Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Há uma luz (alternativa) que nunca se apaga

leftfield2

 

Além dos Prodigy ou dos Chemical Brothers, os LEFTFIELD são outros veteranos da música de dança britânica que regressaram aos discos nos últimos meses. E com algum atraso: "Alternative Light Source" é apenas o terceiro álbum da então dupla (agora o nome fica por conta de Neil Barnes, depois da saída de Paul Daley) e chega 16 anos (!) depois do anterior, "Rythm and Stealth".

 

Tal como o segundo disco, este dificilmente terá o impacto da estreia, "Leftism" (1995), masterclass de house progressiva influente num tempo de tensão pré-milénio - mesmo que a popularidade do duo fora de portas tenha sido uma fracção da que conseguiram outros conterrâneos e contemporâneos em terreno electrónico (além dos nomeados acima, a lista pode incluir os Underworld ou Orbital).

 

De qualquer forma, neste caso quem sabe nunca esquece e "Alternative Light Source" tem não só algumas boas canções como umas quantas boas companhias. Channy Leaneagh, dos Poliça, e Tunde Adebimpe, dos TV on the Radio, estão entre as vozes da guest list, ao lado de Georgia Barnes, filha do mentor do projecto cujo percurso a solo, iniciado há pouco tempo, tem despertado atenções.

 

Menos obrigatória é a colaboração com os Sleaford Mods, também convidados do último álbum dos Prodigy. Não que "HEAD AND SHOULDERS" corra particularmente mal, e até vai melhorando com audições repetidas, mas a rispidez vinda directamente das ruas destoa num alinhamento que tem outra inspiração nos momentos mais espaciais - caso dos instrumentais "Dark Matters" e sobretudo da belíssima união de texturas e melodia de "Storm's End" (ainda com lugar cativo entre as melhores do ano). Mas se o peso dos convidados ajudar a dar outro destaque ao álbum, tanto melhor, e aí percebe-se a escolha do tema para single. Nem de propósito, o videoclip começa nas ruas e salta para o espaço mais para o final:

 

 

Tudo ao molho e fé em Daryl?

Considerar "SENSE8" uma das grandes desilusões do ano talvez seja um exagero. Afinal, o currículo dos irmãos Wachowski nunca conseguiu repetir a façanha de "Matrix" e chegou a bater no fundo com "A Ascensão de Júpiter". Mesmo assim, a estreia da dupla na televisão, ainda para mais ao lado de J. Michael Straczynski (bem cotado na BD ou em séries como "Babylon 5"), tinha, à partida, ambição e ingredientes para virar a página.

 

sense8

 

Infelizmente, nestes primeiros doze episódios de uma temporada com sucessora já confirmada pelo Netflix, Larry e Lana ficam-se quase sempre pelas intenções. E até são boas intenções, com um ensaio humanista sobre a identidade nascido das experiências de oito estranhos, designados de "sensates", cujo elo telepático que os distingue acaba por cruzar os seus percursos.

 

História a história, país a país (cada sensate está numa parte diferente do mundo), esta mistura de drama, ficção científica, algum humor e acção vai juntando as peças do puzzle, encarado pelos Wachowski e Straczynski como plataforma para um elenco de temas quase tão vasto como as nacionalidades dos actores: discriminação, solidão, traumas familiares, identidade de género, orientação sexual, religião, clivagens sociais e ecocómicas, livre arbítrio ou a força do destino...

 

"SENSE8" quer ir a todas e ter um bocadinho de tudo para toda a gente, mas o resultado é mais indigesto do que aliciante. A interligação de personagens com origens e experiências tão díspares tem gerado comparações com séries como "Lost" ou "Heroes", e se é verdade que a nível narrativo há semelhanças, aqui é tudo muito mais fragmentado, genérico e arrastado. Essas duas séries estiveram longe de ser consensuais, sobretudo nos finais, mas contaram, pelo menos no início, com arrojo, ritmo, ideias fortes e, sobretudo, personagens carismáticas, qualidades que faltam por aqui.

 

O caso de Naveen Andrews é um bom exemplo. Depois de ter encarnado Sayid, uma da personagens mais ricas de "Lost", é completamente desperdiçado numa figura com o papel ingrato de unir os pontos (leia-se sensates). Pior ainda está Daryl Hannah, cuja confirmação na série prometia mais do que um cameo de luxo reduzido a mero motor da acção.

Isso nem seria um problema se os protagonistas fossem mais intrigantes, mas o argumento limita-os quase sempre a clichés sobre as suas nacionalidades - do exotismo de papelão da Índia (não falta sequer o casamento agendado pela família) à onda de crime sub-"Cidade de Deus" do Quénia - ou sexualidade - Nomi, a sensate transgénero, raramente escapa à vitimização, não existindo muito para além disso; já Lito, o mexicano galã de filmes de acção e homossexual reprimido, até é das personagens mais fortes, mas o seu arco narrativo tem a profunidade de uma telenovela (bem intencionada, é certo, pena que só isso não chegue).

 

sense8_lito

 

Ainda dentro dos lugares comuns culturais, quase ao nível de um live action ingénuo de "Capitão Planeta" e dos seus planeteers "étnicos", não dá para fugir muito ao da sensate sul-coreana, mulher de negócios com uma família problemática... e obviamente especializada em artes marciais. Essa capacidade é mais valorizada nos últimos episódios, que não perdem a oportunidade de a usar como solução para a maioria dos perigos, num dos exemplos-chave de preguiça criativa da série - e a deitar abaixo qualquer hipótese de risco.

 

É irónico, mas também triste, que duas das piadas recorrentes, com homenagens a aventuras de Van Damme ou Conan, o Bárbaro, acabem por ser empregues numa história que vai ainda mais longe do que as desses filmes no ridículo e espalhafato das cenas de pancadaria - com direito a vilões básicos e todos maus como as cobras, sem qualquer hipótese de ambiguidade.

 

Como pastiche, até podia ter alguma graça, mas em geral "SENSE8" leva-se terrivelmente a sério, sobretudo nas longas e recorrentes cenas de diálogos existenciais que tentam ser profundos mas tornam-se constrangedores, com ares de desabafo adolescente e filosofia de "fortune cookies". Esta tendência é ainda mais gritante no romance insípido entre o polícia norte-americano e a DJ islandesa, cujo drama banal do desfecho da temporada está a milhas do atrevimento e frescura que os teasers da série prometiam. A muito falada orgia na piscina, por exemplo, só realça um caso de muita parra e pouca uva, com um acesso pontual de irreverência (outro inclui uma cena de nudez frontal masculina, ainda rara em produções norte-americanas) numa série demasiado acomodada, dispersa e que parece não saber para onde vai - tanto que os arcos narrativos de boa parte dos protagonistas pouco avançam em 12 episódios.

 

Talvez esta primeira temporada funcione apenas como uma longa introdução para uma história com outro fôlego, capaz de tirar partido dos recursos que a série obviamente tem (os valores de produção, a premissa, alguns actores). Mas quando a oferta da concorrência é tanta (maior do que nunca, aliás), e em muitos casos tão superior, é preciso mesmo muita fé para continuar a seguir por aqui...

 

 

 

Sol música

RUFUS

 

Os australianos RÜFÜS não têm tido uma projecção fora de portas comparável à de conterrâneos como os Cut Copy, Empire of the Sun ou Presets, muito menos à dos (inexplicavelmente incensados) Tame Impala, mas um primeiro álbum como "Atlas" (2013) merecia alguma atenção, sobretudo no departamento electrónico mais virado para as pistas de dança.

 

Dois anos depois dessa estreia, já há sucessor garantido - ainda sem título nem data de lançamento -, nascido entre Berlim e Sidney e provável motivo de destaque da nova digressão do trio, que vai do seu país natal aos EUA (onde o grupo é conhecido como RÜFÜS  DU SOL).

 

Por agora, sabe-se que o segundo disco, quase terminado, vai voltar a juntar o formato canção e a vontade de dançar, com influências de Booka Shade e David August (reflexo da estadia na capital alemã) que já se fazem notar no primeiro single.

 

"YOU WERE RIGHT", mergulho numa tech house com espaço para a pop, é um bom aquecimento para o álbum e para uma sunset party menos obcecada com os hits da estação, a manter o flirt entre euforia e melancolia que se mostrou promissor na estreia. O videoclip, em cenário de fim de tarde, não é especialmente festivo mas também não esquece o apelo ao corpo:

 

 

Noiva em fuga (e um filme que chega de mansinho)

Embora não seja uma altura especialmente forte para o cinema, em plena silly season ainda vão chegando algumas surpresas às salas. É o caso de "O VERÃO DE MAY", segundo filme de Cherien Dabis (e o primeiro a estrear cá), casamento feliz de comédia e drama centrado num noivado não tão auspicioso.

 

o_verão_de_may

 

Quando May Brennan, escritora norte-americana de ascendência jordana, deixa Nova Iorque para passar algum tempo com a família em Amã, começa a questionar o que realmente quer enquanto prepara o casamento e o aguardado segundo livro. E à medida que vai convivendo mais com as duas irmãs e os pais (cuja separação ainda deixa marcas na rotina familiar), a estabilidade afectiva e profissional mostra-se mais frágil do que parecia à partida.

 

Além de realizadora, Cherien Dabis, norte-americana filha de pai palestiano e mãe jordana, acumula as funções de actriz principal e argumentista e sai-se bem em todas, com um atestado impressionante de charme e perspicácia. Não é caso único: a libanesa Nadine Labaki também conjugou essas valências em "Caramel", outro filme que seguia um grupo de mulheres (nesse eram cinco amigas, aqui são três irmãs) tendo como pano de fundo a conjuntura do Médio Oriente.

 

"O VERÃO DE MAY" será mais ligeiro do que a obra da autora de "E Agora, Onde Vamos?", ao optar (talvez demasiado) pela comédia romântica e de costumes, e até ameaça perder-se lá para o final, entre dois triângulos amorosos e uma reviravolta que surpreende mais as personagens do que o espectador.

 

Se estes desequilíbrios o impedem de ser um título para marcar o ano, ainda é uma proposta a espreitar neste dias: pelo acerto de todo o elenco (com um inesperado Bill Pullman ou Alia Shawkat, de "Arrested Development"), a força dos diálogos (sobretudo os mais marcados pelo humor), a elegância da realização ou a sensibilidade de Dabis para abordar questões culturais, sociais e religiosas sem simplismos e generalizações. May pode tentar fugir (do noivo, da família, da Jordânia), mas deixa-nos sempre agarrados ao filme.