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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um disparo do passado

maximo_park_2014

 

Em Fevereiro, com "Too Much Information", os Maxïmo Park ameaçaram deixar de vez o pós-punk que os inspirou desde a estreia, há quase dez anos. Mas se a troca das guitarras pelos sintetizadores gerou alguns dos melhores momentos do quinto álbum dos britânicos, acabou por não ser regra num alinhamento tão intrigado pelo futuro como (ainda) agarrado ao passado.

"Give, Get, Take", o tema de abertura e nova aposta oficial, está mais próximo dos Maxïmo Park que já conhecíamos do que do desafio de singles anteriores como "Brain Cells" ou "Leave This Island", o que não o impede de funcionar como um rastilho eficaz para o álbum. Em vez de electrónica turva, a banda opta por um rock acelerado a lembrar a faceta mais efervescente de uns Editors (inspirados) ou David Fonseca, energia concentrada num videoclip caseiro e sem grande aparato, nova chamada de atenção para um dos bons regressos do ano:  

 

 

O emprego do tempo

 

Ao fim de 25 anos quase ininterruptos, os Orbital anunciaram a separação nesta terça-feira, terminando um dos percursos mais influentes da electrónica britânica (e nem sempre relembrados, como o confirma o quase ignorado mas aconselhável último álbum, "Wonky"). Mas não se perde tudo porque no mesmo dia em que a dupla disse adeus - o segundo depois de um hiato entre 2004 e 2008 - um dos irmãos Hartnoll, Paul, aproveitou para apresentar o seu projecto a solo.

8:58 é também o nome do álbum e do tema de avanço desta nova aventura inspirada pela passagem do tempo e pela pressão das rotinas e horários. E tempo foi o que o músico não perdeu ultimamente, porque já tem o disco gravado e pronto a sair em inícios de 2015, com digressão de apresentação confirmada - enquanto o irmão vai continuar também a solo, mas apenas como  DJ.

"Para mim, 8:58 é um momento de escolha. São quase 9 horas. Vais para a escola? Vais para o trabalho que odeias? Toda a gente enfrenta essa decisão de vez em quando. 8:58 é quando tu tens de tomar uma decisão", explica no seu site oficial - sim, também já tem um site pronto.

Paul Hartnoll revelou ainda que o álbum tem Ed Harcourt e Lisa Knapp entre as vozes convidadas, lista que inclui também Robert Smith e as Unthanks, que fazem uma versão folk do clássico "A Forest", dos Cure. As saudades dos Orbital poderão ser compensadas por um disco descrito como uma continuação natural da banda, "um disco de dança para a mente" com um conceito distópico na linha de "1984" ou "Brazil".

Para já, "8:58", a canção, confirma isso tudo. Além de ser um instrumental longo assente em electrónica com um apelo tão cerebral como físico - muito Orbital, portanto -, conta com um videoclip que concentra a ideia da tirania do relógio, entre o desconforto e o escapismo - e também a lembrar imagens anteriores da banda, quase sempre oníricas ou surreais. Uma óptima primeira amostra para ver e ouvir depois da introdução de outro dos convidados do disco, Cillian Murphy:  

 

 

Uma enciclopédia que não tira as dúvidas

 

Um conhecimento enciclopédico da discografia dos Smiths, Beach Boys ou Pixies não basta para deixar um álbum capaz de ombrear com as influências. À terceira, os Drums levantam a voz e tentam uma mudança, mas "Encyclopedia" nem sempre os favorece.

Que os Drums ainda existam em 2014, cinco anos depois de um single-chave, "Let's Go Surfing", em que pareciam ser a nova banda indie da semana, já é por si só um feito e um exemplo de resistência. Até porque a vida de Jonathan Pierce e Jacob Graham não tem deixado de ser mais ou menos tumultuosa, tanto a nível pessoal como profissional, conforme a dupla norte-americana tem dito em entrevistas a propósito do seu novo disco. "Encyclopedia" chega três anos após o (de facto) "difícil" segundo álbum, "Portamento", que quase marcou o final do grupo - o maior dano acabou por ser a saída do baterista - e não replicou a simpatia com que muitos acolheram a estreia homónima.

Criadas no seguimento de um ano de 2013 vincado por projetos a solo, as novas canções não escondem as mazelas de um percurso musical conturbado q.b. nem de um quotidiano com conflitos regulares (e arrastados há anos) entre religião, amor e sexo. Tematicamente, "Encyclopedia" distingue-se por ser o álbum em que os Drums fazem alusões mais diretas não só à homossexualidade como à homofobia, opção que cimentou o fosso entre Jonathan e Jacob e o conservadorismo que apontam às suas famílias - e ao qual decidiram reagir, mesmo que o preço a pagar tenha sido o afastamento.

 

 
Tendo em conta esta viragem, percebe-se melhor a escolha de "Magic Mountain" para primeiro single do disco. Um single inesperadamente agressivo depois daquilo a que os anteriores nos habituaram, e não há mal nenhum nisso. Antes pelo contrário, a canção entrou directamente para a lista de melhores do grupo graças ao fortíssimo refrão gritado (e a pedir que gritemos por cima), aos coros tão celestiais como infernais, a uma bateria chicoteada ao lado do desvario da guitarra e à lógica para-arranca com uma sucessão de finais falsos. É talvez a grande canção que os Pixies não fizeram nos últimos anos e provou que os Drums não se esgotavam em pastiches da indie pop dos Smiths (com algum surf rock via Beach Boys).

Versos como "Inside my magic mountain/ We don't have to be with them/ Inside my magic mountain/ Our hearts are out", repetidos até à exaustão, deram conta do tom de catarse, numa fuga dos ambientes de praia para um refúgio na montanha - literalmente, uma vez que "Encyclopedia" foi gravado numa casa perto de um lago durante um período de isolamento.

Motivada pela raiva e solidão, a dupla prometia um disco mais cru e desconfortável e essa postura de "nós contra o mundo", irremediavelmente adolescente mas defendida com convicção, sente-se em boa parte do alinhamento. "They might hate you/ But I love you/ And they can go kill themselves", dispara "Let Me", inspirada pela forma como os homossexuais são encarados na Rússia. "Face of God" não é menos incisiva, com farpas evidentes ao fundamentalismo religioso num refrão que repete "I saw the face of God/ He showed me how to live/ I threw it back at him".



Em momentos como estes, "Encyclopedia" cumpre aquilo a que se propôs e mostra uma nova faceta dos seus autores, até porque as palavras têm correspondência numa moldura sonora austera e nervosa, com um braço de ferro entre guitarras e sintetizadores (estes últimos mais dominantes do que nos discos anteriores). Mas a mudança é só relativa, com o alinhamento a alternar episódios inspirados e (demasiadas) quedas para a mediania.

"Magic Mountain" e "I Can't Pretend", o segundo single (também da escola Pixies, também delicioso), fazem uma abertura perfeita e infelizmente sem continuidade num todo algo conformista, tão competente como perigosamente perto de uma indie pop genérica (em especial no último terço). O problema de momentos como "I Hope Time Doesn't Change Him", "U.S. National Park" ou "Break My Heart" não é tanto a candura twee - mesmo que pareça requentada -, mas o facto de os Drums esgotarem as ideias a meio da canção e as arrastarem até ao final.

Se aí a simpatia vai dando lugar à condescendência, "Bell Laboratories" sempre tem o mérito de inovar pela estranheza, com uma nuvem de electrónica cerebral comparável aos ambientes dos novos discos de Thom Yorke ou Simian Mobile Disco. Mas é o tipo de experiência mais apropriada para um lado B, a milhas de uma pequena maravilha como "Kiss Me Again", que prova que nem sempre é preciso mudar: longe da tensão da maioria do alinhamento, serve um oásis na linha dos primeiros tempos do duo, num breve regresso à praia (é difícil não pensarmos no otimismo orelhudo de "Let's Go Surfing").

Entre alguns achados e esforços menos estimáveis, "Encyclopedia" está tão longe de ser um regresso embaraçoso como do grande álbum que os dois singles de avanço sugeriam. À terceira não foi de vez: na enciclopédia da pop, mais ou menos indie, os Drums continuam a ser uma curiosa nota de rodapé, por muito que canções como "Magic Mountain" deem vontade de lhes dedicar uma página.

 

 

Recursos humanos

 

"Eastern Boys" é só o segundo filme de Robin Campillo mas conta com um savoir faire de que muitos autores mais experientes não se podem gabar. E não é por acaso: o realizador marroquino tem tido um percurso tão paciente como o ritmo deste drama, sobretudo ao lado de Laurent Cantet, com quem colaborou no argumento e edição de "A Turma" ou "Vers le Sud".

Dez anos depois de "Les Revenants", estreia a inspirar uma mini-série de culto em territórios do terror, o regresso à realização está mais próximo das obras realistas e sóbrias do cineasta francês. Mas se a influência de Cantet é visível, tanto pelo lado de drama social como pela ambiguidade moral e crueza formal, esta história de um executivo na casa dos quarenta que engata um adolescente imigrante de leste consegue manter uma respiração própria.

A longa sequência do primeiro contacto entre os protagonistas é dos melhores exemplos disso mesmo, com um perfeito sentido de espaço (exterior, numa estação de comboios parisiense) que se mantém nos capítulos seguintes (a maioria ambientada em interiores, na casa do homem mais velho).

 

 

A apontar alguma limitação a "Eastern Boys" será a de as melhores cenas estarem, aliás, logo na primeira metade. Se o arranque promete muito, com uma impressionante gestão de silêncios e olhares, a entrada no apartamento do futuro casal adiciona condimentos de thriller (acentuados mais para o final) numa também longa sequência de luta de classes através da dança. A nova música electrónica francesa ampara um retrato sobre a nova Europa que, como se vê depois, está mais interessado nas pulsões e emoções das personagens do que em utilizá-las como símbolos ideológicos de uma tese.

Até à recta final, Campillo consegue juntar temas habitualmente controversos como homossexualidade, prostituição ou imigração ilegal sem qualquer alarido ou oportunismo, valorizando sobretudo uma relação nascida da carência (amorosa, num caso; financeira, noutro) que se torna mais problemática quando vai deixando de ser fortuita.

Nos últimos minutos, "Eastern Boys" tem talvez a viragem mais surpreendente, mas também a que traz algum desequilíbrio ao tom da narrativa e à plausibilidade do argumento. Não é que mostre menos savoir faire: o realizador tem mão seguríssima para o suspense e acção, o elenco (de actores amadores) está sempre à altura, o retrato social torna-se ainda mais ambivalente e sobretudo angustiante. Só que a solução que Campillo encontra para o casal fica ligeiramente aquém da subtileza de tantas cenas anteriores, deslize que não chega a abalar muito o todo mas deixa uma segunda obra adulta, intrigante e recomendável a um passo de algo ainda melhor.

 

 

 

"Eastern Boys" foi um dos destaques do Queer Lisboa 18 e também faz parte da programação da 15ª Festa do Cinema Francês. Vai ser exibido na Casa das Artes, no Porto, a 16 de Outubro, às 21h30, e no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, a 2 de Novembro, às 21h45.

 

Pára ou a mamã dispara

 

Poucas séries recentes geraram tanta inquietação em boa parte dos fãs como "Segurança Nacional". Com a morte de uma das personagens principais no final da terceira temporada, muitos dos que acusavam a produção do Showtime de redundância - por não se fartar de aplicar variações ao jogo do gato e do rato entre a dupla protagonista - foram os mesmos que não perdoaram uma despedida impecavelmente orquestrada (e a mostrar coragem por parte dos criadores).

A estreia da quarta temporada vem provar, no entanto, que esse adeus, por muito doloroso que possa ter sido - para os espectadores e algumas personagens -, foi o melhor que poderia ter acontecido a uma série que ameaçava ficar refém da premissa inicial, mesmo que nunca tenha deixado de se acompanhar com interesse.

Carrie Mathison, muito bem defendida por Claire Danes, não concordará. Ser mãe não estava nos seus planos - ser mãe solteira ainda menos - e o facto de ter sido promovida para chefe de estação da CIA em Cabul não é grande compensação. Antes pelo contrário, já que uma decisão difícil que envolve um terrorista paquistanês corre da pior maneira e, além de lançar o rastilho para a acção da quarta temporada, é um dos momentos que marcam a maior viragem da personagem até agora.

 

 

Mais do que a mudança de local (dos EUA para o Médio Oriente), da entrada em cena de novas caras (como um adolescente paquistanês com um percurso nada óbvio) ou de um olhar mais atento a algumas das antigas (continua assim, Peter Quinn), o novo status quo de "Segurança Nacional" parte da postura estranhamente fria e distante de Carrie, um embate servido de forma crua no primeiro episódio (a que até outras personagens reagem com estupefacção) e mais aprofundado no segundo (quando compreendemos que nada tem de gratuito e é uma evolução natural das temporadas anteriores).


Se séries como "Os Sopranos", "Breaking Bad" ou "Mad Men" se distinguiram muito pelos protagonistas moralmente ambíguos, politicamente incorrectos e pouco empáticos, mas ainda assim (ou por isso mesmo) fascinantes, o caminho da personagem de Claire Danes sugere aqui contornos comparáveis (embora felizmente longe do extremo quase cartoonesco de um Kevin Spacey em "House of Cards").

Esta atitude mais impiedosa a nível profissional convive com o absoluto desnorte a nível pessoal, desta vez não pelas relações amorosas nem pela doença bipolar, mas graças a um papel de mãe recorrentemente adiado. O segundo episódio, quando Carrie não consegue esquivar-se a passar um dia com a filha (a propósito, é impossível não realçar o casting perfeito do bebé), consegue ir do espirituoso ao angustiante. Quase estica a corda na segunda vertente, é certo, mas também mostra que, apesar da popularidade e dos prémios, esta ainda é uma série disposta a correr riscos e a não facilitar a vida às personagens (nem aos espectadores) com um mundo a preto e branco - só assim é possível torcer pela protagonista com o instinto maternal mais questionável do pequeno ecrã.