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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

7 BLOGUES, 6 ESTREIAS, 5 ESTRELAS

À semelhança do que ocorreu em relação a Outubro, alguns bloggers (Paulo Costa, gonn1000, Francisco Mendes, dermot e Knoxville, o autor da iniciativa) voltaram a reunir as suas classificações a algumas das estreias do mês. Acima fica a tabela de Novembro, agora com a salutar colaboração feminina da H. e da Wasted Blues. É bom ver que a diferença de gostos e sensibilidades não invalida a participação num projecto comum, venham mais filmes :)

ESTREIA DA SEMANA: "A RAINHA"

Seguindo a reacção da Família Real britânica à súbita morte da Princesa Diana, em particular a postura adoptada pela Rainha Isabel II, "A Rainha" (The Queen) é um drama cujo argumento e a actriz principal, Helen Mirren, foram premiados no último festival de Veneza. Tendo em conta a obra do realizador Stephen Frears ("Alta Fidelidadede", "Mrs. Henderson"), este promete ser um filme no mínimo curioso.

Outras estreias:

"Borat: Aprender Cultura da America Para Fazer Benefício Glorioso à Nação do Cazaquistão", de Larry Charles
"Por Água Abaixo", de David Bowers, Sam Fell

CRUELDADE TOLERÁVEL

Filme de época ambientado num Portugal rural de meados do século XIX, "Viúva Rica Solteira Não Fica" é uma comédia negra que se concentra nas peripécias de uma jovem viúva brasileira, cuja fortuna vai crescendo à medida que os seus sucessivos maridos vão falecendo.

De tom ligeiro e espirituoso, a mais recente película de José Fonseca e Costa ("Kilas, o Mau da Fita", "A Balada da Praia dos Cães") lança um olhar que se pretende corrosivo sobre a aristocracia, a religião e os costumes de outros tempos - embora com algumas observações ainda válidas para os dias de hoje -, definindo um núcleo de personagens onde cedo se percebe que quase nenhuma é inocente, sobrando no final aquelas cuja argúcia e sentido de oportunidade lhes permite prosperar.

Longe de inovador, apostando num trabalho de realização competente mas sem rasgos e num argumento simples e linear, o filme vale por conseguir funcionar enquanto entretenimento minimamente inteligente e acessível, aspecto que, se não o torna num objecto marcante, também não é negligenciável tendo em conta o cinema que se faz por cá.

Fonseca e Costa acerta ainda na direcção de actores (Bianca Byington, Cucha Carvalheiro, José Raposo e Rogério Samora cumprem, Ricardo Pereira não destoa e apenas Diogo Dória falha no tom, adoptando uma postura demasiado teatral) e na reconstituição de época, mais modesta do que pomposa mas que serve sem reparos as necessidades da história, contudo não apresenta um equilíbrio tão coeso no argumento, que a partir de certo ponto se torna redundante e leva a um desfecho nada surpreendente.
Os diálogos, não sendo de desprezar, também não são tão irónicos nem mordazes como se esperaria, e as personagens nunca conseguem soltar-se de uma caracterização, no máximo, bidimensional.

Tendo em conta estes desequilíbrios, o filme dificilmente mantém o entusiasmo do espectador ao longo das suas mais de duas horas, uma duração claramente excessiva para um material tão limitado, ainda que curioso. Mesmo assim, é mais interessante do que "O Fascínio", a desapontante obra anterior de Fonseca e Costa, e num ano em que outros "autores" nacionais se mostraram pouco ou nada inspirados (como Fernando Lopes em "98 Octanas" ou Pedro Costa em "Juventude em Marcha"), "Viúva Rica Solteira Não Fica" consegue gerar, pelo menos, alguma simpatia e não desmerece um visionamento.
E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL

CRIME SOB INVESTIGAÇÃO

"Brick", estreia de Rian Johnson na realização, chega a salas nacionais após uma entusiástica recepção internacional, com destaque para o Grande Prémio do Júri para Visão Original no Festival de Sundance, em 2005. Os elogios chegam ao ponto de comparar o filme a outras primeiras-obras auspiciosas de círculos indie, como "Donnie Darko", de Richard Kelly, mas se "Brick" contém alguns méritos que justificam a sua descoberta nunca chega, contudo, a aproximar-se da genialidade ou sequer de um nível de inspiração muito acima da média.

A proposta, apresentar uma história com claras alusões ao film noir mas inesperadamente ambientada no universo estudantil de um liceu, é criativa e aliciante, e embora Johnson consiga desenvolvê-la com algum engenho a execução acaba por ficar aquém das potencialidades da premissa.

Seguindo a investigação do protagonista, que procura descobrir os responsáveis pela morte da ex-namorada, o filme mantém certas coordenadas do policial negro, aqui abordadas de forma suficientemente refrescante. Não falta uma sisuda, perspicaz e solitária personagem principal, obstinada em resolver um mistério sinistro, nem as enigmáticas femmes fatales que vão surgindo no seu caminho, assim como outras figuras de moral ambígua e presença desconfortante.

A envolvente realização de Johnson, por vezes próxima da de Chris Nolan, é eficaz na edificação de uma soturna atmosfera urbana, os diálogos são certeiros e temperados com doses suficientes de humor negro e o elenco, todo ele jovem, está à altura das necessidades do projecto, em particular o protagonista Joseph Gordon-Levitt, que não poderia estar mais longe do imberbe papel através do qual se celebrizou na série "Terceiro Calhau a Contar do Sol".

O que falha, então, neste ambicioso exercício de estilo? Sobretudo o argumento, que ao querer ser tão complexo e intrigante torna-se excessivamente clínico e cerebral, e se nunca deixa de ser curioso de seguir leva-se demasiado a sério e não é capaz de gerar a carga dramática que se esperaria. Com a eventual excepção da personagem de Gordon-Levitt, todas as outras ficam reféns de uma vertente meramente funcional, sendo pouco mais do que peças de um jogo inteligente q.b., mas distante do brilhantismo.
E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

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