Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Um passo seguro numa estrada reluzente

"Golden Era", o primeiro álbum de Rita Redshoes, parece ter um título premonitório, já que marcou uma nova fase para a ex-vocalista dos Atomic Bees e colaboradora de David Fonseca - uma fase dourada, sem dúvida, como o atesta o sucesso junto do público e da crítica.

 

Essa boa recepção teve um evidente reflexo nas vendas ao longo do último ano, que levaram a promissora estreia a atingir a apropriada marca de disco de ouro.

A noite de ontem no cinema São Jorge foi, por isso, de celebração, uma prenda para a cantora e para os fãs, no maior concerto que a autora de "Hey Tom" apresentou na capital - e foi tão concorrido que levou à marcação de outro espectáculo para hoje.

 

 

Recebida por uma sala esgotada, Rita não se deixou intimidar por um público inicialmente algo contido - muito por culpa de um calor insuportável que convidava à inércia - e aos poucos foi conseguindo despertar aplausos cada vez mais fortes e vários comentários aos quais reagiu sempre com à-vontade e simpatia.

 

Com um aprumo cénico assinalável, o espectáculo não contou apenas com o seu talento e incluiu os cinco elementos da sua banda (guitarrista, baixista, teclista, baterista e uma segunda voz), que aliados a quatro bailarinas convidadas contribuíram para resultados bastante satisfatórios.

 

Com um trabalho de iluminação a reforçar o imaginário de cada canção, o palco acolheu ainda, além de dois Rs gigantes (e dourados, naturalmente), jogos de sombras e projecções que garantiram a concordância entre imagem e música (com alguns momentos porventura inspirados nas actuações de Feist, mas não faz mal).

 

 

"Golden Era" foi, como não poderia deixar de ser, o tronco estrutural do alinhamento, embora a hora e meia de actuação tenha dado espaço a outras canções, desde inéditos a versões.

No primeiro grupo constaram "Stupid Song", logo a abrir a noite, e "Waves of Emotion", já num dos encores, e ambos têm fortes possibilidades de integrar o segundo álbum da cantora.

 

Mas se estes novos temas foram aplaudidos q.b., as revisitações do catálogo de outros músicos mostraram-se mais convincentes, tanto a aproximação à country da melancólica "Lonesome Town", de Ricky Nelson (servida com imagens da América profunda a acompanhar) como a canção de amor "Ring of Fire", escrita por June Carter e dedicada a Johnny Cash - que Rita tocou com uma autoharp comprada numa pequena e poeirenta loja do Texas, durante a passagem pelo festival South By Southwest.

 

A melhor versão - e de longe um dos picos de intensidade do concerto - foi, contudo, a de "These Boots Are Made For Walking", de Nancy Sinatra, onde Rita colocou de lado os seus habituais sapatos vermelhos para os trocar por umas botas.

 

 

E durante alguns instantes, a menina de pose discreta transformou-se numa senhora do rock austera e efervescente, persona que dificilmente se vislumbra em "Golden Era" mas que resulta muito bem em palco.

 

"Love, What Is It?" apresentou uma atmosfera semelhante, com a cantora a remeter para a vertente mais visceral de PJ Harvey, e a intrigante "Oh My Mr. Blue" ganhou contornos mais vertiginosos do que os que se ouvem no disco (a cenografia ajudou a consolidar o efeito, resgatando elementos film noir, um dos traços da era dourada da cultura popular norte-americana que é indissociável do universo de Rita).

 

Momentos como estes provam que a música da cantora está longe de se esgotar nos muito rodados singles, ainda que estes tenham sido dos temas mais celebrados da noite.

Dispensava-se, no entanto, a repetição de "The Beginning Song" e "Choose Love" no segundo encore, cedências compreensíveis mas desnecessárias depois de um alinhamento tão bem estruturado.

 

 

Mais interessante do que qualquer um dos singles - mesmo que estes sejam bem melhores do que grande parte do material das playlists -, a dolente "Once I Found You" voltou a evidenciar-se como uma das pérolas de "Golden Era", com um refrão a aliar beleza e sentimento.

Outro momento bonito, "Minimal Sounds" foi servida com imagens de um céu estrelado e a sua carga etérea reforçou a versatilidade de uma coesa sucessão de canções.

 

Aliando talento, empenho e alguma imaginação, esta terá sido uma noite-chave para o percurso da cantora, recapitulação de mais de um ano de estrada e porta de entrada para um futuro próximo que tem tudo para se manter próspero.

Se a estrada de Dorothy era de tijolos amarelos a de Rita conta com tons dourados, e espera-se que essa luminosidade não se perca tão cedo.

 

Fotos: Vera Moutinho

 

 

 

Rita Redshoes - "The Beginning Song"

 

Depois do grande ecrã, o palco

 

O que é que realizadores tão diferentes como Russ Meyer, Dziga Vertov ou Pedro Almodóvar têm em comum?

 

Entre outras eventuais ligações, todos vão ser homenageados nos concertos da primeira edição do ciclo Soundtracks, que decorre desta quinta a sábado no MusicBox, em Lisboa. Mais detalhes sobre os espectáculos das três noites aqui.

 

Estreia da semana: "Deixa-me Entrar"

 

Foi um dos melhores filmes do IndieLisboa 2008 e, já este ano, passou também pela I Mostra Sci Fi de Cinema Fantástico, embora só agora tenha honras de estreia.

 

Mas "Deixa-me Entrar" (mais conhecido como "Let the Right One In") ainda chega em boa altura, a tempo de provar que a combinação de adolescentes e vampiros pode ser mais arrojada do que a da saga "Crepúsculo". Opinião mais alargada sobre o belo filme do sueco Tomas Alfredson aqui.

 

Outras estreias:

 

"As minhas Estrelas e Eu", de Laetitia Colombani

"Flame & Citron - Os Resistentes", de Ole Christian Madsen

"O Último Condenado à Morte", de Francisco Manso

"Traidor", de Jeffrey Nachmanoff

"Zack e Miri Fazem um Porno", de Kevin Smith

 

 

e-Cinema: Amizade vampírica e pornografia entre amigos

 

Pág. 1/9