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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Criação individual

“We Can Create” é o primeiro álbum do britânico James Chapman, que assina o seu projecto musical como Maps, resultado de investidas laboratoriais de criação e manipulação de som num computador.
Aliando a sua voz de registo tranquilo a um intrincado novelo de texturas predominantemente electrónicas, desenha aqui um conjunto de canções que aliam experimentalismo a um demarcado apelo melódico, embora o segundo aspecto se sobreponha quase sempre ao primeiro.

Caracterizado por atmosferas doces, sedutoras e luminosas, “We Can Create” consegue um saudável equilíbrio entre minimalismo e grandiosidade, fruto de um design sonoro apurado e preciso, evidenciando que Chapman é um das boas revelações oriundas de domínios brit.
Os temas movem-se entre a dream pop de Maximillian Hecker, o travo shoegaze dos Chapterhouse e o corta-e-cola cenográfico de Four Tet, incorporando ainda uma carga contemplativa próxima das paisagens de Ulrich Schnauss ou da placidez cristalina dos Sigur Rós (cujo produtor, Valgeir Sigurdsson, colaborou no disco).

A construção de ambientes é envolvente e gera belos episódios oníricos como “Elouise” (um dos melhores do ano) ou “You Don’t Know Her Name”, mas percorrendo o álbum parte do encanto que emana dos momentos iniciais acaba por se perder, já que “We Can Create” é mais bonito do que arriscado.


Mesmo não tendo temas fracos, ganharia se apostasse num maior contraste de camadas, acentuando a sujidade das paredes de som que se entrecruzam e, assim, injectando maiores doses de surpresa a uma sucessão de canções demasiado confortáveis, que quando ouvidas de seguida arriscam-se a funcionar enquanto (muito) agradável som de fundo em vez de composições que justificam maior atenção.

Além desta homogeneidade excessiva, também ainda não se acentua aqui uma marca pessoal que distinga muito Maps de outros projectos comparáveis, o que não chega a comprometer, contudo, que “We Can Create” figure entre as boas surpresas de 2007, contendo algumas das pérolas pop mais uplifting e convidativas dos últimos tempos. Uma bela promessa a confirmar.



E O VEREDICTO É: 3,5/5 - BOM


Maps - "It Will Find You"

ESTREIA DA SEMANA: "FAY GRIM"

Chega hoje a salas nacionais o mais recente filme de Hal Hartey, "Fay Grim", que regressa a algumas personagens do recomendável "Henry Fool", de 1997. Desta vez, no centro da acção não está Henry mas a sua ex-esposa, agora mãe solteira que vive com o seu filho adolescente num bairro de Nova Iorque e é envolvida num plano da CIA.
Na altura da ante-estreia por cá, durante o IndieLisboa deste ano, as reacções foram díspares, mas quem aceitar a imprevisibilidade do idiossincrático realizador ou apreciar a bela e talentosa actriz que é Parker Posey não deverá dar o tempo por perdido.

Outras estreias:

"1408", de Mikael Håfström (o realizador de "Cruel")
"Pintar ou Fazer Amor", de Arnaud Larrieu e Jean-Marie Larrieu
"Sem Reserva", de Scott Hicks
"Stardust - O Mistério da Estrela Cadente", de Matthew Vaughn
"Vigilante", de Scott Frank




Trailer
de "Fay Grim"

OS VERDES ANOS

Embora só agora se estreie com uma longa-metragem, Jorge Cramez tem já um considerável percurso ligado ao cinema, tendo sido assistente de realização de nomes como João César Monteiro, Fernando Lopes ou Jorge Silva Melo e conte com cinco curtas-metragens assinadas por si.
Esta experiência terá ajudado a que "O Capacete Dourado" exiba claros sinas de maturidade em alguns aspectos, ainda que como um todo este seja um filme que não escapa às fragilidades presentes em muitas primeiras obras.

A mais evidente regista-se no argumento, que se debruça sobre a relação entre dois adolescentes, Jota e Margarida. Ele, rebelde e impulsivo, passa os dias em viagens de mota, escape para um sistema de ensino no qual não se enquadra, não sentindo afinidades nem com os professores nem com os colegas do liceu. Ela, tímida e vulnerável, recém-saída de uma clínica, vive numa redoma edificada pelos pais, que a sufocam com recorrentes conselhos e perguntas. "O Capacete Dourado" segue o elo que vai crescendo entre estes dois outcasts, e que aos poucos vai alterando o seu quotidiano quando ambos encontram alguém em que se podem rever.

Este ponto de partida foi inspirado num caso real, em que um casal de namorados de Guimarães tentou suicidar-se (ainda que só ela o tenha conseguido), como forma de protesto ao antagonismo das suas famílias. Cramez alterou o local da acção, mantendo contudo o ambiente rural - o filme foi filmado em Vila Real - e aos poucos decidiu encaminhar a sua história noutro sentido, mudando sobretudo o desenlace.

O cinema recente tem sido fértil em complexos olhares sobre a adolescência, nomeadamente a facção indie, mas o curioso aqui é que "O Capacete Dourado" segue mais o modelo de exemplos clássicos - como "Fúria de Viver", de Nicholas Ray, uma influência assumida -, e se é interessante ver essa herança adaptada à realidade portuguesa, o realizador não apresenta aqui o golpe de asa que faça desta uma obra marcante.
Há cenas das quais emana uma tridimensionalidade no retrato dos adolescentes poucas vezes vista no cinema nacional, que nos últimos anos só terá paralelo em escassos títulos como "Os Mutantes", de Teresa Villaverde, ou "A Passagem da Noite", de Luís Filipe Rocha. Sequências como a da consola de jogos ou a de snooker são verosímeis, assim como os desempenhos do duo protagonista, Eduardo Frazão e Ana Moreira.

Infelizmente, a actriz adopta mais uma vez o registo que a tem distinguido e que impressionou nesse memorável filme de Villaverde ou no mais recente, "Transe". O seu desempenho não compromete, pelo contrário, mas seria preferível vê-la noutro tipo de personagens que não a de jovem angustiada e contemplativa.

Ainda assim, "O Capacete Dourado" vive mais do elenco jovem - ao qual se acrescenta Alexandre Pinto, também um "mutante" - do que do veterano, pois os actores consagrados pouco têm para fazer além de cameos desnecessários. É o caso de Rita Blanco, Alexandra Lencastre, Teresa Madruga e Maria João Luís, no papel de professoras entregues a diálogos algo forçados no início do filme. Rogério Samora, com mais tempo de antena, não pode fazer muito mais quando tem para interpretar o cliché do pai de família autoritário.

O desenvolvimento da narrativa também raramente se afasta dos lugares-comuns na abordagem aos conflitos geracionais e às dificuldades do crescimento, além de deixar demasiadas pontas soltas e contar com cenas despropositadas - caso daquela que foca uma pensativa mãe de Margarida ao pé da porta.

Até certo ponto, estes desequilíbrios são compensados pelo trabalho de realização de Cramez, capaz de sugerir cenas de um envolvente realismo poético, dominado por uma tensão longe de bucólica, seja pelos movimentos fluídos da câmara ou pela apelativa fotografia. E há episódios que mostram o filme que "O Capacete Dourado" poderia ter sido, como o da festa, vincada por uma forte componente sensorial a partir da eficaz interligação entre imagem e música. A banda-sonora é, de resto, um dos trunfos, cujo eclectismo inclui Echo & the Bunnymen, Strauss, Humanos e Vitalic.

Mais promissor do que convincente, "O Capacete Dourado" tem o mérito de apostar num retrato da adolescência poucas vezes visto no cinema nacional, e ainda que não seja plenamente conseguido deixa algumas provas de talento. Uma delas é o protagonista Eduardo Frazão, cuja segurança demonstrada nesta sua estreia como actor já justifica, por si só, a descoberta do filme.

E O VEREDICTO É: 2,5/5 - RAZOÁVEL

FUNDO DE CATÁLOGO (3): BOSS HOG

Recuperação do último álbum dos Boss Hog, "Whiteout" (2000), através do single "Get It While You Wait". A canção - tal como o disco - aproximou-se mais da pop electrónica de uns Garbage e Hole (versão "Celebrity Skin") do que da vertente punk e garage dos registos anteriores, mas o carisma da vocalista e mentora do projecto, Cristina Martinez (a estonteante esposa de Jon Spencer), permaneceu inabalável. O álbum, não sendo genial, é daqueles que merecem ser ouvidos de tempos a tempos, mesmo que não esteja ao nível da muito sugestiva capa.


Boss Hog - "Get It While You Wait"

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