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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

50 de 2013

 

A poucos dias do final de 2013, já não sobra muito tempo para continuar a (re)descobrir discos e filmes editados ou estreados por cá nos últimos doze meses. E no caso dos concertos, então, não há mesmo volta a dar - num ano em que vi muito poucos, as boas memórias ficam-se pelos dos Depeche Mode (no Optimus Alive), Crystal Castles (mais no TMN ao Vivo do que no Alive), Rammstein (no antigo Pavilhão Atlântico) e Cansei de Ser Sexy (no TMN ao Vivo).

 

Por isso, o balanço do momento dita que o (meu) ano viveu mais de canções do que de discos, e mais de discos do que de filmes (até porque o cinema contou regressos a meio gás de vários consagrados - Tarantino, Allen, Soderbergh, Coen, Almodóvar - e de nomes mais recentes talvez a caminho desse estatuto - Noah Baumbach, Xavier Dolan, Neill Blomkamp).

 

Na música, a selecção nacional parece ter saído a perder em relação à de anos anteriores (ou se calhar merece mais investigação). Já a lista de discos internacionais podia ter por lá os últimos (e simultaneamente primeiros, dependendo dos casos) dos ADULT., AlunaGeorge, Charli XCX, Fuck Buttons, HAIM, How to Destroy Angels, John Grant, Kelli Ali, Luscious Jackson, Marnie, Nick Cave and the Bad Seeds, NYPC ou Scout Niblett. Em compensação, a lista de canções dá espaço a alguns destes e a outros que também merecem ficar no ouvido mais uns tempos:

 

10 filmes

 

 

1 - "Dentro de Casa", François Ozon
2 - "Reality", Matteo Garrone
3 - "Antes da Meia-Noite", Richard Linklater
4 - "O Desconhecido do Lago", Alain Guiraudie
5 - "Como Um Trovão", Derek Cianfrance
6 - "Don Jon", Joseph Gordon-Levitt
7 - "Fuga", Jeff Nichols
8 - "Ferrugem e Osso", Jacques Audiard
9 - "Sete Psicopatas", Martin McDonagh
10 - "O Verão da Minha Vida", Jim Rash e Nat Faxon

 

10 discos internacionais

 

 

1 - "Reflektor", Arcade Fire
2 - "Comfort", Maya Jane Coles
3 - "Olympia", Austra
4 - "Mosquito", Yeah Yeah Yeahs
5 - "Vicissitude", Maps
6 - "False Idols", Tricky
7 - "Free Your Mind", Cut Copy
8 - "Calling From the Stars", Miss Kittin
9 - "AM", Arctic Monkeys
10 - "Planta", Cansei de Ser Sexy

 

5 discos nacionais

 

 

1 - "As Canções d'A Naifa", A Naifa
2- "Discotexas Picnic II", Vários
3- "Almost Visible Orchestra", Noiserv
4 - "Really?!", Anarchicks
5 - "Mundo Pequenino", Deolinda

25 canções (sem ordem de preferência)

 

 

"Mixed Emotions", Annie
"More Than", Au Revoir Simone
"Tether", Chvrches
"Get Lucky", Daft Punk
"Alone", Depeche Mode
"The Red Wing", Fuck Buttons
"Misses", Girls in Hawaii
"All the Days", HAERTS
"Falling", HAIM
"Too Late, All Gone", How to Destroy Angels
"Why Don't You Love Me Anymore?", John Grant
"Ten Bridges", Laura Veirs
"Confusion", Little Boots
"Bring the Noize", M.I.A.

"Black Magick", Maria Minerva
"In Another Way", My Bloody Valentine
"Push the Sky Away", Nick Cave and the Bad Seeds
"I Came Through for You", NYPC
"Fluorescent", Pet Shop Boys
"2013", Primal Scream
"Binary Mind", Ra Ra Riot
"Can't Fool Me Now", Scout Niblett
"Tell Me", Soft Metals
"Love They Say", Tegan and Sara
"Jealousy and I", Torres

 

Anos 90 bem medidos

 

Muitas reedições e outros tantos regressos acentuaram, ao longo de 2013, alguma nostalgia pelos anos 90. Mas mais do que motivar reencontros, essa década também deixou pistas para bandas que estão a dar os primeiros passos nos anos 00. Bandas como os Speedy Ortiz, cujo segundo álbum, "Major Arcana", foi um dos bons discos de guitarras do Verão.

 

A vocalista e mentora do projecto, Sadie Dupuis, aponta Liz Phair ou Pavement entre as referências, mas o alinhamento do álbum dos norte-americanos também sugere audições de discos dos Helium, Juliana Hatfield (que regressou em forma este ano com o discreto "Wild Animals") ou dos mais agrestes de Kristin Hersh, entre outros indie rockers da classe de 90.

 

Quando a assimilação anda de mãos dadas com a inspiração, "Major Arcana" oferece momentos como "No Below", que parte do lamento teen angst para chegar à solidão partilhada. A canção é o novo single e um dos pontos altos do disco, embora o videoclip não a favoreça. Melhor, apesar de tudo, é o de "Tiger Tank", que foi cartão de visita há uns meses e continua a dar vontade de ver os Speedy Ortiz num palco:

 

 

Entre estranhos e amantes

 

Do conforto de estranhos a um jogo - sexual e mortal - entre vítimas e predadores. É este o percurso traçado em "O Desconhecido do Lago", de Alain Guiraudie, premiado em Cannes mas nem por isso imune a críticas pelo cruzamento arrojado entre o policial, erotismo gay e um tom atmosférico. Arrojado, mas longe de escabroso ou gratuito, até porque as muito faladas cenas de sexo explícito são menos predominantes do que os momentos de diálogo em que a câmara olha de frente a nudez masculina - e essa naturalidade, por ser tão terra-a-terra, é bem capaz de trazer mais desconforto a alguns espectadores.

 

Com tanto de carnal como de clínico, este retrato cru sobre o desejo, a solidão, a intimidade e a atracção cada vez mais dominante pelo risco nunca abandona o lago que dá título ao filme, cenário aparentemente idílico (e com fotografia luminosa a condizer), pelo menos até ao cair da noite, e realidade alternativa com códigos e comportamentos muito específicos.

"O que aqui é uma atitude normal seria considerada a de um tarado lá fora", diz a certa altura uma das personagens, a mais contemplativa e a única a recusar o jogo de sedução e gratificação efémera. Quando um outsider entra nesse terreno habitualmente delimitado - o inspector que investiga uma morte no lago - o filme questiona a entrega desses homens aos excessos e impulsos mais primitivos, à imprudência deliberada, ao teste dos limites do perigo - em última instância, à incitação da morte (a grande, depois da digressão pela "petit mort").

 

 

Apesar desse confronto de valores, "O Desconhecido do Lago" não julga as suas personagens. Limita-se a retratar o lado mais visceral de vidas duplas que procuram na praia um escape para um quotidiano menos estimulante - ou uma possível via para que o mundo lá de fora possa ser partilhado de forma tão intensa e voraz como em alguns desses encontros. Pouco a pouco, o voyeurismo vai cedendo espaço ao suspense e a redundância inicial dá lugar a um thriller que transforma o paraíso num inferno.

 

A segurança com que Guiraudie caracteriza estes ambientes e desenvolve uma narrativa minimalista, mas sempre envolvente, é uma surpresa depois de alguns dos seus filmes anteriores - "Os Bravos Não têm Descanso", "O Rei da Evasão" - terem mergulhado em universos marginais sem uma abordagem especialmente inspirada.

Por outro lado, não se percebe que "O Desconhecido do Lago" seja tão aplaudido quando "O Nosso Paraíso", de Gaël Morel, foi tão ignorado (e atacado) no ano passado, embora partilhe alguns dos seus elementos (uma representação pouco cândida dos homossexuais, uma narrativa guiada pelo sexo e pela morte) e não tenha sido menos convincente. Seja como for, está aqui um dos filmes do ano, mesmo que não seja para todos os gostos - neste caso, isso só lhe fica bem.

 

 

 

Tensão pós-milénio

 

Num ano de muitos regressos musicais, alguns inesperados e quase todos celebrados - David Bowie, My Bloody Valentine, Daft Punk, Justin Timberlake -, o de Tricky acabou por passar quase despercebido. Foi pena, porque "False Idols" não só se revelou mais interessante do que novidades mais mediáticas como é o melhor álbum do britânico desde a década de "Maxinquaye" (1995).

 

"Hey Love", por exemplo, não traz a surpresa desses dias mas sugere que a colaboração de Adrian Thaws com vocalistas escolhidas a dedo ainda tem muito para dar - neste caso, a eleita foi a já habitual Francesca Belmonte. E entre óbvias reconfigurações do trip-hop, a canção não destoa ao lado do que se faz na electrónica actual e subterrânea q.b. com berço em Londres e arredores (algo nem sempre garantido pelos últimos discos). Essa impressão só melhora ao lado do novo videoclip, capaz de manter o misto de sedução e claustrofobia dos momentos mais fortes da lenda (revigorada) de Bristol:

 

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