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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Cara a cara

 

"Joyland", o segundo álbum de Trust, foi uma das primeiras boas surpresas musicais do ano e continua bem colocado entre a selecção de edições a reter lá para o final. "Are We Arc?", o novo single, é uma porta de (re)entrada sugestiva para o universo de Robert Alfons, à qual não faltam os inimitáveis contrastes vocais já habituais no canadiano, a unir timbres graves e agudos. A estranheza sai diluída pelas texturas electrónicas, que caminham da introspecção para a celebração numa bela amostra da synth pop gótica presente no disco.

 

Infelizmente, o videoclip está longe de ser tão aliciante como a música. O grande plano do rosto de Alfons começa por lembrar o de Thom Yorke em "No Surprises", dos Radiohead, só que as variações de iluminação e dimensão esgotam-se ao fim de poucos segundos. Claro que a canção vale por si, mas era legítimo esperar mais depois de um videoclip (aliás, dois) como o de "Capitol", o single anterior. Aqui fica ele, de qualquer forma:

 

 

Queer Lisboa 18: Ela, ele e os outros

 

"Appropriate Behavior", de Desiree Akhavan: É difícil não pensar em "Girls" ao vermos esta primeira obra de uma realizadora que acumula também as funções de argumentista e actriz principal. Mas se o arranque parece oferecer apenas mais uma comédia new yorker e hipster - ambientada em Brooklyn, nem mais -, Desiree Akhava consegue ir deixando algumas singularidades ao longo de um filme sempre a crescer no nível de graça e interesse. Shirin, protagonista inspirada nela própria, é uma jovem neurótica, desbocada e insegura cuja ascendência iraniana torna ainda mais complicado apresentar a sua namorada aos pais. O fim do relacionamento marca o início de um filme que alterna presente e passado e vai acrescentando camadas a uma personagem com um potencial para criar irritação ao primeiro embate. "Appropriate Behavior" diverte (às vezes, muito) pela forma como a vai atirando para situações constrangedoras, quase sempre motivadas pela sua atitude, mas tem o cuidado de não a espezinhar ou massacrar. Desiree Akhavan gosta demasiado de pessoas para isso, dá-lhes a possibilidade de redenção e sabe como conjugar sarcasmo e ternura. No final, acaba por ser difícil não ganharmos afeição por Shirin, aí já longe de uma sucedânea da série de Lena Dunham e muito mais a voz de uma autora a ter debaixo de olho.

 

 

 

"L’Armée du Salut", de Abdellah Taïa: Esta adaptação do livro homónimo feita pelo próprio escritor - que se estreia aqui na realização - estava a ser interessante q.b. até parecer terminar a meio do segundo acto. Dividida em dois períodos temporais, acompanha o despertar sexual de um adolescente de Casablanca - em particular a sua curiosidade pelo irmão já adulto e encontros fugazes com homens mais velhos - e reenconta-o dez anos depois na chegada a Genebra. Alicerçado em planos longos, com enquadramentos rigorosos, que impõem um ritmo pausado, a primeira parte é a mais intrigante e trabalhada, apresentando sem qualquer histeria uma realidade familiar e social conturbada. Ao dispensar por completo o recurso à música - tirando a que eventualmente marca o espaço da acção -, reforça o efeito realista de um drama sóbrio, embora meio inconsequente quando os episódios na Suíça denunciam alguma falta de rumo. Não deixa de ser uma primeira obra promissora, que não merece atenção apenas por ser assinada pelo primeiro escritor árabe a assumir-se como homossexual, mas havia aqui material e sensibilidade para um filme com outro peso.

 

 

 

"Xenia", de Panos H. Koutras: Ser irregular no ritmo e no tom nem sempre é uma desvantagem nesta muito curiosa surpresa do cinema grego recente. A jornada de dois irmãos adolescentes em busca do pai que os abandonou poderia ser a premissa da novela das sete e este road movie não tem medo de ser tão histriónico e camp como algumas delas - ou como alguns filmes de Gregg Araki, John Waters (sem a acidez) ou o habitualmente comparado Pedro Almodóvar (fase loucos anos 80). Panos H. Koutras insufla estas mais de duas horas com uma overdose de ideias, nem sempre boas ou bem aproveitadas, é certo, mas acompanhadas por um coração talvez ainda maior. E se a emoção se sobrepõe muitas vezes à razão, pelo menos o gesto é impecavelmente replicado pela dupla protagonista: o irmão mais novo, viciado em doces, sempre com o coelho de estimação na mala e sem problemas em assumir a sua orientação sexual apesar de olhares repressores; e o mais velho, mais contido (e infelizmente com menos tempo de antena) mas com o sonho de ser cantor, o que o leva a participar num concurso televisivo talentos musicais. A atenção às personagens não se esgota neles e há pequenos papéis a reter, de uma aspirante a cantora cujo olhar triste vale por muitos diálogos (e deixa ecos de uma realidade que o olhar optimista do filme não evita) a uma mãe de família com um sentido prático imbatível, mesmo numa situação insólita. Do misto de humor e melancolia, entre sequências musicais e oníricas, nasce um filme descarado e idiossincrático como poucos, quer se goste mais ou menos do resultado final.

 

 

"Appropriate Behavior", "L’Armée du Salut" e "Xenia" são três apostas da 18ª edição do Queer Lisboa, a decorrer até 27 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca

 

Cuba livre

 

No papel, "La Partida" pode parecer uma variação cubana de "O Segredo de Brokeback Mountain": o segundo filme do espanhol Antonio Hens centra-se na relação entre dois rapazes - colegas de uma equipa de futebol amadora - nascida do companheirismo e reforçada com o envolvimento amoroso e sexual. Ambos comprometidos, um deles casado e com um filho, os protagonistas deste drama não têm, no entanto, assim tanto com comum com os do filme de Ang Lee, mesmo que a narrativa não escape a algumas semelhanças.

 

Em vez da homofobia, que não deixa de estar presente, o maior entrave a uma vida em comum é o dinheiro, ou a falta dele, que obriga a situações de dependência extrema: num caso, dos negócios do sogro; no outro, da prostituição junto de turistas do sexo masculino - conhecida, consentida e até encorajada pela família (sobretudo por uma avó avarenta) como meio mais fiável de subsistência.

 

E quando o dia a dia tem de ser contado ao milímetro a partir da carteira, os planos para um futuro, até o mais próximo, são pouco mais do que sonhos, por muito que o escapismo momentâneo - a partir de encontros secretos no terraço de um prédio - chegue a iludir os protagonistas (num dos casos, de forma irreversível).

 

 

Mais do que a dinâmica da aproximação/negação/reconciliação(?), vista e revista em muitos filmes sobre o coming out - embora aqui até seja abordada com nervo e sensibilidade -, "La Partida" vale pelo retrato que deixa não só sobre os dois rapazes, mas do cenário que os envolve. Não mostra uma Havana tão castradora como a de "Antes que Anoiteça", biopic do escritor Reinaldo Arenas - a prostituição masculina é aceite, encarada como um mal necessário enquanto chamariz de turismo gay -, o que não quer dizer que os protagonistas tenham a vida facilitada. Um novo par de ténis de marca pode ser uma prenda enganadora, o futebol é mais tábua de salvação do que actividade de lazer, o jantar depende do reencontro num quarto de hotel com um homem mais velho...

 

Depois da estreia promissora com "Clandestinos", já há seis anos, Hens supera-se num filme menos efervescente, embora mais complexo e equilibrado, sem deixar de manter uma energia palpável tanto nos ambientes como no elenco de actores maioritariamente amadores - todos credíveis, com destaque para os principais, impecáveis na fuga para a frente das suas personagens.

 

Sem cair em julgamentos, mas também a evitar escamotear as consequências das acções dos protagonistas, o realizador espanhol sabe contar uma história de forma ágil, urgente, num belo retrato da entrada na idade adulta que só fraqueja no final, a resvalar para a vitimização de dramas menos astutos sobre a homofobia. Nada que não se desculpe quando o investimento emocional nos protagonistas foi tão bem desenvolvido e reclamado, ao ponto de deixar até os mais cínicos com o coração nas mãos em algumas das últimas cenas...

 

 

 

"La Partida" é um dos filmes (e boas apostas) da 18ª edição do Queer Lisboa, a decorrer até 27 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca

 

Uma lista, dez livros

 

A propósito de uma corrente recente no Facebook - e, já agora, porque os livros não têm passado muito por este blog -, fica aqui uma lista de dez obras literárias que me marcaram, a maioria de há uns dez anos para cá. Sem quaisquer pretensões de as considerar as melhores, as obrigatórias ou algo que se pareça, apenas porque valeram bem o tempo empregue e o efeito ainda deixa algumas réplicas de vez em quando:

 

"1984", George Orwell

"Artigo 22", Joseph Heller

"Enquanto a Inglaterra Dorme", David Leavitt

"Hey Nostradamus!", Douglas Coupland

"Lucky Jim", Kingsley Amis

"O Jardim de Cimento", Ian McEwan

"O Jornalista Desportivo", Richard Ford

"O Último dos Savage", Jay McInerney

"Por Quem os Sinos Dobram", Ernest Hemingway

"Sangue do Meu Sangue", Michael Cunningham

 

E quem quiser continuar a corrente está à vontade...

 

Mãos ao ar (em nome da boa pop)

 

Enquanto não há novo disco dos Ladytron - e ainda parece demorar a chegar - vai havendo, pelo menos, música nova de alguns dos seus elementos. Daniel Hunt prepara a estreia dos Tamoios, aventura paralela em São Paulo, e no ano passado produziu o primeiro álbum de Marnie, uma das vocalistas da banda de Liverpool.

 

As canções de "Crystal World" ainda não dão sinais de cansaço, mas a cantora e compositora não quer ficar por aí e já tem um single novo, "Wolves", inspirado pelo referendo sobre a independência da Escócia embora não o aborde directamente. Tal como nos Ladytron e no disco a solo, a electrónica continua a ser o caminho a seguir e volta a gerar bons resultados. E também como em grande parte de "Crystal World", a matriz parece ser "Gravity the Seducer", agora numa versão ainda mais polida e directa.

 

Infelizmente, um refrão orelhudo e imponente não parece ser suficiente para que um single destes consiga furar a maioria das playlists, sejam televisivas ou de rádios de "grandes músicas" - e assim algumas distinções continuam dar má fama à pop. Ainda haverá esperança? Marnie até nos convence que há sempre, numa bonita ode à mudança a pedir mãos no ar, como no videoclip:

 

Para dizer adeus ao Verão

 

"International", o terceiro álbum dos Lust for Youth, chegou ao mundo em inícios de Junho mas é na despedida do Verão que as suas canções passam por palcos portugueses - no próximo sábado, dia 20, na Zé dos Bois, em Lisboa, e na noite seguinte no Maus Hábitos, no Porto. Calha bem, porque se este é o disco mais veraneante dos suecos também não deixa de lado uma melancolia pouco condizente com excessos de sol e praia.

 

Longe da faceta mais negra, opaca e experimental dos registos anteriores, "International" abraça o pós-punk e a synth pop e tanto recua três décadas - para voltar aos New Order ou The Beloved - como não destoa ao lado de reapropriações mais recentes - algumas texturas lembram a electrónica baleárica de uns Delorean ou Beat Connection.

 

Momentos como o spoken word em italiano de "Lungomare" ou as atmosferas de "Basorexia" e da viciante faixa título mantêm o mistério dos primeiros dias do projecto de Hannes Norrvide (aqui pela primeira vez no formato banda), mas as maiores surpresas são temas reluzentes e imediatos como "New Boys", escolha quase inevitável para single e já com videoclip. Agora é ver como corre esta mudança de estação em palco...