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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Canções de fé e devoção

 

Lady Gaga bem pode reclamar Grace Jones como uma das suas maiores influências, mas por esta altura V V Brown ultrapassa-a como candidata a sucessora mais credível na pop actual. A semelhança em algumas fotos promocionais será só mesmo um pormenor quando ouvimos "Samson & Delilah" (2013), o terceiro álbum da britânica e o primeiro com a etiqueta da sua própria editora, YOY Records. Foi o disco mais arrojado desta cantora, produtora e modelo, embora também o mais ignorado - o preço a pagar pelo abandono de uma fusão R&B, soul e funk tão simpática como inofensiva em detrimento de cenários góticos, na linha da fase mais negra do ícone de "Slave to the Rythm" e de outros sucessores recentes como os Light Asylum.

 

Além de uma reinvenção radical dos ambientes, o álbum trouxe mutações à voz, a revelar uma amplitude que os anteriores dificilmente insinuavam - o registo gutural de alguns momentos, então, seria mesmo impensável para os fãs desses primeiros tempos. A meta nem sempre chega a ser tão entusiasmante como a mudança de rumo em si, mas "Samson & Delilah" não se esgota nesse gesto e ainda tem canções a reter. "Faith", o novo single, é uma delas, e na nova versão até convida Kele Okereke, novamente mais convincente quando prefere a pop electrónica ao rock estafado dos Bloc Party. Mas "The Apple", também com videoclip para ver e ouvir abaixo, será mais representativa do tom denso e do imaginário bíblico do álbum, assim como da devoção inegável (e às vezes demasiado vincada) à pantera negra jamaicana:

 

 

 

Super Mãe

 

"Mãe e Filho" é um dos filmes-sensação do novo cinema romeno - venceu, por exemplo, o Urso de Ouro no Festival de Berlim - e até traz nos créditos o nome de Razvan Radulescu, argumentista de "A Morte do Sr. Lazarescu" e "4 Semanas, 3 Meses e 2 Dias", duas obras que abriram portas, nos últimos anos, a uma cinematografia até então pouco divulgada.

 

Ao contrário do que o título pode sugerir, esta segunda longa-metragem de Calin Peter Netzer acompanha de forma bem mais próxima e regular o quotidiano da mãe. E se talvez pudesse ganhar em dividir um pouco mais o protagonismo, essa opção acaba por permitir que Luminita Gheorghiu não só domine o filme como componha uma personagem capaz de disfarçar algumas das suas limitações - caso de três ou quatro sequências arrastadas e, sobretudo, do recurso nem sempre oportuno à câmara à mão.

 

A suposta caução realista de uma realização irrequieta, às vezes até epiléptica, é especialmente questionável quando os ambientes e os actores já garantiriam, por si só, uma verossimilhança em que algum do cinema romeno recente tem sido pródigo. "Mãe e Filho" mantém a tendência através do retrato de Cornelia, uma mulher de meia idade da burguesia de Bucareste decidida a reatar a relação com o filho, Barbu, após este atropelar e matar acidentalmente um adolescente.

 

 

Enquanto a protagonista faz das tripas coração para provar a inocência, a custa de subornos e outras manipulações, o acusado retribui-lhe com atitudes entre a indiferença e a raiva, numa tentativa de vincar de vez uma autonomia ainda por atingir já depois dos 30 anos.

 

Parte investigação criminal minuciosa, parte drama familiar retorcido, "Mãe e Filho" prefere claramente a segunda vertente à primeira e, por isso, quem esperar uma resolução compostinha para o processo policial vai ficar desiludido. Netzer e Radulescu estão mais interessados em explorar as nuances de uma relação mais ambivalente do que parece à partida, onde a inocência e a culpa não são facilmente separáveis, o amor prega rasteiras à moral e a tensão dramática aceita intromissões de um convidativo humor negro.

 

E se o caminho pode ser ziguezagueante e tumultuoso - com algum prejuízo para o ritmo destas duas horas irregulares -, os minutos finais são certeiros: uma protagonista cheia de contradições tem direito ao seu grande momento e torna-se impossível dizer onde termina a comoção e começa a encenação. Como extra, nas entrelinhas deste estudo de personagem obsessivo fica ainda uma perspectiva amargurada, mas nunca militante, sobre as clivagens sociais (da Roménia e mais além), a ampliar a ressonância - já de si universal - da relação desta "Mãe e Filho".

 

 

 

Suicídio encomendado

 

Para muitos - incluindo quase todos os que a conhecem -, a protagonista de "Mel" será só mais uma rapariga a remoer dramas típicos da idade enquanto viaja de bicicleta, metro ou avião, sempre com phones nos ouvidos, casaco de cabedal e olhar distante. Para o espectador da estreia na realização da italiana Valeria Golino, Irene é bastante mais misteriosa do que aparenta e peça fundamental num esquema de suicídio clandestino, dedicado a doentes terminais. Nome de código: Mel.

 

Mais do que nas configurações de uma rede de morte assistida, esta primeira obra centra-se numa situação de excepção que coloca em causa o pragmatismo da protagonista: o seu novo cliente, um homem de idade avançada, deseja morrer apesar de não ter problemas de saúde. Irene discorda e vê-se obrigada a colocar em causa não só esta rotina de "anjo da morte" mas também as opções que têm vincado a sua vida pessoal.

 

É precisamente pelo olhar sobre a vida pessoal de uma figura ambígua que "Mel" se demarca do que poderia limitar-se a mais um filme sobre a eutanásia. O tema torna-se incontornável na acção, é certo, mas raramente se impõe às personagens, até porque o dia-a-dia da protagonista não se esgota nessa actividade ilegal - a vertente amorosa, entre o desprendimento da relação actual e a nostalgia pela anterior, não é menos intrigante.

 

Se à frente das câmaras Valeria Golino já se tinha afirmado em filmes como "Rain Man - Encontro de Irmãos", "União de Sangue" ou "Respiro", atrás dá um primeiro passo seguro e promissor. Sem falhas de tom, sem julgamentos morais (deixando-os, ou não, para o espectador), com um sentido atmosférico envolvente na aliança entre imagem e música (da clássica à nova electrónica, sem tiques de videoclip), "Mel" tem ainda entre os atributos o desempenho de Jasmine Trinca, a dar razão a quem reparou nela em "O Quarto do Filho", de Nanni Moretti: aqui encontramo-la talvez menos empática, mas mais enigmática e complexa. Mesmo quando a realizadora não consegue evitar algumas redundâncias ou cenas excessivamente contemplativas (compreensíveis numa estreia), a actriz faz com que o interesse pelo rumo da sua personagem não esmoreça - e ajuda a fazer desta estreia uma obra a espreitar.

 

 

 

Pássaro do sul

 

Dificilmente alguém diria que "Bluebird" é um disco inspirado por um divórcio. A delicadeza do quarto álbum de Dawn Landes é tanta que é preciso dar a devida atenção a algumas letras para encontrar sintomas de uma separação - a que pôs fim ao casamento com o cantautor Josh Ritter, também com catarse musical apaziguada em "The Beast in Its Tracks", editado no ano passado.

 

Em vez de um muro de lamentações e uma listagem de recriminações, a norte-americana do Kentucky residente em Brooklyn opta por palavras contidas e atmosferas serenas, matéria-prima de canções simples, mas não ligeiras, com uma calma que já nem a amiga Norah Jones (colaboradora nas segundas vozes de dois temas) consegue manter ao longo de um disco.

 

Às primeiras audições, o alinhamento não parece tão rico como o de "Fireproof", de 2008, talvez o seu álbum mais popular (embora não muito) e a tentar ir além da folk e da country. Mas por esta altura Landes também já provou que as suas canções não se revelam por completo numa impressão inicial. E a candura da sua voz, algures entre Laura Veirs e Lori Carson (outro segredo demasiado bem guardado), será sempre um ponto a favor.

 

Ainda assim, melhor do que ouvi-la em disco seria certamente vê-la num palco (há uns anos, em Paris, correu mesmo muito bem). Como um concerto em Portugal é mais improvável do que um divórcio amistoso, ficam por aqui três sugestões: "Bluebird", o novo single; "Try To Make A Fire Burn Again" (uma das raras referências directas à separação) numa versão ao vivo e "Twilight", talvez o momento mais bonito de "Fireproof":

 

 

A metamorfose

 

Depois de ter sido uma das melhores surpresas da música de dança do ano passado, "Comfort", o álbum de estreia de Maya Jane Coles, vai ser reeditado a 24 de Março com cinco faixas extra. Mas esta não será a única edição dos próximos tempos com o nome da DJ britânica, já que a compilação "Fabric 75", da reputada discoteca londrina, conta com as suas escolhas de house melódica, na linha da que ouvimos nos seus discos e EPs.

 

A abrir caminho para essas edições, Coles aposta num novo single, com a canção que dá nome ao álbum. Não será a opção mais óbvia - sobretudo quando o disco tem Tricky ou Miss Kittin entre os convidados -, embora seja sugestiva o suficiente para convidar à entrada neste universo. Um universo com figuras alienígenas, por exemplo, a julgar pelo videoclip, retrato de uma metamorfose bizarra a fazer lembrar experiências visuais dos Tool ou as não menos icónicas imagens de "Hunter", de Björk. Parece que vai ser interessante acompanhar a evolução desta DJ:

 

 

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