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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

ESTREIA DA SEMANA: "MÁXIMO 10 UNIDADES"

Entre o drama, a comédia e o road movie, "Máximo 10 Unidades" (10 Items or Less) segue a viagem de uma jovem empregada de supermercado e de um actor veterano que, após anos sem participar em nenhum filme, consegue um papel num projecto independente. Morgan Freeman e Paz Vega são os protagonistas desta proposta assinada por Brad Silberling, cujo currículo inclui títulos como "Gaspar" e "Cidade dos Anjos" mas também o óptimo "Sonhos Desfeitos" (Moonlight Mile). É sobretudo pela memória deste último que valerá a pena dar o benefício da dúvida ao novo filme do realizador.

Outras estreias:

"Atrás das Nuvens", de Jorge Queiroga
"Verdade Inquietante", de Wayne Beach



Trailer de "Máximo 10 Unidades"

Ódios de Verão

Nas últimas décadas, Spike Lee tem-se afirmado como um dos grandes retratistas dos EUA contemporâneos, tendo criado densos olhares de comunidades locais cuja complexidade da abordagem desperta um apelo universal.
"Não Dês Bronca" (Do the Right Thing), uma das suas muitas obras centradas em conflitos raciais, foi um dos que lhe garantiu maior visibilidade e reconhecimento num período inicial da sua carreira, e "A Última Hora" (25th Hour), memorável mergulho na trágica herança do 11 de Setembro, destacou-se como um dos ópus mais recentes.
Embora estes sejam os seus dois títulos mais consensuais e emblemáticos, a sua filmografia contempla outros dignos de igual realce, e destes "Verão Escaldante" (Summer of Sam, 1999) impõe-se como um caso a assinalar, sendo talvez o seu melhor filme.

Partindo de acontecimentos reais - o pânico gerado por um serial killer que atormentou o Bronx em 1977, adensado por uma incómoda vaga de calor -, a película aposta, como habitual na obra do realizador, numa análise dos ambientes de comunidades étnicas, neste caso não tanto da negra mas tendencialmente da italo-americana.

Desta, emergem três personagens que serão a ponte entre as muitas arestas de um filme que seduz pela diversidade temática: Vinny, um cabeleireiro machista e implusivo; a sua esposa Dionna, que o apoia apesar das frequentes traições; e Ritchie, amigo de Vinny cujo comportamento distinto dos padrões típicos do bairro começa a comprometer a relação de amizade.
Mas mais do que personagens, "Verão Escaldante" é uma obra que trabalha o espírito de uma cidade e de uma época, e fá-lo de uma forma onde os dados factuais surgem interligados com uma energia cinematográfica que atira o filme para uma absorvente experiência sensorial.

Apesar dos assassinatos do homicida marcarem toda a atmosfera do filme, estão longe de ser o elemento central da acção, funcionando antes como pano de fundo desta e elemento decisivo para que se acenda o rastilho para um clima de tensão, desconfiança e pânico que se vai adensando progressivamente. À medida que tentam descobrir a identidade do serial killer, as personagens vão acentuando as suas diferenças e gerando fossos e crispações emocionais de onde emanam sentimentos recalcados, não raras vezes vincados pela xenofobia e intolerância.

 

Mais do que as já esperadas questões raciais, há aqui outros elementos igualmente marcantes, caso dos conflitos de tendências musicais (e, consequentemente, comportamentais), já que foi neste período que o disco sound atingiu a fase de maior popularidade, mas também o momento em que a ideologia punk deu os primeiros passos. O Studio 54 e o CBGB, ambos representantes de culturas bem distintas, surgem no filme como influentes palcos de agitação, e Lee consegue desenhar os rituais nocturnos da época com adequadas camadas de verosimilhança, ritmo e intensidade.
Sem dúvida um dos picos de inspiração do cineasta, "Verão Escaldante" tem a rara proeza de condensar uma série de temáticas e de as desenvolver com consistência e criatividade, nunca impondo pontos de vista - o que nem sempre ocorre na sua filmografia - e seduzindo através de uma saudável espontaneidade.
Da alteração do papel da mulher à preponderância dos media, passando pelas mutações nas orientações sexuais e relações conjugais, o filme é um fresco urbano detalhado e exigente, que em vez de um tom de ensaio demasiado cerebral é antes caracterizado por uma vibrante carga lúdica.
Para esse efeito em muito contribui a sua singularidade formal, onde Lee apresenta um irrepreensível trabalho de realização de forte teor realista e simultaneamente agregador de alguma linguagem dos videoclips e da publicidade. A montagem imaginativa e dinâmica (sem ser estridente) aliada a uma fotografia com muitas explosões de luz e cor reforça essa singularidade visual, que só ganha quando é complementada por uma oportuna selecção musical (toda à base de canções da época, e muitas vezes utilizada para gerar deliciosas pérolas de ironia).


Lee arranca ainda fortes interpretações de um elenco valioso, com destaque para o trio protagonista. John Leguizamo convence na pele do incorrigível Vinnie, Mira Sorvino demonstra que, para além de encantadora, é uma brilhante actriz (ainda que muitas vezes subestimada), e Adrien Brody tem aqui um dos seus melhores desempenhos - o que não é dizer pouco - como Ritchie, aliando vulnerabilidade e determinação na mais interessante e complexa personagem do filme.
Arrebatador a todos os níveis, "Verão Escaldante" é um objecto cinematográfico rico e fascinante, daqueles em que cada visionamento permite descortinar novas camadas e gera surpresa pela obsessiva minúcia com que Lee o construiu. Hipnótico e magnético, transpira vida e intensidade a cada frame ao longo de mais de duas horas frenéticas e merece, por isso, ser recordado e revisto enquanto uma das mais admiráveis obras-primas dos últimos anos.


E O VEREDICTO É: 5/5 - EXCELENTE

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