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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ESTREIA DA SEMANA: "BREAKFAST ON PLUTO"

No seu novo filme, Neil Jordan ("Jogo de Lágrimas", "Entrevista com o Vampiro") segue o percurso de Patrick "Kitten" Braden, um jovem que cresceu na Irlanda dos anos 60 e que desde cedo aprendeu a estar sozinho, vendo a sua vida marcada pelo IRA, pela prostituição, pelo mundo do espectáculo ou pela transexualidade.
Protagonizado por Cillian Murphy (que depois de "28 Dias Depois" ou "Red Eye" parece continuar a testar a sua versatilidade), "Breakfast on Pluto" é um drama pouco convencional e uma das propostas cinematográficas a descobrir que chega hoje às salas nacionais.

Outras estreias:

"A Idade do Gelo 2: Descongelados", de Carlos Saldanha
"Ninguém Sabe", de Hirokazu Koreeda
"O Tigre e a Neve", de Roberto Benigni
"Vanitas + A Piscina", de Paulo Rocha

A CASA DE CAMPO

Filmes de terror portugueses não são propriamente algo que se encontre regularmente nas salas, antes pelo contrário, por isso “Coisa Ruim”, de Tiago Guedes e Frederico Serra – dupla com experiência na realização de anúncios publicitários, telefilmes e curtas-metragens – é um objecto que suscitava alguma curiosidade, uma vez que é uma das raras experiências nacionais com ligações a esse género.

A acção alicerça-se numa família lisboeta que se muda para uma pequena aldeia do interior, passando a habitar um velho casarão herdado pelo pai.
Se a maioria do agregado familiar não fica muito entusiasmada com o mais recente lar, excepto a figura paterna, que impulsionou a mudança, a simpatia com o novo local de residência reduz-se ainda mais quando este começa a ser marcado por estranhos e inquietantes acontecimentos. Aos poucos, os três filhos do casal vão tomando contacto com intrigantes visões ou com a audição de perturbantes ruídos, situação que afectará, também, os seus progenitores.

Embora a premissa da casa assombrada esteja longe de ser uma novidade enquanto elemento central de um filme de terror, “Coisa Ruim” consegue ultrapassar essa limitação ao assentar num argumento (escrito por Rodrigo Guedes de Carvalho) que não se preocupa somente em catalizar sustos e reviravoltas, mas principalmente em apresentar uma interessante perspectiva acerca dos mistérios, boatos, medos, lendas e costumes presentes nos interstícios de algum Portugal rural.

Questionando sobretudo os conflitos entre a razão e a crença ou a superstição, o filme não descura a esfera emocional das suas personagens, não as usando apenas como meros joguetes mas modelando-as enquanto figuras palpáveis e credíveis, perturbadas por dúvidas e receios bem humanos.
Neste aspecto, a direcção de actores é uma óbvia mais-valia, já que o elenco é bastante coeso e empenhado, algo que infelizmente coloca em causa muitas películas nacionais. Manuela Couto, no papel da mãe, oferece uma subtil e envolvente interpretação, e Adriano Luz, que encarna o pai, ou Afonso Pimentel, o filho mais velho, são também exemplo de um profissionalismo merecedor de elogios.

Rigoroso na construção do argumento ou na gestão do elenco, “Coisa Ruim” não o é menos na concepção visual, apostando numa realização fluida e segura, onde os hábeis enquadramentos são fulcrais para que as atmosferas sejam desenhadas de forma tão absorvente. O minucioso trabalho de iluminação ou as texturas da fotografia são outros complementos essenciais, evidenciando um sólido cuidado estético que nunca cai no exibicionismo.

“Coisa Ruim” acaba por não ser tanto uma história de terror mas antes um drama familiar, pontuado por algum suspense e bizarria, em que as personagens se debatem com fantasmas internos e externos. É certo que há por aqui paralelismos com obras de, entre outros, M. Night Shyamalan (nos silêncios carregados de tensão, no ritmo pausado) ou Alejandro Amenábar (notam-se ecos de “Os Outros”), mas o filme encontra um espaço seu ao focar um imaginário tipicamente português, abordado com competência e sentido atmosférico.


Pena o óbvio e apressado desenlace, cujo esoterismo exagerado o aproxima mais dos histéricos e pouco imaginativos exemplos de um certo estilo de terror norte-americano do que do desenvolvimento inteligente e sensato – e com espaço para a ambiguidade - que “Coisa Ruim” adopta durante a maior parte da sua duração.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

RECORDAR E DANÇAR

Uma das boas surpresas provenientes de domínios da música de dança dos últimos anos, “Destroy Rock & Roll”, de 2004, o álbum de estreia do escocês Myles MacInnes – mais conhecido como Mylo -, é um exemplo de que a política do do-it-yourself pode gerar resultados interessantes.

Recorrendo a pouco mais do que alguns programas de computador para trabalhar as suas composições, o músico criou o seu disco praticamente em casa, mas apesar da limitação de recursos “Destroy Rock & Roll” está longe de ser um trabalho amador, evidenciando uma produção milimétrica e criatividade q.b. na selecção de samples.

Os catorze temas que o jovem DJ apresenta não desbravam novos territórios, contudo exibem doses suficientes de consistência e energia, apostando em melodias bem estruturadas, quase sempre imediatas sem se tornarem cansativas.

Dominado por uma forte componente lúdica, com um peculiar sentido de humor presente em grande parte das canções, “Destroy Rock & Roll” é um contagiante party album que mistura electro, house, techno, disco, lounge e funk, proporcionando um virtuoso concentrado de ritmos viciantes onde o apelo dançável se torna irresistível.

Daft Punk ou Gus Gus são alguns dos nomes facilmente comparáveis, sobretudo nos momentos mais efusivos e dinâmicos (“Rikki”, “Paris Four Hundred”), enquanto que os episódios mais apaziguados e contemplativos (“Need You Tonite”, “Emotion 98.6”) remetem para traços semelhantes à faceta downtempo dos Röyksopp, Lemon Jelly ou Moby.

Apesar de notórias similaridades com estas e outras referências, Mylo não oferece um trabalho derivativo, expondo alguma carga inventiva enquanto criador de exercícios cut n’ paste tão eficazes como o mediático “Drop the Pressure” ou o seu sucedâneo “Doctor Pressure”, que cruza esse single com um êxito quase esquecido da década de 80, “Drop the Beat”, dos Miami Sound Machine.

A incorporação de sonoridades dos anos 80 manifesta-se, de resto, em muitas outras canções do disco, casos de “In My Arms” - assente um sample de “Bette Davis Eyes”, de Kim Carnes – ou “Destroy Rock & Roll”, onde Mylo refere muitos dos músicos que contribuíram para a destruição do rock durante essa malograda década (num exaustivo inventário que inclui gente tão diversa como Michael Jackson, Madonna, Duran Duran, Bruce Springsteen, Fletwood Mac, Prince, ZZ Top, Cindy Lauper, Neil Young ou Bananarama).

Fresco e coeso, ainda que demasiado longo, “Destroy Rock & Roll” não é genial mas coloca mais um nome interessante no vasto universo da música de dança, e espera-se por isso que esta estreia apelativa tenha continuidade à altura.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

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