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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Para uma rave ao anoitecer

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A vénia dos Dusky a alguma música de dança dos anos 90 já era uma das marcas do duo londrino, mas num single como "Yoohoo" é especialmente inegável. Da estrutura rítmica 4/4 à presença do piano, o tema resulta num pedaço de deep house tão directo como os que Alfie Granger-Howell e Nick Harriman têm vindo a deixar, tanto no álbum de estreia ("Stick By This", de 2011) como nos vários EPs editados entretanto.

 

Não por acaso, o sample vocal é de "Catch", dos Kosheen, banda que também deve alguma coisa à electrónica dançável de há duas décadas, e o videoclip, com animação retro inspirada em flyers de festas desses tempos, não destoaria na programação do saudoso "Chill Out Zone", da MTV. Mas nem é preciso ter experiência em raves para aderir ao crescendo de euforia (o título não engana), seja na versão original ou na editada, com metade da duração:

 

 

O amor está no ar

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"Interstellar" passa tanto tempo deslumbrado consigo próprio que raramente resulta na experiência deslumbrante que prometia.

 

Christopher Nolan quer envolver-nos a todo o custo nesta saga familiar e espacial maior do que a vida (e capaz de percorrer boa parte do universo), mas nem a música épica (e tão intrusiva) de Hans Zimmer, nem as várias discussões científicas (com uma overdose de cenas expositivas), nem as reviravoltas abundantes (não falta o clímax, por sinal bem conveniente, de fazer cair o queixo aos mais impressionáveis) servem de muito quando o filme está tão pouco interessado nas personagens.

 

Sim, a relação entre um pai e uma filha é indissociável da missão que procura novos mundos para salvar a Humanidade, condenada à extinção, só que "Interstellar" faz quase sempre um retrato à base dos rodriguinhos mais óbvios e preguiçosos (a derrapar para diálogos de telenovela), com personagens que servem, antes de mais, um percurso de unir os pontos.

 

Matthew McConaughey e Anne Hathaway bem se esforçam, e às vezes até conseguem, desenhar pessoas credíveis (apesar de ele ter feito papéis mais desafiantes ultimamente e de ela ser obrigada a debitar um discurso risível lá para o fim), mas serão a única excepção num filme que apregoa o amor como poucos - e de forma escancarada - sem parecer amar, ou sequer gostar por aí além ou interessar-se minimamente, pelas personagens.

 

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E assim vemos uma Jessica Chastain invulgarmente desconfortável com o pouco que lhe dão, um Michael Caine a fazer de Michael Caine pela enésima vez (mais muleta do argumento do que outra coisa), uma participação dispensável de Matt Damon que só parece estar lá para injectar alguma acção ou dois astronautas (os que acompanham McConaughey e Hathaway) reduzidos a paisagem. Que o robô da nave tenha mais personalidade do que qualquer um deles não surpreende num filme em que até o protagonista se esquece da personagem do filho (para quê chamar Casey Affleck para uma mais uma cena de tensão forçada, então?).

 

O argumento vai sempre pedindo que se aceite muita coisa (começando logo pela forma tão despachada como o protagonista adere à missão) sem se preocupar em retribuir o investimento com inspiração à altura.

 

O espectáculo visual sai a ganhar ao drama familiar, mas até esse é servido em doses muito moderadas quando "Interstellar" dura quase três horas - pelo menos para quem já viu meia dúzia de filmes de ficção científica. Sequências como a de uma onda gigante e algumas imagens do espaço (as do buraco negro ou do buraco de verme) impressionam, como impressiona um cenário que também surpreende o protagonista perto do final, a confirmar que há por aqui algumas boas ideias. Só é pena que fique tão pouco na retina e no coração ainda menos...

 

 

 

Um regresso à maneira dela

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Onde está e por onde andou Macy Gray, a voz do multiplatinado e premiado "On How Life Is?" (1999), um dos discos mais populares da viragem do milénio?

 

Aparentemente, as dúvidas sobre o paradeiro de Natalie Renée Barry McIntyre, o nome de baptismo da cantora de 45 anos em tempos comparada a Billie Holiday, Nina Simone ou Tina Turner, foram fortes o suficiente para que Oprah se debruçasse sobre o assunto no especial "Where Are They Now?" emitido há poucos dias.

Talvez não fosse caso para tanto. Os fãs mais atentos poderiam ter dito à apresentadora que Gray nunca se afastou da música desde o famigerado disco de estreia, abanão em terrenos soul e r&b ao revelar uma voz pouco consensual - com uma rugosidade que nem a própria cantora apreciava -, mas também singular e inconfundível. Ainda assim, a dúvida era legítima. Afinal, o sucesso comercial e crítico de "On How Life Is?" nunca conheceu uma réplica significativa nos anos que se seguiram, durante os quais Gray também se aventurou pelo grande e pequeno ecrã como atriz (de "Ally McBeal" ou "Dia de Treino" ao mais recente "The Paperboy - Um Rapaz do Sul").

 

"Tive todo o sucesso ao início e acho que não tinha um plano para o manter. (...) Tomei-o como certo e pensei que ia ser sempre assim", assumiu a cantora no especial televisivo. E não se ficou por aqui, realçando que o deslumbramento de principiante abriu caminhou para o fascínio e dependência de drogas - superada nos últimos anos -, rotina que chegou ao ponto de a levar a adormecer em várias entrevistas.
Este olhar para trás não se esgotou na conversa de "Where Are They Now?" e inspira também "The Way", álbum em que Macy Gray lamenta algumas más escolhas logo na faixa título ("I'd like to make it up to all of you that I disappointed (...) I think of all the mistakes that I made"). Mas felizmente o oitavo disco de estúdio nunca se aproxima da auto-comiseração e encara os problemas de frente, com o carisma e atitude de que os anteriores nunca abdicaram apesar da irregularidade dos alinhamentos.

 

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"Aprendi muito. Acredito que tive de passar por essas coisas para ser o que sou hoje. Deixar as drogas, deixar de ser uma idiota... tive de passar por tudo isso", confidenciou também. Essa lição de vida ajudará a explicar a quantidade de canções optimistas e luminosas de "The Way", que poderiam passar por moralistas e tolinhas com uma voz menos vivida. As palmas e coros do final de "Need You Now" talvez não escapem a facilitismos radiofriendly, mas "First Time", por exemplo, sai-se inacreditavelmente bem enquanto ode graciosa à descoberta do amor já na ternura dos quarenta, com um casamento feliz entre pop e soul.

Posto isto, "The Way" seria um disco mais interessante caso a produção não fosse quase sempre tão limpa. Pelo menos é isso que sugerem alguns dos seus melhores  momentos, como "Bang Bang", atípico acesso rock a marcar a vertente orgânica do álbum (uma viragem face aos mais sintéticos "Big", de 2007, e "The Sellout", de 2010) e um arranque a sério depois de "Stoned", tema de abertura competente mas pouco empolgante. 

 

Outra canção forte, "I Miss the Sex" nasce da promiscuidade do baixo, piano e percussão e mostra a faceta mais desbocada de Gray, que noutras vozes poderia tornar-se gratuita mas aqui parece perfeitamente natural. Sem papas na língua, a norte-americana não tem problemas em abordar o que mais a interessava num ex-companheiro e a marcha instrumental jazzy/funky vai muito bem com os seus sussurros.

 

 

Também motivada pela libido, agora num tom leve e festivo, "Hands" foi uma escolha certeira para single, já que é mesmo das faixas mais imediatas e contagiantes. Em ambiente disco, não demora muito a atirar-se a um refrão orelhudo com uma despretensão que podia ensinar alguma coisa a muitas estrelas da pop atual.

Mas se atribuíssemos o galardão de canção majestática do disco, iria obrigatoriamente para "Queen of the Big Hurt", e nem seria pelo título. Óptimo exemplo de soul orquestral, assenta numa pompa que compensa a segunda metade algo discreta e plana de "The Way" e, tal como a faixa título, dá conta da montanha-russa emocional vivida por Gray, entre sucessões de tentativas e erros. "I could be good to you/ Give me time to heal from it", garante, com uma forma vocal ao nível do festim de cordas e metais.   
 
À semelhança do que ouvimos nos discos anteriores, canções deste calibre são mais exceção do que regra, mas isso não nos impede de saudar o regresso da cantora aos originais depois de dois álbuns de versões em 2012 (a propósito, quem mais se atraveria a editar dois álbuns de versões no mesmo ano - um de temas dos Radiohead, Yeah Yeah Yeahs, Nina Simone ou Eurythmics, outro a rever "Talking Book", clássico de Stevie Wonder -, ambos com releituras estimáveis?). Um regresso a juntar aos de Neneh Cherry e Kelis, outras vozes inspiradas pelo r&b e soul de vistas largas (com algum mau feitio à mistura, e ainda bem), mesmo que "The Way" seja mais conservador do que "Blank Project" e não tenha a coesão de "Food". Às vezes, no entanto, ouvir Gray a cantar "Life is beautiful", no último tema, com uma convicção e voracidade ao alcance de poucos, é meio caminho andado para manter um disco destes por perto.

 

 

 

O Inverno está a chegar

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A receita quase sempre à base de IDM, techno e electro que fez de Chris Clark um dos nomes fortes da Warp Records - e, por arrasto, da electrónica experimental actual - parece longe de esgotada, 13 anos depois da estreia do britânico. Pelo menos é essa a impressão que fica de "Winter Linn", cartão de visita mais recente do novo e sétimo álbum, homónimo, deste produtor que entende a música como uma escultura.

 

Uma das metas do novo disco era, aliás, desenhar uma uma cápsula de som invencível, conforme o músico tem defendido em entrevistas, reforçando ainda mais a sua já de si minuciosa atenção às texturas. O videoclip de "Winter Linn" é, então, um dois em um: não só apresenta um bloco sonoro denso e musculado, embora elástico, como o acompanha com as imagens de esculturas entregues a rodopios, servidas por Christopher Hewitt, que ajudam a tornar o resultado mais desconcertante - mas sempre dançável e viciante, na linha das melhores construções sonoras de Clark:  

 

 

Cidade sob pressão

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Aos primeiros episódios, "Gotham" não consegue disfarçar a sensação de ter gerado mais alarido por aquilo que poderia (e deveria) ser do que pelo que é.

 

Para fãs de BD e de Batman em particular, este recuo à infância de Bruce Wayne e às origens da galeria de vilões do seu alter ego (talvez a melhor dos comics) torna-se, à partida, numa proposta quase irrecusável, com uma variação do universo da personagem da DC tão diferente das versões em papel como das transpostas para o pequeno e grande ecrã até agora.

 

Desta vez, a principal diferença será o foco não tanto no vigilante mascarado mas no Comissário Gordon, aqui uns anos antes da versão mais popularizada, ainda como jovem inspector. Só que o que prometia ser um olhar renovado sobre uma das cidades mais emblemáticas da BD acaba por não se distanciar assim tanto de demasiadas séries policiais, desde a rotina de um caso por episódio (mesmo que haja acontecimentos que os unem) à própria dinâmica do polícia impoluto que tenta contrariar a corrupção do sistema (e que, para não variar, tem como parceiro um veterano cínico e habituado a ceder).

 

Não ajuda muito que o polícia em causa seja Ben McKenzie, a ex-estrela de "The O.C.: Na Terra dos Ricos" que trocou o sol da Califórnia pelo céu quase sempre cinzento de Gotham sem mudar o registo interpretativo, sisudo ou apenas inexpressivo. Além de o protagonista já não ser o mais carismático, a cidade não consegue impor-se como personagem, embora a direcção artística até seja uma das mais valias da produção. A atmosfera, mais Nolan do que Burton, também é mais serviçal do que envolvente, com uma procura de realismo que faz desta uma cidade genérica, apesar das particularidades de alguns dos seus habitantes.

 

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Claro que tem sempre alguma graça ir acompanhando as pistas sobre os vilões em potência, umas bastante óbvias, outras nem por isso, mas por enquanto faltam aqui personagens de corpo inteiro e diálogos que as reforcem. A morte dos pais de Bruce Wayne, mote narrativo e dramático, desperta pouco mais do que um encolher de ombros, tal a forma indiferente e rotineira como é apresentada. E até as cenas seguintes com a criança que virá a tornar-se no Batman parecem mais uma obrigação do argumento, com uma evolução esquemática e telegrafada, do que momentos capazes de gerar especial empatia ou surpresa. Nem seriam grande problema caso a relação amorosa do protagonista tivesse alguma química, uma personagem como a de Selina Kyle (a futura Catwoman) fosse minimamente credível e insinuante ou não houvesse por aqui um ex-romance lésbico embaraçosamente forçado (mais uma vez, as actrizes em questão não ajudam).

 

O Pinguim, na pele de Robin Lord Taylor, é talvez a única figura que consegue realmente deixar marca, ao misturar vulnerabilidade, obstinação, calculismo e uma demência crescente, trazendo assim alguma desordem a este conjunto de personagens e situações-tipo que, para já, estão muito longe do delírio ou assombro que uma cidade como Gotham merecia...

 

 

"Gotham" estreia esta terça-feira, 11 de Novembro, na Fox, Fox Crime, FX e Fox Movies, a partir das 22h15.