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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Ritmo & blues

 

Quem ficou desconsolado com o fim dos Wolf Parade e dos Handsome Furs pode encontrar, pelo menos, algum alento nos Divine Fits, onde Dan Boeckner vira uma nova página ao lado de Britt Daniel, dos Spoon (a outra voz do projecto), e de Sam Brown, dos New Bomb Turks.

 

O álbum de estreia do grupo, "A Thing Called Divine Fits", já saiu no Verão passado mas o Inverno será, provavelmente, uma altura mais apropriada para (re)descobrir canções com a ansiedade e amargura habituais nas aventuras de Boeckner, por muito que os seus sintetizadores dêem alguma cor e ritmo às guitarras de Daniel, próximas do indie rock da sua banda.

 

"My Love is Real", mais Handsome Furs do que Spoon, é o tema que abre o disco e foi também o seu primeiro single, embora só tenha tido direito a videoclip há poucos dias - talvez os Divine Fits estivessem à espera do frio para retratarem um mergulho num dia cinzento. Abaixo ficam ainda o videoclip anterior, da menos tensa "Would That Not Be Nice" (cantada por Daniel) e uma versão ao vivo, num quarto de hotel, da minimalista "Civilian Stripes" (com realização igualmente minimalista, assente num plano-sequência):

 

 

O último a entrar

 

Teria sido fácil para Matteo Garrone tornar "Reality" numa sátira óbvia à televisão e, sobretudo, aos reality shows, universo que aborda sempre com um saudável distanciamento. Felizmente, o realizador italiano nunca transforma o seu novo filme, sucessor do elogiado e arriscado "Gomorra" (2008), numa mera extensão de um sketch humorístico simplista e acusador (desses em que a televisão - portuguesa, por exemplo - tem sido tão fértil).

 

A comédia não deixa de estar presente em "Reality", mas tem outros contornos, mais ambíguos (e também mais interessantes) pelo tom simultaneamente caloroso e amargurado com que condimenta este olhar sobre a (des)ilusão. Entre o realismo e a fábula, o filme acompanha um vendedor de peixe de Nápoles, Luciano, e a sua família que o encoraja a participar no Grande Fratello (a versão italiana do Big Brother). O curioso em "Reality" é que Garrone nem precisa de atirar o protagonista (e o espectador) para "a casa mais vigiada do país". O simples compasso de espera de Luciano é suficiente para desenhar um quotidiano familiar, primeiro, e comunitário, depois, onde uma candidatura feita de forma mais ou menos leviana dá lugar a um cenário obsessivo, vincado pela procura de uma fama que tarda em chegar - e que em vez de ser a ansiada resolução mágica de todos os problemas, com os financeiros à cabeça, vai dinamitando as personagens e a família por dentro.

 

"Reality", apesar desta abordagem singular que faz ao tema - distinguida com o Grande Prémio do Júri no Festival de Cannes em 2012 -, sai-se melhor na forma como a lança do que como a resolve. Na segunda metade, o filme não chega a perder-se mas Garrone parece não saber muito bem como conduzir a espiral descendente de Luciano, cada vez mais esticada, pronunciada e sem a impressionante fluidez que marca o arranque da narrativa. O que não quer dizer que não haja muito para apreciar: a realização, quase sempre nascida da câmara à mão e com longos planos-sequência, é notável no seu intimismo sem nunca ser exibicionista ou epiléptica (alô, Lars von Trier); as personagens, à primeira vista candidatas a caricaturas grotescas, são rapidamente resgatadas e abraçadas pelo realizador; a fotografia, garrida mas nunca ofuscante, dá outra espessura aos cenários e às formas de um filme que alia a energia visual à intensidade emocional (e se no primeiro aspecto pode chegar a ser barroco, no segundo fica sempre a milhas do cinismo).

 

A atenção a todos estes elementos faz de "Reality" um inegável filme de autor (no melhor sentido), mas este é também, tanto ou mais, um filme de actor. Torna-se difícil imaginá-lo ancorado noutro protagonista: Aniello Arena tem sido comparado a Robert De Niro ou mesmo a um Sylvester Stallone dos primeiros tempos e percebe-se porquê, já que a sua presença tão obstinada como vulnerável faz de Luciano um dos protagonistas (e interpretações) mais magnéticos dos últimos tempos (e o facto de o actor ter sido condenado a prisão perpétua há anos, tendo saído do estabelecimento prisional durante o dia apenas para as gravações, ajuda a dar-lhe outro peso e mística). É também por ele, através da genuinidade que imprime a este retrato, que "Reality" merece muito ser visto no grande ecrã - mesmo que fique a um degrau ou dois de um grande filme.

 

 

New Order, versão perdidos e achados

 

A espera por um novo disco dos New Order já não suscita o entusiasmo de outros tempos, sobretudo quando o "novo" disco é, na verdade, uma colecção de temas gravados há quase dez anos.

 

"Lost Sirens", que recolhe o que sobrou do (interessante) "Waiting for the Sirens' Call" (2005), não mudará a vida de ninguém mas também não defrauda quem já sabe ao que vai - mesmo que nos deixe à espera de um regresso a sério da banda, conforme desenvolvo neste artigo do SAPO Música.

 

Fundo de catálogo (91): Mãozinha

 

Hoje praticamente esquecida - ou, no máximo, relembrada pelo single "Você" -, Mãozinha foi, há 15 anos, um dos nomes da pop nacional que melhor souberam assimilar tendências, então em expansão, do trip-hop e do drum n' bass, entre outras linguagens electrónicas de finais dos anos 90.

 

Liliana Mota Ferreira, luso-descendente de origem suíça e mentora do projecto, deixou em "Mãe d'Água" uma colecção de canções cujas doses generosas de samples não eclipsaram um lado orgânico tão ou mais determinante - nascido de uma diversidade instrumental bem gerida, capaz de fazer conviver percussões, guitarra, violino, acordeão, piano, timbalões ou baixo. A amálgama encontrava ainda espaço para uma voz cujo português não era perfeito, deixando evidentes as raízes da cantora, mas que não só não comprometia o conjunto como reforçava o carácter refrescante e pessoal destas canções - de resto, Carlos Tê deu uma ajuda nas letras e Björk , uma das eventuais influências, também nunca foi conhecida pelo seu inglês irrepreensível.

 

Ouvido hoje, à distância de mais de uma década, "Mãe d'Água" continua a ser um belo exemplo de pop límpida que escorrega num trago. Há aproximações a referências contemporâneas (Lamb, Smoke City ou até Tricky nos raros momentos mais agrestes), mas ao contrário de outros projectos nacionais da altura (ou de hoje), nunca fica a sensação de decalque. Fica, antes, a promessa de uma linguagem própria, desafiante e algo exótica que, infelizmente, ficou por concretizar algures pelo caminho - houve apenas mais um álbum, "Aerosferas" (2000), mais interessante pelas ideias lançadas do que pelos resultados.

 

Como porta de (re)entrada para a curta discografia de Mãozinha deixam-se três sugestões: "Você", o seu único hit (ou o mais próximo disso); o videoclip de "Livre", single de "Aerosferas"; e "Metamorfose", talvez o melhor momento de "Mãe d'Água", canção cristalina capaz de resistir a hypes e tendências:

 

 

 

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