
"A Thousand Leaves" (1998) não costuma ser dos álbuns mais celebrados dos Sonic Youth, mas "Sunday", o seu único single, é um episódio a ter em conta ao recordarmos o percurso dos nova-iorquinos. Talvez não tanto o percurso musical - embora "Sunday" seja uma óptima canção, um grower que dificilmente se gasta -, mas pelo menos o visual, muito por culpa de um videoclip que juntou um trio improvável (mesmo vindo de um grupo fértil em episódios improváveis): os próprios Sonic Youth, Harmony Korine, o realizador do vídeo, e Macaulay Culkin, criança prodígio tornada enfant terrible (e a vincar aqui um momento de transição na imagem).
Entre cenas de Thurston Moore ao lado do actor em estúdio e outras com uma jovem - e concentrada - bailarina (e depois algumas colegas), contando ainda com aparições de Rachel Miner (actriz então casada com Culkin), o videoclip alterna momentos acelerados e em slow motion, planos fixos e epilépticos e alia espontaneidade e estranheza (esta servida, sobretudo, pelo último grande plano da estrela de "Sozinho em Casa"). A milhas, portanto, dos tons garridos e faustosos com que Korine condimenta o recente "Viagem de Finalistas" (ou melhor, "Spring Breakers", que a tradução não ajuda), mas também igualmente distante, lá está, dos adolescentes representados hoje pela MTV.
Em finais dos anos 90, "Sunday" tinha presença assídua no saudoso "Alternative Nation" e se o canal já se esqueceu de programas como esse, Macaulay Culkin ainda mantém o gosto por rock pouco domesticado - ultimamente tem partilhado o palco com Adam Green & Binki Shapiro e dividido o apartamento com Pete Doherty. E por falar em adolescentes e na década de 90, "Sunday" também fez parte (numa versão diferente) da banda sonora de "SubUrbia" (1996), um dos melhores (e mais esquecidos) filmes de Richard Linklater, centrado num grupo de jovens dos subúrbios - daqueles que iriam, provavelmente, ficar intrigados com um videoclip e canção assim:

Tinha tudo para correr mal: uma baladinha desenhada a regra e esquadro, a fazer mira às rádios generalistas, onde nem sequer falta o piano a pontuar a crónica de um coração partido e obcecado. E no entanto, "I Was a Fool", o novo single de Tegan and Sara, mostra que a quase infalível sensibilidade pop das manas Quinn, agora menos indie do que noutros tempos, deixa as canadianas à frente no campeonato melindroso das Corrs, Lady Antebellum e afins. A canção, uma das mais sossegadas do habitualmente dançável "Heartthrob", o sétimo álbum da dupla, também funciona num formato electrónico - vale a pena ouvir a remistura de Matthew Dear -, mas a simplicidade do original torna-o mais directo e orelhudo. O videoclip, fiel à letra, acompanha o final de um romance adolescente e ajudará a fisgar mais alguns ouvidos:

Enquanto não chega o segundo álbum dos Austra, agendado para 17 de Junho - tão bom como ou até melhor do que o primeiro, mas lá iremos daqui a uns dias -, a banda canadiana assinala o regresso, dois anos depois de "Feel It Break", com o novo single. E "Home" é um óptimo cartão de visita para "Olympia", a provar que, além de sintetizadores, a voz de Katie Stelmanis também se dá muito bem com teclados house ou a marcha de sopros e percussão introduzida a meio do tema, acabando por dominá-lo. O videoclip, aparentemente mais simples, apresenta a vocalista em modo circunspecto/concentrado/deprimido(?) no camarim, quase sempre através de um plano fixo, e vai cedendo espaço (mas não protagonismo) aos outros elementos do sexteto:

A rejeição, a obsessão, a sida ou a homofobia são alguns dos fantasmas que pairam em "Pale Green Ghosts", o segundo álbum de John Grant e um relato simultaneamente sincero e cínico, trágico e cómico, acústico e electrónico. A catarse do cantautor norte-americano é pessoal, mas musicalmente transmissível e até chega a viciar, como escrevo neste artigo do SAPO Música.

O trailer levava a desconfiar que "Homem de Ferro 3" teria mais em comum com o Batman de Nolan - para muitos, o modelo a seguir nas adaptações cinematográficas de super-heróis - do que com as duas aventuras anteriores do alter ego de Tony Stark no grande ecrã. O filme até nos mostra o protagonista a sofrer ataques de ansiedade (consequência directa do confronto alienígena de "Os Vingadores") e a revelar um lado vulnerável que a armadura não disfarça - até porque nem sempre está disponível - enquanto lida com uma ameaça global mais baseada na realidade do que poderia esperar-se (colocando em jogo o terrorismo, a manipulação genética ou o antiamericanismo).
Felizmente, a terceira aventura no cinema do milionário playboy mais popular da Marvel está longe de ser tão sisuda como "O Regresso do Cavaleiro das Trevas" já que Shane Black, o novo realizador de serviço, mantém o tom lúdico e espirituoso da abordagem de Jov Favreau. A mistura de comédia e acção não é estranha vinda de alguém que se estreou na realização com o divertido "Kiss Kiss Bang Bang" (também protagonizado por Robert Downey Jr., ainda a recuperar de uma fase menos feliz da sua carreira) e que tinha escrito "Arma Mortífera".
Um currículo destes permite antever as ambições de "Homem de Ferro 3", mais preocupado em funcionar como filme-pipoca despretensioso e não tanto em mergulhar a fundo nos temas mais densos sugeridos pelo argumento. E se em geral a fórmula funciona (sim, este é um filme de fórmula, o que no caso não é necessariamente mau), Black também deita abaixo alguma força ao apostar numa overdose de gags por vezes intrusivos - por cada diálogo oportuno, com ironia e distanciamento q.b., há outro a intrometer-se na construção de uma tensão dramática que nunca chega verdadeiramente a instalar-se.

"Homem de Ferro 3" tem mais alguns trunfos enquanto espectáculo visual, com o realizador mostrar que, além de ter ouvido para os diálogos, também se sai bem na confecção de sequências de acção empolgantes - e aí o ataque à mansão de Stark ou um habilidoso resgate em queda livre são dignos de menção especial. Menos inspirado, o clímax não só recorre a uma preguiçosa solução deus ex machina (será mais um exemplo de ironia, tendo em conta o super-herói em questão?) como traz à memória os momentos mais estridentes e mecânicos da saga "Transformers" (ainda que Black seja bem mais desenvolto do que Michael Bay na gestão de pancadaria).
O desfecho pouco inventivo também leva a que o destino de Tony Stark (mais uma vez, um protagonista indissociável de Robert Downey Jr.) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, agora com mais tempo de antena) dificilmente surpreenda, mas ao longo do filme Black preocupa-se em fazer com que a relação evolua face ao apresentado nos episódios anteriores. Os secundários é que não têm a mesma sorte - Don Cheadle e Rebecca Hall, com desempenhos melhores do que as personagens, poderiam facilmente ter ficado de fora, e Ben Kingsley e Guy Pearce são antagonistas aceitáveis mas vítimas de um twist com tanto de curioso como de frustrante.
Entre o conseguido e o nem por isso, "Homem de Ferro 3" ainda acaba por ser entretenimento superior à média blockbuster e uma boa porta de entrada para uma temporada cheia deles - só não é o tal grande filme de uma saga que continua, mais uma vez, à sombra das de outros companheiros de editora.


Por muito bem equipados que possam ser, os ginásios não são assim tão selectivos na altura de escolher a música ambiente. Ao contrário de outras cantoras pop, Annie dificilmente terá lugar cativo entre a playlist que acompanha aulas de step ou hidroginástica, mas o seu novo videoclip sugere que as canções da norueguesa fazem todo o sentido nessas situações. A ideia é especialmente reforçada pelo single "Tube Stops & Lonely Hearts", concentrado de electrónica tão doce como atlética com assinatura Xenomania e homenagem à cultura rave de Bergen e Londres na produção de sabor anos 90. Um prenúncio vitaminado para o álbum sucessor de "Don't Stop" (2009), que já tarda e poderá ter luz verde este ano:

"XII", o segundo álbum dos Parallels, já foi editado no Verão do ano passado mas ainda vai a tempo de ser (re)descoberto algumas estações depois. O trio de Toronto dá uma ajuda ao divulgar o videoclip do novo single, "Things Fall Apart", apetecível exemplo da sua synth pop com laivos de italo disco e Hi-NRG. As imagens de ambientes nocturnos complementam a melancolia dançável cantada por Holly Dodson (a fazer bem de Madonna dos 80s) e há muito mais para ver e ouvir no site oficial da banda, que disponibiliza os seus dois álbuns para audição gratuita. Enquanto não parece haver quem a traga cá, já não é nada mau...

"Em Bruges", a estreia de Martin McDonagh na realização depois de um considerável (e aplaudido) percurso de dramaturgo, conseguia, nos melhores momentos, pensar fora da caixa e trocar as voltas aos modelos dos filmes de gangsters. Quatro anos depois, "Sete Psicopatas" devolve o irlandês à sétima arte numa segunda obra igualmente lúdica, pessoal, tagarela (a atenção aos diálogos mantém-se entre os trunfos) e talvez ainda mais engenhosa.
McDonagh repesca Colin Farrell, agora na pele de um escritor que tenta iniciar o livro que dá título ao filme, e repesca também o gosto pela liberdade narrativa ao optar por uma lógica meta-referencial, saltitando entre realidade e ficção de forma cada vez mais auto-consciente (há quem compare as brincadeiras formais aos argumentos de Charlie Kaufman, mas a recente "Odisseia" de Bruno Nogueira e Gonçalo Waddington também não anda muito longe desta mistura de subversão, humor negro e melancolia).
Além de Farrell, o protagonista em crise de inspiração que vai unindo as pontas de histórias entrecruzadas, "Sete Psicopatas" sabe tirar partido de actores como Sam Rockwell, em modo expansivo e a roubar todas as cenas em que entra (e tem tido tão poucas oportunidades de mostrar o que vale), ou Christopher Walken, que no extremo oposto impõe respeito num estimável exemplo de contenção. Já Woody Harrelson tem rédea solta para compor um vilão tão caricatural como os dos filmes que McDonagh tenta desconstruir: às vezes o realizador ameaça dar um passo maior do que a perna, mas momentos como a delirante sequência de tiroteio mostram que "Sete Psicopatas" vale bem mais do que o pastiche Tarantino que pode parecer à partida (e até é bastante certeiro na sátira à irrisão exagerada e saturante de títulos como... "Django Libertado").


