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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O respeitinho é muito bonito

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"Os jovens já não têm respeito", queixa-se um dos gangsters veteranos de "GOMORRA" lá para o final da primeira temporada da série italiana, inspirada no livro e no filme homónimos de Roberto Saviano e Matteo Garrone, respectivamente. O lamento deve-se ao estado de guerra civil instaurado pelo clã Savastano, um dos mais poderosos da Camorra de Nápoles, quando o jovem sucessor do líder, entretanto aprisionado, não consegue manter a ordem no sistema de narcotráfico.

 

Mesmo numa história tão marcada pelo crime e violência (demasiado próxima de factos reais, tanto que o autor do livro continua a ter a cabeça a prémio), há valores que devem ser preservados. E dessa aparente contradição resulta o melhor de uma produção que não teme ir longe no desafio que lança ao espectador: interessar-se pelo percurso de figuras no qual é impossível optar entre o lado bom e mau, apenas pelo mal menor.

O dilema não é novo e tem motivado alguns fenómenos televisivos dos últimos anos, de "Breaking Bad" a "House of Cards" ou "The Americans", séries onde as zonas de cinzento se impõem ao choque entre o preto e o branco. "GOMORRA" tem sido mais comparada a "Os Sopranos" ou "The Wire", embora as suas personagens não sejam tão carismáticas (ou até calorosas) como as da primeira nem haja uma estrutura narrativa tão cerebral como a da segunda, apesar de estes 12 episódios se aventurarem pelos vários meandros da corrupção de Nápoles com uma crueza pouco habitual no pequeno ecrã.

 

Se o premiado filme de 2008 optava por um modelo mais abstracto, vincado por um tom documental, a série arranca de forma talvez demasiado reverente em relação a sagas familiares da máfia já vistas tanto na televisão como no cinema. Mas esse respeito é só aparente, e ainda bem: tal como os gangsters mais jovens tentam quebrar os códigos instituídos, "GOMORRA" não demora muito a meter-se por atalhos pouco óbvios e a oferecer variações a um tipo de história já muito vista.

 

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O realismo dos locais é impressionante, já que as cenas foram filmadas nos próprios bairros dominados pelo tráfico de droga, e o olhar de Stefano Sollima, Francesca Comencini e Claudio Cupellini, o trio de realizadores, conjuga bem acessos de adrenalina com uma atmosfera geral de tensão e angústia. Esta verosimilhança invulgar completa-se com um elenco escolhido a dedo, dos principais aos secundários, tanto que algumas personagens que só surgem num ou dois episódios conseguem ser mais cativantes do que protagonistas de outras produções - com destaque para dois irmãos adolescentes, impecavelmente interpretados, decisivos para o desenlace.

 

Alternando entre a tradição e a desconstrução, "GOMORRA" incomoda sem deixar de ser envolvente, como quando baralha as pistas e torna supostos anti-heróis em figuras mais extremas do que os aparentes vilões - sem que a viragem tenha ares de manobra calculista, dando até mais peso a este retrato da natureza humana e instinto de sobrevivência. Talvez ganhasse com mais personagens femininas, quase sempre secundarizadas, por muito que Donna Imma, a matriarca do clã, vá ganhando peso dramático e passe de decoradora de salões exóticos a estratega improvisada sem pestanejar.

 

Quando o resultado tem esta intensidade, não surpreende que a série tenha sido distribuída por mais de 50 países desde a estreia, no ano passado - por cá, passou há poucas semanas na RTP2, de forma algo despercebida. E já há uma segunda temporada em preparação. Como Roberto Saviano salientou em entrevistas, "GOMORRA" pede algum tempo para gerar uma relação de confiança com o espectador, mas depois não trai o pacto: trata-o com respeito e merece reacção à altura.

 

 

 

Trópico de capricórnio

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Nomi Ruiz deu voz a alguns dos primeiros temas dos Hercules & Love Affair, deixou o grupo para se dedicar a outro, JESSICA 6, do qual é mentora, mas não mostrou novas canções desde 2011, ano da edição de "See the Light", álbum de estreia desse desse trio.

 

Enquanto não há um segundo longa duração previsto, o regresso da nova-iorquina faz-se com "The Capricorn", EP editado há poucos dias e a mantê-la associada à música de dança, entre ambientes nu disco e R&B com sensualidade reforçada.

 

"DOWN LOW", o novo single, está longe de ser tímido nas alusões sexuais, que casam muito bem com a aura nocturna da canção, desenhada a partir de uma manta de sintetizadores sombrios a envolver a voz e de um ritmo midtempo mas dançável q.b.. O flirt da promoção do EP completa-se no videoclip, que elege como cenário o Red Light Disctrict esloveno e faz questão de confirmar o regresso em forma:

 

 

Volta ao mundo em três dias

Noite esgotada, castelo repleto, África escolhida como protagonista. O FESTIVAL MÚSICAS DO MUNDO (FMM) despediu-se de Sines no sábado depois de ter arrancado em Porto Covo, na semana anterior, e fechou em alta com uma dupla pai e filho. Mas houve outros concertos para recordar...

 

FMM_Sines_publico

 

Quando a oferta é muita... a curiosidade é atiçada? Tem sido assim em Sines nos verões dos últimos 17 anos e a edição mais recente do FMM voltou a ser ocasião para reencontros e descobertas, romarias de avós e netos (juntos ou em separado), concertos gratuitos e pagos (alguns agendados, outros improvisados em qualquer esquina sem serem encarados como parentes pobres).

 

Quem, como eu, só conseguiu passar por lá nos últimos três dias ainda teve exemplos suficientes da diversidade do cartaz, que tenta encaixar cinco continentes nos poucos metros entre o castelo e a praia (e, ao contrário da maioria da oferta da estação, não dá primazia à facção anglo-saxónica).

 

Bruno Pernadas mostrou o lado mais exótico da prata da casa, com harmonias vocais e um combo instrumental a servirem de brisa de final de tarde. Chegados do outro lado do mundo, os chineses Shanren extremaram os contrastes num caldeirão com raízes locais e condimentos entre o rock, o reggae e até o metal, conjugados com simpatia e humor. Menos surpreendente, Alo Wala, norte-americana de ascendência indiana, serviu música de dança mestiça contaminada por hip-hop ou dancehall demasiado encostada a M.I.A. (a imagem reforça a comparação), mas capaz de instalar a festa sem dificuldades na última noite, em modo discoteca ao ar livre - o jogo de luz e cor ajudou, tal como a explosiva "In a Minute", faixa em que colaborou com os Buraka Som Sistema. E se não terão faltado outros concertos a deixar marca (houvesse tempo para espreitar todos), as melhores recordações ficaram por conta dos três abaixo:

 

TOUMANI & SIDIKI DIABATÉ no Castelo - sábado, 25 de Julho

 

Toumani_&_Sidiki_Diabaté

 

Pai e filho, o espiritual e o espirituoso, dois músicos que valeram por pelo menos seis. Porque como explicou Toumani, a kora, tocada por ambos, equivale a três instrumentos (e a sua música nasce da conjugação entre baixo, melodia e improviso). A "missão de vida" destes malianos, realçou também o pai, era "mostrar a beleza de África" e será seguro dizer que foi cumprida sem contrariedades.

 

Actuais representantes de uma tradição com mais de 700 anos, nascida da peculiar harpa de 21 cordas, Toumani e Sidiki são também dois dos nomes centrais da música do Mali - o pai, veterano respeitado, já colaborou com Björk, Damon Albarn ou Ali Farka Touré; o filho é uma estrela hip-hop em ascensão que não descura a herança cultural familiar. A Sines trouxeram as canções do álbum "Toumani & Sidiki" (2014), o único editado em conjunto até agora, já apresentado em Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. Para quem ainda não o conhecia, terá ficado como uma das maiores revelações desta edição do FMM, até porque as actuações que fecharam a última noite no castelo, a cargo de Salif Keita e Orlando Julius & The Heliocentrics, limitaram-se a muito profissionalismo com pouco rasgo.

 

Sem tanta pompa, a dispensar o formato a caminho da big band, a dupla Diabaté mostrou que menos pode ser mais ao enlear milhares em instrumentais cristalinos, cujo aparente minimalismo esconde camadas atravessadas por sugestões de melancolia a esperança. A introspecção nem sempre se deu bem com uma multidão em horário nobre - quanto mais longe do palco, mais incomodativo era algum burburinho do público -, mas nem isso abalou a experiência por aí além.

 

Pelo meio houve espaço para um mini-workshop de kora, oferecido por Toumani, o mais comunicativo do duo - também foi ele que apelou, no fim, a que os dirigentes políticos valorizassem mais o plano humano do que o económico, pedido complementado por "Lampedusa", tema de homenagem a migrantes ilegais desaparecidos no mar. Aparentemente mais despreocupado, Sidiki equilibrou a seriedade e comoção do pai com um à vontade inabalável, quase sempre traduzido em gestos e olhares. Da óbvia química entre os dois nasceu um concerto a provar que a beleza de África passa mesmo por aqui - e é bom ouvir alternativas aos surtos de kizomba duvidoso de tantas outras paragens. Para ouvir: "Dr. Cheikh Modibo"

 

 

IVA NOVA na Avenida da Praia - sexta, 24 de Julho

 

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A primavera russa começa em Sines? Foi o que pareceu ao ver esta girl band que de girly pouco teve. The Organ meets Yann Tiersen é só um eventual princípio de canções mutantes com atitude à altura e adesão imediata - a folia dos Gogol Bordello entrecruzada pela electrónica e dicção de Mãozinha (lembram-se?) poderia ser outra entrada possível. Mesmo assim seriam só aproximações à singular "technofolk" (a classificação é da vocalista) deste quarteto de São Petersburgo. Aliar (ou confrontar) tradição e modernidade não é novidade, em alguns casos até é aposta arriscada - sobretudo quando a modernidade resulta em música "modernaça" -, mas as Iva Nova parecem uma aposta confiável, pelo menos ao vivo.

 

A apresentação do quarto álbum, editado no ano passado, motivou a estreia em Portugal e deixou a vontade de conhecer também os anteriores. Não terão, claro, o bónus de permitir testemunhar o gozo e entrega de uma banda decidida a aproveitar cada momento junto de um público que cresceu em número e entusiasmo. Da postura rock n' roll da baixista e da baterista ao lado mais circense da acordeonista e da vocalista, não faltou desenvoltura nem episódios a guardar.

 

"Hoje é o dia da emancipação feminina", comentava alguém enquanto o grupo fazia a ponte entre a tarde e a noite à beira-mar. Mas para as Iva Nova esse grito já parece ter chegado em 2002, quando se juntaram para levar a palco histórias tristes de noivas búlgaras (um dos idiomas das canções, ao lado do georgiano, ucraniano e, claro, russo) que terminam em ambiente de festa na aldeia patrocinada por Goran Bregovic. E que bonita foi, à imagem da banda. Para ver e ouvir: "Spring" (ao vivo)

 

 

IDIOTAPE na Avenida da Praia - quinta, 23 de Julho

 

Idiotape

 

Antes destes três coreanos subirem a palco, foram apresentados como uma banda inspirada pelo rock conterrâneo clássico dos anos 60 e 70 - descrição confirmada pelo site do festival. Mas não é preciso conhecer muito o rock coreano clássico para desconfiar que a música dos Daft Punk, Digitalism, Vitalic ou Justice terá sido tão ou mais influente (com ênfase no mais).

 

Resposta sul-coreana ao french touch? É tentador dizer que sim, e se chega com atraso não deixa de ser eficaz naquilo a que se compromete. Para o horário das quatro da manhã, este ataque sónico de house e electro maximal cumpriu perfeitamente, pelo menos para quem já sabia no que se ia meter: entre batidas robustas, ritmos acelerados, crescendos desenfreados mas geridos por quem tem a lição bem estudada.

 

A electrónica é dominante, mas o rock também acaba por passar por aqui, apesar de este power trio só manter a bateria da formação instrumental clássica (em palco, porque o baixo e a guitarra também se ouvem, embora sintetizados). A presença dos músicos não passou despercebida e nem foram precisas palavras para a energia dos três incitar reacções do público - compare-se com as estrelas DJs da geração EDM e vejam-se as diferenças. Também é verdade que esse poderio, a amplificar a vertente live, não chegou para evitar um alinhamento a rodar em seco na recta final, vítima de alguma rigidez rítmica. Mas a atenção foi devidamente resgatada na despedida, com um trunfo muito bem jogado: "Sabotage", dos Beastie Boys, disparada com embrulho electrónico. Depois de Seul e Paris, Nova Iorque dos anos 90 ajudou a fazer a noite. Não admira que o novo disco se chame "Tours"... Para ouvir: "Melodie"

 

 

Fotos @Facebook do Festival Músicas do Mundo

 

Jogos de guerra

Depois de um filme tão primário e condescendente como "Sniper Americano" ter sido visto e comentado por meio mundo há uns meses, é pena que "MORTE LIMPA" não esteja a receber sequer um décimo da atenção. Porque mesmo sem ser uma obra-prima, é um retrato bem mais adulto e ambíguo da luta contra o terrorismo, a milhas dos facilitismos ideológicos e dramáticos desse biopic de Eastwood.

 

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O novo filme de Andrew Niccol ("Gattaca", "O Senhor da Guerra", "Sem Tempo") também nem tenta, diga-se, despertar grande mediatismo. A discrição com que tem sido recebido condiz com a sobriedade do olhar centrado no dia-a-dia de um oficial da Força Área norte-americana, cada vez mais frustrado por ter sido obrigado a deixar os céus para se dedicar a uma rotina que quase se confundiria com um banal trabalho de escritório... não fosse o caso de implicar a coordenação de missões de drones, com uma guerra travada à distância através de comandos e ecrãs.

 

Em vez do sangue, suor e lágrimas do campo de batalha, "MORTE LIMPA" destaca-se por uma abordagem quase asséptica aos moldes do filme de guerra, com as tragédias provocadas e testemunhadas pelo protagonista e colegas a aproximarem-se dos cenários virtuais de um videojogo. Mas que nem por isso deixam de causar estragos, sejam estes físicos, em território inimigo (ou pelo menos suspeito disso), ou psicológicos, como o quotidiano da personagem encarnada por Ethan Hawke trata de atestar.

 

Apesar de optar por um tom pausado, contemplativo, distante da urgência de outras abordagens à guerra, Niccol não deixa de imprimir algum nervo a um filme que coloca em cheque a conduta dos EUA - e da CIA em particular - sem cair em histerias anti-americanas. A galeria de personagens secundárias dá conta dessa ambivalência moral, às vezes até de forma demasiado denunciada (algumas teriam a ganhar com mais tempo de antena), e o percurso do protagonista acaba por ser a reacção possível (e credível) ao estado das coisas. Não é muito imaginativo - o refúgio do oficial no álcool e depressão, com caos conjugal incluído, está longe de ser novidade -, mas pelo menos é justo e bem defendido, que pelo argumento quer pelo elenco - além de Hawke, com uma gravidade raras vezes vista, há uma competente January Jones e uma Zoë Kravitz intrigante, cujo olhar facilmente rouba as cenas.

 

A quarta temporada de "Segurança Nacional", por exemplo, também se atirou às novas regras do jogo bélico - equacionando o peso da morte à distância de um clique e a desigualdade de forças daí resultante - juntando-lhe ingredientes narrativos capazes de enriquecer a abordagem à temática, não se esgotando nesta. "MORTE LIMPA" voa deliberadamente mais baixo, e se essa opção, esquemática q.b., corta parte do apelo, não compromete a inteligência, rigor e carga emocional do resultado. Além disso, Niccol continua a ser um esteta capaz de deixar imagens na retina sem carregar no exibicionismo formal: o contraste entre a aridez desolada do Médio Oriente e a de uma (não tão) festiva Las Vegas só reforça a singularidade desta boa (e demasiado discreta) surpresa.