Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

UM FIM TEM UM PRINCÍPIO TEM UM FIM

"An End Has a Start" é um título que traduz bem a atmosfera presente no segundo álbum dos Editors, já que a banda vinca, em quase todas as canções do disco, a inevitabilidade de um fim, seja da vida ou do amor, e se isso leva a algumas doses de considerável fatalismo este é por vezes contornado quando se inverte a perspectiva e se enaltece o que de bom pode ocorrer antes desse fim chegar, propiciando ocasionais laivos de esperança.

Nada muito distante do sentimento que já contaminava "The Back Room", portanto, e se as letras continuam a investir num misto de desespero e resignação a sonoridade mantém as linhas (pós)pós-punk, sendo poucas as alterações face ao registo de estreia. Se esse já não era um disco especialmente original, uma vez que reciclava influências de inícios de 80, "An End Has a Start" ainda o é menos, enveredando por um seguro jogo de mais do mesmo que não impede, contudo, que nos Editors se reconheça uma banda capaz de construir boas canções.
Já o haviam demonstrado e agora sedimentam essa impressão, oferecendo temas de onde sobressai um evidente sentido de urgência, não só pelas guitarras incisivas envoltas em atmosferas densas (onde o piano adquire agora maior protagonismo) mas também pelo peso dramático dado às palavras, expressas com convicção e intensidade por Tom Smith, um notável vocalista.

Ao contrário de outros grupos da sua geração - caso dos Kaiser Chiefs, The Killers ou The Bravery -, os Editors não desiludem ao segundo álbum, embora fosse legítimo esperar um pouco mais deles tendo em conta o potencial que "The Back Room" continha.

Não há por aqui momentos à altura do brilhantismo de "Munich" ou "Camera", mas temas como a faixa-título ou "Bones" funcionam ainda como portentos de energia para pistas de dança nebulosas q.b. sem deixarem de conter densidade emocional. A primeira metade do disco está, de resto, acima da média, na segunda é que a composição tropeça e cai, a espaços, em domínios mais acomodados.

Não sendo o grande álbum que se acreditava que a banda pudesse criar, "An End Has a Start" mantém-na como um dos valores seguros do rock actual que melhor transita entre tons épicos e intimistas, expondo paralelismos com os habitualmente comparados Interpol ou mesmo David Fonseca (aqui mais pelo registo vocal).
E só pela sensibilidade desarmante com que Tom Smith canta "Every little piece in your life /Will mean something to someone", em "The Weight Of The World"; "Bones, starved of flesh /Surround your aching heart /Full of love", em "Bones"; ou "How can you know what things are worth /If your hands won't move to do a day's work?" em "When Anger Shows", percebe-se que este não é um grupo qualquer. Espera-se, por isso, que o seu fim não chegue tão cedo.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


Editors - "Smokers Outside the Hospital Doors"

PRODUTO DO BOM

Neste caso, "Erva" (ou Weeds, no original), série que estreou discretamente na RTP2 na segunda-feira passada. Mantendo um bom equilíbrio entre drama e comédia, segue o dia-a-dia de uma mãe que, depois de ficar viúva, encontra no tráfico de marijuana a mais próspera forma de subsistência, actividade que contudo lhe traz alguns problemas de consciência e não só.
Com um olhar mais cru e seco sobre os subúrbios norte-americanos do que a comparável "Donas de Casa Desesperadas", "Erva" começou bem, com dois episódios marcados por uma escrita perspicaz e sem rodeios e um elenco em forma que inclui Mary-Louise Parker ou Elisabeth Perkins. Parece ser série a acompanhar, com mais dois episódios emitidos hoje pelas 22h40, e corre o risco de causar vício.

3... EXTREMOS

"Taxidermia", terceira longa-metragem do húngaro György Pálfi, é contudo a primeira a estrear em salas nacionais. Distinguido com a nomeação para o Grande Prémio do Público na mais recente edição do Fantasporto, o filme permite desde logo atestar a singularidade do seu autor, sendo uma das experiências cinematográficas mais atípicas e desconcertantes do ano, mas infelizmente isso não o torna num título especialmente recomendável, ou pelo menos não pelos melhores motivos.

Em foco estão três gerações de uma família húngara, numa história que se inicia com o dia-a-dia do avô, continua com o do pai e termina com o do neto. O primeiro destes é um soldado da Segunda Guerra Mundial, que perde mais tempo com as suas práticas sexuais (bastante sui generis, diga-se) do que com a missão bélica a que aderiu. O segundo torna-se cada vez mais obeso ao participar em concursos de ingestão de doses massivas de comida, e o seu peso adquire valores tão elevados que, ao atingir a velhice, o seu corpo ocupa quase todo o espaço da sua sala de estar (de onde não consegue sair). Ironicamente, o seu filho tem uma figura esguia mas vive também um quotidiano alienado, movido pela obsessão por técnicas de embalsamamento (prática que estará na origem do título do filme).

Objecto estranho e inclassificável, "Taxidermia" incorpora uma bizarria comparável à de alguns títulos de David Lynch, overdoses de grotesco que fazem a série televisiva "Liga de Cavalheiros" parecer um programa de escuteiros e uma incisão temática nas mutações do corpo que não andam longe da filmografia de Cronenberg.
Elementos sugestivos, mas que que aqui não funcionam de forma especialmente convincente, uma vez que Pálfi insiste em presentear o espectador com sequências de um exibicionismo mórbido de questionável pertinência. Não são poucas as cenas capazes de revirar os estômagos mais fortes, e se ao início essa atitude arrojada e provocadora até proporciona alguns suculentos, ainda que inconsequentes, momentos de humor negro, cedo cai na piada de mau gosto pelo cansativo (e enjoativo) efeito de repetição em que o filme mergulha (e no qual se afoga).

Reconheça-se que o realizador é hábil na construção de uma atmosfera perversa e barroca, e não faltam aqui momentos com uma força visual que por vezes impressiona, fruto de uma realização imaginativa (como a sequência da banheira) e contrastes cromáticos de assinalável eficácia. É pena que sejam utilizadas numa obra de irrespirável ambiente niilista, com um desfile de situações insólitas onde o choque gratuito parece ser o único fim em vista, anulando qualquer investimento emocional nas personagens.

Para o melhor e (sobretudo) para o pior, "Taxidermia" é um daqueles filmes de que dificilmente se sai indiferente, e o que repugna e afasta uns poderá ser o que leva outros a fazerem deste um candidato a título de culto. Espera-se, no entanto, que o próximo trabalho de Pálfi seja menos desregrado e aproveite de modo mais entusiasmante o rigor estético que aqui se evidencia.

E O VEREDICTO É: 1,5/5 - DISPENSÁVEL

NOITE DE ESTREIA

A estreia em palcos portugueses já era aguardada pelos que conheciam os seus discos a solo ou mesmo antes disso, com a banda 'Til Tuesday, embora muitos dos que a acolheram ontem no Coliseu de Lisboa provavelmente só a tenham descoberto com a banda-sonora do filme "Magnolia", de Paul Thomas Anderson, que a tornou mais mediática em 1999.
O acréscimo de popularidade não parece ter comprometido, contudo, o percurso criativo de Aimee Mann, cantora e compositora que demonstrou ao vivo a sobriedade, modéstia e consistência evidente nos álbuns.

Acompanhada por outros músicos, que iam trocando de instrumentos - piano, baixo, guitarra, bateria e sintetizadores -, a autora de discos aplaudidos como "Bachelor No. 2" ou "Lost in Space" proporcionou uma interessante revisão de carreira, alternando temas óbvios com outros menos esperados e trazendo na bagagem algumas surpresas, como composições inéditas do seu novo trabalho a editar este ano. Foi o caso de "31 Today", que apesar de desconhecida pelo público não deixou de ser bem acolhida, como aliás o foram todos os temas do alinhamento.

Tendencialmente plácido e contemplativo, o concerto ancorou-se em canções onde as palavras contam, ou não fosse Mann uma contadora de histórias por excelência, e o Coliseu foi um cenário apropriado para que estas ganhassem ressonância perante um público que, apesar de vasto (a sala não esgotou, mas estava bem preenchida), permaneceu atento e dedicado, contribuindo para que se fosse edificando uma atmosfera intimista e acolhedora. A protagonista também fez por isso, convencendo pela brilhante e seguríssima forma vocal e pela postura afável, trocando algumas palavras com os fãs, muitas destas de agradecimento.

Entre a folk, a indie pop e mesmo o alternative country, o espectáculo decorreu de forma sempre competente, ainda que por vezes se tenha aproximado da monotonia, dadas as fortes semelhanças de algumas canções e do tom agridoce que domina a maioria destas. Curiosamente, foi a partir de uma falha em "Momentum" (nunca tocado antes ao vivo), a meio do concerto, que o ambiente se tornou mais dinâmico e que o alinhamento abraçou domínios de maior eclectismo.
De qualquer forma, um espectáculo com temas como "You Do" ou "Save Me" interpretados de forma sentida dificilmente correria mal, e nos dois encores registaram-se os melhores momentos, tanto com a discreta e belíssima "Red Vines" ou a igualmente recomendável "Humpty Dumpty", como com a inevitável "Wise Up" (talvez a mais aguardada) e, por fim, "Deathly", que fechou em alta um concerto algo desigual mas que ainda assim se arriscou a deixar saudades.

Antes de Aimee Mann, o Coliseu recebeu os Sean Riley & The Slowriders, banda de Coimbra cujas canções entre a folk e o rock alternativo foram bem recebidas pela considerável faixa de espectadores já presente durante a sua actuação.

E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

Pág. 1/7