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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Roque popular (com sabor a algodão doce)

 

Às vezes, nem é preciso muito para conseguir um momento feliz. Aos Smix Smox Smux bastou uma volta no carrossel com o elefante Madalena e a girafa Manuel. Ou pelo menos é isso que cantam em "Algodão Doce", pedaço saboroso de rock lo-fi com videoclip igualmente artesanal. Um gelado de Verão que também vai bem com farturas ou churros e traz de volta os bracarenses depois de "Eles São os Smix Smox Smux" (2009) e "Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão os Exércitos Capitalistas" (2011).

 

Esses álbuns ainda não contam com sucessor anunciado, mas há novas canções e respectivos vídeos garantidos para os próximos meses. "Algodão Doce" é o segundo dos oito temas confirmados e mostra que o grupo, agora já longe dos tempos em que era uma promessa da Amor Fúria, continua a não se levar muito a sério. Mantém o humor, o sotaque nortenho e não parece querer deixar a adolescência tão cedo, como "Viver para sempre", outra nova canção, revelada em Maio, também já comprovava - e vale a pena recordá-la abaixo. Agora venham mais seis...

 

 

Courtney Love já pode pedir a reforma

 

"I’m gonna burn this town to the ground", grita Brody Dalle em "Rat Race". Quem a ouve, neste novo single ou noutros momentos de "Diploid Love", pensa que está sozinha contra o mundo. Mas a verdade é que a ex-vocalista dos Distillers e dos Spinnerette está muito bem acompanhada na sua estreia a solo. Neste tema conta com a guitarra de Nick Valensi, dos Strokes, a dar luta ao mais inesperado trompete, e num dos singles anteriores, "Meet The Foetus / Oh The Joy", convidou Shirley Manson (Garbage) e Emily Kokal (Warpaint).

 

Casada com Josh Homme, a australiana não ignora a escola dos Queens of the Stone Age nas canções mais agressivas de um dos bons álbuns de rock do ano. Tão ou mais evidente, a influência de Courtney Love (que começa logo pela aproximação vocal) injecta nestes disparos uma vertente melódica na linha do que os Hole conseguiram tão bem em "Live Through This" (1994) ou "Celebrity Skin" (1998). Pode até ficar muitos furos abaixo do alinhamento quase perfeito desses discos, mas não só está no bom caminho como mostra mais entusiasmo do que as canções recentes da ex-senhora Cobain. "Rat Race", cuja estética anos 90 passa pelo VHS do videoclip, ou "Don't Mess With Me", também para ver e ouvir abaixo, são bons exemplos disso. Já "I Don't Need Your Love" revela uma (admirável) tentativa de algo completamente diferente, com direito a piano, falsete e erupções de cordas.

 

 

Entretanto, em Benidorm...

 

"Mojito, champanhe/ Margarita para acordar/ Martini, Daiquiri/ Caipirinha para embalar/ Pina Colada/ Bloody Mary para o deitar" é uma enumeração feita pelos Mão Morta em "Estância Balnear", mas também podia ser a lista de consumo mínimo do novo videoclip de Koudlam, visita frenética às noites de Verão de Benidorm. E se "Negative Creep" rouba o título a umas das primeiras canções dos Nirvana, o disparo de palavras repetidas pelo cantor e produtor francês lembra mais "Born Slippy", hino dos Underworld que também causou estragos na pista de dança.

 

O single do projecto de Gwenael Navarro, mais ríspido e menos versátil do que o dos britânicos, dificilmente ganhará estatuto de clássico, até porque a insistência na voz processada e na batida de músculo french touch não é para todos os nervos. Mas também é verdade que no videoclip ninguém parece queixar-se, num daqueles casos em que música e imagem (esta a cargo de Cyprien Gaillard) dificilmente poderiam complementar-se melhor.

 

Koudlam vai regressar à costa espanhola em meados de Outubro, altura em que edita o seu terceiro álbum, "Benidorm Dream", cuja mistura de techno, trance e electro tem inspiração no "caos arquitectónico" do resort que lhe dá título (além de músico, o parisiense é arquitecto) e não deverá contar com muitos raios de sol. Por agora, "Negative Creep" é o destaque (e a faixa mais pujante) do EP "The Landsc Apes", depois de uma (óptima) colaboração com os conterrâneos Scratch Massive no negrume de "Waiting for a Sign", em 2011.

 

Quando o México é uma miragem

 

"Mexico", o novo álbum dos GusGus, não só está entre os bons regressos do ano como é o disco mais inspirado dos islandeses desde "This Is Normal" (1999), o seu registo de referência. No domingo, prepara-se para começar a rodar o mundo numa digressão que arranca na cidade-natal da banda, Reiquiavique, com um concerto de abertura para Justin Timberlake. Mas se o cantor de "Cry Me a River" até já passou por Lisboa este ano, infelizmente nenhuma das 25 cidades onde os GusGus vão actuar é portuguesa, o que só vem prolongar uma ausência demasiado longa (desde 2006, no Festival Sunrise, no Algarve?).

 

Enquanto não podemos vê-los num palco próximo, vão chegando mais videoclips. O da faixa-título é já o terceiro (depois de "Crossfade" e "Obnouxiously Sexual") e inspira-se na capa do álbum para experiências de animação a antecipar a cenografia dos concertos, diz a Kompakt Records. A canção, a única instrumental do alinhamento, nem é dos momentos mais brilhantes mas mostra que os islandeses também sabem jogar no campeonato dançável de uns Chemical Brothers:

 

Os cinco estarolas (e uma aventura a meio gás)

 

O nível de expectativa em relação à maioria dos blockbusters de Verão - e aos deste em particular - anda tão em baixo que um divertimento razoável como "Guardiões da Galáxia" parece ganhar logo direito a ser celebrado, seja nas bilheteiras ou por boa parte da crítica. Tanto melhor para a Marvel, cuja aposta em James Gunn, escolha pouco óbvia e que alguns consideraram arriscada, não só foi um trunfo como já garantiu uma sequela.

 

O realizador norte-americano tinha demonstrado em "Slither - Os Invasores" (2006) e "Super Quê?" (2010) que os ambientes de série B e de super-heróis, respectivamente, não lhe eram estranhos, e esta adaptação de um grupo de personagens cósmicas e marginais da BD deve muito a essas linhagens.

Mas é pena que Gunn nunca consiga manter um tom ao longo de duas horas irregulares, indecisas entre o saudável desvario de uma aventura paródica, acção pouco mais do que rotineira (sobretudo na recta final) e momentos dramáticos intrusivos, ainda mais forçados do que as recorrentes tentativas de humor (estas a variar entre o habilidoso, em alguns jogos de linguagem divertidos, e o aparvalhado, como numa péssima e decisiva cena da batalha final que quase deita o filme abaixo).

 

Se é verdade que "Guardiões da Galáxia" não se leva tão a sério como outras adaptações de super-heróis, o que só lhe fica bem quando tem um guaxinim ou uma planta antropomorfizados entre as personagens, também não chega a ser a viagem delirante que os seus melhores episódios sugerem - Guillermo del Toro, por exemplo, saiu-se bem melhor a combinar excentricidade, ironia e acção na saga de Hellboy, em especial no segundo filme.

 

 

O que começa como uma perseguição ágil que vai juntando cinco anti-heróis com personalidades contrastantes - e doses generosas de mau feitio, irresponsabilidade e oportunismo - acaba formatado por uma ode à união e à amizade que perde a graça quando vai acumulando sequências melosas, tão artificiais como a colecção de extraterrestres. O argumento episódico e genérico não ajuda muito e é basicamente uma desculpa para entrecruzar o quinteto e explorar a sua dinâmica. Pelo caminho ficam algumas boas ideas, como a mixtape de canções foleiras dos anos 70 guardada religiosamente pelo protagonista, embora até esta se esgote ao fim de duas ou três cenas.

 

Chris Pratt e Zoe Saldana têm carisma, desenvoltura, química e fazem o que podem com as duas personagens que mais resistem à caricatura, mesmo que não consigam resistir às imposições românticas do argumento, também elas a expor a mão pesada do lado dramático. Já Glenn Close, Benicio Del Toro, John C. Reilly, Djimon Hounsou ou Josh Brolin são reduzidos a cameos de luxo, apesar de tudo com mais presença do que Lee Pace, vilão baço a lembrar uma personagem descartável de "He-Man" e não tanto a versão de Ronan, o Acusador da BD, mais ambígua e intrigante. Mas nem era preciso a ameaça ser fraca para adivinhar como termina esta jornada, por muito que Gunn tente enganar-nos com perigos ao virar do planeta...

 

 

As brumas de "Par Avion"

 

Dez anos depois de formarem os Xeno & Oaklander, Sean McBride e Liz Wendelbo parecem ter pouca vontade de abandonar o caminho entre a coldwave e synth pop crepuscular, já percorrido desde o disco de estreia, "Vigils" (2006). E se calhar ainda bem, porque "Par Avion", o novo e quarto álbum, volta a mostrar que a dupla de Brooklyn conhece esses domínios como poucos.

 

Não é um caminho particularmente novo, os Visage, Ultravox ou New Order dos primeiros tempos que o digam. E às vezes nem tenta ir muito além da mera revisitação, mesmo que inegavelmente meticulosa. Mas pelo menos os adeptos de electrónica sombria, minimalista e cinemática deverão agradecer canções como "Par Avion" ou "Sheen".

 

Na primeira, a voz distante de Wendelbo marcha por um tapete de sintetizadores e drum machine, em modo sorumbático mas hipnótico - o videoclip, de imagem granulada e tons sépia, filmado em Budapeste, parece ter saído directamente do lado mais obscuro dos anos 80, à medida da canção. Já "Sheen" é dos temas mais arejados de sempre dos Xeno & Oaklander, a lembrar uns Vive La Fête menos expansivos e a sugerir que ainda vai havendo, aqui e ali, alguma margem de manobra para contornar o nevoeiro cerrado: