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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Capuchinho Vermelho e os meninos perdidos

 

E se Capuchinho Vermelho fosse filha de um oficial nazi? Ainda gostaríamos de a ver atravessar, com sucesso, a Floresta Negra da Alemanha de 1945 para chegar a casa da avozinha? "Lore", o novo filme de Cate Shortland (adaptado do romance "he Dark Room", da britânica Rachel Seiffer), não anda longe desta pergunta, com alusões evidentes ao conto infantil clássico (nem falta uma cena de correria pelo campo com o cesto).

O que está aqui em jogo, contudo, é um olhar atípico sobre as consequências da II Guerra Mundial, centrada não nos vencedores - como grande parte da ficção inspirada pelo conflito -, mas nos vencidos, através da viagem atribulada da protagonista, a viver os primeiros anos da adolescência, e dos seus quatro irmãos mais novos, ainda crianças (separados dos pais após o suicídio de Hitler).

 

Segundo filme da realizadora australiana (ou terceiro, se incluirmos "The Silence", telefilme que chegou a estrear em algumas salas de cinema), "Lore" surge nove anos depois do muito promissor "Salto Mortal", primeira obra também centrada numa adolescente obrigada a lidar com a sua (des)educação emocional e sexual em poucos dias, tornando-se adulta à força.

As aproximações entre os dois títulos não se ficam por aqui: Shortland continua a transformar algumas sequências em experiências sensoriais impressionantes, fruto de uma identidade visual expressa na opção pelos planos de pormenor ou pela câmara à mão (sem se confundir com muitos alunos desta escola) ou de um recurso igualmente atento à banda sonora (agora com a gravidade acústica de Max Richter em vez da indietronica etérea dos Decoder Ring).

 

 

A assinatura estética da realizadora afasta "Lore" do academismo de muitos filmes históricos (em particular sobre o Holocausto), mas tematicamente esta é uma obra mais ambiciosa do que "Salto Mortal". Mais ambiciosa e também mais programática, característica que reverte a seu favor quando a realizadora nunca abdica de uma difícil ambiguidade moral e emocional (o olhar está longe de se resumir a uma história simplista de vítimas e carrascos), embora se sinta falta do sentido de liberdade, das emoções à flor da pele, de alguns dos melhores momentos da obra de estreia, que dão lugar a uma abordagem mais fria e distante.

 

Desta vez, Shortland quer deixar menos pontas soltas e, por vezes, chega a sublinhar a traço grosso aquilo que já tínhamos intuído, com exemplos mais óbvios no dispensável tom grotesco, gore e miserabilista das imagens de cadáveres, sangue ou insectos, mais próximas de certos filmes de terror duvidosos do que do drama exigente que esperamos dela. Não que "Lore" não o seja, mas se a realização tem méritos, acaba por deixar muito do impacto nos ombros da jovem Saskia Rosendahl, a confirmar a queda de Shortand para caça-talentos femininos depois de ter revelado Abbie Cornish em "Santo Mortal". O drama dos seus irmãos é, infelizmente, uma nota de rodapé do argumento (e por isso um dos supostos picos emocionais resulta ainda mais previsível e forçado), mas a intensidade de uma protagonista destas eleva um filme com mais arrojo na premissa do que na forma como a desenvolve.

 

 

Um beijo na pista de dança

 

Depois de deixar os Sneaker Pimps, já lá vão quase 20 anos, Kelli Ali raramente esteve parada, mesmo que nunca tenha conquistado tanta visibilidade como nos tempos áureos do trip-hop. O que é uma pena, uma vez que não têm faltado motivos de interesse aos seus discos a solo e o quinto, "Band of Angels", editado em Fevereiro, é dos melhores.

 

Entre o insinuante e o angelical, o regresso da britânica dá-se com um belo álbum de pop electrónica que não fecha a porta a momentos dominados pelo violino ou piano, mais uma vez a comprovar uma cantautora a sério e não apenas uma voz bonita (e só isso já não seria pouco, até porque não perdeu a frescura com o passar dos anos). Tudo isto para chegar a "Kiss Me Cleopatra", um dos pontos altos do disco, assim como um dos mais directos e infecciosos, e por isso um óbvio candidato a single. Felizmente, a candidatura foi aceite e tornou possível um videoclip tão fluorescente como a canção:

 

Fundo de catálogo (95): Feromona

 

Más notícias para o rock nacional: os Feromona, uns dos seus mais dignos representantes dos últimos anos, anunciaram sexta-feira, no Facebook, que os concertos nos festivais Mêda + e Lavre, a 26 e 27 de Julho, respectivamente, serão os seus últimos. É verdade que este ponto final não quer dizer que os elementos do quarteto fiquem longe de outros discos e palcos - sobretudo Diego Armés, autor de um álbum a solo -, mas ainda assim a banda de Mafra vai fazer falta.

 

Cinco anos depois da edição, "Uma Vida a Direito" continua a ser exemplo de um grupo sem grandes substitutos ou equivalentes óbvios, por muito que tenha sido comparado aos Ornatos Violeta e Jorge Palma ou ajudado a abrir caminho para uma nova vaga de rock cantado em português.

 

Como nem tudo são más notícias, o álbum de estreia do então auto-denominado power trio voltou a estar disponível, desde há uns meses, para audição e download gratuito. O convite à partilha é meritório e canções como "Vodka", "Mustang" ou "Função do Prazer" não o são menos. (Re)descobri-las pode ser um bom aquecimento para o segundo álbum, "Desoliúde" (2010), e para o EP "Aquelas Três" (2012), também ao alcance de um clique (pagar ou não fica ao critério de cada um). E por falar em música gratuita, vale a pena destacar que o concerto do Mêda + é de entrada livre (como todos os do festival que recebe ainda os Supernada, The Parkinsons ou Wraygunn).

 

"Bisturi", um dos temas mais populares de "Uma Vida a Direito", é presença praticamente garantida nessa despedida de dez anos com algumas curvas, mas sempre bem vividos por uma banda com uma indisfarçável melomania no sangue:

 

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