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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Perigo, perigo: alta voltagem

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"Data Panik Etcetera", o quarto álbum dos Bis, foi um dos regressos mais contagiantes do ano passado e parece ter dado novo fôlego ao trio escocês - do qual havia, infelizmente, muito poucas notícias desde inícios do milénio. Desta vez, as novidades não acabam aí e há mais música nova de alguns projectos individuais dos elementos do grupo. 

 

BATTERIES é a aventura a solo de Steven Clark (AKA Sci-Fi Steven) e tem álbum de estreia prometido para 7 de Agosto. Também prometida está uma sonoridade mais agressiva do que a habitual nos Bis, embora estes já sejam quase sempre enérgicos e acelerados. Por agora, o single de apresentação, de título homónimo, mantém a expectativa de um alinhamento ligado à corrente e remete para a banda de "Eurodisco" e "Kandy Pop" (tanto pelo frenesim instrumental como pela voz de Steven) enquanto também reaviva memórias pós-punk de uns Devo, entre sintetizadores, guitarras e um refrão pegajoso (nem que seja à força, já que dificilmente poderia ser mais repetido ao longo de dois minutos e pouco).

 

Além do single, também foi revelado o lyric video, com baterias utilizadas num ambiente retro-futurista. Despachado e eficaz, como a canção:

 

 

Queridos anos 80

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Xavier Paradis só começou a fazer música sob o nome AUTOMELODI em 2006, mas a maioria das suas canções podia ter surgido logo em inícios dos anos 80. O álbum homónimo, editado em 2010, e o sucessor, "Surlendemains Acides" (2013), denunciaram um óbvio fã de OMD, Depeche Mode (pelo menos da primeira fase), Indochine ou outras referências da synthpop, mostrando ainda que este canadiano não tinha grandes preocupações com updates sonoros.

 

De então para cá, o projecto do cantor e músico de Montreal foi deixando algumas pérolas (é pena que um single como "Schema Corporel" tenha passado tão ao lado) e continua a apostar nas do último disco. "DIGRESSE" é uma delas e ganhou videoclip esta semana, que reforça a devoção à década mais inspiradora para Paradis. As imagens mostram, entre outros, o deslumbre com as potencialidades da tecnologia de então e não destoariam numa playlist dos primeiros tempos da MTV:

 

 

 

Velocidade mais furiosa

"THE DAY IS MY ENEMY" compensa a falta de ideias com uma overdose de atitude. O sexto álbum dos PRODIGY aponta diretamente para os palcos, cenário natural dos britânicos, e traz mais de uma dezena de cartuchos prontos a explodir.

 

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No caso dos Prodigy não há mesmo amor como os três primeiros - a influentíssima trindade "Experience" (1992), "Music for the Jilted Generation" (1994) e "The Fat of the Land" (1997). Um disco como "THE DAY IS MY ENEMY" não vem mudar muito as coisas. Antes pelo contrário: este é o mais redundante e menos imaginativo da banda de "Firestarter", continuação natural do já longínquo "Invaders Must Die" (2009) com a agravante de não ter muito para lhe acrescentar - nem à discografia de um grupo que chegou ao auge há duas décadas.

Depois do aplauso crítico e popular em finais dos anos 1990, a distinguir aqui um dos exemplos máximos da aliança entre rock e música de dança, o regresso tímido de "Always Outnumbered, Never Outgunned" (2004) é hoje um episódio quase esquecido, apesar de ter registado uma bem interessante comunhão entre Liam Howlett e colaboradores como Juliette Lewis ou Liam Gallagher. Mas os Prodigy desse álbum atípico foram-no só em nome, uma vez que Keith Flint e Maxim Reality, os principais rostos da banda, só voltariam no seguinte, já com música para a geração milénio - e a conseguir uma adesão surpreendente desse novo público.

"THE DAY IS MY ENEMY" vem reforçar os hiatos longos entre os últimos discos e a atenção cada vez maior dada às digressões. Foi, aliás, entre os palcos que a banda desenvolveu as novas canções, descartando algumas já apresentadas pelo caminho (como "A.W.O.L." ou "Dogbite", presentes em algumas atuações) e deixando também para trás os primeiros títulos avançados para o álbum ("How to Steal a Jetfighter" e "Rebel Radio", este último repescado para um dos temas).

 

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Ainda assim, na essência, o plano inicial manteve-se. Os Prodigy prometiam um álbum especialmente violento, furioso e enérgico e um som de banda mais vincado, consolidado pela colaboração de Flint e Maxim na composição, habitualmente apenas a cargo de Howlett. Nesse aspecto, não defraudam as expectativas, com uma agressividade quase ininterrupta ao longo do alinhamento. Tão ininterrupta que, tirando o instrumental sintético "Beyond the Deathray" (a lembrar os momentos mais serenos de uns Nine Inch Nails), "The Day Is My Enemy" resulta numa sucessão de picos de intensidade que rapidamente se torna previsível - tanto pelo ataque sónico familiar como pela estrutura demasiado linear das composições.

Apesar do apelo físico desta amálgama musculada, aglutinadora de rock, hip-hop, industrial, punk ou breakbeat, musicalmente o resultado é mais conservador do que desafiante, por muito que a postura mantenha a rebeldia de há duas décadas. E talvez nem seja legítimo esperar mais de músicos a caminho dos 50 anos que já tiveram uma palavra a dizer na revolução da música electrónica. De qualquer forma, as palavras recentes de Howlett davam a entender que poderíamos esperar mais do que outro disparo de adrenalina eficaz q.b..

 

 
"A música de dança vai suicidar-se, não há criatividade suficiente. Está demasiado dominada pela pop", salientou o mentor da banda numa entrevista recente ao NME. Em conversa com a Q, durante a qual prometeu um grito de revolta no novo álbum, mostrou-se ainda mais contundente: "A música de dança faz-se à base de fórmulas. É do género: 'Aqui está a parte de bateria, aqui está a construção'. Todos esses DJs de treta e os tutoriais de merda no Youtube...".

 
Uma faixa como "Ibiza", colaboração com os conterrâneos Sleaford Mods, reforça a crítica ao culto de DJs elevados a superestrelas, mas falha em oferecer argumentos que tornem a proposta dos Prodigy especialmente preferível - até acaba por ser dos episódios mais desinspirados do disco, exemplo de pirotecnia em piloto automático. Ironicamente, um dos momentos mais certeiros nasce de uma parceria com um nome recente da música de dança, o também britânico Flux Pavilion, na frenética "Rhythm Bomb", a juntar dubstep à mistura.

 

Já um single como "Nasty" sugere que incluir Keith Flint na equipa de compositores talvez não tenha sido grande ideia. Resulta em pouco mais do que uma réplica de "Breathe" com quase duas décadas de atraso, num cartão de visita pouco motivador. "Rok-Weiler" e "Wall of Death" também contam com os seus créditos na escrita e voltam a soar a uma caricatura dos Prodigy, mesmo que a segunda não resulte mal como fecho bombástico do alinhamento. Réplica por réplica, antes "Destroy", que lembra muito "Smack My Bitch Up" mas consegue ser mais ágil na gestão de ritmos e ambientes.

 

 
Por outro lado, Maxim revela-se promissor ao coassinar "Roadblox" (aceleração cinemática também com travo a "The Fat of the Land"), "Get Your Fight On" (espécie de sequela válida de "Take Me to the Hospital", nem falta o acesso 8-bit) e "Medicine" (com um dos compassos mais contagiantes do alinhamento e marcada por influências orientais, sopros incluídos).

A abrir o disco, a faixa título convida Martina Topley-Bird (antiga colaboradora de Tricky) e inspira-se numa canção de Cole Porter, "All Through the Night", à qual foi buscar a letra ("The day is my enemy/ The night my friend", confissão/máxima repetida ao lado de rodopios de electrónica maximal). Não é um tema especialmente apropriado para audições domésticas, embora prometa tornar-se gigante num concerto. Esse potencial também se pressente em "Wild Frontier", single abrilhantado por gritos de macacos depois do refrão, o tipo de pormenor delirante que o álbum não oferece tanto como alguns dos antecessores.  

Demasiado longo e homogéneo, "The Day Is My Enemy" é talvez o disco menos imprescindível dos Prodigy, mas ainda deixa um atestado de potência capaz de fazer sombra à maioria da geração EDM ou às supostas estrelas nu rave dos dias de "Invaders Must Die" (por onde andam hoje uns Hadouken!, Does It Offend You, Yeah? ou Shitdisco?). E se o encararmos como o aquecimento para mais uma digressão, cumpre bem o seu propósito, até porque é quase certo que os Prodigy fazem muito mais sentido ao vivo. É esperar por 10 de julho para tirar as dúvidas no NOS Alive, em Lisboa.

 

 

O fim é o princípio é o fim

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"The Inevitable End" pode ter sido anunciado como o último álbum dos RÖYKSOPP, mas não é por isso que a dupla norueguesa tem deixado de o promover antes de se dedicar a outros formatos de edição. E ainda bem, porque o disco foi das melhores surpresas do ano passado, sobretudo no departamento electrónico, e também tem lugar cativo entre os mais aconselháveis de Svein Berge e Torbjørn Brundtland.

 

Para o derradeiro longa-duração, o duo convidou gente como Robyn ou Susanne Sundfør, embora a voz mais recorrente tenha sido a de Jamie McDermott, dos The Irrepressibles. "I HAD THIS THING", uma das canções intrepretadas pelo britânico, era a que tinha um perfil de single mais óbvio e não admira que tenha sido escolhida como nova aposta oficial.

 

Se em alguns casos a melancolia de McDermott pode pecar por excesso, aqui é equilibrada por um belo embalo de synthpop, dançável sem ser chegar a ser frenético, num daqueles temas a destacar num eventual best of dos Röyksopp (e esse já peca pela demora...). O videoclip é parte ilustração da letra (centrada no final de uma relação amorosa)/ parte delírio apocalíptico, com um tom ingénuo e sonhador à medida da canção (e a fazer lembrar o drama indie "Cometa", que passou pelas salas há poucos meses):

 

 

"Capitão Falcão": 10 motivos para não deixar passar este ovni

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A missão de "CAPITÃO FALCÃO" nas salas está a terminar. O filme de João Leitão, centrado no delirante primeiro super-herói português, despede-se do circuito comercial na próxima semana e é dos poucos (pouquíssimos, mesmo) que deram bom nome à comédia feita por cá em muito tempo, a milhas dos enlatados televisivos  e duvidosos (com "humoristas" ainda mais questionáveis) que inexplicavelmente têm direito a estreia.

 

Não é que, neste caso, as raízes televisivas não se notem. O projecto começou como uma série e, ao fim de quase duas horas de sessão, deixa a ideia de que funcionaria melhor em episódios de 15 ou 20 minutos do que como longa-metragem - com uma mão cheia de cenas muito bem construídas, admita-se, mas nem sempre tão articuladas ou valorizadas pelo conjunto. Seja como for, o concentrado de ideias, sobretudo o descaramento de um super-herói fascista durante o Estado Novo, é quase sempre divertido (às vezes, muito) e resulta num dos ovnis cinematográficos da temporada - vale a pena espreitá-lo na semana da Festa do Cinema por estes motivos e mais alguns:

 

1 - O genérico inicial: Se a primeira impressão é a que mais conta, as imagens de "Capitão Falcão" começam por impressionar nestas sequências de animação com uma versão muito livre e lúdica da História de Portugal. E também revelam uma rara atenção ao detalhe mantida em muitas sequências seguintes;

 

2 - O próprio Capitão Falcão: Depois de ver a interpretação de Gonçalo Waddington, torna-se difícil imaginar outro actor português capaz de se entregar tanto ao overacting que o protagonista pede. Mais do que os diálogos em si, os olhares ou a entoação são logo meio caminho para atestar o gozo evidente de um desempenho destes, ainda assim dado a nuances quando o herói revela uma faceta menos histriónica;

 

3 - Salazar: Ainda vamos a tempo de pedir um spin-off (nem que seja uma websérie com sketches)? O Salazar amável e caseirinho de José Pinto é um achado e compensa plenamente outros secundários demasiado esquemáticos. Uma cena na cozinha ou a do discurso final são de antologia e fazem pedir mais aparições do Senhor Presidente do Conselho;

 

4 - A banda sonora: Noutros casos remetida a mero papel de parede, aqui a música é todo um programa à parte. As composições de Pedro Marques mostram-se peça fundamental do desbragadamento do filme e a conjugação com a acção é tão meticulosa como o trabalho de um relojoeiro suíço, com alternâncias e contrastes muitas vezes abruptos mas sempre coerentes;

 

5 - As referências: Não é preciso conhecê-las todas (até porque é provável que um revisionamento desvende mais algumas), mas boa parte da diversão deve-se às piscadelas de olho ao universo da BD, cinema e televisão clássicos - mas não necessariamente canónicos. O Batman de Adam West, a escola dos Monty Python, Power Rangers, Green Hornet ou "A Guerra das Estrelas" passam por aqui...

 

6 - Os separadores: Como foi dito no ponto acima, a carga camp da série do Batman dos anos 50 é uma das maiores referências e as citações mais fortes, em jeito de homenagem, talvez sejam os separadores dinâmicos que pontuam a acção. Têm mais piada à primeira, mas acabam por ajudar quando interrompem algumas cenas que já vão longas lá para o meio;

 

7 - A componente técnica: "Nem parece português". Este comentário é muitas vezes injusto para o (bom) cinema que também se vai fazendo por cá, mas neste caso não há mesmo muitos (ou alguns) filmes nacionais com uma direcção artística tão devedora da BD e tão condizente com o tom do filme. O guarda roupa, a fotografia e as coreografias dos combates corpo a corpo mostram empenho e merecem elogios:

 

8 - Doces, muitos doces: A melhor cena do filme talvez seja a de um jantar, ainda antes da sobremesa, onde não faltam brandos costumes, mas é noutra que Capitão Falcão, apesar dos muitos defeitos que possa ter como homem e agente, prova que sabe valorizar a doçaria portuguesa... e de forma estratégica;

 

9 - A cena pós-créditos: Como qualquer filme de super-heróis que se preze, aqui também há um gancho para uma sequela já depois do desfecho. E com direito a ambiente sombrio e nervoso no primeiro vislumbre de um novo vilão...

 

10 - Puto Perdiz: Sem comentários.