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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O bom filho

Segundo filme do alemão Christoph Hochhaeusler, "Low Profile" (Falscher Bekenner) explora o quotidiano de um adolescente que, após o final do liceu, se encontra numa encruzinhada, uma vez que não tem ainda ideia de qual é a sua vocação nem especial vontade de a descobrir, o que o leva a arrastar-se em sucessivas entrevistas de emprego nas quais não deposita grande entusiasmo ou convicção.


O porquê desta desmotivação não chega a ser revelado, embora o filme deixe algumas pistas ao apresentar o constante incentivo - ou pressão - dos pais e dos dois irmãos, mais velhos e ambos bem-sucedidos. Armin, contudo, parece pouco interessado em aderir às vias socialmente impostas, adoptando uma postura que alia apatia e fragilidade e passando grande parte do tempo em deambulações pela cidade.



À partida, "Low Profile" parece assim apenas mais um retrato das contrariedades sentidas entre o fim da adolescência e a passagem para a idade adulta, mas ainda que se ambiente em domínios já familiares o filme contém suficientes elementos a seu favor, declinando alguns lugares-comuns.
Hochhaeusler é astuto no mergulho dentro do limbo existencial do protagonista, e para além de ser eficaz no relato das suas relações familiares e de amizade (estas quase inexistentes) insere no argumento pontuais cenas enigmáticas, como as de crimes locais pelos quais Armin fica algo obcecado, sendo mesmo sugerido que possa ser responsável por estes.


"Low Profile" nunca chega a clarificar essa questão, mas usa-a para instalar um suspense moderado que ajuda a que o filme seja interessante de seguir. Igualmente ambíguos são os momentos em que o jovem tem práticas sexuais com um grupo de motards, que Hochhaeusler não define se decorrem de facto ou se são fruto da contínua alienação de Armin e da sua ténue distinção entre acontecimentos reais ou imaginados.


Obra negra e magnética, contém várias sequências cortantes e estas compensam um argumento intrincado cujo desenlace fica abaixo das expectativas suscitadas. Os episódios das entrevistas de emprego evidenciam bem o ridículo que caracteriza muitos dos processos de selecção, enquanto que os das reuniões familiares são certeiros no incomportável peso que os pais, mesmo com as melhores intenções, podem colocar nos filhos.

Suportado numa sólida direcção de actores, de onde sobressai o muito prometedor Constantin von Jascheroff na pele do protagonista, "Low Profile" vale ainda pelo realismo que emana de um exemplar trabalho de realização e da fotografia de apropriados tons cinza.


Inquietante pela forma como dilui as fronteiras entre a inocência e a perversidade, é um filme que, embora seja vítima de um final demasiado abrupto e inconclusivo, vem comprovar, à semelhança de outros títulos recentes, que o novo cinema alemão contém consideráveis exemplos de cineastas e obras de méritos assinaláveis. Venham mais.

 


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


"Low Profile"
foi uma das obras incluídas na secção Herói Independente da quarta edição do IndieLisboa

MÚSICA NO CORAÇÃO

Ícone maior da geração de 90, Kurt Cobain, mais do que pela já por si determinante música que criou com os Nirvana, marcou uma era por estar no atípico papel de um outcast subitamente atirado para os jogos de um sistema mainstream, viragem que acabou por encorajar a sua queda mas que, simultaneamente, o ajudou a tornar-se numa das figuras mais intrigantes e incontornáveis do rock praticado nos últimos anos.

Não faltam, por isso, livros ou filmes (entre documentários e exercícios ficcionais mais ou menos explícitos) em torno da sua história, dos genuínos aos meramente oportunistas. "Kurt Cobain: About a Son", abordagem do norte-americano A.J. Schnack ao percurso do cantor, está longe de ser só mais um exemplo, destacando-se pela forma criativa e pessoal como olha para as experiências de Cobain.

Recorrendo às 25 horas de entrevistas gravadas que o jornalista Michael Azerrad fez ao músico para a criação do livro "Come as You Are: The Story of Nirvana", entre 1992 e 1993, o realizador seleccionou cerca de hora e meia de relatos que constituem o cerne do seu documentário. A originalidade do projecto provém do modo como Schnack acompanhou visualmente esses testemunhos, dispensando quaisquer imagens de arquivo relacionadas com Cobain ou com os Nirvana (excepto escassas fotos já no final do filme) e optando antes por se concentrar nos espaços em que o cantor viveu.
Assim, "Kurt Cobain: About a Son" decorre por três cidades-chave para a vida do músico: Aberdeen, Olympia e Seattle; a primeira palco da sua infância e adolescência, a segunda um porto de abrigo durante uma fase pouco esperançosa e a terceira aquela que o acolheu quando foi catapulado para a fama.

Este é, então, um documentário muito longe dos habituais biopics formulaicos, e se ocasionalmente se revela algo cansativo ao contar apenas com as conversas de Cobain e Azerrad suportadas visualmente por imagens urbanas, na maior parte da sua duração consegue impor-se como um objecto de uma rara ressonância emocional. Parte do mérito deve-se ao discurso de Cobain, capaz de ser sempre articulado e interessante mantendo um apreciável sentido de humor e uma sensibilidade que se vai descortinando. A milhas, portanto, do limitadíssimo e fácil retrato pintado por Gus Van Sant no insípido "Last Days - Os Últimos Dias", que reduziu o músico ao cliché de um junkie imerso numa amargura e desolação constantes.

Mas "Kurt Cobain: About a Son" não vale apenas pela demonstração do carisma do músico, já que Schnack é responsável por uma série de imagens não raras vezes belíssimas e sempre apropriadas aos episódios narrados, dando aos cenários urbanos norte-americanos uma etérea e absorvente poesia visual ou oferecendo curiosas sequências de animação. Esta aura melancólica mas encantatória é reforçada pela partitura instrumental composta por Ben Gibbard (dos Death Cab for Cutie e Postal Service) e Steve Fisk (um dos produtores dos Nirvana), que sofre um eficaz contraste com as canções de algumas bandas preferidas de Cobain também presentes no filme.

Debruçando-se sobre a solitária adolescência do cantor, a paixão pelas artes que o acompanhou desde cedo (e a sua ambição em desfazer fronteiras entre o punk e a pop), a interferência das drogas, o contacto com as vicissitudes da indústria musical, a relação com Courtney Love, a crise interna dos Nirvana ou as consequências da fama, "Kurt Cobain: About a Son" é uma genuína experiência intimista de apelo universal, nem sempre brilhante mas que no geral conquista e comove. Uma bela surpresa que merece ser partilhada.


E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


"Kurt Cobain: About a Son"
foi uma das obras da secção IndieMusic da quarta edição do IndieLisboa

O fio da vida

Sisuda, irritadiça e desconfiada, Frédérique - ou Fred, como é habitualmente tratada - vive uma rotina que se divide entre o trabalho como enfermeira no hospital de uma pequena cidade suíça, passeios de bicicleta e saídas à noite.

Com poucos amigos e relações familares conturbadas, a protagonista de "Pas Douce" cansa-se da amargura que invade cada vez mais o seu quotidiano e decide suicidar-se na floresta com um tiro de caçadeira, mas o seu plano é alterado quando dois adolescentes barulhentos correm pelas proximidades. A jovem enfermeira reage impulsivamente à interferência e acaba por disparar na perna de um deles, o que a leva a ter de esquecer, pelos menos temporariamente, os seus pensamentos suicidas ao ajudar a vítima no hospital onde trabalha - tarefa que, ainda por cima, não será fácil, uma vez que Marcos é tão ou mais revoltado e impaciente do que ela.

Segunda longa-metragem da suíça Jeanne Waltz, realizadora que viveu anos em Portugal onde realizou o filme anterior, "Daqui P'ra Alegria", "Pas Douce" é um drama seco e directo sobre a redenção, a confiança e a solidão, questões trabalhadas a partir de um consistente estudo de personagem. Se é verdade que, após a revelação da premissa, o argumento não se desenvolve de forma especialmente surpreendente, já que não é difícil prever o rumo que o relacionamento entre a enfermeira e o paciente toma, isso nem compromete muito a solidez do filme, pois Waltz dirige com mão segura este retrato de duas vidas algo alienadas e frias.

A complementar a competente realização de travo realista surge um denso e inabalável desempenho de Isild Le Besco, que concede à personagem principal uma atitude irascível sem deixar de expor uma vulnerabilidade que tenta esconder-se. Encabeçando um elenco que não compromete, a actriz é o grande trunfo de uma película que oferece ainda um olhar sobre as singulares relações nas comunidades das pequenas cidades, vincado por um subtil sentido de observação de Waltz e pela atenção dada ao detalhe, dotando "Pas Douce" de uma plausibilidade palpável e contribuindo para que se torne num título auspicioso.


E O VEREDICTO É:
3/5 - BOM

CINEMA ART CORE

A proposta é interessante: reunir sete realizadores e artistas plásticos para uma abordagem ao sexo e à pornografia desenvolvida num conjunto de curtas-metragens. O resultado deste "Destricted", no entanto, é pouco convincente, pois para além de desequilibrado nunca chega a ser desafiante e na maior parte dos casos denuncia apenas pretensão em demasia e/ou mera preguiça mental.

Alguns trabalhos conseguem, mesmo assim, despertar alguma curiosidade ao irem além do óbvio É o caso de "Hoist", de Matthew Barney, a mais bizarra e desconcertante, uma autêntica fusão homem-máquina, que inquieta pela lubrificação simultânea do pénis do actor e da turbina de um tractor içado onde este se encontra. O ritmo pausado que Barney imprime ao filme, juntamente com os estranhos ruídos de fundo, tornam esta curta num objecto original que cumpre os pressupostos de "Destricted".

Outro exemplo relativamente convincente é o de Larry Clark, que em "Impaled" faz um incomum casting onde um grupo de rapazes concorre a fim de ter sexo com actrizes de filmes pornográficos. Convidando os intervenientes a falarem das suas experiências e do impacto da indústria porno no seu crescimento, o realizador de "Ken Park" ou "Bully - Estranhas Amizades" não evita a sua habitual tendência voyeur e deixa os concorrentes literalmente despidos de preconceitos em frente à câmara. O balanço gera um filme oportunista, mas também pertinente.

"Balkan Erotic Epic", de Marina Abramovic, tem alguma relevância enquanto documento sobre o papel que o sexo assume nos mitos e superstições das culturas dos balcãs, embora se candidate mais a ser motivo de humor involuntário do que propriamente fonte de uma reflexão séria.

"Sync", de Marco Brambilla, aposta numa montagem de inúmeras cenas de sexo que se sucedem de segundo a segundo ao som de um solo de bateria, mas a sua escassa duração faz com que passe quase despercebida. O mesmo não pode dizer-se dos intermináveis quinze minutos de "We Fuck Alone", exercício esgotante onde Gaspar Noé foca, alternadamente, uma rapariga e um rapaz que se masturbam ao assistirem ao mesmo filme em espaços diferentes. A imagem sempre intermitente e a música sinistra, aliadas à redundância das cenas, tornam esta proposta numa das mais cansativas, ficando aquém do que o realizador demonstrou em "Irreversível".

Quase tão entediantes são "Death Valley", de Sam Taylor-Wood, a mais desinspirada das curtas, que se limita a focar um rapaz a masturbar-se no vale que lhe dá título, e "House Call", de Richard Prince, que vale apenas para quem queira recordar sequências de filmes pornográficos old-school.

Com aspirações de funcionar enquanto compilação arrojada, experimental e complexa, "Destricted" só a espaços cumpre esse programa, já que a maioria das suas curtas parece pressupor que ousadia e criatividade se resumem a um recurso ao sexo explícito. De entre as propostas que testam as fronteiras entre a pornografia e a arte, o também recente "Shortbus", de John Cameron Mitchell, insinua-se como um título bem mais consistente e prova que uma pode ser mais satisfatória do que sete.


E O VEREDICTO É: 2/5 - RAZOÁVEL


"Destricted"
é uma das obras da secção Laboratório da quarta edição do IndieLisboa exibida hoje às 22h15 no Fórum Lisboa

A PRAIA

Filmes com historias entrecruzadas, além de não serem novidade, passaram mesmo a ser uma tendência desde que "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, revelou a muitos as potencialidades dessa opção (já desbravadas, anos antes, por Robert Altman).
"Drama/Mex", segunda longa-metragem do mexicano Gerardo Naranjo Gonzalez, é mais um título que adopta essa estrutura, se bem que a referência mais próxima até será "Amor Cão", do conterrâneo Alejandro González Iñárritu, com o qual o filme exibe algumas afinidades. Este retrato de uma noite em Acapulco tem, contudo, uma narrativa menos circular do que a primeira obra do realizador de "Babel" e o tom, embora seja o de um drama com os nervos à flor da pele, é menos amargurado e angustiante.

"Drama/Mex" possui ainda algumas das características pelas quais o recente cinema sul-americano se tem distinguido - nomeadamente obras de Alfonso Cuarón ou Fernando Meirelles -, ao mergulhar num realismo cru e sujo reforçado pelo recurso à câmara à mão, à fotografia de imagem granulada ou à filmagem digital. Os actores, todos jovens sem qualquer experiência interpretativa exceptuando um dos protagonistas (o de meia idade), são vibrantes e credíveis nos seus desempenhos, agarrando-se com intensidade às personagens e adensando a pulsão verista dos espaços e do argumento.

Crónica de amores intermitentes, gastos, inesperados ou desencontrados, o filme segue duas linhas narrativas: a de um triângulo amoroso onde uma jovem rica não consegue decidir-se entre o actual namorado ou o anterior, que regressa sem aviso; e a de um pai de família seduzido pelo suicídio mas que, ao refugiar-se num hotel à beira-mar, conhece uma irreverente adolescente que dá novo fôlego à sua rotina. As histórias, que se desenrolam nos mesmos espaços, contém apenas ligações ténues e desenvolvem-se de forma independente, ainda que ambas contenham personagens cujo presente é hesitante e o impulso surge como meio de resposta a um futuro incerto.

"Drama/Mex" pode não inovar muito face à matriz presente em muitas das obras provenientes das mesmas origens, mas isso não invalida que se trate de um filme de méritos evidentes, sendo suficientemente imprevisível, vivo e espontâneo. E isso já basta para o colocar num patamar acima da mediania.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


"Drama/Mex"
é um dos títulos em competição na quarta edição do IndieLisboa

AS NOITES DE BUDAPESTE

Estreia da húngara Ágnes Kocsis na realização, "Fresh Air" (Friss Levegö) é um drama taciturno e desencantado protagonizado por duas mulheres, Viola e Angéla, respectivamente mãe e filha que vivem juntas mas mantêm uma relação difícil. Viola é empregada de limpeza de uma casa de banho pública, e essa ocupação talvez esteja na origem do escasso contacto entre ela e Angéla, que ambiciona ser estilista e tem vergonha do emprego da mãe.

Marcadas por um dia-a-dia pouco auspicioso num bairro pobre e cinzento de Budapeste, as duas só se encontram para assistir à série televisiva "O Polvo", e durante o resto do tempo a mãe procura nos encontros com homens um escape à medida que a filha vai iniciando as suas relações amorosas.

Apesar de se sugerir estimulante, pelo retrato de uma realidade precária pouco mostrada e de conter, por isso, bases para uma considerável tensão dramática, "Fresh Air" nunca chega a arrancar, perdendo-se em múltiplos episódios quotidianos de interesse váriável que nunca geram um tronco narrativo coeso.

Preso a um ritmo demasiado lento e caracterizado por escassos diálogos, o filme tem pouco para oferecer além de ocasionais planos inspirados - nota-se que Kocsis tem talento para os enquadramentos - e das seguras, ainda que muito contidas, interpretações das protagonistas. A fotografia de tons esbatidos e turvos realça a carga lacónica do argumento minimalista, mas esta competência técnica não chega para impedir que "Fresh Air" seja um filme frustrante e insosso.

Não se justificam, assim, as ambiciosas duas horas de duração, uma vez que não há aqui substrato que as sustente, e o filme provavelmente só ganharia se tivesse sido uma média metragem.
De resto, a temática não só não traz nada de novo como já foi trabalhada de forma mais interessante noutras películas, caso do recente "Filha da Guerra", de Jasmila Zbanic, onde uma mãe e uma filha de um subúrbio da Europa de leste também mantinham uma relação conturbada. Sobram, então, poucos motivos para que "Fresh Air" se imponha enquanto uma experiência cinematográfica recomendável, já que de refrescante só tem mesmo o título.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

"Fresh Air"
é uma das obras em competição na quarta edição do IndieLisboa

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