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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma noite em Havana

Das conversas de cinco personagens num terraço da capital cubana resulta "REGRESSO A ÍTACA", o novo filme de Laurent Cantet. E o realizador francês não precisa de muito mais para tirar daqui um pequeno grande drama ancorado na amizade, no envelhecimento, na revolução e na (des)ilusão.

 

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Amadeo regressa a casa depois de um exílio de 16 anos em Madrid, Laurent Cantet demorou apenas dois a voltar a Cuba depois da sua curta-metragem integrada em "7 Dias em Havana". Pelo meio, o cineasta de "A Turma" (ainda o grande marco do seu percurso) deixou o algo incaracterístico "Foxfire - Raposas de Fogo", filme de época falado em inglês, mas em "REGRESSO A ÍTACA" interessa-se novamente pelo realismo social contemporâneo ao qual começou a ser associado em "Recursos Humanos" ou "O Emprego do Tempo".

 

Neste drama intimista e discreto, ainda mais do que os anteriores, opta por medir o pulso da sociedade cubana, ou parte dela, através das histórias de cinco amigos de meia-idade entrecruzadas numa noite de festa que, como é quase norma em filmes de reencontros e memórias partilhadas, não deixa de lado algumas lágrimas pelo caminho.

 

"REGRESSO A ÍTACA" tem sido ocasionalmente comparado a títulos como "Os Amigos de Alex", de Lawrence Kasdan, e a outros retratos de grupo geracionais ambientados num tempo e espaço muito limitados, e se é verdade que a premissa e o conceito têm semelhanças, Cantet também sabe esquivar-se a paralelismos demasiado óbvios.

 

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Não é que o argumento seja especialmente inspirado: o filme vai contrastando relatos pessoais, entre ambições e frustrações, alegrias e mágoas, rumo a um desenlace com uma revelação que até fica algo aquém do expectável. Mas mais do que o destino, o que conta aqui é a viagem, como aliás acontece na história individual dos protagonistas. E essa tem os seus encantos, pelo menos para quem conseguir ultrapassar um arranque hermético q.b., com uma conversa demasiado circunscrita ao quinteto de amigos.

 

Depois desses minutos iniciais, e mesmo que "REGRESSO A ÍTACA" nunca se livre de um lado demasiado palavroso, este reencontro mantém-se pessoal mas perfeitamente transmissível, mérito de um pequeno núcleo de actores em estado de graça e de diálogos quase sempre fluídos, verosímeis, vivos e envolventes - nesse departamento, terá ajudado o livro "La Novela de Mi Vida", de Leonardo Padura, co-argumentista do filme.

 

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Das experiências de vida recordadas pela noite dentro nasce uma peça de câmara que compensa em humanismo, maturidade e impacto emocional o que por vezes lhe falta na realização, com menos garra e desenvoltura do que a de outras obras de Cantet. A aposta tão insistente em grandes e médios planos só não chega a ser extenuante porque o elenco está mais do que à altura do desafio, mas ainda assim o filme aproxima-se demasiadas vezes de um registo televisivo.

 

Não se pedia um retrato turístico de Havana, embora "REGRESSO A ÍTACA" talvez tivesse saído a ganhar caso contasse com mais desvios de atenções para a vizinhança do terraço em que se concentra a acção - as espreitadelas ocasionais para a baía da cidade ou cenas do bairro são sempre lufadas de ar fresco na narrativa. De qualquer forma, o olhar sobre a capital cubana ainda é bem palpável, sobretudo o humano, e o olhar que fica do país será mais justo do que demagógico, equilibrando amor e angústia, fascínio e repulsa, numa bela ode à liberdade que resiste a demonizações fáceis. Não sendo ainda o grande sucessor de "A Turma", fica facilmente entre as grandes surpresas deste Verão.

 

 

 

Sneaker Pimps, 20 anos depois

Casa de "6 Underground" e "Spin Spin Sugar", "BECOMING X", o álbum de estreia dos SNEAKER PIMPS, celebra 20 anos este mês - foi editado a 19 de Agosto de 1996. E não só continua fresco como esconde canções que não merecem continuar ofuscadas por um single e uma remistura.

 

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O facto de a santíssima trindade do trip-hop ser composta pelos Massive Attack, Tricky e Portishead não quer dizer que não haja mais nomes a resgatar de um género que há duas décadas parecia anunciar o futuro e agora é muitas vezes sinónimo de um passado bafiento. Mas até já terá sido mais assim, tendo em conta que novos nomes da pop electrónica exploratória q.b., como FKA Twigs, Banks ou Little Dragon, não existiriam - pelo menos nos moldes conhecidos - sem o contributo de uns quantos artistas e discos desse filho algo renegado da década de 90.

 

Entre essas figuras que marcaram um tempo estarão os SNEAKER PIMPS, sobretudo pelo primeiro (e talvez melhor) dos três discos que editaram, "BECOMING X", que é também o único álbum dos britânicos a contar com a voz de Kelli Dayton, substituída no registo seguinte por Chris Corner, fundador da banda ao lado de Liam Howe.

 

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Os singles "Tesko Suicide" e "Roll On" abriram caminho, mas coube a "6 Underground" fazer do trio uma das revelações de 1996. Uma voz feminina fresca, guitarra acústica, programações e samples de "Let the Happiness In", de David Sylvian (nos sopros) e "Golden Girl", de John Barry (na harpa), este um instrumental da banda sonora de "007 Contra Goldfinger", originaram uma mistura com tanto de clássico como de revigorante, mais arejada do que o trip-hop nascido em Bristol (o trio formou-se em Hartlepool).

 

Se esse single resultou num sucesso ubíquo, principalmente com a ajuda do filme "O Santo", thriller de Phillip Noyce de não tão boa memória, nenhum outro tema do álbum conseguiu uma projecção comparável. A relativa excepção foi só mesmo "Spin Spin Sugar", na versão remisturada por Armand Van Helden, que transformou um pedaço de pop insinuante e sombria num colosso house 4/4 requisitado em várias noites dançantes até ao final dos anos 90.

 

 

Singles como esses e outros temas do disco, de "Waterbaby" a "Walking Zero", não andam longe dos universos obscuros e dopados de Tricky ou Massive Attack. Mas faixas na linha de "Low Place Like Home" ou "Tesko Suicide" devem mais ao rock electrónico à la Garbage (que se estrearam um ano antes) do que à escola trip-hop. E mesmo nos momentos mais agrestes, a voz de Dayton assegura que os SNEAKER PIMPS são capazes de encontrar o seu próprio recanto na electrónica dedicada ao formato canção, embora com a ajuda de uma equipa de produtores e colaboradores de luxo (Nellee Hooper, Mark "Spike" Stent, Marius De Vries, Flood ou Jim Abbiss estavam entre a nata da época).

 

Além do alinhamento de "BECOMING X", um lado B como "Clean", com uma sujidade a contradizer o título, mostra que a banda não se esgotava numa fórmula, o que só faz lamentar não haver mais canções dos SNEAKER PIMPS com a vocalista inicial. Por outro lado, Kelli Dayton aproveitou a saída para se dedicar a uma carreira a solo com alguns álbuns aconselháveis pelo caminho - "Psychic Cat" (2004) ou "Band of Angels" (2013), assinados enquanto Kelli Ali, bem merecem ser (re)descobertos. Já Chris Corner, voz e cara da banda em "Splinter" (1999) e "Bloodsport" (2002), tem-se limitado a repetir a receita de synth pop negra no projecto a solo IAMX, depois de uma estreia promissora em 2004.

 

Entretanto, quando se pensava que a história dos SNEAKER PIMPS já estaria encerrada, Corner e Lowe - que nos últimos anos foi compositor de temas de Lana Del Rey ou Marina and the Diamons - anunciaram um regresso para breve. Para já, os próximos capítulos podem ser seguidos via Twitter, e enquanto não há novas canções vale sempre a pena revisitar as antigas - e os respectivos videoclips, muito anos 90:

 

 

 

 

O Verão do Skylab

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Com uma história que já conta 21 anos, os THE FAINT vão recordar parte desse percurso na compilação "CAPSULE: 1999-2016", que junta algumas das canções mais marcantes de cinco dos seus discos - a revisitação começa a partir do segundo álbum, "Blank-Wave Arcade" (1999), e deixa de fora o registo de estreia, "Media" (1998).

 

No alinhamento da colectânea a editar a 30 de Setembro não faltam temas de "Danse Macabre" (2001), que colocou os norte-americanos na linha da frente da revisitação new wave da viragem do milénio, ou do mais recente "Doom Abuse" (2014), regresso à forma depois de alguns discos menos obrigatórios.

 

Mas a compilação também vai incluir três inéditos, "ESP" e os já revelados "Young & Realistic" (Gary Numan continua uma influência inegável) e "SKYLAB1979", este já com videoclip. As imagens que acompanham o novo single foram escolhidas pelo vocalista da banda, Todd Fink, juntamente com o realizador Graham Ulicny, a partir do arquivo da NASA e de outros registos da estação espacial norte-americana destruída em 1979. Um complemento apropriado para o electro frenético e a overdose de vocoders da canção, em ambiente robótico e sci-fi retro-futurista: