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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

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HISTÓRIAS DA VIDA REAL

Elogiado em vários festivais internacionais, “Pavee Lackeen” é a primeira experiência na realização de Perry Ogden, fotógrafo inglês que, após ter criado um álbum fotográfico, “The Pony Kids”, sobre as precárias condições de vida de algumas crianças de Dublin, decidiu apostar numa longa-metragem relacionada com esse tema.

“Pavee Lackeen” fornece assim um retrato do dia-a-dia dos Viajantes, uma comunidade irlandesa que se desloca há anos por todo o país, e Ogden centra-se especialmente em Winnie, uma rapariga de dez anos que vive com a sua numerosa família numa conturbada zona industrial de Dublin.

Aproximando-se do formato do documentário mas contendo elementos ficcionais, o filme recorre a actores não-profissionais (a protagonista e familiares são interpretados pelos próprios) que se apoiam na improvisação durante a maior parte do tempo.
“Pavee Lackeen” emana, por isso, uma vibrante carga realista, remetendo por vezes para territórios de Ken Loach ou dos irmãos Dardenne, acentuando a vertente documental destes.

A película tem mérito por recusar enveredar pelo miserabilismo que o seu material de base poderia encorajar, pois embora contenha sequências que impressionam pela considerável crueza – como aquela em que Winnie e a irmã saem à noite, ou a do lacónico desenlace – nunca perde o respeito pela dignidade das personagens nem as usa como objecto de comiseração fácil.

No entanto, se a sua plausibilidade e autenticidade são absorventes, “Pavee Lackeen” evidencia graves fragilidades, cuja narrativa desarticulada e algo arbitrária é a mais forte, o que gera não só problemas no ritmo do filme mas também quanto à discutível relevância e duração de algumas cenas.

No geral, “Pavee Lackeen” é um objecto cinematográfico desigual, pois as suas boas intenções nem sempre compensam as suas limitações, e apesar de Ogden denunciar a discriminação e a pobreza de que os Viajantes são alvo, apresenta um olhar que deixa demasiados espaços em branco quanto aos modos de vida e cultura desta comunidade (nem sequer chega a perceber-se se a mãe de Winnie trabalha). Não deixa de ser uma película pertinente e meritória, ainda assim.
E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

NINGUÉM SABE

Através de "No Quiero Volver a Casa" (2000) e "Los Rubios" (2003), Albertina Carri impôs-se como uma das mais promissoras representantes do novo cinema argentino, cuja obra tem sido alvo de aclamação internacional e a aponta como uma cineasta a seguir.

"Géminis" (2005), a sua terceira longa-metragem, sugere novamente que Carri é um nome a juntar à lista de realizadores relevantes, ao proporcionar um retrato de uma família da classe média que, sob a capa de uma aparente normalidade, é vincada por segredos reprimidos e dolorosos.

Carri concentra essencialmente o seu olhar em Lucia, a mãe - que ao tentar instalar um clima de bem-estar na sua família de forma tão convicta acaba por se distanciar desta - e em dois dos filhos, Jeremias e Meme, cuja forte proximidade e cumplicidade os conduz a uma relação incestuosa.

Mantendo esse relacionamento à revelia dos restantes elementos da família, os dois adolescentes refugiam-se um no outro perante a indiferença de um pai ausente e a fixação da mãe por uma realidade de aparências e uma felicidade artificial, contudo essa ligação é colocada em causa quando mais alguém passa a ter conhecimento dela.

Embora seja um drama familiar marcado por uma questão polémica, "Géminis" desenvolve-se com uma assinalável sobriedade e equilíbrio, na medida em que Carri não cede a moralismos óbvios nem opta pela denúncia de um cenário "escabroso", oferecendo um retrato perspicaz e ambivalente, dispensando justificações fáceis.

Apoiado numa atmosfera palpável, lânguida e insinuante, o filme contém um intenso efeito realista sustentado não só pela fluência da realização e plasticidade da fotografia, mas também pelo rigor da direcção de actores.

A veterana Christina Banegas, no papel de Lucia, consegue tornar credível uma personagem que poderia facilmente cair na caricatura, e os jovens Maria Abadi e Lucas Escariz, apesar de estreantes, emanam espontaneidade e carisma, concedendo ambiguidade e energia a Meme e Jeremias.

Esta coesão de elementos faz com que "Géminis" seja uma obra segura durante a maior parte da sua duração, mas não consegue impedi-la de se desequilibrar no desenlace, pois Carri interrompe a aura de suspense dolente que construíu até então com uma sequência previsível e espalhafatosa, bem menos subtil e enigmática do se esperaria.

A solidez da película merecia um final mais satisfatório e corajoso, mas de qualquer forma "Géminis" tem interesse suficiente se tornar numa boa surpresa, ainda que não chegue a ser um grande filme.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

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