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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Mãos ao ar (em nome da boa pop)

 

Enquanto não há novo disco dos Ladytron - e ainda parece demorar a chegar - vai havendo, pelo menos, música nova de alguns dos seus elementos. Daniel Hunt prepara a estreia dos Tamoios, aventura paralela em São Paulo, e no ano passado produziu o primeiro álbum de Marnie, uma das vocalistas da banda de Liverpool.

 

As canções de "Crystal World" ainda não dão sinais de cansaço, mas a cantora e compositora não quer ficar por aí e já tem um single novo, "Wolves", inspirado pelo referendo sobre a independência da Escócia embora não o aborde directamente. Tal como nos Ladytron e no disco a solo, a electrónica continua a ser o caminho a seguir e volta a gerar bons resultados. E também como em grande parte de "Crystal World", a matriz parece ser "Gravity the Seducer", agora numa versão ainda mais polida e directa.

 

Infelizmente, um refrão orelhudo e imponente não parece ser suficiente para que um single destes consiga furar a maioria das playlists, sejam televisivas ou de rádios de "grandes músicas" - e assim algumas distinções continuam dar má fama à pop. Ainda haverá esperança? Marnie até nos convence que há sempre, numa bonita ode à mudança a pedir mãos no ar, como no videoclip:

 

Para dizer adeus ao Verão

 

"International", o terceiro álbum dos Lust for Youth, chegou ao mundo em inícios de Junho mas é na despedida do Verão que as suas canções passam por palcos portugueses - no próximo sábado, dia 20, na Zé dos Bois, em Lisboa, e na noite seguinte no Maus Hábitos, no Porto. Calha bem, porque se este é o disco mais veraneante dos suecos também não deixa de lado uma melancolia pouco condizente com excessos de sol e praia.

 

Longe da faceta mais negra, opaca e experimental dos registos anteriores, "International" abraça o pós-punk e a synth pop e tanto recua três décadas - para voltar aos New Order ou The Beloved - como não destoa ao lado de reapropriações mais recentes - algumas texturas lembram a electrónica baleárica de uns Delorean ou Beat Connection.

 

Momentos como o spoken word em italiano de "Lungomare" ou as atmosferas de "Basorexia" e da viciante faixa título mantêm o mistério dos primeiros dias do projecto de Hannes Norrvide (aqui pela primeira vez no formato banda), mas as maiores surpresas são temas reluzentes e imediatos como "New Boys", escolha quase inevitável para single e já com videoclip. Agora é ver como corre esta mudança de estação em palco...

 

 

Há uma luz que nunca se apaga

 

Talvez ainda mais do que os anteriores, o quinto álbum de Mirah, "Changing Light", tem passado algo despercebido mas merece figurar entre os melhores conjuntos de canções dos últimos tempos. A voz da norte-americana continua tão fresca como na estreia, "You Think It's Like This but Really It's Like This" (2000), e o alinhamento, apesar de conter apenas dez temas, é talvez o mais versátil de uma discografia habituada a contornar os lugares comuns da folk e do rock há uns anos chamado de alternativo.

 

Entre o electrónico e o acústico, a euforia e a contenção, a composição tem sempre arranjos à altura num disco outonal mas capaz de atravessar vários estados de espírito. "No Direction Home" é dos momentos mais introspectivos e um bom exemplo de uma manta instrumental que sabe como conjugar elementos. Mirah combina e alterna sopros, teclas, percussão e cordas sem nunca tornar a canção numa montra barroca e virtuosa, deixando a voz comandar os acontecimentos com sobriedade. O videoclip é ainda mais discreto e aproveita a vista (desfocada) de um farol de Massachusetts numa noite chuvosa. E nem mesmo a intromissão de fogos de artifício dá sinais de qualquer espalhafato:

 

 

Queer Lisboa 18: cinco filmes do ano da maioridade

 

Uma retrospectiva de John Waters (com obras como "Hairspray" ou "Pink Flamingos"), outra de Ron Peck (autor de "Nighthawks", habitualmente apontado como o primeiro filme gay britânico), uma secção dedicada ao cinema africano (a recuperar o clássico "Touki Bouki", do senegalês Djibril Diop Mambety), cinco curtas metragens de António da Silva (entre elas "Beach 19" e "Dudes Nudes", estreias do português radicado em Londres) e filmes brasileiros a abrir e a fechar ("Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", de Daniel Ribeiro, a suceder à promissora curta-metragem homónima, e "Flores Raras", de Bruno Barreto, respectivamente) estão entre as principais propostas do Queer Lisboa 18, a decorrer no Cinema São Jorge e na Cinemateca já entre os dias 19 e 27 - e mais tarde no Porto, pela primeira vez, com sessões na Casa das Artes a 3 e 4 de Outubro.

 

Além destes focos temáticos, deverá valer a pena ir seguindo as secções competitivas ou Panorama, mais dedicadas às novidades e com potencial para algumas das maiores surpresas do Festival Internacional de Cinema Queer. Talvez seja o caso destas cinco longas-metragens, destaques de uma primeira espreitadela à programação:

 

 

1 - "Eastern Boys": Robin Campillo é colaborador habitual de Laurent Cantet e assina aqui a sua segunda longa-metragem. "Les Revenants" (2004), a primeira, movia-se entre o terror e a ficção científica e gerou culto suficiente para inspirar uma série. Desta vez, o realizador marroquino segue um executivo cuja rotina muda quando se envolve com um jovem imigrante de leste. A julgar pelo trailer, este drama não anda longe do estilo realista, sóbrio e algo clínico do cineasta de "A Turma" ou "O Emprego do Tempo".

 

 

2 - "L’Armée du Salut": Outro realizador marroquino, Abdellah Taïa é mais conhecido por ser o primeiro escritor árabe a assumir a sua homossexualidade. A estreia na realização adapta um dos seus livros e começa por acompanhar um adolescente de Casablanca, entre a descoberta da sexualidade e desilusões amorosas e familiares, reencontrando-o anos depois já adulto em Genebra. A Les Inrocks e o Le Monde gostaram.

 

 

3 - "La Partida": Antonio Hens não é um novato no Queer Lisboa. "Clandestinos", o seu primeiro filme, passou pelo festival há seis anos e deixou boas impressões. O sucessor mostra que o realizador espanhol continua interessado em dramas juvenis, olhando agora para a relação amorosa entre dois adolescentes cubanos a que não faltam problemas - financeiros, familiares ou culturais. Mas depois do frenesim do filme anterior, viagem aos bastidores do terrorismo, parece abrir espaço para alguma candura neste regresso...

 

 

4 - "Party Girl": Realizado a seis mãos, pelos francedes Marie Amachoukeli, Claire Burger e Samuel Theis, está entre os filmes mais aclamados da edição deste ano. A Câmara de Ouro em Cannes 2014 para Melhor Primeira Obra é apenas uma das distinções deste drama "selvagem e generoso", estudo de personagem amparado numa empregada de bar de 60 anos que não quer deixar de se divertir tão cedo... até que lhe fazem um pedido de casamento.

 

 

5 - "Xenia": Se a Grécia está em crise, não será por culpa do cinema. Surpresas como "Canino", "Attenberg" ou "Boy Eating the Bird's Food" (uma das grandes apostas do Queer Lisboa no ano passado) têm sido provas disso e esta obra de Panos H. Koutras parece ser mais um ovni a juntar à lista. A imagem do início deste post pode sugerir a estranheza de "Donnie Darko", mas o trailer da odisseia de dois irmãos à procura do pai lembra mais o delírio camp de "Nowhere" e "Kaboom", de Gregg Araki. Nada como ver o filme para tirar as dúvidas...

 

Outra das secções já habituais do festival, Queer Pop, recorda este ano videoclips assinados por Derek Jarman (para Marianne Faithfull, The Smiths, Suede ou Marc Almond) e alguns da obra dos Pet Shop Boys. O de "Rent", da dupla de Neil Tennant e Chris Lowe, funciona como uma espécie de dois em um, já que foi realizado pelo artista britânico - e ilustra aquela que é talvez a melhor canção de sempre a combinar relações amorosas e o pagamento da renda:

 

O bom alemão (e um thriller não tão bom)

 

Por muito pedigree que "O Homem Mais Procurado" tenha, seja por adaptar um romance de John le Carré, contar com a realização de Anton Corbijn (ainda assim, mais celebrado por "Control" do que "O Americano") ou incluir gente como Willem Dafoe e Robin Wright no elenco, o mais provável é que vá ser lembrado por guardar a última interpretação de Philip Seymour Hoffman.

Destacá-lo sobretudo por esse motivo poderia ser redutor, para não dizer injusto, caso esta história de espionagem inspirada numa situação verídica conseguisse ser mais do que um thriller correcto - e sempre atento a questões da ordem do dia, é verdade (imigração, xenofobia, terrorismo...) -, mas com pouco de entusiasmante e singular.

"O Homem Mais Procurado" sai-se razoavelmente bem quando acompanha a rotina do protagonista, um agente dos serviços secretos alemães interpretado por um Seymour Hoffman que nem tem de se esforçar muito para encher a personagem de "pathos", solidão, desencanto e tensão, preço a pagar por um idealismo fora de moda.
Não será dos seus desempenhos mais exigentes e memoráveis, mas este Günther Bachmann, cujo olhar vale por muitos diálogos, dificilmente poderia concentrar melhor o tom de requiem que varre o filme - e cujo efeito se arrisca a ser ampliado, claro, pelo suicídio do actor este ano.

 


As cenas em que o protagonista está sozinho ou as partilhadas com Nina Hoss e Robin Wright - secundárias de luxo mal aproveitadas, embora à altura do que se espera delas - são de longe as mais conseguidas de um thriller a tombar para a inverosimilhança e anemia dramática nas restantes.
Rachel McAdams, erro de casting e caricatura de uma advogada ingénua, acaba por ir ganhando mais tempo de antena quando se aproxima de forma repentina (e forçada) de um imigrante ilegal, que por sua vez é um mero motor do argumento, tratado mais como um símbolo do que como uma personagem de corpo inteiro.

Corbijn faz questão de recusar perseguições tresloucadas e sucessões de reviravoltas, marca registada de muitos thrillers de espionagem, embora a distância de James Bond, Jason Bourne e aparentados não seja propriamente uma vantagem quando o argumento não tem grandes rasgos e o filme não tira partido dos actores (Daniel Brühl, então, é basicamente um figurante).

Admita-se que o realizador holandês consegue imprimir uma atmosfera com alguma tensão às ruas de Hamburgo (a fotografia de Benoit Delhomme dá uma ajuda no negrume) e a um final com um desespero implacável e nada gratuito, capaz de compensar parte da modorra destas duas horas (embora aí o mérito talvez até seja mais do livro). Mas se isso contribui para fazer de "O Homem Mais Procurado" um thriller digno, sério e empenhado, que tenta dizer alguma coisa sobre a (in)segurança do mundo de hoje, ainda o deixa muito abaixo dos melhores videoclips do seu autor (para os Depeche Mode, U2 ou Joy Division) e, lá está, da entrega do actor protagonista.

 

 

Riffs ou batidas? Este single não deixa dúvidas

 

Começou por se destacar ao lado das guitarras dos Bloc Party, mas de há uns anos para cá Kele Okereke tem trocado o rock pela electrónica nas suas aventuras a solo. E a julgar pelo último (e pior) álbum dos britânicos, "Four" (2012), está bem melhor assim.

 

"Doubt", o novo single, é mais um exemplo da pontaria para a música de dança que o disco de estreia em nome próprio, "The Boxer" (2010), já dava a entender e algumas canções seguintes - como "What Did I Do?" - conseguiram ir mantendo. Mas esta viragem não deixou para trás a melancolia de parte dos temas dos Bloc Party, como este avanço de "Trick" (segundo álbum a solo, a editar em Outubro) volta a deixar claro. O contraste entre o ritmo acelerado e o tom meio pesaroso da letra é reforçado por um videoclip que vai da igreja à discoteca, num cruzamento de lyric video e animação aparentemente inspirada por Keith Haring.

 

A canção, sem ser tão imediata como "Tenderoni", é house contagiante apesar das deambulações que envolvem amor, sexo, fé e poder. E tem tudo para funcionar ainda melhor ao vivo, como é habitual nos temas de Kele. Um regresso a palcos nacionais, depois de alguns óptimos concertos por cá, não era nada mal pensado...