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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Prelúdios nocturnos

 

Será desta que Little Boots edita o seu segundo álbum? Depois de vários avanços, parece que sim, que o sucessor do já longínquo (para os padrões da pop actual) "Hands", de 2009, chega mesmo a 6 de Maio. O tema inédito mais recente, revelado hoje, tem estatuto de primeiro single oficial e merece-o, ou não fosse também a melhor canção divulgada pela britânica até agora.

 

"Shake", "Every Night I Say A Prayer" ou "Headphones" eram mimos eficazes para as pistas e "Whatever Sets You Free" ameaçou cair em territórios dançáveis excessivamente mecânicos, mas "Motorway" (disponível para download gratuito aqui), embora funcione nesse cenário, tem um peso mais conzidente com o tom soturno e melancólico tanto da capa como do título do disco, "Nocturnes".

 

Esta inesperada gravidade não compromete, felizmente, o apelo pop de Victoria Hesketh, que segue aqui as sugestões dos ambientes mais nebulosos de outro single recente, "Superstitious Heart", editado em Janeiro. Junte-se a este aperitivo um trio de produtores de gabarito - Andy Butler (dos Hercules & Love Affair), James Ford (dos Simian Mobile Disco) e Tim Goldsworthy - e temos aqui um álbum que vai abrindo cada vez mais o apetite:

 

Nick Cave, Bad Seeds e o canto das sereias

 

Não é especialmente fácil entrar num disco como "Push the Sky Away", por muito que "We No Who U R", a primeira faixa, até seja das mais acolhedoras logo ao primeiro contacto. A vantagem é que, depois de lá estarmos, também não saímos facilmente do novo álbum de Nick Cave e dos seus Bad Seeds, um daqueles labirintos que dão vontade de ir desvendando os seus percursos, conforme escrevo neste artigo do SAPO Música.

 

Alice ainda mora aqui, mas...

 

Já se sabe que o óptimo é inimigo do bom. Por isso, um bom concerto dos Crystal Castles, como o deste domingo no TMN ao Vivo, em Lisboa, perderá sempre na comparação com as passagens anteriores da dupla canadiana pela capital - ou fora dela, incluindo as duas actuações em Paredes de Coura.

Não faltaram, entenda-se, óptimos momentos ao longo de quase hora e meia. Mas é irónico que, num regresso motivado pelo lançamento do seu álbum mais coeso, "(III)" (esse sim, óptimo), Alice Glass e Ethan Kath tenham apresentado o seu concerto mais disperso. Até aqui tinham-se mostrado uma banda ligada à corrente dos primeiros aos últimos minutos, ontem deram um concerto com demasiadas quebras de ritmo. A certa altura, já era difícil dizer se as quebras eram na verdade opção artística ou imprevistos técnicos, como no arranque perro de "Sad Eyes" (canção que não chegou a recompor-se com a pujança merecida) ou num "Reckless" a lançar um pico de intensidade que se extinguiu, de forma igualmente repentina, poucos segundos depois.

 

"(III)" pode ter sido o pretexto para a visita, mas esteve longe de ser o destaque da noite. O alinhamento, em registo best of, fez sentido para quem ontem se iniciou nos concertos dos Crystal Castles - e ainda terão sido muitos, tendo em conta que boa parte do público era de uma faixa etária sub-20 (ou até sub-16). Para os mais familiarizados com a dupla ao vivo, houve pouco a descobrir: pouco (menos de metade) do novo álbum, poucas reinvenções dos anteriores. Kath protagonizou um momento de medley em formato live act, com colagens de "Vanished", "Untrust Us" ou "Violent Youth", enquanto que "Doe Deer", numa versão ainda mais despachada do que em disco (e com a voz de Alice Glass completamente sufocada), foi o ex libris na vertente de trip visual (com um disparo alucinante de luzes de cores vivas).

 

De resto foi a eficácia habitual e inegável, sem o factor surpresa e numa versão ligeiramente mais moderada. Houve crowdsurf, claro, saltos com gritos e braços levantados em simultâneo, como também não poderia deixar de ser, e Glass não resistiu a mergulhar num mar de mãos - mas mostrou-se, ainda assim, menos explosiva do que aquilo a que nos habituou. A agitação do público foi, aliás, pelo menos metade do espectáculo - às vezes mais, como em "Telepath", quando uma nuvem de fumo eclipsou o palco -, e não há muitas bandas que continuem a instigar este desvario colectivo (ainda mais impressionante numa sala repleta). Felizmente, foi também um público tão agitado como civilizado, sem os comportamentos menos ilustres que tiraram algum brilho à última passagem da banda por Paredes de Coura.

 

Já deste regresso dos Crystal Castles a Lisboa o que ficou foi, sobretudo, a inevitável "Celestica" (que ontem voltou a parecer a canção mais bonita do mundo), a estupenda euforia de "Black Panther" (com público e banda muito bem sintonizados) ou o aquecimento tempestuoso, como convém, a cargo de "Plague" e "Wrath of God", arranque que prometia um concerto guiado pela progressão e não tanto pela repetição.

 

 

Um docinho peruano

 

O EP parece ser um formato que serve bem os Is Tropical. "Flags", editado há poucas semanas, junta quatro temas novos - todos com títulos de países da América do Sul - e atira-se a uma vertente mais dançável (e mais interessante) do que a que encontrávamos no promissor álbum de estreia do trio britânico, "Native To" (2011).

 

"Venezuela" já tinha deixado boa impressão, em inícios de Janeiro, e entretanto há outro tema que também já conta com videoclip. O instrumental "Oi Peru" soa quase mais aos Ratatat do que aos Is Tropical, o que neste caso é bom, e uma espécie de instalação que misture repuxos, The Sims, chocolate líquido e um cameo involuntário de Mary J. Blige é sempre uma maneira curiosa de acompanhar um devaneio electrónico:

 

As desvantagens de ser invisível

 

É verdade que a capa não ajuda, mas "Another Year", embora seja um disco de canções discretas, é daqueles que não merecem ser tratados com a mesma discrição. No mínimo, por nos dar a ouvir uma das vozes mais bonitas do outro lado do Atlântico, Lori Carson, cujo timbre fresco, doce e envolvente não tem perdido o encanto com o passar dos anos.

 

O novo álbum da norte-americana, o sétimo, é dos registos de 2012 que vale a pena repescar, até porque não é todos os dias que a ex-vocalista dos Golden Palominos dá novidades. "Another Year" chegou oito anos depois do disco anterior, "The Finest Thing", e confirma que Carson mantém o talento para a composição, mais uma vez com reflexões sobre o quotidiano embrulhadas em canções entre a folk e uma dream pop rarefeita, quase sempre assente na guitarra acústica e no piano - e na tal voz, claro, que continua a valer mais do que qualquer instrumento.

 

Se discos como "Everything I Touch Runs Wild" (1997) ou "Stars" (1999) chegaram a sugerir-lhe um estatuto de princesinha indie, nos últimos anos as portas não têm estado tão abertas para uma cantora próxima dos ambientes de Lisa Germano, Laura Veirs, Dawn Landes ou Hope Sandoval. Seja como for, vale a pena ir acompanhando os posts do seu site, que abrem o apetite para o seu primeiro romance, "The Original 1982", a editar neste Verão. Em disco, e já vão sete, as suas narrativas não têm desapontado, como o atestam estes dois temas novos e uma recordação:

 

 

As 25 vidas dos Rammstein

 

Contar a história dos Rammstein sem recorrer à imagem seria deixar, no mínimo, metade dos acontecimentos de fora, não desfazendo da música dos alemães (sobretudo em álbuns como "Mutter" ou "Liebe ist für alle da"). Entre a selecção de videoclips e cenas de bastidores, "Videos 1995-2012" revê, ao longo de mais de sete horas, grande parte do percurso do sexteto, desde os dias em que David Lynch se juntou ao grupo de fãs até à fase mais recente, a que tem Jonas Åkerlund, outro realizador habitualmente transgressor, como parceiro regular (numa daquelas colaborações que junta a fome à vontade de comer).

 

O triplo DVD está nas lojas, aconselha-se e escrevi sobre ele neste artigo do SAPO Música.

 

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