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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Pânico no túnel (e sombras, muitas)

 

Aos poucos, os Crystal Castles vão revelando mais detalhes sobre o seu próximo disco. Esta semana, a dupla canadiana anunciou que o terceiro registo de originais terá "(III)" como título e contará com edição física a 6 de Novembro (a edição digital chega um dia antes).

 

Alice Glass e Ethan Kath adiantam ainda que o novo álbum deverá ser sombrio - ou seja, seguirá os passos do anterior -, característica que a provável capa não contradiz:

 

 

Além de tornar, lá está, (ainda) mais sombria uma foto do espanhol Samuel Aranda - vencedora do World Press Photo Award 2011 -, a imagem é um cartão de visita tão surpreendente como arrojado, mas que acaba por ter muito a ver com o universo do duo.

 

Resta saber se a música estará à altura... Para já, não está nada mal, tanto no fresquíssimo "Wrath of God", que pode ouvir-se na página SoundCloud do grupo (e de preferência num palco), como no não menos lúgubre "Plague", tema conhecido desde Julho e cujo videoclip foi apresentado há poucos dias. Curiosamente, também aqui os Crystal Castles reaproveitam (e recontextualizam) imagens de terceiros: as do filme "Possessão" (1981), de Andrzej Zulawski, e em especial as de uma Isabelle Adjani atormentada no túnel de uma estação de metro, que inspiraram um fã da banda, Ivan Grbin, a traduzir em fotogramas os ambientes da canção. O fã parece ter acertado, já que a banda não só aprovou o resultado como o escolheu para videoclip oficial. Nada contra:

 

 

Dois dias em Nottingham

 

Não é por acaso que "Weekend" tem sido um dos filmes mais elogiados - e premiados - dos festivais por onde tem passado, sejam estes centrados em temáticas LGBT ou nem por isso. O mais curioso é que a segunda longa-metragem do britânico Andrew Haigh nem tenta revolucionar nada, tanto dentro como fora do chamado cinema queer. Limita-se apenas (o que não é pouco) a acertar onde muitos outros falham, retratando com sensibilidade, complexidade e inteligência os contornos de uma relação fortuita - entre dois homens - que acaba por levar a que os protagonistas reavaliem os seus percursos, prioridades e, em última instância, identidades.

 

A viagem emocional entre espaços públicos de Nottingham e o apartamento de uma das personagens, ao longo de um fim-de-semana que propõe um inesperado momento de viragem, surge de um casamento feliz entre a câmara e o argumento de Haigh - vincados por um realismo britânico invulgarmente caloroso, mas nunca açucarado, capaz de equilibrar melancolia e esperança - e a química entre Chris New e Tom Cullen, actores principais de um filme que praticamente dispensa secundários - com uma dupla destas, credível e empática, também nem precisa.

 

O salto de um one night stand para um relacionamento mais forte, tão tentador como assustador, dá o mote para um belo exemplo de cinema de câmara, atento aos gestos, olhares e palavras sem nunca cair na auto-indulgência contemplativa ou verborreica, preocupando-se mais em envolver-nos do que em impressionar-nos. "Weekend" só tropeça - felizmente, não muito - quando este estudo de personagens, quase sempre verosímil, ameaça derrapar para um painel de discussão das dificuldades e direitos da comunidade LGBT, com alguns diálogos "inspiradores" demasiado próximos de obras que, embora partilhem a temática, não a abordam com a subtileza e capacidade de observação deste pequeno grande filme.

 

 

 

"Weekend" foi o filme de abertura da 16ª edição do Queer Lisboa, que decorre até 29 de Setembro no Cinema São Jorge

 

Um veterano nada estereotipado

 

Tem passado a leste das atenções, mas "The Politics of Envy" é um dos bons discos de inícios deste ano e um regresso bastante digno de Mark Stewart, que deixa aqui mais um capítulo a solo depois de se ter destacado, há três décadas, com o The Pop Group.

 

O novo álbum do britânico mostra-o novamente bem acompanhado, agora com músicos/amigos/admiradores de várias escolas e gerações: gente como Daddy G (dos Massive Attack), Gina Birch (das Raincoats), Lee 'Scratch' Perry, os Primal Scream ou os mais novatos Factory Floor, estes últimos os convidados do segundo single. O tema chama-se "Stereotype", é um dos poucos momentos (relativamente) calmos de um disco denso e agora tem imagens como acompanhamento no videoclip oficial:

 

O olhar de Can (e de outros turcos) passa por Lisboa

 

O miúdo da foto acima é Can, personagem que dá nome a uma das obras em destaque no ciclo "5 dos Melhores Filmes do Novo Cinema Turco da Actualidade", iniciativa presente entre esta quinta-feira e sábado (quase sempre) no Cinema City Classic Alvalade, em Lisboa.

 

A sessão de abertura, "Last Stop Salvation", de Yusuf Pirhasanna, é excepcionalmente exibida na Fundação Champalimaud e está reservada a convidados, mas os outros dias do ciclo, com dois filmes cada (legendados em inglês), são de entrada livre.

 

"Can", de Rasit Çelikezer, será talvez o filme mais popular, sobretudo por ter ganho o Prémio Especial do Júri na edição de 2011 do Festival de Sundance. Uma rápida vista de olhos pelos trailers vale o que vale, mas sugere que este também é capaz de ser o mais interessante, centrando-se num casal da classe média que, devido à infertilidade da mulher, tenta conseguir um bebé por meios ilegais. A narrativa é ainda marcada pela história de uma mãe solteira e do seu filho, o tal Can que dá nome ao filme. O modo como as duas histórias se entrecruzam pode descobrir-se esta sexta-feira, às 16h30, numa sessão que contará com a presença da actriz Selen Uçer.

 

Ainda no dia 21, o ciclo propõe "The Extremely Tragic Story of Celal Tan and His Family", de Onur Ünlü, às 19h30, comédia sobre um professor que casa com uma aluna. Selçuk Yontem, um dos actores, estará presente na sessão. Aparentemente com um tom também ligeiro, "Ecotopia", de Yüksel Aksu, acompanha um grupo de intelectuais que tenta tornar uma pequena localidade mais ecológica. O filme é exibido no sábado, às 16h30, antes de "Future Lasts Forever", de Özcan Alper, que encerra a iniciativa a partir das 19h30 e segue a viagem de uma jovem investigadora de música etnográfica ao sudoeste da Turquia, o mote de um road movie que é também uma viagem ao passado - e, a par de "Can", uma das propostas mais sugestivas de uma mostra a espreitar (até porque - e nos dias de hoje vale a pena salientar - não custa nada...).

 

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