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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Confusão a dois

 

Compostos pelo casal Dan Boeckner (dos Wolf Parade) e Alexei Perry, os canadianos Handsome Furs editaram há poucas semanas o seu segundo disco, "Face Control", digno sucessor do não menos recomendável registo de estreia, "Plague Park" (2007).

 

O single "I'm Confused" é um bom cartão de apresentação para o concerto no MusicBox, em Lisboa, a 22 de Maio, e o seu videoclip alucinado, mórbido e espirituoso q.b. traduz bem o universo peculiar da dupla:

 

 

Handsome Furs - "I'm Confused"

 

Um tecnológico mundo novo e uma noite de terror

 

 "Sleep Dealer" tem tido alguma atenção a nível internacional, sobretudo pelos prémios e nomeações em festivais como os de Sundance ou Berlim.

Percebe-se porquê, já que esta primeira longa-metragem do norte-americano Alex Rivera compensa a escassez de meios com alguma imaginação.

 

Assente num futuro próximo, segue a viagem de um jovem mexicano para Tijuana, onde tenta encontrar emprego para ajudar a família após a morte do pai, assassinado por suposta tentativa de sabotagem à construção de uma barragem na sua aldeia (embora as suspeitas tenham sido motivadas pelas actividades de hacking do protagonista).

 

Entre o drama e o thriller, Rivera desenvolve um interessante olhar sobre a imigração, o avanço tecnológico e a memória, e sai-se bem na criação de uma realidade futurista que tanto lembra a de "Estranhos Prazeres", de Kathryn Bigelow, como a de "ExistenZ", de David Cronenberg.

 

A abundância de boas ideias - da comercialização de recordações ao trabalho de operários à distância - e a energia visual gerada por um rigoroso trabalho de iluminação compensam alguns desequilíbrios, caso das amadoras sequências de acção ou de uma narrativa sem tanta ressonância dramática como se desejaria - mesmo que Luis Fernando Peña, parecido com um Javier Bardem com menos vinte anos, consiga gerar empatia pelo protagonista.

Por estas irregularidades, de resto naturais numa obra de estreia, Rivera não assina aqui o grande filme que "Sleep Dealer" poderia ser, mas ainda apresenta o suficiente para o colocar entre as boas surpresas da ficção científica recente.

 

 

 

Um jovem casal, após ver frustrada a sua tentativa de acampar, tem um dia ainda mais atribulado quando é alvo de carjacking por dois assaltantes em fuga.

Mas esta é só a primeira - e menor - das ameaças de "Splinter", uma vez que os quatro viajantes são contemplados com uma noite para não esquecer quando se refugiam numa estação de serviço, na esperança de sobreviverem a uma estranha ameaça de criaturas espinhosas da floresta.

 

Exemplo de série-B despretensiosa e eficaz, este filme do britânico Toby Wilkins não tenta oferecer mais do que hora e meia de suspense, tarefa que cumpre sem surpreender muito mas também sem desagradar a quem não procure aqui mais do que isso.

 

A construção das personagens é um pouco mais sólida do que a de muitos títulos comparáveis, assim como o elenco de desconhecidos que se atira com convicção à espiral de acontecimentos mais ou menos aterradores.

E como felizmente não se leva muito a sério, "Splinter" ainda serve alguns momentos de humor negro, resultando num divertimento longe de obrigatório mas aceitável para apreciadores de terror com algum gore.

 

 

"Sleep Dealer" e "Splinter" foram exibidos na I Mostra Sci Fi de Cinema Fantástico de Lisboa

 

Viagem dançável entre luzes e sombras

Formaram-se em 2004 e durante os primeiros quatro anos apenas editaram EPs. Aliadas a uma regular passagem por palcos, as canções aí incluídas tornaram-nas numa das propostas mais promissoras da electrónica experimental norte-americana.

 

"Dance Mother", o disco de estreia das Telepathe, era por isso um dos mais aguardados por muitos melómanos no início de 2009, e dificilmente desilude quem esperava encontrar na dupla feminina um dos projectos estimulantes do momento.

 

Residentes em Brooklyn, Melissa Livaudais e Busy Gangnes constituem uma das várias bandas que tem tornado esse bairro nova-iorquino na sede de muita da pop mais caleidoscópica e imprevisível dos últimos tempos, família que inclui nomes como os Gang Gang Dance, Yeasayer, High Places ou Animal Collective.

 

 

Ou os TV on the Radio, cujo mentor, David Sitek, apadrinhou a dupla desde os primeiros dias e assumiu a produção de "Dance Mother", o que reforçou o hype em torno do álbum, não só pelo trabalho de Sitek com o seu grupo mas pelo seu impacto como produtor de discos dos Foals, Scarlett Johansson ou Yeah Yeah Yeahs.

 

No caso das Telepathe a sua presença volta a ter reflexos, tornando as canções da dupla mais acessíveis e sintéticas, longe de ambientes tão herméticos e sinuosos como os dos EPs. Felizmente, essa carga mais imediata de alguns temas em nada impede que o duo se mantenha desafiante.

Antes pelo contrário, se algumas das composições mais antigas soavam a esboços, o álbum apresenta episódios mais estruturados, capaz de dar forma às ideias que a banda sempre demonstrou ter.

 

 

Diversificado e quase sempre hipnótico, "Dance Mother" é um belo disco de estreia, capaz de aglutinar múltiplas referências num todo coerente, assim como de convidar a audições repetidas para continuar a desvendar um conjunto de canções surpreendentes.

 

Se nos momentos mais espaciais lembram a dream pop dos Cocteau Twins ou dos também recentes School of Seven Bells, nos mais tensos e directos as Telepathe carregam alguma da atitude das conterrâneas Bunny Rabbit ou da fase inicial das Luscious Jackson, e tal como estas não são imunes à influência do hip-hop mais ecléctico.

 

Assente em atmosferas contrastantes, ponto de confluência de teclados, batidas tribais e sintetizadores, o álbum reforça-as com as variações vocais da dupla, que tanto apostam num registo doce, quase infantil, como noutros mais nervosos e urgentes, onde a opção pelo spoken word comanda os acontecimentos.

Os resultados são sempre sedutores ainda que o grau de interesse de "Dance Mother" varie, muito por culpa de um excelente início cujo patamar raramente é atingido após as três primeiras canções.

 

 

Mas não é fácil manter um alinhamento sempre à altura da electropop tão frenética quanto assombrada de "So Fine", da deliciosa estrutura circular de "Chrome's on It" e, sobretudo, da aura inebriante de "Devil's Trident", inexcedível reinvenção do shoegaze que tanto consegue arrepiar como fazer dançar.

 

Depois de um arranque tão inspirado e desconcertante, canções como "In Your Line", "Lights Go Down" ou a demasiado longa "Trilogy: Breath of Life, Crimes and Killings, Threads and Knives" envolvem pela carga enigmática sem um apelo comparável, embora "Dance Mother" volte a tornar-se superlativo com a beleza em estado puro de "I Can't Stand It", o tema mais melódico e etéreo.

 

Se mantivesse o nível invejável das três primeiras canções o disco seria um sério candidato a obra-prima, mas já não é nada pouco as Telepathe apresentarem uma estreia tão segura, inventiva e idiossincrática, que justifica plenamente as atenções que alguns lhes têm dado.

Espera-se que na revisão do que de melhor se fez na música em 2009, sejam ainda mais os que não deixarão a dupla de fora. Pelo menos no primeiro trimestre não há muitos discos que lhe façam sombra.

 

 

 

Telepathe - "So Fine"

 

Folk no Alentejo

 

"Little Hells", o novo disco da norte-americana Marissa Nadler, é um dos bons álbuns de folk densa e sombria deste ano, e tem no single "River of Dirt" um dos seus melhores temas.

 

O videoclip da canção conta com a particularidade de ser realizado pela portuguesa Joana Linda, com rodagem em Viana do Alentejo. O resultado é este:

 

 

Marissa Nadler - "River of Dirt"

 

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