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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

10 BLOGUES, 5 FILMES, 1 REALIZADOR

A habitual tabela organizada pelo Knoxville, desta vez relativa a algumas das estreias de Agosto. Elegi "Reservoir Dogs" como o melhor Tarantino, mas não ponho as mãos no fogo pela escolha, até porque para estar seguro dela precisava de rever este e outros filmes dele. Já no pior não hesitaria, acho que é mesmo "Kill Bill".

Perseguidos pelo passado

Gregg Araki está longe de ser um principiante na realização, pois "Mysterious Skin" é já a sua oitava obra. No entanto, é a primeira a estrear por cá, facto que não deixa de gerar alguma estupefacção tendo em conta que a ele se atribuem, desde há mais de uma década, algumas das mais idiossincráticas e ousadas pespectivas da adolescência oriundas do cinema norte-americano recente. Mesmo este filme já estreou nos EUA em 2004, mas neste caso vale a pena realçar que mais vale tarde do que nunca, ou não fosse um dos mais estimulantes a chegar ao grande ecrã neste Verão, entrando directamente para a lista de títulos indispensáveis do ano.


Inspirado no livro homónimo de Scott Heim, debruça-se sobre as vidas de dois rapazes de 18 anos, cuja personalidade e estilos de vida dificilmente poderiam ser mais distintos, ainda que os factores que os determinam derivem muito de uma situação que os reuniu quando eram ainda crianças.

Se Neil é irreverente, provocador, arrogante e não hesita em enveredar por rumos sinuosos, Brian é tímido, recatado, responsável e cauteloso, dedicando grande parte do seu dia-a-dia a um hobby que ameaça tornar-se numa obsessão, uma vez que a sua pesquisa sobre temas relacionados com extra-terrestres deriva do facto de julgar ter sido raptado por estes na infância.
Contudo, à medida que vai acumulando informações, Brian conclui que as respostas que procura poderão estar em Neil, que entretanto partiu da pequena cidade-natal de ambos, no interior, para uma aventura em Nova Iorque onde se dedica à prostituição (actividade que já explorava ocasionalmente e que aí se revela monetariamente mais compensadora).


Drama alicerçado nas fronteiras entre a infância e a adolescência e entre esta e a idade adulta, "Mysterious Skin" não teme incidir em vários temas "difíceis" e "controversos", da pedofilia à homossexualidade passando pela prostituição masculina, e o que mais surpreende é o facto de conseguir abordar todos eles com um invejável equilíbrio entre sensibilidade e complexidade. Ao contrário do que ocorreu no seu trabalho anterior, o curioso mas irregular "Esplendor", aqui Araki atinge uma coesão que torna o filme num objecto cinematográfico superior, onde o estilo não anula a substância, antes a sublinha.

O elenco está longe de incluir uma colecção de nomes muito mediáticos, em compensação emana talento em todas as interpretações. Joseph Gordon-Levitt, o elemento mais novo da série televisiva "Terceiro Calhau a Contar do Sol", apresenta um desempenho irrepreensível, nos antípodas de uma marioneta de sitcoms, traduzindo de forma verosímil a muralha emocional que protege Neil.
Mantendo a postura circunspecta que já tinha convencido em "Brick", o aplaudido thriller indie de Rian Johnson, o actor não só aceitou os riscos de uma personagem tão obscura como se revelou uma aposta mais do que segura para a encarnar. Brady Corbet, ainda que não tão impressionante, evidencia-se também como um credível co-protagonista, e as presenças da igualmente promissora Michelle Trachtenberg ou da bem-regressada (e muito pouco vista) Elisabeth Shue comprovam que Araki é um atento director de actores.

Não menos apurada é a escolha da banda-sonora, com composições instrumentais a cargo de Harold Budd e Robin Guthrie (dos Cocteau Twins) e canções dos shoegazers Ride, Slowdive ou Curve (afinal ainda há quem se vá lembrando deles), que não só se adequam ao período temporal onde decorre a maior parte da acção (inícios dos anos 90) como ao ambiente algo etéreo que domina algumas sequências.

Neste aspecto, a realização merece também elogios, edificando uma atmosfera realista que não recusa uma pontual carga onírica, interligando uma crueza por vezes difícil de digerir com cenas de poesia visual sem um grama de presunção. O impacto emocional que daí resulta faz de "Mysterious Skin" um filme a reter, indo do sinistro ao acolhedor sem falhar no ritmo ou no tom, ainda que nos minutos finais se dispensassem algumas revelações que o argumento já havia sugerido.


Tirando estes escassos minutos, Araki demonstra aqui uma discrição a milhas do habitualmente comparado Larry Clark ("Kids - Miúdos", "Bully - Estranhas Amizades"), que com estes temas provavelmente não conseguiria ser menos do que escabroso, e aposta antes em domínios mais próximos dos de um Michael Cuesta, que no também estimável "L.I.E. - Sem Saída" contornou muitas armadilhas no retrato da pedofilia.

Espera-se que "Mysterious Skin" seja capaz de contornar uma ainda maior, a de estrear de forma quase incógnita no meio de tantos blockbusters de Verão, pois tirando os igualmente belos "Pecados Íntimos", de Todd Field, e "Half Nelson - Encurralados", de Ryan Fleck, este ano não chegou cá mais nenhum filme deste calibre.

E O VEREDICTO É: 4/5 - MUITO BOM

SOZINHO EM CASA

“Paranóia” (Disturbia) tinha, à partida, dois elementos pouco promissores a jogar contra si: o primeiro, ser descrito por muitos como uma versão light e teen de “Janela Indiscreta”, de Alfred Hitchcock; o segundo, ser realizado por D.J. Caruso, tarefeiro cuja filmografia inclui títulos genéricos como “Tirar Vidas” ou “Aposta de Risco”.

E no entanto, apesar dessas condicionantes, o filme não só resulta como é uma das melhores surpresas de um Verão pobre em blockbusters memoráveis, apresentando um ritmo e uma energia que, ficando longe de revolucionários, são pelo menos mais aliciantes do que grande parte das alternativas do género em cartaz.

“Paranóia” centra-se na rotina diária de Kale, um adolescente de dezassete anos que é condenado a três meses de prisão domiciliária por agredir um professor (fruto de um acesso de raiva provocado pela morte recente do pai). Obrigado a usar uma pulseira electrónica que praticamente o impede de ir mais longe do que o seu jardim, o protagonista fica entregue ao tédio que se acentua quando a mãe o impossibilita de aceder a serviços tão essenciais como o i-tunes ou a Xbox, o que o leva a procurar outras formas de entretenimento, com especial destaque para a observação dos vizinhos.
Se inicialmente o que Kale espia se resumea situações mais ou menos prosaicas, de onde se evidenciam os mergulhos na piscina de Ashley, a nova e atraente girl next door, aos poucos vai crescendo a desconfiança em relação ao que outro recém-chegado vizinho, Mr. Turner, esconde na sua garagem, e às actividades que decorrem em sua casa.
À medida que vai juntando pistas, Kale reforça a suspeita de que este é um serial killer procurado pela polícia, e embora consiga fazer com que o seu melhor amigo e até mesmo a idolatrada Ashley o ajudem na procura de respostas acerca dessa desconfiança, as suas investigações apenas lhe trazem mais problemas e alastram a sua fama de “jovem problemático”, levando a que seja encarado pela polícia e vizinhos como alguém à beira da paranóia.

Caruso divide o filme em duas partes distintas cuja união não resulta forçada, dando à primeira um tom ligeiro e espirituoso e trabalhando na segunda atmosferas mais densas e sinuosas. Ambas convencem, já que a aliança entre comédia e suspense surge de forma natural e não causa solavancos na narrativa, ainda que o realizador seja um pouco comedido nos sustos que tenta gerar, pois “Paranóia” não perderia nada se a atmosfera que o domina na segunda parte fosse mais negra e sufocante.
Mesmo assim, o que proporciona é satisfatório, sobretudo nos momentos em que emprega as novas tecnologias no atribulado processo de investigação dos três jovens voyeurs, sendo curioso atentar à forma como este cruza computadores, handycams, telemóveis e os tradicionais binóculos.

O elenco também ajuda, em especial a prestação de Shia LaBeouf, que já tinha sido um dos pontos fortes de “Transformers” e aqui volta a brilhar, e ainda que não haja grandes diferenças no registo adoptado o jovem actor dá mais um passo no caminho que parece levá-lo a tornar-se num dos mais valiosos novos talentos de Hollywood. David Morse, na pele do antagonista, compensa o pouco tempo em cena com uma interpretação apropriadamente sorumbática, e a sua presença arrepiante quase faz esquecer que a sua personagem não tem muita espessura. Carrie-Anne Moss exibe a segurança e elegância habituais e Sarah Roemer e Aaron Yoo são competentes, mesmo que sem desempenhos dignos de registo.

Vincado por uma assinalável eficácia industrial, “Paranóia” pode não ser um grande filme mas pelo menos também não envergonha ninguém, destacando-se como um entretenimento escorreito e inteligente q.b., combinação que vai sendo cada vez mais difícil de encontrar e que D.J. Caruso, desta vez, conseguiu atingir.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM

O QUE É NACIONAL É BOM?

Ao longo desta semana, a programação nocturna da RTP2 inclui alguns títulos do cinema português recente, quase a fazer lembrar os antigos ciclos "5 Noites, 5 Filmes". Assim, hoje é exibido "Daqui p´rá Alegria" (na foto), de Jeanne Waltz (cujo mais recente "Pas Douce" foi dos mais elogiados no último IndieLisboa); amanhã "A Janela", de Edgar Pêra; na quarta "Sem Ela", de Anna de Palma; quinta "Mal", de Alberto Seixas Santos; e sexta "Vai e Vem", de João César Monteiro.

Destes só vi "Mal", do qual não gostei, mas surge aqui uma boa oportunidade para (re)ver alguns filmes difíceis de encontrar. De hoje a sexta, com início entre as 23h30 e a meia-noite, mesmo antes da série "A Letra 'L'".

IRMÃS INSEPARÁVEIS

São duas irmãs gémeas e “The Con” é já o seu quinto disco, a mais recente proposta de uma carreira que há uma década as inscreveu na lista de promessas indie e que agora as aproxima mais de uma confirmação. Pelo menos a julgar pela maturidade que Tegan and Sara exibem em alguns momentos do álbum, consolidando traços de personalidade(s) de uma escrita a quatro mãos onde se evidenciam diferenças nos temas compostos por cada uma das manas Quin mas não tão díspares ao ponto de ameaçar a coesão do disco.
“The Con” é mais um testemunho de como boa parte do rock recomendável que tem surgido nos últimos anos provém de origens canadianas, e mesmo que não seja das obras mais marcantes oriundas desses domínios exibe consistência e interesse suficientes para não merecer passar despercebido.
Dominado por canções curtas – nenhuma vai além dos quatro minutos -, directas e quase sempre imediatas, o álbum dá continuidade ao misto de indie e power pop que já havia sido trabalhado pelas cantoras/compositoras nos registos anteriores, introduzindo-lhe pontuais contaminações folk e new wave.

O cruzamento de géneros nem sempre é bem conseguido, ainda que também não haja falhanços graves a assinalar, até porque a brevidade da duração das canções impede que os momentos menos entusiasmantes se prolonguem. Estes devem-se sobretudo aos temas compostos por Tegan, geralmente os mais upbeat e orelhudos mas por vezes aproximando-se excessivamente de territórios emo e ancorando-se em estruturas mais formatadas e radiofriendly (como no escorregão de “Hop a Plane”).
Catorze canções, embora curtas, é que acabam por ser um pouco demais, sobretudo porque as letras são monotemáticas, insistindo na pouco surpreendente temática do fim das relações. Felizmente, algumas destas são das mais cativantes pérolas indie do ano, caso do single “Back in Your Head”, deliciosa fusão entre uma melodia assente em teclados e voz agridoce, ou dos momentos mais apaziguados da recta final do disco, onde o tom confessional é reforçado e origina belos e lúcidos relatos amorosos como “Call It Off”, uma muito apropriada escolha para tema final. Pelo meio há frases que ficam, como “I felt you in my legs before I ever met you”, em “Nineteen”, mergulho nas recordações de um longínquo one night stand que a memória não quer apagar.

“The Con” convence também pela produção precisa de Cristopher Walla, dos Death Cab For Cutie - não por acaso, o disco partilha algumas atmosferas com “Plans -, capaz de dosear eficazmente elementos eléctricos e acústicos, já que a paleta sonora vai dos sintetizadores a la The Killers da faixa-título ao despojamento de “Floorplan”. E mesmo que assim não fosse, teria sempre a seu favor as acolhedoras vozes das suas autoras, algures entre uma Karen O mais serena (fase “Show Your Bones”, portanto) e uma Emily Haines (dos Metric) mais frágil, duas boas portas de entrada para um projecto que vale por si.


E O VEREDICTO É: 3/5 - BOM


Tegan and Sara - "Back in Your Head"

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