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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Era uma vez um país

Apesar do evidente avanço das tecnologias digitais, o cinema de animação não tem originado, nos últimos anos, títulos especialmente marcantes, valendo mais pelo impressionante apuro técnico do que propriamente por ideias, histórias ou personagens memoráveis.

 

"Persépolis" (Persepolis), não sendo ainda a pedrada no charco que vem revolucinar o cenário, contém pelo menos mais originalidade do que a maioria, tanto a nível formal como conceptual, sendo um dos objectos mais estimulantes que o género ofereceu recentemente.

 

 

O filme adapta a graphic novel homónima da iraniana Marjane Satrapi, publicada entre 2000 e 2003, e a autora assume agora a função de co-realizadora (com Vincent Paronnaud, também criador de banda desenhada), e é ainda a personagem principal do filme, uma vez que este relata grande parte da sua vida.

 

Com olhar crítico sobre o contexto social, político e cultural do Irão das últimas décadas (a acção desenrola-se entre 1979 e 1994), dando especial incidência ao papel da mulher, "Persépolis" é a história de uma vida que tem como incontornável pano de fundo a história de um país, e por isso o filme salta constantemente entre o particular e o universal, acompanhando as experiências de Marjane, desde a infância à idade adulta, assim como as mutações do panorama iraniano, da queda da monarquia à implementação do regime islâmico.

 

Retrato sério, mas não sisudo, e temperado com frequentes acessos de humor, consegue fazer reflectir enquanto mantém uma considerável vertente lúdica, que também parte da animação em duas dimensões (que nos dias de chega a ser refrescante), com um traço simples e estilizado, quase sempre a preto-e-branco, à semelhança da banda desenhada que lhe deu origem (comparável, por exemplo, ao da também aclamada graphic novel "MAUS", de Art Spiegelman).

 

 

Mesmo sendo um filme singular e inventivo, "Persépolis" nem sempre resulta já que a narrativa episódica, que consiste em pouco mais do que uma sucessão de pequenas vinhetas, torna-o num todo irregular.

A acção progride com alguns altos e baixos, e os segundos estão geralmente relacionados com a abordagem ao contexto político e social do Irão, que se por um lado vale pelo valor informativo também perde ao recorrer a alguns lugares comuns ou simplismos.

O grau de inspiração dos gags é igualmente desequilibrado, pois se muitos são certeiros no seu sarcasmo há ocasionais deslizes para um humor mais óbvio, nunca primário mas menos sagaz.

 

O filme sai-se melhor quando se concentra na vida pessoal de Marjane, tanto no retrato da sua família de classe média - em especial na sua cumplicidade com a avó, a sua âncora moral - como no dos dias em que viveu fora do seu país-natal, debatendo-se com novos entraves no dia-a-dia vivido na Áustria e em França.

 

 

A seu favor tem ainda o facto da protagonista não ser definida como uma vítima indefesa, antes pelo contrário - é uma personagem obstinada, perspicaz e ambígua, e nem sequer pede a simpatia do espectador.

Curiosa é também a presença de marcas da cultura pop, dos Abba a Michael Jackson, passando pelos Iron Maiden, fulcrais para o retrato da adolescência, e francamente mais oportunas do que a superficial descrição da vida amorosa de Marjane, cuja acidez quase cai num feminismo despropositado.

 

Condimentado pelas vozes de Chiara Mastroiani, Catherine Deneuve ou Danielle Darrieux, "Persépolis" tem sido alvo de múltiplas distinções internacionais, como o atestam o Prémio do Júri em Cannes ou as nomeações para seis Césares e para o Óscar de Melhor Filme de Animação.

E ainda bem, pois ainda que não esteja imune a fragilidades, é uma obra que não merece passar despercebida, afastando-se de grande parte dos filmes de animação que costumam conquistar maiores atenções.

 

 

Em casa de Jorge Palma

Actua amanhã à noite no Centro Cultural de Belém e será acompanhado pela primeira vez por um quarteto de cordas. Em fase de ensaios, Jorge Palma partilhou alguns planos para o concerto (já esgotado), deixou um aperitivo do que poderá ouvir-se por lá e revelou-se (aliás, confirmou-se) um entrevistado porreiraço. Está tudo neste vídeo:

 

 

Jorge Palma fala do concerto no CCB

 

 

Estreia da semana: "Este País Não É Para Velhos"

 

E pronto, chega hoje finalmente às salas o mais recente filme de Joel e Ethan Coen, "Este País Não É Para Velhos" (No Country for Old Men).

 

Javier Bardem, Tommy Lee Jones e Josh Brolin são alguns dos nomes do elenco deste thriller seco, baseado no romance homónimo de Cormac McCarthy, que reabilitou a carreira da dupla de realizadores.

A partir de hoje poderemos descobrir se os Óscares de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor Secundário e Melhor Argumento Adaptado foram mesmo bem atribuídos. Por aqui deposita-se muita confiança neste regresso dos irmãos.

  

Outras estreias:

 

"Acordado", de Joby Harold

"Diário de Uma Nanny", de Shari Springer Berman e Robert Pulcini

"Garage", de Leonard Abrahamson

"Penelope", de Mark Palansky

"Seda", de François Girard

 

 

Trailer de "Este País Não É Para Velhos"

Fundo de catálogo (9): Furslide

 

Há dez anos foram uma das promessas do momento com "Adventure", o seu primeiro - e único - disco, que teve de honras de estrear a Meanwhile..., editora de Nellee Hooper (produtor/DJ que tem os Massive Attack, Madonna, Sneaker Pimps ou Björk na lista de colaborações).

 

Liderados por Jennifer Turner, ex-guitarrista de Natalie Merchant, os Furslide destacaram-se pelo seu misto de rock, folk, pop e alguma electrónica, que não sendo propriamente original mostrava-se apelativo e sedutor.

Infelizmente, surgiram de forma tão abrupta como terminaram, deixando um álbum auspicioso que antecipava melhores desenvolvimentos. Turner acabaria por partir para um projecto a solo, Inner, mais lo-fi e intimista, e mais recentemente integrou a banda de suporte de Joseph Arthur.

 

Hoje em dia são daqueles grupos que só aparecem mesmo em lojas de discos em segunda mão, mas "Adventure" continua a ser um álbum recomendável que ainda vale a pena levar para casa caso se esbarre com ele - sobretudo para apreciadores dos Metric, The Kills e aparentados, que não andam muito longe daquilo a que os Furslide provavelmente soariam hoje.

 

 

Furslide - "Love Song"

 

Revisitações anteriores

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