YOUTH".

 

Rebuçado boy meets girl directo e melódico, não será dos temas mais surpreendentes da cantora britânica mas é mais um single promissor, a abrir o apetite para um dos regressos da temporada. O videoclip, também com os anos 80 bem presentes, condiz com a nostalgia e inocência da letra:

 

 

Só mais uma voltinha

clark

 

Depois da banda sonora da série "Os Últimos Panteras", editada no ano passado, Chris CLARK continua a consolidar a presença entre os nomes mais prolíficos da música electrónica deste milénio.

 

Há poucas semanas, o produtor britânico regressou com "Death Peak", aquele que é já o seu oitavo álbum de originais (aos quais se juntam mais de uma dezena de EPs e encomendas para videojogos ou instalações), e parece partir dos trilhos IDM e techno elásticos q.b. do disco antecessor, de título homónimo, lançado em 2014.

 

Dos pontos altos de um álbum tão desafiante como irregular (às vezes acontece a quem produz muito) destaca-se "PEAK MAGNETIC", single de apresentação cuja faceta alucinada ganha outro embalo no videoclip, a partir de uma ideia "executada com elegância e brutalidade rumo a um estado de euforia", descreve o músico da editora Warp.

 

O conceito também inspira a nova digressão, com os bailarinos do vídeo no papel de "efeitos especiais humanos" de uma experiência sensorial (com movimentos que fazem lembrar as coreografias da série "The OA", da Netflix). Mas como os palcos portugueses não estão entre os cenários dos próximos capítulos, a viagem tem de seguir mesmo por aqui:

 

 

Anatomia de um videoclip

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Encorajada por colaboradores como Daniel Avery ou Ghost Culture a experimentar ambientes electrónicos - depois de um percurso ligado ao rock alternativo -, KELLY LEE OWENS estreou-se a solo com um disco homónimo que tem sido dos mais aclamados do ano. E em algumas faixas também chega a ser dos mais bonitos, à custa da ponte entre a dream pop e a música de dança (nunca muito acelerada) proposta ao longo do alinhamento.

 

"THROWING LINES", a lembrar os tempos mais enigmáticos e inspirados de Grimes, está entre os bons motivos para ter o disco por perto e torna-se alvo de atenção reforçada graças ao videoclip, um falso making of com uma homenagem irónica aos vídeos feitos por fãs. Realizado por Kasper Häggström e protagonizado por dois voluntariosos adolescentes escandinavos, junta drones e neve num cenário crepuscular e mostra que o humor é compatível com a música sóbria e introspectiva da cantautora galesa:

 

 

Quando a reciclagem dá em lixo cósmico

"Prometheus" não deixou muitas saudades, mas "ALIEN: COVENANT" consegue ser ainda mais frustrante e derivativo. E é também, com larga distância, o capítulo mais medíocre da saga espacial de Ridley Scott.

 

alien_covenant

 

O verdadeiro vilão de "ALIEN: COVENANT" não é tanto a mítica espécie alienígena devoradora de humanos. Nem andróides de intenções duvidosas, cada vez mais dominantes nesta saga. Nem sequer a inacreditável incompetência da equipa da nave que dá título ao sexto capítulo da longa aventura espacial. A maior ameaça aqui é antes a insistência de Hollywood em capitalizar a nostalgia, sobretudo de meados dos anos 80 (e proximidades), que quase nunca tem corrido bem e escorrega aqui para um nível criativo particularmente baixo.

 

Se "Prometheus" ainda tentou, há cinco anos, alargar as fronteiras deste mundo, com outros tons e narrativas, mesmo que não tenha ido além de um falhanço ocasionalmente interessante, esta sequela dessa prequela (e há mais duas a caminho) é o primeiro capítulo da saga que se esgota na mera reciclagem.

 

Quer se goste mais ou menos das propostas de James Cameron, David Fincher ou Jean-Pierre Jeunet, todas contaram com um olhar singular depois de "Alien: O Oitavo Passageiro" (1979). E o próprio criador da saga arriscou qualquer coisa quando regressou ao comando no filme de 2012. Mas "ALIEN: COVENANT" é Ridley Scott mais acomodado do que nunca, com uma revisitação tão preguiçosa que cai na regurgitação.

 

alien_covenant_2 

 

Ao longo de duas horas que parecem teimar em não acabar (e demoram a arrancar), o que aqui se encontra é pouco mais do que uma súmula dos códigos que o primeiro filme ajudou a tornar norma, mas servida de forma tão mecânica e inócua como os piores sucedâneos (mesmo que o inevitável orçamento chorudo ajude a tornar o cenário mais vistoso). 

 

Se as personagens são só carne para canhão, para quê tanto tempo a apresentá-las e a denunciar, logo aos primeiros minutos, uma falta de ritmo que mina o potencial de entretenimento? Não seria muito grave caso o apelo à reflexão compensasse, mas também aí "ALIEN: COVENANT" se limita a sublinhar questões (sobretudo relacionadas com a inteligência artifical) já centrais em "Prometheus". E que até fazem, na verdade, mais sentido em "Blade Runner" (desde a cena inicial, apesar de tudo uma das mais conseguidas), além de terem tido abordagens muito mais frescas e desafiantes noutros universos. Qualquer episódio da série "Humans", por exemplo, é mais intrigante, emotivo e profundo do que a discussão linear e sisuda que Michael Fassbender é obrigado a debitar aqui.

 

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Mas mais triste do que o repisar cansativo de temáticas ou o amadorismo dos diálogos e da construção de personagens (salva-se, com esforço, o andróide apresentado em "Prometheus") é, de longe, o artificialismo CGI dos próprios aliens, vulgaríssimas figuras saltitantes a milhas das criaturas imponentes e palpáveis dos filmes anteriores, com direito a corpo, presença e fluídos.Um monstro destes merecia melhor sorte do que a de muleta de sequências de acção banais, com sustos tão telegrafados como o suposto twist insultuoso lá para o final - que Scott encena com pompa e circunstância mas é só o último prego no caixão.

 

Para uma reciclagem de "Alien: O Oitavo Passageiro" digna, despachada, divertida e com gente e ameaças a sério lá dentro, mais vale (re)ver "Vida Inteligente", de Daniel Espinosa, também deste ano, que só reforça a embaraçosa condição de nado morto deste "ALIEN: COVENANT".

 

 

 

O cinema não é fogo de artifício (mas aqui até resulta)

Ao contrário da pirotecnia de muita concorrência, "GUARDIÕES DA GALÁXIA 2" é cinema-espectáculo que dá quase sempre prioridade às personagens. E confirma James Gunn como um dos poucos realizadores capazes de encontrar um espaço próprio na máquina normalizadora da Marvel.

 

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A primeira aventura cinematográfica de Star-Lord, Gamora, Rocket Raccoon e companhia costuma ser apontada como um dos poucos filmes de super-heróis a reter dos muitos estreados nos últimos anos, feito inesperado ao resgatar da obscuridade uma equipa que, até há três anos, não parecia capaz de competir com as atenções viradas para o Homem-Aranha, Capitão América, Homem de Ferro e outros porta-estandartes da Marvel.

 

Ter James Gunn na realização, depois de um percurso próximo da série B, ajudou a fazer destes anti-heróis espaciais um caso à parte, com o humor nascido de jogos de linguagem ou uma banda-sonora nostálgica (e parte essencial da acção) a consolidarem a identidade do que poderia ser só mais um blockbuster genérico.

Por outro lado, um naipe de vilões inexplicavelmente pobre (mesmo para a fasquia demasiado baixa do Universo Cinematográfico Marvel), hesitações de tom e um terceiro acto tão mecânico e espalhafatoso como o de inúmeros blockbusters ameaçaram a sensação de missão cumprida.

 

À segunda, no entanto, estas aventuras retomam as melhores pistas do capítulo inicial. "GUARDIÕES DA GALÁXIA 2" não só conserva e expande o que valia a pena - com destaque para o choque de temperamentos dos protagonistas e a química e descontração do elenco - como corrige, pelo menos em parte, o que o limitava.

 

guardioes_da_galaxia_2_2

 

Gunn está mais à vontade na mistura de coração e desbragamento, consegue aprofundar a dinâmica da equipa sem trair os traços individuais, mostra que afinal há camadas nos antagonistas de serviço do primeiro filme (Nebila e Yondu) e, mais surpreendente ainda, faz com que a morte até volte a ter algum peso nas histórias de super-heróis (depois de Groot ter fintado o destino na primeira aventura, no seguimento de Phil Coulson ou Nick Fury em adaptações anteriores da Marvel).

 

Também facilita que esta história seja bem mais autocontida do que a de outras sagas de super-heróis. Embora haja referências inevitáveis ao que aí vem, os teasers são guardados para as cenas pós-créditos e não esquartejam a acção (alô, "Capitão América: Guerra Civil" et al).

 

O realizador admite que desta vez não teve tantas imposições dos estúdios e isso nota-se num filme no qual nenhuma personagem termina no mesmo ponto em que começa. Tanto melhor para uma recta final que consegue sobreviver à overdose de CGI graças ao entrosamento, tão engenhoso como emotivo, das figuras em jogo, mesmo que a apologia da equipa de renegados como família alternativa já não saiba a novidade (afinal, não é nada que não tenhamos visto em filmes dos X-Men, Vingadores ou, de forma especialmente forçada, no do Esquadrão Suicida).

 

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O que também não é novo, mas ainda funciona, é a interligação entre as canções da mixtape de Peter Quill e boa parte das cenas de acção. Agora com um segundo volume (que inclui Cat Stevens, Parliament, Jackson 5 ou Sam Cooke), continua a dar um sabor especial à saga embora sem a frescura do filme anterior - e às vezes a combinação parece cair no piloto automático.

 

O humor, outra das armas fortes, reforça a atenção aos anos 80 através de mais referências à cultura pop - de "Cheers, Aquele Bar" a "O Justiceiro" - e a vénia a essa época continua nas participações de Kurt Russell, Sylvester Stallone ou num cameo de segundos de David Hasselhoff. Menos memoráveis são os gags que escorregam para a escatologia (felizmente, não muitos) ou os que tentam capitalizar o lado family-friendly de Baby Groot (a sugerir que Gunn ainda terá feito algumas cedências criativas).

 

De qualquer forma, a ultraviolência de episódios como o de Yodu numa estação espacial ou o de Rocket Raccoon na floresta estão muito longe da receita típica para toda a família, apesar da estilização quase cartoonesca (mais interessante do que o gore "adulto" encenado de forma banal no também recente "Logan"). Sequências como estas, de acção certeira e inteligível (sem câmaras tremelicantes nem planos de milésimos de segundo como outras aventuras) também confirmam que a realização de "GUARDIÕES DA GALÁXIA 2" está bem entregue. E ainda ajudam a fazer desta a guerra das estrelas mais entusiasmante a ter o grande ecrã como palco nos últimos tempos...