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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Uma estreia nada desastrosa

slovenlie

 

Electrónica metronómica da escola Nine Inch Nails, voz sussurrante a deixar saudades de Shirley Manson na fase inicial dos Garbage, texturas nebulosas que acomodam uma letra com algumas farpas ("It’s not your fault that you’re weak, it’s just your nature/ You only get by ‘cause you look good on paper").

 

Assim se apresenta SLOVENLIE na sua primeira canção, "DISASTER", exemplo de uma pop densa e de contornos industriais que não rejeita, apesar de tudo, a intromissão de teclados house lá para o final - e que aproxima a britânica de outros projectos recentes nascidos de vozes femininas, sintetizadores e pulsão rock, como os SPC ECO ou Brody Dalle.

 

A escolha dos produtores do disco - Neil McLellan (Prodigy) e Steve Dub (Chemical Brothers, Leftfield) - sugere que as canções sucessoras deverão chamar electrónica e guitarras, provavelmente com mais vestígios dos anos 90. Por agora, fica um tema capaz de espicaçar a curiosidade em torno da cantora de Newcastle, já com videoclip necessariamente atmosférico:

 

 

Apetece-nos algo bom

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OSCAR diz-se fã dos Elastica ou dos Wannadies e "Cut and Paste", o seu álbum de estreia, não engana: tal como esses dois nomes mais ou menos esquecidos da década de 90, o cantautor e multi-instrumentista londrino sabe criar um refrão orelhudo que não se gasta à primeira - como já sabia, aliás, num EP promissor editado há dois anos.

 

O título do disco também não engana: há pouco de novo nesta indie pop (sempre muito brit), com cortes e colagens que remetem para os Blur dos primeiros tempos (outra paixão assumida) ou para os Smiths (aqui culpa da voz de barítono, comparada à de Morrisey, ou pela melancolia ocasional destas canções soalheiras).

 

Mas a urgência da novidade conta pouco quando as dez faixas do álbum passam a correr - algumas nem chegam aos três minutos - e a maioria candidata-se seriamente a paixoneta de Verão (pelo menos). É o caso de "GOOD THINGS", o novo single, com direito a tempero dub entre o tal refrão açucarado:

 

 

Os soldados da fortuna

O melhor filme da Marvel? Não falta quem garanta que "CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL" merece essa distinção, mas há pouco cinema por aqui - por muito que a máquina esteja bem oleada e tenha eco bem expressivo nas bilheteiras.

 

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Quem se queixa da overdose de super-heróis no cinema tem no novo filme da Marvel um bom pretexto para reclamar mais. Não é que a terceira aventura de Capitão América no grande ecrã seja um atentado ao género, mas por esta altura sobra pouco do encanto da primeira e da relativa ousadia da sequela.

 

Nenhum dos filmes anteriores era um título especialmente marcante, mas pelo menos sabiam o que queriam ser. "CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL" fica indeciso entre um "Vingadores: Guerra Civil" ou um "Capitão América: O Soldado do Inverno 2" enquanto ainda tem de encaixar pelo menos dois novos super-heróis com aventuras em nome próprio já confirmadas: Pantera Negra, cuja introdução até faz algum sentido na narrativa, e o muito aguardado Homem-Aranha, enfiado a martelo numa batalha que já seria problemática sem a presença estapafúrdia de um adolescente sem experiência em campo.

 

Em vez do caos com ressonâncias trágicas da saga da banda desenhada que inspirou o filme, a guerra civil do grande ecrã é basicamente um treino descontraído entre amigos, mera desculpa para uma demonstração vistosa de efeitos especiais e uma colecção de piadinhas de sitcom. Pior é que, como noutros momentos do filme, o argumento se lembre de se tornar sério nas sequências seguintes, pedindo que nos preocupemos com personagens que não se deu ao trabalho de desenvolver. Chega a ser triste ver actores como Don Cheadle ou Daniel Brühl tão desperdiçados, o primeiro reduzido a mais um figurante entre muitos, o segundo a vilão de serviço (outro tiro no pé da Marvel neste departamento) que se limita a unir os pontos da acção (e logo com um plano inacreditavelmente rebuscado e inverosímil, mesmo já dando o desconto de ser utilizado num filme de super-heróis).

 

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Anthony e Joe Russo continuam a ser tarefeiros que gerem os recursos com eficácia mas sem traços de personalidade. Não fossem os uniformes das personagens, apesar de tudo icónicos, e tudo neste blockbuster seria genérico, da fotografia à banda sonora, da realização à narrativa, ainda que as suas duas horas e meia não cheguem a maçar e sejam ocasionalmente promissoras.

 

O dilema moral lançado ao início, sobre o papel dos vigilantes e a forma como podem (ou não) ser controlados, é chutado para canto quando os argumentistas preferem dar protagonismo a Bucky, mais uma vez uma personagem baça (o actor não ajuda), mais uma vez sujeita a controlo mental, mais uma vez com uma ligação emocional ao Capitão América que o filme não sabe como construir. Steve Rogers é, de resto, mais arrogante e até hipócrita nesta aventura do que em qualquer outra no cinema até agora, atitude que dinamita a simpatia que a interpretação de Chris Evans tinha acumulado. 

 

Cinema desta categoria chega, aliás, a perder na comparação com a televisão e nem é preciso ir além da que também se concentra em super-heróis. Alguns episódios de "Agents of S.H.I.E.L.D." são francamente mais imaginativos e não temem colocar as suas personagens em risco (afinal, não precisam de as guardar para os próximos filmes). E uma cena no apartamento de Matt Murdock em "Demolidor" consegue ter uma atmosfera mais palpável e envolvente do que este desfile de perseguições e reviravoltas (ainda que tudo acabe mais ou menos como estava no início). Melhor filme da Marvel? Nem sequer é o melhor filme de super-heróis deste ano, como "Deadpool" tratará facilmente de comprovar - e sem sequer precisar de ser grande cinema.

 

 

 

Cidade by night

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"NEW AGE THRILLER" era uma das canções mais cinematográficas do último álbum das U.S. GIRLS, "Half Free", editado no ano passado. Por isso, não admira que o videoclip do tema vá buscar inspiração a "Alphaville", de Jean-Luc Godard, enquanto propõe uma viagem nocturna por Toronto.

 

O passeio não é necessariamente turístico, ao incluir ruas abandonadas ou edifícios à beira da demolição, cenários entrecruzados com cenas de um casal, também a preto e branco, mais directamente ligadas aos relatos de experiências femininas (e não muito espirituosas) que marcam o disco.

 

A canção, tão sombria como as imagens, desvia-se das reminiscências dos girl groups dos anos 60, quase sempre presentes no projecto de Meghan Remy, para avançar duas décadas, até à atmosfera gótica de uns Siouxsie and the Banshees - ou das mais recentes Dum Dum Girls, que também alargaram a herança pós-punk no último álbum. Um bom motivo para voltar ao disco e, sobretudo, para marcar na agenda o concerto da banda no NOS Primavera Sound, no Porto, a 9 de Junho: