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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A nova ordem chilena dança-se aqui

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Se os Pet Shop Boys ou os New Order tivessem filhos ou netos chilenos, podiam muito bem ser os DËNVER. Este duo ele & ela é, ao lado de Javiera Mena ou Gepe, uma das maiores exportações da pop electrónica do país, que se tornou ainda mais sintética no último álbum, "Sangre Cita" (2015), já o quarto de uma discografia iniciada há dez anos.

 

Entre o alinhamento está aquele que é também o novo single, além de uma óptima porta de entrada para a banda de Mariana Montenegro e Milton Mahan. "EL FONDO DEL BARRO", rebuçado dançável com embalo house, é um lamento amoroso cantado, como sempre, na língua materna da dupla, inspirado por desilusões adolescentes que também passam para o videoclip a preto e branco - protagonizado por um grupo de amigos a procurar no karaoke o escape possível para corações partidos, explicou o grupo.

 

Apontado às pistas de dança, o tema não vai nada mal como hino de fim de Verão e serve de pretexto para (re)descobrir um álbum a guardar outras surpresas, melancólicas mas docinhas, em canções como "Yo para ti no soy nadie" ou "Noche profunda". Vale?

 

 

Dois amores, uma trivialidade e uma raridade

Há muito a descobrir no QUEER LISBOA 20 e pouco tempo para ir dando conta de tudo. Do balanço (positivo) dos últimos dias, ficam aqui as impressões de quatro filmes do festival que está até 24 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca. De França ao Chile, da comédia ao drama, da curta à longa-metragem:

 

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"THÉO ET HUGO DANS LE MÊME BATEAU", de Jacques Martineau e Olivier Ducastel: Começa com uma longa cena de sexo gay, em grupo, que vai rapidamente do erotismo a cenas explícitas q.b., mas se esse arranque é dos mais crus que se têm visto (e mais bem filmados, já agora), este drama ambientado numa madrugada em Paris tem pouco de gratuito e escabroso. Pelo contrário, depois do primeiro impacto, o filme do duo de realizadores franceses salta para a fantasia romântica sem que se perca pelo caminho, sabendo como desenhar o nascer de uma intimidade que vai muito para além dos corpos, a partir do encontro da jovem dupla protagonista entre dezenas de estranhos, continuando a envolver com a jornada nocturna por ruas pouco óbvias da cidade do amor. "Antes do Amanhecer", de Richard Linklater, será uma aproximação quase imediata, pelo construir de uma relação apresentado quase em tempo real, e um episódio especialmente acarinhado da série "Looking" (centrado em Patrick e Richie) também vem à memória. Mas não faltam aqui singularidades, seja pela sombra do HIV que marca toda a acção - com direito a cenas algo didácticas sobre a profilaxia pós-exposição, é verdade - ou pelos traços de realismo social das breves conversas dos dois rapazes com terceiros (vincadas pela temática da imigração ou desemprego). E depois há, claro, François Nambot e Geoffrey Couet, actores praticamente desconhecidos mas com uma química e entrega que fazem com que se acredite, sem grandes reservas, neste amor à primeira vista.

 

 

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"ABSOLUTELY FABULOUS: THE MOVIE", de Mandie Fletcher: As protagonistas, agora já na casa dos sessenta, podem continuar fabulosas, mas o filme não o é tanto. A adaptação da muito popular britcom televisiva dos anos 90, há muito adiada, até consegue voltar a juntar o gang feminino que acompanhava Patsy e Edina no pequeno ecrã, e se para os fãs mais acérrimos será bom reencontrar as personagens, este salto para o cinema não tem grande motivo para existir além disso. Ou disso e de uma mão cheia de gargalhadas, distribuídas com algum ritmo nos primeiros dois terços mas a perder alguma eficácia mais para o final. A duração do filme, relativamente curta (hora e meia), acaba por ser demais para uma narrativa que não avança nem atrasa o status quo das personagens, colocando em jogo a tensão entre mãe e filha num modelo similar ao de demasiados episódios da série (com a diferença de Saffron ter menos para fazer aqui do que em alguns deles). Guardam-se alguns gags hilariantes (o do exercício físico de Edina ou os das reacções a notícias sobre Kate Moss são de antologia) e fica a tentativa de captar o ar do tempo (Uber e redes sociais incluídos), assim como a própria passagem do tempo com o envelhecimento a ser uma questão. Já a caracterização da comunidade LGBTI (do gay de serviço às pessoas trans) é só anacrónica, na linha de uma sitcom estereotipada dos anos 90. Uma sictom como... "Absolutamente Fabulosas". Afinal, para um filme ser cinema não basta ter projecção no grande ecrã...

 

 

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"ALFA", de Javier Ferreiro: Um actor porno não é de ferro. Nem mesmo quando se chama Alfa, como o protagonista desta curta-metragem lacónica e lânguida, profissional veterano que não consegue recuperar da perda do companheiro com o qual se iniciou na indústria dos filmes para adultos. O espanhol Javier Ferreiro segue-o durante quase 20 minutos entre os bastidores das filmagens, sem glorificar nem desdenhar a actividade, num retrato ficcionado que desconstrói, em ambiente de fim de festa, o mito do macho latino. Longe do fulgor dos primeiros tempos, o cubano Alfa Méndez é um corpo escultural que se move cada vez mais como um fantasma, DILF idolatrado pelos colegas mais novos mas sem o motor amoroso para que o contacto físico mereça ser filmado. O estudo de personagem é mais ensaiado do que verdadeiramente consumado, mas isso será mais limitação do formato do que de um realizador e um actor que parecem estar em sintonia.

 

 

rara

 

"RARA", de Pepa San Martín: A premissa desta longa-metragem de estreia abre logo portas para a militância, ao basear-se num caso verídico de um casal de mulheres que perdeu a custódia das filhas de uma delas para o pai. Mas em vez de um panfleto, este drama chileno traz o melhor do cinema sul-americano recente (do realismo árido ao aprumo do elenco) e olha para as suas personagens sem juízos de valor nem condescendências, sejam elas crianças ou adultos, hetero ou homossexuais. Guiado pelo olhar de Sara, a filha mais velha, o resultado vai da serenidade ao caos familiar, com uma conjugação de melancolia e humor a vincar também a entrada na adolescência da protagonista e a procura de um lugar avesso a rótulos fáceis e limitadores. Sem ser um caso de tremenda originalidade, o filme mostra uma segurança invulgar (ou rara, lá está) para uma primeira obra, sobretudo ao conseguir ser emotivo e comovente sem nunca escorregar para rodriguinhos de gosto duvidoso. Dificilmente se negará aqui o estatuto de promessa, como dificilmente se sai da sala sem um nó na garganta, imprescindível num bom relato sobre os dilemas do crescimento.

 

Escola shoegaze, classe de 2016

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Nova chamada de atenção para um dos bons (embora já algo esquecidos) álbuns do ano. Depois de "On My Heart" e da fantástica "Ablaze", "SIGNALS" é agora o single retirado de "SVIIB", o quarto disco dos SCHOOL OF SEVEN BELLS.

 

O projecto, que conta apenas com Alejandra Deheza (Benjamin Curtis, a outra metade da dupla norte-americana, morreu vítima de um linfoma em 2013 mas ainda colaborou nos últimos temas), tem-se destacado desde o início pela sua pop atmosférica de perfil shoegaze e a aposta mais recente não foge à regra. Só que antes de chegar ao frenesim envolvente de guitarras, no refrão, "SIGNALS" tenta um flirt com as novas formas do r&b tanto pelo modo de cantar da vocalista como pela batida minimal.

 

A mistura funciona e oferece um dos momentos mais directos do álbum, por isso não é grande surpresa que chegue a cartão de visita oficial - já com videoclip protagonizado por Alejandra entre ambientes urbanos e sci-fi. E se ajudar para que muitos queiram ir conhecer o que está para trás, tanto melhor, porque vale tudo a pena:

 

 

Uma estreia absolutamente fabulosa e outros filmes

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Eddy e Patsy estão de volta e não faltam à inauguração do QUEER LISBOA 2016. A 20ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer arranca às 21 horas desta sexta-feira no São Jorge, em Lisboa, com "ABSOLUTELY FABULOUS: THE MOVIE", passagem para o grande ecrã da série que marcou a britcom nos anos 90. Com a adaptação de Mandie Fletcher voltam também as protagonistas, Jennifer Saunders e Joanna Lumley, assim como outras actrizes do elenco regular da sitcom - além de Kate Moss, envolvida num acidente que dá o mote ao filme com exibição única nas salas portuguesas no festival (repete no sábado, dia 17, às 17h15, até porque a sessão de sexta já está esgotada).

 

O destaque da sessão de encerramento, a 24 de Setembro, também partiu do pequeno ecrã. "LOOKING: THE MOVIE", o muito aguardado telefilme de Andrew Haigh ("Weekend"), fecha a história de Patrick e das outras personagens da série da HBO que gerou culto e controvérsia. Esta estreia nacional será a última das mais de 100 dedicadas à produção LGBTI recente, novamente através de curtas e longas-metragens, da ficção e do documentário, de secções competitivas ou das Noites Hard, Panorama ou Queer Art exibidas no Cinema São Jorge e na Cinemateca.

 

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A programação inclui também as já habituais exposições e a secção Queer Pop, ambas de entrada livre - com a segunda a recordar este ano Freddie Mercury, Annie Lennox e a videografia de Derek Jarman, realizador alvo de uma retrospectiva mais ampla ao longo do evento.

 

Entre as novidades do festival mais antigo da capital está também o espectáculo "50. Orlando, ouve", de André Murraças, homenagem às vítimas do tiroteio na discoteca Pulse, nos EUA, que conta com a participação de 50 pessoas - anónimos, actores e figuras públicas - e estreia no palco do São Jorge na primeira noite, antes da sessão de abertura.

 

E como do arranque ao encerramento a escolha é mais vasta, e nem sempre tão óbvia, ficam por aqui sugestões de CINCO FILMES A TER EM CONTA ao longo desta 20ª edição (ficando mais algumas já prometidas para os próximos dias):

 

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"GOAT", de Andrew Neel: É dos filmes mais falados da secção Panorama, depois do burburinho que deixou nos festivais de Sundance ou de Berlim. Um dos motivos terá sido a participação de Nick Jonas (esse, o ex-elemento da boyband), outro o facto de ter James Franco como actor e produtor. Mas não falta quem elogie a crueza deste drama ambientado numa universidade norte-americana, que promete uma espécie de bromance on acid - pela forma como leva ao extremo os rituais de iniciação masculinos nas fraternidades. Ah, e um dos argumentistas é de David Gordon Green ("George Washington", "Joe", "Prince Avalanche").

 

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"LAS LINDAS", de Melissa Liebenthal: "Do you know what it feels like for a girl?", perguntava Madonna numa canção há uns anos. A autora deste documentário pode nem ser fã da rainha da pop mas volta a lançar a questão, centrando-se na forma como a mulher é vista e nas pressões (sobretudo de imagem) a que continua a estar sujeita. A realizadora argentina, até aqui com um percurso nas curtas-metragens, baseia-se na sua própria experiência, recuando à infância e ao arquivo pessoal de fotos e vídeos. E felizmente não parece levar-se demasiado a sério num filme já premiado no festival de Roterdão.

 

rara

 

"RARA", de Pepa San Martín: A mãe de Sara vive com outra mulher, o que para ela não é um problema mas para o pai está longe de ser pacífico. E esse incómodo pode propagar-se a terceiros nesta primeira longa-metragem de uma revelação chilena que se destacou no teatro (como actriz e encenadora) e teve uma curta premiada em Berlim. Em vez do dramalhão de outros relatos sobre a homofobia, o filme tem sido elogiado por uma candura que não trai o realismo acentuado pelo elenco e argumento. Um potencial boa surpresa (mais uma) do cinema sul-americano.

 

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"SPA NIGHT", de Andrew Ahn: Centrado numa família de imigrantes coreanos de Los Angeles, este drama distinguido em Sundance chega depois de duas também elogiadas curtas LGBTI. O realizador norte-americano, mas com raízes da Coreia do Sul, volta a deixar indícios autobiográficos ao acompanhar um rapaz dividido entre o desejo e a tradição, partindo dos seus encontro num spa local. A maioria das reações tem destacado o ritmo paciente e o tom minimalista, mas também a subtileza e personalidade deste olhar sobre a(s) identidade(s).

 

Taekwondo

 

"TAEKWONDO", de Marco Berger e Martín Faria: Depois de ter sido destacado no Queer Lisboa, com os "Plan B" e "Ausente", ou no Queer Porto, com o mais recente "Mariposa", Marco Berger volta à programação do festival e à secção competitiva. Desta vez, o realizador argentino colaborou com o conterrâneo Martín Farina (vindo do cinema documental, publicidade e videoclips), embora os seus temas não pareçam ter mudado muito: este é mais um filme sobre a amizade entre dois rapazes, desta vez durante umas férias, com outros amigos, numa casa de campo nos arredores de Buenos Aires. Mas se seguir os passos dos anteriores, vai ser bom.