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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Elogio às discotecas da província

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Como é ir viver para a capital depois de passar a infância e adolescência no interior? Praticamente todo o álbum de estreia dos REAL LIES faz o relato desse percurso, no qual a entrada na idade adulta coincide com a chegada a Londres, entre o deslumbramento e a desilusão.

 

Não por acaso, uma das faixas de "Real Life" que mais olha para trás é também uma das mais festivas, com o ritmo a reforçar a ligação a noites passadas em pequenas discotecas locais. Ou mesmo à única das imediações, lembra o trio em "ONE CLUB TOWN", o novo e enérgico single depois de canções mais introspectivas como "Blackmarket Blues".

 

A meio caminho entre uns Happy Mondays e os Blur de "There's No Other Way", o tema mantém a vénia à acid house ou à britpop palpável no restante alinhamento mas a inspiração até vem de outros lados. A banda aponta, sem sentimentos de culpa (e bem), o eurodance de êxitos sazonais na linha de "Dreamer", dos Livin' Joy, que acompanharam muitas madrugadas em meados dos anos 90, antes de uma cidade como Londres ser destino garantido.

 

Não admira, por isso, que o videoclip seja protagonizado por duas adolescentes, que se entretêm como podem a fazer tempo em tardes cinzentas enquanto o clube local não abre as portas. O resultado é menos frenético do que a canção, mas dá conta do recado:

 

 

Arrastando o seu cadáver

O protagonista de "THE REVENANT: O RENASCIDO" até pode ter sete vidas, mas o novo filme de Alejandro González Iñárritu morre logo no primeiro terço. Depois vai-se arrastando, arrastando, arrastando, como um Leonardo DiCaprio em modo mártir...

 

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A táctica do realizador de "Amor Cão" ou "21 Gramas" já vem de longe, dessas primeiras obras. A saber: atirar as personagens para uma espiral de sofrimento, passeando-a por vários males dos tempos modernos, muitas vezes num formato de filme-mosaico que o mexicano ajudou a disseminar há uns anos (e com resultados promissores). O discreto "Biutiful" e o famigerado "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" tinham alterado parte dessa lógica, elegendo e agarrando-se a um protagonista, e "THE REVENANT: O RENASCIDO" segue por aí enquanto recua uns séculos na narrativa. Leonardo DiCaprio agradece, naquele que tem sido o maior trampolim para uma ambicionada consagração da indústria que deverá cimentar-se com a atribuição, finalmente, da icónica estatueta dourada.

 

Mas não era preciso tanto... Do longínquo (e quase esquecido) "Gilbert Grape" ao mais recente "Revolutionary Road", aquele que foi um dos meninos bonitos do cinema anos 90 já tinha provado o que valia. Por outro lado, nesta adaptação do livro de Michael Punke inspirado na história verídica do explorador Hugh Glass, na América do século XIX, DiCaprio contenta-se em ser o boneco de um inventário de desgraças e situações-limite. É vê-lo desgrenhado, ensaguentado, desmaiado, mais a arfar do que a falar, no que se pretende um grande desempenho de (inegável) exigência física e olhares que dizem mais do que palavras. Ou então é só um esforço inglório, com um saco de pancada que nunca consegue impor-se como personagem, muito menos como protagonista magnético de um filme que vai (desnecessariamente) além das duas horas e meia de duração - veja-se a relação com a mulher e o filho, que nunca sai do cliché visual e simbólico em vez de procurar alguma singularidade e espontaneidade.

 

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O palco de calamidades é quase sempre ocupado por DiCaprio, mas é irónico que um secundário como Tom Hardy consiga fazer mais com menos, apesar de se limitar a um arqui-inimigo caricatural. Quando "THE REVENANT: O RENASCIDO" desvia as atenções para ele, esta história quase ameaça tornar-se no relato visceral e sufocante que promete, mérito da intensidade crua e primitiva que o britânico emana. Mas tirando um arranque relativamente enxuto (ou enxuto dentro do possível em Iñárritu), com a câmara a colar-se à pele dos índios e colonos numa sequência de tiroteio que até entusiasma ao atirar o espectador para o campo de batalha, o filme opta quase sempre por rendilhados óbvios, com exemplo mais gritante nos flashbacks melosos ou nas cenas oníricas de linha de montagem - numa tentativa, por vezes constrangedora, de poesia visual.

 

Se o muito falado ataque do urso ou a beleza das paisagens naturais podem justificar a compra do bilhete para alguns, não há grande coisa a reter de um drama plano e estereotipado, seja na vertente de história de sobrevivência ou de vingança, rematado por um conflito final tão previsível como pomposo - quando se pedia secura para estancar o lugar comum, Iñárritu escolhe mais uma vez o aparato sonoro, convidando cordas a percussão para chegar a um final mais do que telegrafado.

 

"Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" tinha desiludido, mas pelo menos contava com algum sentido de humor e distanciamento, um elenco de notáveis em forma (ainda que as personagens não tivessem muito espaço para crescer), a energia formal do falso plano sequência... Já "THE REVENANT: O RENASCIDO" é tão monocórdico e leva-se tão a sério que rapidamente satura e aborrece, nunca justificando a presunção e ficando a milhas de qualquer inquietação emocional. Depois disto, é Iñárritu quem precisa de renascer...

 

 

 

Quando eles são pin-ups

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Em vez de se lamentarem contra a objectificação feminina na música, e em especial nos videoclips, com ensaios amargurados sobre o assunto, os JOY FORMIDABLE preferem pagar na mesma moeda. Ou seja, através de um mashup de imagens com nudez masculina (ainda que não integral), sacadas tanto da cultura pop (filmes, TV, concertos) como de anónimos que exibem o corpo nos palcos virtuais.

 

A ideia é dar espaço, por uma vez, a um olhar feminino heterossexual - no caso, o da vocalista Ritzy Bryan - mais motivado por uma celebração descontraída da sexualidade do que por um voyeurismo agressivo, muitas vezes à custa da subjugação da mulher - o modelo dominante e normativo. Se no processo os homens acabam por ser objectificados, a banda galesa admite que não vê nisso um problema, desde que as imagens tenham consentimento dos visados. Num texto que deixou online, o trio realça que não condena a objectificação, só o facto de se centrar quase sempre no mesmo género. Menos tabus e mais diversidade, com Bruce Lee ou Iggy Pop a darem corpo ao manifesto.

 

Além da colecção de corpos masculinos, o videoclip de "THE LAST THING ON MY MIND" desvenda parte do que esperar do terceiro álbum do grupo, "Hitch", com produção de Alan Moulder e data de edição a 25 de Março. Mas a ousadia fica mais a cargo das imagens do que da música, ancorada num rock indie tão competente como domesticado: