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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sombras e nevoeiro

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Interpol? Joy Division? The Chameleons? É difícil não pensar em alguma destas referências ao percorrer o álbum de estreia homónimo dos VIET CONG. Felizmente, e ao contrário de muitas bandas que recuperaram o pós-punk na viragem do milénio, as canções destes canadianos não se ficam pela homenagem reverente e insistem em abrir o seu próprio caminho, com direito a imprevistos e atalhos pouco canónicos.

 

"SILHOUETTES", o novo single, nem será um caso muito extremo, seguindo mais à letra o livro de estilo dos Interpol do que a maioria dos momentos do disco. Mas não só recupera parte da intensidade inicial dos nova-iorquinos como oferece algumas viragens quando parece estar a acomodar-se. O videoclip mostra um interesse comparável no misto de familiaridade e estranheza, ao juntar influências da ficção científica de Phillip K. Dick ou Arthur C. Clarke e dos ambientes de filmes de terror com casas assombradas: 

 

 

Da Ucrânia com furor

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Faz sentido que os KAZAKY tenham sido escolhidos para acompanhar Madonna no videoclip de "Girl Gone Wild". Afinal, desde 2010 que estes ucranianos têm levado muito a sério uma das máximas da rainha da pop: "Express yourself, don't repress yourself".

 

À custa disso - sobretudo pela pose andrógina ou por dançarem de saltos altos -, um dos seus concertos no Quirguistão teve de ser cancelado quando centenas de manifestantes anti-gay invadiram a sala. Mais comedido, o Ministério da Cultura russo limitou-se a distingui-los com o epíteto de "grupo imoral que contraria os valores humanos básicos".

 

Mas nem assim a a boy band deixa de actuar, com danças e coreografias capazes de destronar qualquer concorrência, nem de editar álbuns (já vão dois) e cada vez mais singles. Se a vertente visual dá que falar, a música também não é de se deitar fora, com flirts entre synth pop, house ou electro seguidores dos ensinamentos mais agitados de uns Depeche Mode, Pet Shop Boys, Fischerspooner ou Presets. "WHAT YOU GONNA DO", o novo single, é esclarecedor e atira uma bomba para a pista de dança com videoclip à altura:

 

 

Tiro ao lado

american_sniper

 

Desde "Gran Torino" (2008) que Clint Eastwood não faz um filme marcante - "J. Edgar" talvez seja a excepção -, mas mesmo assim era legítimo esperar alguma coisa de "SNIPER AMERICANO". Infelizmente, a obra que tem batido recordes de bilheteira nos EUA reduz-se a uma hagiografia simplista tornada ainda pior ao confundir liberdade criativa com desonestidade intelectual.

 

Chris Kyle, o protagonista, foi o maior atirador da história militar-norte americana (responsável por pelo menos 160 mortes no Iraque) e esteve longe de ser uma figura consensual, como aliás o próprio assinalou na autobiografia em que o filme se baseia. Mas Eastwood e o seu argumentista parecem ter lido o livro na diagonal e deixam de fora alguns dos episódios mais controversos (como os assassinatos nos EUA que o autor reclama, nunca confirmados), sintomas de fantasmas psicológicos e de um assumido prazer em premir o gatilho que "SNIPER AMERICANO" ignora, preferindo apostar na glorificação de um inequívoco herói patriótico (devidamente rematada com um final solene e pesaroso, tão colado a telefilmes de "casos da vida" como o flashback explicativo do início).

 

Pode dizer-se que, sendo um exercício de ficção, o filme está à vontade para adoptar um ângulo mais parcial do que o que se esperaria numa reportagem ou num documentário. O que é legítimo, embora não só pinte um retrato idílico e postiço do soldado também conhecido como "A Lenda" e ex-guarda costas de Sarah Palin - contando meias verdades a meio mundo que não procure saber mais - como resulta num drama que desperdiça grande parte do potencial. E assim deparamo-nos com um biopic genérico e domesticado, que dispara ao lado tanto como estudo de personagem (demasiado polido e esquemático), reflexão sobre a guerra (ainda que esta seja mais ambígua do que o retrato do protagonista) ou mero entretenimento (a modorra vai tomando conta destas mais de duas horas com muita ganga narrativa).

 

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Nem tudo é mau: Bradley Cooper consegue fazer com a personagem se torne credível, na mais merecida das três nomeações para os Óscares que já teve, e Sienna Miller é tão ou mais surpreendente, ainda que no papel ingrato de esposa e mãe chorosa já visto em tantos filmes de guerra ou policiais (a cena em que o casal se conhece, das mais espontâneas e bem escritas, prometia mais do que o drama doméstico tão mecânico que se segue).

 

Mas nem a entrega da dupla chega para aguentar o olhar tão maniqueísta, com os iraquianos sujeitos a meras peças de tabuleiro prontas a esbanjar em cenas de tiroteio (com direito a suspense à custa de idosos e criancinhas) ou ao papel de traidores mal agradecidos. Pior ainda é o vilão de serviço, Mustafa, ex-atleta olímpico que passa o filme a fazer parkour sem debitar uma palavra antes de um duelo final que seria risível até numa aventura de super-heróis. Essa sequência também está entre as maiores "liberdades criativas" deste biopic, tendo em conta que Kyle admitiu nunca ter conhecido o sniper sírio. Se a ideia era inventar tanto, não teria sido preferível criar uma história de raiz? Independentemente disso, a que "SNIPER AMERICANO" oferece é arrastada, esquecível e tão rudimentar como o bebé falso que se tornou num fenómeno.

 

 

 

Videodrone

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Enquanto os Death in Vegas não dão novidades desde o algo esquecido "Trans-Love Energies", de 2011, o mentor dos britânicos, vai propondo algumas através da sua nova editora. Criada no ano passado por Richard Fearless, a Drone já editou dois registos do seu fundador e aposta agora em D'MARC CANTU, produtor que se move pela electrónica geralmente dançável desde inícios do milénio.

 

Depois de passar por várias etiquetas, assumir outros tantos pseudónimos e somar dezenas de singles, EPs e um álbum, o norte-americano desvia-se do terreno techno ou house (multifacetado) num instrumental de linhagem electro.

 

Repetitivo e infeccioso, "DECAY" é também, curiosamente, dos temas do produtor que mais se aproximam da dupla de "The Contino Sessions", o que só lhe fica bem e parece estar de acordo com a electrónica exploratória e distorcida que Fearless procura. Cantu diz que o single lhe lembra vídeos caseiros e memórias esbatidas, imaginário que não anda longe dos ambientes e efeitos de um videoclip não aconselhado a epilépticos:

 

 

Sim, senhora ministra

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Na nova grelha da RTP2 há pelo menos um exemplo do que poderá aproximar-se de uma ideia de serviço público. "BORGEN", a iniciar nesta segunda-feira a segunda temporada, não chega para compensar as péssimas telenovelas nacionais mascaradas de séries que infestam o horário nobre do primeiro canal, mas já é um princípio. Até porque, a julgar pelos primeiros dez episódios, esta produção dinamarquesa não desmerece os muitos prémios internacionais, os elogios de fãs como Stephen King ou Hillary Clinton e traz uma lufada de ar fresco à abordagem dos meandros da política.

 

De certa forma, está aqui o antídoto perfeito para "House of Cards", embora a série criada em 2010 pelo argumentista Adam Prince e produzida pela equipa da versão original de "The Killing" seja habitualmente comparada a "The West Wing", na qual se inspirou em parte. Se a saga protagonizada por Kevin Spacey insiste num cinismo sem fim à vista, com a podridão do sistema político a emergir como verdade absoluta e inescapável, "BORGEN" (nome do castelo de Copenhaga que acolhe o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal) aposta num idealismo que se diria fora de moda, utópico e ingénuo, não fosse o caso de ser desenvolvido com uma subtileza e inteligência menos constantes em muitas propostas do outro lado do Atlântico.

 

Birgitte Nyborg, a candidada a primeira-ministra pelo Partido Moderado que acaba por ocupar o cargo nos  episódios iniciais, está bem mais interessada em tomar as decisões certas do que em quaisquer regalias pessoais, apesar de a decisão certa se ir tornando cada vez mais difícil de identificar e, sobretudo, de colocar em prática.

 

borgen2

 

Mas mesmo quando vê o cerco a apertar, tanto na vida profissional como familiar, Nyborg recusa-se a entrar em qualquer modelo determinista que tornaria "BORGEN" em mais uma denúncia fácil da corrupção do sistema. Não é que este seja impoluto, como a série também mostra através das muitas jogadas de bastidores, com o oportunismo de alguns ministros ou figuras da oposição a sobrepor-se a qualquer esboço de altruísmo. A diferença está no difícil equilíbrio entre humanismo e ambiguidade moral que a acção consegue manter sem nunca reduzir as personagens a bandeiras nem as suas relações a uma série de esquemas.

 

A protagonista pode revelar-se cada vez mais pragmática, calculista e intransigente, tanto no trabalho como em casa, mas essa transformação gradual parece sempre orgânica, tão genuína como a crise conjugal sugerida no arranque e confirmada nos últimos episódios. O mesmo pode dizer-se dos arcos narrativos das outras duas personagens principais: um assessor de imprensa enigmático, cínico e impulsivo e a ex-namorada deste, uma jornalista televisiva cujo idealismo supera o de Nyborg. Dos três, a pivot e repórter é a que mais se arrisca a cair na caricatura, embora a escrita e direcção de actores, ambas impecáveis, confiram credibilidade a estas figuras e ao que as move - uma atenção também visivível nos secundários, incapazes de falhar uma nota ao desenharem personagens com mais mundo do que as suas profissões.

 

Com a dinâmica dos episódios a partir quase sempre da ligação entre este trio, "BORGEN" acaba por ser também um retrato das relações (muitas vezes promíscuas) entre a política e a imprensa, aqui apresentado sem tiques didácticos ou sobranceiros. Aliás, o olhar sobre as instituições só funciona por estar ancorado num novelo dramático com uma óptima sintonia entre razão e emoção, em que o rigor convive muito bem com a empatia. Frieza nórdica, só mesmo à superfície.

 

"Borgen" é emitida na RTP2, de segunda à sexta, às 22 horas.

 

 

Recordar sem viver

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Depois de uma sucessão de quatro EPs e vários singles desde 2010, a um ritmo quase anual, FLORRIE andava a prometer a edição de um álbum (que já tarda) para 2015. Mas afinal, mais uma vez, o disco não deve chegar tão cedo, já que está a caminho um quinto EP - o sucessor de "Sirens", de Abril do ano passado.

 

Não fosse a pop electrónica da britânica alvo de tão modesta atenção fora de terras de Sua Majestade e quase poderia original um "greatest hits" sem precisar de um longa-duração. Assim, a sua música continua a chegar-nos em doses pequenas, à medida da leveza de singles como o novo "TOO YOUNG TO REMEMBER".

 

Aproveitando que além de cantora, compositora e baterista também é modelo, a antiga colaboradora de Kylie Minogue, Girls Aloud ou Pet Shop Boys criou o videoclip numa parceria com a H&M, para uma das novas campanhas da marca. E parte da tenra idade abordada na letra para recuar até dias que não viveu, ou dos quais pouco retém, num exercício de falsa nostalgia com homenagens à cultura pop de finais dos anos 80 e inícios de 90. O resultado, mesmo sem o brilho de algumas canções anteriores, é bastante simpático: