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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Os vampiros já não são o que eram

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É preciso chegar ao oitavo episódio para "THE STRAIN" começar a aproximar-se das melhores expectativas. Não que até aí a série criada por Guillermo del Toro e Chuck Hogan, inspirada na trilogia de romances escritos pela dupla, seja de se deitar fora. Mas o capítulo "Creatures of the Night" sobressai dos anteriores ao concentrar-se num só espaço, com a acção a decorrer quase sempre em tempo real e a dispensar personagens e subenredos acessórios, que travam boa parte do interesse desta produção do FX.

 

Essa bem-vinda concisão não se mantém durante muito tempo - aliás, o ritmo volta ao normal logo no episódio seguinte -, embora a primeira temporada da série melhore consideravelmente na segunda metade. Pouco a pouco, a epidemia disseminada por Nova Iorque, a transformar os infectados em vampiros obcecados pela satisfação de uma sede constante, vai compensando a dispersão do aquecimento com sequências ao nível do que seria legítimo esperar do realizador de "Blade II" (mesmo que este só assine o primeiro episódio da série). Afinal, nessa sequela del Toro deixou não só o melhor título da saga como uma das mais inspiradas (e delirantes) variações recentes da mitologia dos vampiros. "THE STRAIN" volta a esse universo para algo completamente diferente e com mais algumas boas ideias conceptuais (apesar de os portadores do vírus se alimentarem de sangue, o seu aspecto e estado de consciência devem mais aos zombies) e visuais (se a narrativa é irregular, o sentido atmosférico tira o maior partido dos contrastes cromáticos, do lúgubre ao garrido, habituais na obra do mexicano).

 

Além das criaturas de "Blade II", a série chega a lembrar um dos primeiros filmes do realizador, o já velhinho "Predadores de Nova Iorque" ("Mimic", no original, de 1996), nos (muitos) momentos decorridos nos corredores do metro ou nos túneis dos esgotos da cidade que nunca dorme. E nas cenas em que os diálogos estão à altura do ambiente apocalíptico bem desenhado, há aqui algum humor negro e disputas pessoais comparáveis aos que geraram boa parte do carisma da saga Hellboy, outra adaptação aconselhável de uma BD. Infelizmente, ao lado destas há um abuso de diálogos explicativos, ainda assim preferíveis aos que ambicionam maior peso dramático, genéricos e até embaraçosos - praticamente todas as cenas com a familía do protagonista, um epidemiologista divorciado caído em descrédito, interpretado por Corey Stoll (de "House of Cards").

 

THE STRAIN "The Box" -- Episode 2 (Airs Sunday, July 20, 10:00 pm e/p) -- Pictured: Kevin Durand as Vasily Fet -- CR: Michael Gibson/FX

 

Se a construção dramática é frágil - del Toro costuma falhar mais quanto mais quer ser "sério" e complexo, como o comprovam "O Labirinto de Fauno" ou "Nas Costas do Diabo" -, "THE STRAIN" mostra outra convicção e segurança quando se atira sem rodeios ao terror. Por muito escancarada que possa ser a miscigenação das personagens, radiografia do melting pot cultural nova-iorquino (com luta de classes como pano de fundo), a acção não olha a etnias, credos, géneros ou até faixas etárias na altura de escolher as vítimas. E aí o risco é apreciável, tanto como o deleite gore e o lado artesanal - muito terra-a-terra, muito série B - das várias cenas de matança (a milhas da concorrência, a vampírica ou a outra, encharcada de CGI).

 

A "modéstia" do elenco é que já não lhe assenta tão bem. Alguns actores dificilmente mereceriam um papel de figurante em séries de prestígio, com destaque inevitável para a criança que encarna o filho do protagonista. Em compensação, também há achados como David Bradley, na terceira idade mas com uma energia invejável na pele de um judeu com contas a acertar (a forma como mantém a mulher - ou o que resta dela - por perto é um dos muitos pormenores tão sinistros como desbragados da série). Outro veterano, Richard Sammel, também é impecável como o seu némesis pérfido, o principal acólito do mestre dos vampiros - e o grande vilão de uma série que podia ter mais personagens memoráveis, embora o exterminador de ratos ucraniano de Kevin Durand ou uma estrela de rock descaradamente clonada de Marilyn Manson (nem falta uma óptima piada visual à fase "Mechanical Animals") mereçam uma referência.

 

No meio desta irregularidade, "THE STRAIN" dificilmente consegue entrar na lista de séries obrigatórias do momento, mas ainda é uma proposta de nicho a espreitar. As muitas pontas soltas ficam por esclarecer na segunda temporada (já confirmada), que se seguir a linha dos últimos episódios vai sair a ganhar ao arranque - além do oitavo episódio, outro ponto alto é o décimo, "Loved Ones", centrado no processo de transição para vampiro e assinado por John Dahl (o algo esquecido realizador de "Red Rock West", "Rounders - A Vida é um Jogo" ou "Não Brinques com Estranhos", ultimamente a trabalhar em televisão). Para já, estes 13 episódios não estão mal como (longa) entrada. Venha agora o prato principal...

 

 

"THE STRAIN" está a ser exibida em Portugal pela Fox.

 

 

As filhas do rock

Sleater-Kinney Band Photo

 

O rock morreu? A pergunta não é nova e já foram muitos a garantir ter visto a certidão de óbito, mas as SLEATER-KINNEY e as PUSSY RIOT responderão que não - provavelmente com um grito, embora não tão alto como noutros tempos.

 

As norte-americanas estão de volta com o oitavo álbum - o primeiro desde 2005 -, "No Cities to Love", que sem ter canções capazes de mudar o mundo tem sido suficiente para mudar (para melhor) o ano musical dos admiradores destas militantes riot grrrl. "It's not a new wave, it's just you and me", canta Corin Tucker no novo single, a dispensar grandes novidades sem abdicar de uma atitude incisiva com ritmo acelerado. Entre os fãs desta "A NEW WAVE" contam-se as personagens da série "Bob's Burgers", adeptas da festa em ambiente caseiro retratada no videoclip, com direito a viagens psicadélicas:

 

 

Mais surpreendente, a polémica dupla feminista russa deixa um manifesto invulgarmente contido, pelo menos na sonoridade. Em vez da estridência punk que as distinguiu, Maria Alyokhina e Nadezhda Tolokonnikova entram em 2015 com uma canção esparsa e atmosférica, cuja cadência lenta vai sendo dominada por sintetizadores (terão andado a ouvir os The Kills?). O acesso spoken word, lá para o final, é a alusão mais directa a Eric Gardner, um dos vários negros mortos recentemente pela polícia nova-iorquina, temática inspiradora de um single de protesto contra o terrorismo de Estado. "I CAN'T BREATHE" é também a primeira composição da banda em inglês, estreia acompanhada por um videoclip igualmente aconselhável, a conjugar simbolismo e minimalismo. As protagonistas podem acabar mortas e enterradas, mas a música mantém-se vibrante, como o melhor rock que ainda vai sobrevivendo:

 

 

Há espaço para todos

spceco

 

Muitas vezes esquecidos na altura de relembrar nomes entre a dream pop e o shoegaze, os Curve têm deixado descendência mais ou menos directa em discos dos School of Seven Bells, Asobi Seksu, Tamaryn ou I Break Horses, cujas combinações de vozes femininas etéreas e ambientes com contrastes de melodia e distorção os aproximam da dupla de Toni Halliday e Dean Garcia em inícios dos anos 90.

 

A essa lista de bandas relativamente recentes podem juntar-se os SPC ECO, mas aqui a derivação acaba por ser ainda mais evidente, para não dizer inegável. Outro duo ele e ela britânico - com colaboradores pontuais -, o projecto junta Garcia e a a filha, Rose Berlin, replicando a divisão de funções habitual nos Curve, com ele a assumir a vertente instrumental e a produção e ela a voz - a composição é partilhada.

 

Infelizmente, este percurso tem sido ainda mais discreto do que o da banda que mais o inspirou, e nem o facto de a dupla ser produtiva como poucas - com a edição de um álbum por ano desde 2010 - parece ter ajudado muito. É verdade que às vezes este cruzamento de guitarras e electrónica, com influências industriais ou trip-hop, soa mais a uma extensão dos Curve do que à busca de uma identidade própria e reconhecível. Mas não só é legítimo ser Garcia a fazê-lo como o resultado prova que, neste caso, quem sabe não esquece - e ao longo de cinco álbuns e vários EPs não faltam belos momentos.

 

Seja como for, o disco mais recente, "The Art of Pop", editado no final do ano passado, tem pelo menos o mérito de ser o que mais se distingue dos restantes até agora (e da influência assumida). Em vez das texturas densas e claustrofóbicas, os SPC ECO optaram agora por uma electropop cristalina, com a voz de Rose a ganhar mais espaço e nitidez. Que as novas canções não tenham nem metade da atenção dedicada a sensações hipster comparáveis, mas não especialmente intrigantes (como uns Purity Ring), é uma pena... Canções como "HEAR ME NOW", o novo single, a demonstrar que a dupla domina a arte da pop. Além do videoclip desse tema, fica ainda aqui o de "ZOMBIE", do álbum "Sirens and Satellites" (2013), um daqueles casos em que é difícil não pensar na banda anterior de Garcia - e que também não envergonha nada a sua herança:

 

 

 

O império da telenovela

TV STILL -- DO NOT PURGE -- EMPIRE: Lucious (Terrence Howard) toasts his family in the "Devil Quotes Scripture" episode airing Wednesday, Jan. 21 (9:00-10:00 PM ET/PT) on FOX. Pictured L-R: Jussie Smollett, Serayah McNeill, Taraji P. Henson, Bryshere Gray

 

"EMPIRE" sabe como chamar a atenção. Não é qualquer série que pode dar-se ao luxo de juntar gente como Courtney Love, Snoop Dog, Macy Gray, Naomi Campbell, Cuba Gooding Jr., Rita Ora e Jennifer Hudson na lista de convidados ou de recrutar Timbaland para assinar uma banda sonora original. Terrence Howard e Taraji P. Henson como protagonistas - juntos depois de "Hustle & Flow", drama independente nomeado para os Óscares em 2005 - são uma aposta promissora e as audiências nos EUA têm correspondido, com recordes pelo caminho e uma segunda temporada já assegurada.

Mas se os criadores da série, Lee Daniels (realizador de "Precious", "The Paperboy - Um Rapaz do Sul" e "O Mordomo") e Danny Strong (actor de "Buffy, A Caçadora de Vampiros" antes de se tornar argumentista), tiveram habilidade e sobretudo meios para juntar ingredientes fortes, ou pelo menos com potencial, não se mostram assim tão inspirados na forma como os combinam. Isto porque a sensação que fica da primeira meia dúzia de episódios é a de estar aqui uma telenovela com valores de produção invejáveis, a deixar que os cenários e adereços se imponham demasiadas vezes a uma saga familiar pouco arrojada.

O drama arranca quando Lucious Lyon (Howard), CEO da Empire Entertainment, grande editora de hip-hop, soul e R&B, descobre que tem uma doença terminal, desafiando os três filhos a mostrar que merecem assumir o cargo. O mais velho, homem de negócios da empresa, é também o mais decidido a lutar pela sucessão e o principal instigador (com a ajuda da mulher) do jogo de intrigas que vai afectando a relação entre o irmão do meio, cantor R&B talentoso mas pouco ambicioso, e o mais novo, jovem artista hip-hop em início de carreira e o mais desregrado. Quem também entra na disputa, mas sem ser convidada, é Cookie, a ex-mulher de Lucious e mãe dos três rapazes, acabada de sair da prisão depois de mais de uma década.

 

empire

 

Cookie, na pele de Taraji P. Henson, é também, e com uma distância considerável, o melhor que "EMPIRE" tem para oferecer, numa sintonia feliz entre uma personagem desbocada, confiante, possessiva e exuberante e uma actriz capaz de lhe dar corpo e alma sem a reduzir a uma caricatura garrida (e nem sempre será fácil, até porque o guarda-roupa é todo um programa e dá luta à faceta mais camp de "Como Defender um Assassino").

Se Taraji P. Henson tem garra e convicção (temperadas por alguma vulnerabilidade revelada aos poucos), tem ainda a sorte de protagonizar alguns dos diálogos mais vivos e espevitados, frequentemente divertidos, e assim conseguir roubar a maioria das cenas em que entra. O pior são as outras, entre um drama familiar com um novelo de segredos e mentiras já demasiado visto, uma vertente criminal sem grande nervo e um olhar quase sempre simplista sobre os bastidores da indústria musical (com direito a discussões datadas sobre autenticidade e oportunismo que, de qualquer forma, não fariam sentido numa série com medo de apostar em música ao vivo, mesmo quando o palco é o cenário).

No meio de uma trama mais intrincada do que complexa, há algumas ideias meritórias, como a abordagem da homossexualidade no universo do hip-hop. Mas vale mais pela intenção do que pelos resultados, como é logo sugerido no primeiro episódio, com um flashback histérico e típico, lá está, de uma banal telenovela (nem falta a banda sonora puxa-lágrimas, aí sem as habituais batidas de Timbaland). E mesmo o namorado do filho gay do clã, por exemplo, acaba reduzido a um estereótipo, com uma presença tão decorativa como a personagem (?) inacreditável de Naomi Campbell. A modelo não é a única convidada mal aproveitada até agora: Courtney Love começa melhor, como cantora veterana caída em desgraça e entregue às drogas (qualquer semelhança com a realidade não será coincidência, como outras da série), mas o primeiro episódio em que participa desperdiça-a quando só a usa para mostrar como Cookie é a melhor no que faz. A solução para a depressão é apresentada com tanta ligeireza que volta a limitar o entusiasmo encorajado pelos ocasionais bons momentos. Apesar deles, da produção e ritmo bem oleados e da entrega de Taraji P. Henson, a fusão entre a herança de "Dinastia" e um videoclip de hip-hop talhado para a MTV está, para já, a precisar de uma remistura...

 

 "EMPIRE" estreia esta quinta-feira, às 22h20, na Fox Life, com episódio duplo.

 

 

Lykke Li, Röyksopp e Robyn gostaram desta estreia

zhala

 

ZHALA ainda não editou o primeiro álbum, agendado para este ano, mas já tem um currículo mais do que estimável. A sueca acompanhou Lykke Li em digressão, nos coros, assegurou as primeiras partes dos concertos que juntaram os Röyksopp e Robyn e foi a primeira contratação da editora desta última, Konichiwa Records.

 

A julgar pelo EP de estreia, "Prophet", que a revelou no ano passado, a artista de Estocolmo fez por merecer a benção desta galeria de ilustres, distinguindo-se de muita indietronica recente com uma atitude iconoclasta e música que descreve como pop cósmica. Não será um ponto de referência enganador para as suas primeiras canções, cujos ambientes místicos, bizarros, futuristas e dançáveis até lembram mais discos de uma Grimes ou uma VV Brown (fase gótica) do que os nomes mais instituídos que a apadrinharam. Aliás, é difícil não pensar na voz de "Genesis" e "Oblivion" ao ouvir o novo single, "AEROBIC LAMBADA", pedaço de electropop tão assombrada como eufórica, uma mistura mantida no videoclip: