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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

SPOOKY

Ora bem, como chega hoje a noite do Halloween, deixo aqui algumas sugestões apropriadas ao serão. Tanto "A Casa dos 1000 Cadáveres", uma bizarria sórdida e delirante de Rob Zombie, como "A Cabana do Medo", o visceral horror teen movie de Eli Roth, conseguem divertir sem deixar de inquietar, sendo duas boas propostas para ver sozinho ou (de preferência) com amigos.

Para ouvir, fica a sugestão da (re)descoberta dos 12 Rounds, uma das bandas da Nothing Records, a editora de Trent Reznor (dos Nine Inch Nails), já que a voz cortante de Claudia Sarne e as atmosferas crípticas geradas pelas electrónicas de travo industrial habilitam-se a gerar alguns calafrios aos mais sucesptíveis.

Contudo, para quem quiser mergulhar em territórios realmente sinistros e tiver doses de audácia acima da média, nada como a audição, em doses moderadas (fica o aviso), de discos de Bonnie Tyler ou Beto, capazes de originar cenários de autêntico pânico, asfixia e horror. Rói-te de inveja, Rob Zombie.

Consta, aliás, que Chris Cunningham se inspirou na dupla Bonnie/Beto para realizar o videoclip de "Come to Daddy", de Aphex Twin. Não chega ser tão arrepiante como os momentos mais inspirados dos dois cantores, mas tem os seus méritos:

Whoa Nelly!

Num período em que na maior parte da pop mainstream os produtores obtêm já tanta – senão mais – visibilidade e reconhecimento do que os artistas com que colaboram, também a lusodescendente mais famosa do mundo contribui para que a tendência se dissemine ainda mais com o seu terceiro álbum.

Após a comercialmente (e, a espaços, artística) bem-sucedida estreia com “Whoa Nelly!” (2000), que colocou na boca do mundo singles como o banal “I’m Like a Bird” ou o mais entusiasmante “Turn off the Light”, Nelly Furtado regressou com um novo registo, “Folklore”, três anos depois, onde de novo aglutinava géneros e referências díspares mas já sem a frescura de alguns momentos do seu predecessor.

Embora fosse um álbum aceitável, a decepcionante recepção do público arriscava-se a condenar a canadiana a mais uma one(ou two)-hit-wonder cuja ascensão ao estrelato fora tão rápida como a descida para o esquecimento generalizado, e de forma a evitar isso só se adivinhava uma solução: mudar. Três anos mais tarde, a mudança não só se registou como dificilmente poderia ser mais evidente, tanto a nível musical como (e sobretudo?) a nível da imagem da cantora.


 

Em “Loose” desapareceu a pose ingénua, cândida e espontânea que Nelly cultivou até aqui, e numa altura onde a pop encontra, talvez como nunca antes, uma forte aliada na imagem, nada como adoptar uma postura mais insinuante, ousada e “solta”, o que decerto não prejudicará o número de passagens dos seus videoclips.

Mais relevante do que a mudança visual foi, no entanto, a musical, que passou essencialmente pela aliança com Timbaland na produção da maioria dos temas do disco, cuja marca é óbvia e salutar em “Loose”, tornando-o no trabalho mais interessante de Nelly até à data.

 

 

A aposta em novas sonoridades atesta-se logo na canção de abertura, “Afraid”, vincada por oscilantes e sombrias texturas electrónicas, não especialmente acessível mas intrigante e promissora. “Maneater”, um dos melhores singles do ano, impõe-se de seguida como a verdadeira porta de entrada para o disco, irradiando uma energia contagiante à custa de um refrão catchy e de um ritmo invejável, com um saboroso travo à electropop dos anos 80 mas cuja sofisticação da produção torna claro ser uma canção do presente. Um belo exemplo de confecção retrofuturista, como o é também “Promiscuous”, outro single que foge ao óbvio através do dueto (e flirt) entre Nelly e Timbaland, onde o R&B e o electro estabelecem uma ligação efervescente e sedutora.

À semelhança dos anteriores, “Loose” aposta num considerável eclectismo, mas ao contrário destes consegue ser quase sempre estimulante mesmo quando se torna derivativo, como no caso de “Glow”, irresistível concentrado de pop electrónica que não destoaria num álbum de Gwen Stefani ou Madonna (fase “Ray of Light”), ou de “No Hay Igual”, cantada em espanhol e cuja percussão imprevisível e aura tribal a interligam aos territórios de M.I.A..

O recurso ao perfeccionismo e minúcia de Timbaland é uma opção certeira, mas mesmo assim “Loose” não evita alguns escorregões, seja na agradável mas demasiado genérica aproximação ao R&B de “Showtime”, na mais insípida balada pop FM “In God’s Hands” e especialmente na dispensável “Te Busque”, banalíssima (e incompreensível) colaboração com Juanes.

Estas são, contudo, ocasionais falhas de criatividade compensadas por momentos como “Say it Right” ou “All Good Things”, este o emotivo tema que encerra o disco e um dos raros episódios melancólicos, ao qual não será alheio o facto de ter sido escrito a meias com Chris Martin, dos Coldplay.

Mesmo com arestas por polir, “Loose” é um álbum mais surpreendente do que se esperaria, já que consegue nivelar-se acima de muita da concorrência e oferecer alguma da melhor pop mainstream de 2006, apontando pistas interessantes para esta nova Nelly Furtado, que fez bem em soltar-se mas é melhor que não largue as boas companhias.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Nelly Furtado - "Maneater (LJX Remix)"


(O fim d)A idade da inocência

Um dos cineastas-revelação do novo milénio, Michael Cuesta iniciou a sua filmografia com uma obra complexa e sensível, "L.I.E. - Sem Saída", em 2001, e desde então desenvolveu um interessante percurso na realização de alguns episódios de séries televisivas como "Sete Palmos de Terra" e, mais recentemente, "Dexter".

"Aos Doze e Tantos" (12 and Holding), à semelhança desses trabalhos, dá continuidade à abordagem de questões habituais do cinema independente norte-americano, focando a inadaptação, as relações familiares ou a morte, e revisita os dilemas da adolescência com um olhar novamente vincado pelo realismo e sentido de observação.

Desta vez, o filme segue o percurso não de um mas de três adolescentes, em especial a forma como estes reagem, directa ou indirectamente, à morte de um outro, que perde a vida devido a um incêndio originado por dois colegas de escola.


Leonard, que sofre de excesso de peso, decide mudar o seu tipo de alimentação, dedicando-se a uma dieta de maçãs e suscitando a estupefacção da sua família; Malee, a rapariga deste trio de amigos, apaixona-se por um trabalhador das obras que recorre às consultas de psicologia da sua mãe; e Jacob, irmão da vítima do acidente, divide-se entre optar pelo perdão aos responsáveis pela morte ou fazer justiça pelas próprias mãos (e aqui o filme lembra, a espaços, "Bully - Estranhas Amizades", de Larry Clark, ou "Uma Pequena Vingança", de Jacob Aaron Estes).

Atento mergulho nas contrariedades do processo de crescimento, oferecendo três personagens centrais que, apesar de terem doze anos, não são reduzidas a estereótipos e têm a tridimensionalidade que merecem, "Aos Doze e Tantos" evidencia que a perspicácia de Cuesta para retratos da adolescência (e neste caso, da pré-adolencência) presente no seu predecessor não foi mera sorte de principiante.
Ainda que a certo ponto o argumento contenha situações extremas, a verosimilhança do filme nunca é posta em causa, fruto não só de uma escrita séria e inteligente mas também das credíveis interpretações de todo o elenco, de onde importa destacar a pequena Zoe Weizenbaum, que passou despercebida em "Memórias de uma Gueixa" mas é aqui brilhante como a precoce Malee.

"Aos Doze e Tantos" é então uma obra de méritos vários mas não exibe, infelizmente, o golpe de asa que lhe permita ascender à lista das obrigatórias, nas quais o muitíssimo promissor "L.I.E. - Sem Saída" podia integrar-se.
Ao contrário da sua primeira longa-metragem, Cuesta divide a acção em três pequenas narrativas que ocasionalmente se entrecruzam, o que não é necessariamente mau - pelo contrário, está bem aproveitado -, mas nunca atinge o efeito obtido pelo enfoque nas experiências do protagonista do filme anterior.
Mais frustrante é o facto do cineasta apostar aqui num trabalho de realização algo indistinto, suportado pelo recurso à câmara à mão, apropriado a uma obra de contornos realistas mas também mais genérico, utilizado em tantos outros títulos indie e menos estimulante do que a sofisticação visual e carga sensorial características da sua película de estreia.

O facto de não estar à altura do peso das expectativas imposto pelo seu antecessor não implica, no entanto, que "Aos Doze e Tantos" seja uma decepção, antes um filme dominado por uma estimável solidez onde se vê potencial para resultados mais memoráveis e onde permanece, felizmente, a impressão de que Cuesta é um realizador que deve continuar a ser seguido.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

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