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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

COMBATES SEM MURROS NO ESTÔMAGO

Depois do sobrevalorizadíssimo biopic “Uma Mente Brilhante” e do quase ignorado western esotérico “Desaparecidas”, Ron Howard assinala o regresso à realização com “Cinderella Man”, a sua visão sobre a história verídica de Jim Braddock, pugilista que se tornou célebre durante a Grande Depressão.

Paradigma do self-made man e de figura abençoada pelo sonho americano, Braddock teve uma carreira conturbada e irregular, vincada por múltiplas derrotas que quase o obrigaram a abandonar definitivamente os ringues de boxe e a sujeitar-se a outra ocupação.
Contudo, quando ninguém esperava, o pugilista provou ser um lutador – literalmente – e o seu empenho e perícia contribuíram para que se tornasse num símbolo de heroísmo e persistência.

Baseando-se nestes factos, “Cinderella Man” tem reunidas as condições para ser mais um filme centrado no triunfo sobre a adversidade, e é precisamente isso em que acaba por se tornar, apresentando mais um concentrado de esperança, optimismo e obstinação habitual no cinema mainstream norte-americano (e descaradamente orientado para os Óscares).

Esse elemento não é necessariamente mau, mas quando o mentor do projecto é alguém como Ron Howard os resultados dificilmente seriam os mais criativos e ousados. De facto, a película só a espaços consegue afastar-se do esquematismo que domina tantas outras obras do género, e aqui sofre ainda mais dessa tipificação ao apostar nos clichés dos “filmes de boxe”. Ou seja, uma lógica linear onde o espectador sabe que a fase inicial, geralmente amargurada, logo conduzirá a um desenlace próspero e profícuo.

Howard segue essa via formatada, e se até o faz com alguma competência – o ambiente de época está bem recriado, a fotografia e a banda-sonora não comprometem, o elenco (onde constam Russell Crowe, Rennée Zellweger ou Paul Giamatti) cumpre -, não evita cair na previsibilidade, apresentando personagens planas, um trabalho de realização sem rasgos e um argumento que raramente surpreende.

O maior problema, no entanto, é o da narrativa desigual, pois se os primeiros momentos do filme ainda expõem alguma fluidez a última meia-hora, uma sucessão de combates carregados de intermináveis pontos supostamente climáticos (que apenas geram uma tensão forçada e até manipuladora), faz com que os momentos que antecedem o desenlace sejam bastante redundantes e enfadonhos, atirando decididamente o filme para a mediania.

“Cinderella Man”, não obstante uma ou outra cena mais conseguida, é um título que não se afasta muito das obras habituais de Howard: produtos suficientemente eficazes, politicamente correctos, inofensivos, sem considerável marca autoral e que pouco trazem de novo ao Cinema. A vantagem é que também dificilmente insultam – pelo menos de forma gritante – a inteligência do espectador, o que nos dias de hoje já é um factor a salientar.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

O MEU CHOURIÇO É MELHOR QUE O TEU!

Pois é, o país está animado com a sempre entusiasmante fase de campanha eleitoral. Mas o que seria de uma campanha sem um cartaz à altura, sobretudo nos dias de hoje onde a imagem parece sobrepôr-se a tudo o resto?

Alguns dos cartazes mais... errr... "peculiares" podem ser encontrados aqui, e os três próximos visitantes do site ganham um chouriço caseiro (calma, esta parte do prémio era só um teste, mas digam lá se não é um isco apelativo?).

O DESPERTAR DAS MEMÓRIAS

Estreia de Omar Naïm na realização, “The Final Cut – A Última Memória” desenrola-se numa sociedade futurista marcada por novas descobertas tecnológicas, sendo uma delas um chip que é instalado no cérebro à nascença e que regista todos os momentos da vida de um ser humano, gravando as suas memórias. Estas recordações digitalizadas serão a base para a criação de vídeos após a morte daqueles que tiveram o chip incorporado, vídeos esses que são editados por especialistas e exibidos nos funerais.

Esta ideia daria para gerar um filme entusiasmante, pois fornece material suficiente para discutir questões éticas relacionadas com o direito à privacidade ou com a morte, mas o “The Final Cut – A Última Memória” não assenta tanto neste conceito e envereda antes por territórios do thriller, explorados de forma rotineira e pouco imaginativa, desperdiçando assim o considerável potencial da sua premissa.

Para além de um bom ponto de partida, a película de Omar Naïm conta também com actores talentosos, mas também estes são subaproveitados. Robin Williams, o protagonista, não é especialmente interessante no papel de um solitário editor de memórias que descobre uma marcante imagem ligada ao seu passado (a milhas da ambiguidade e complexidade da sua interpretação em “Câmara Indiscreta”, de Mark Romanek); Mira Sorvino tem uma presença demasiado discreta e uma personagem fraca para defender; e Jim Caviezel oferece um desempenho competente mas o argumento não o deixa fazer mais.

Assim, “The Final Cut – A Última Memória” está longe de ser uma primeira obra promissora, uma vez que Naïm não consegue proporcionar uma narrativa coesa e intrigante que poderia ter tornado este projecto num grande filme, tendo em conta que aborda o tema da memória, capaz de originar resultados absorventes (como “O Despertar da Mente”, de Michel Gondry; “Memento”, de Chris Nolan; ou “Pago Para Esquecer”, de John Woo, por exemplo).
O que resta é uma película insípida e monótona, incapaz de surpreender e desprovida de qualquer tensão dramática, que se vê sem esforço mas que dificilmente gerará boas memórias...

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

MIX DOS 90s

Um dos discos de estreia mais estranhos e inclassificáveis de finais dos anos 90, “Glee” apresentou ao mundo – ou a parte dele – os canadianos Bran Van 3000, colectivo de Montreal criado pelo DJ/ realizador de vídeos e documentários Jamie “Bran Man” Di Salvio que agrega quase 20 elementos e apresenta uma paleta sonora igualmente extensa.

Editado em 1998, o álbum é uma gigantesca amálgama de quase todas as sonoridades que marcaram a década, apresentando um ecléctico melting pot que inclui pop, soul, techno, trip-hop, rap, drum n’ bass, electrónica, folk, hip-hop, spoken word, funk, lounge, indie rock, R&B, reggae ou country, entre outras contaminações difíceis de catalogar.

Esta inegável diversidade é cativante e conquista pela ousadia e doses de desafio que expõe, mas também torna “Glee” num disco demasiado desequilibrado e fragmentado, que tanto gera momentos geniais e de antologia como oferece exercícios de um cut n’ paste algo inconsequente e enfadonho.

Felizmente, os episódios inspirados superam os mais banais, e algumas das primeiras canções do álbum são concentrados de energia contagiante, como o denso “Forest”, o melódico e viciante “Rainshine”, o fugaz e emotivo “Problems”, o intrigante e soberbo “Afrodiziak” ou o irresistível single “Drinking in LA”.
A recta final do disco é bem menos estimulante, uma vez que temas como “Old School”, “Willard” ou “Mama Don’t Smoke” não contêm uma mistura de géneros tão conseguida e seriam mais adequados como lados-b, pois apenas desequilibram um álbum que por vezes roça o brilhantismo.

Imprevisível e envolvente, por vezes intencionalmente kistch mas também subtil, a estreia dos Bran Van 3000 expõe uma atitude fusionista que aproxima a banda de nomes como Beck, Tricky, Beastie Boys, Cibo Matto, Luscious Jackson, Soul Coughing, Dee-Lite, Whale, Gorillaz ou Morcheeba, entre outros projectos que se destacaram pelo inventivo cruzamento de referências aparentemente distantes.

Muito bem produzido e com solidez a nível instrumental e vocal (as combinações das vozes de Jayne Hill e Sara Johnston, da cantora soul Stephane Moreille, do MC Steve “Liquid” Hawley e do próprio Di Salvio originam resultados muito entusiasmantes), “Glee” consegue conciliar vibração emocional a um apelativo sentido de humor, tornando-se num disco convincente e com personalidade mas que não é a obra-prima que por vezes ameaça ser pois dispara em várias direcções e nem sempre acerta. Quando o faz, no entanto, proporciona momentos que lhe permitem juntar-se à lista de álbuns muito meritórios – e injustamente esquecidos – dos anos 90.
 
E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM

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