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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quem é aquela rapariga?

ema_future_void_2014

 

Privacidade, vigilância, tecnologia e ligações entre o real e o virtual eram temas que alimentavam boa parte de "The Future's Void", o segundo álbum de EMA, editado este ano (e, até ver, a merecer destaque na lista dos melhores). Peça decisiva do alinhamento, "3Jane" estava entre os momentos mais marcados por essas questões - inspirado pela forma como se comunica, ou não, nas redes sociais - e serve agora de nova chamada de atenção para um disco que não tem tido muita.

 

Depois do caos industrial de "Satellites" e da pop com sabor grunge de "So Blonde", o novo single é uma balada atmosférica com direito a videoclip futurista (ou talvez nem tanto) cujo andróide baseado em Erika M. Anderson reforça a aproximação ao universo de William Gibson (a canção tem o nome de uma das personagens da "bíblia" cyberpunk "Neuromancer"). Além deste retrato de uma mansão quase vazia com ecrãs e drones à mistura, há mais ficções/visões/premonições a caminho, já que a norte-americana está a colaborar num filme - com ligações à acção do videoclip - ao lado do realizador Y2K. Por agora, as imagens servem bem o tema:

 

 

Nascidos para matar

1231428 - FURY

 

Por um lado, "Fúria" revisita situações e cenários próximos dos de outros filmes de guerra, com "O Sargento da Força Um" ou "O Resgate do Soldado Ryan" à cabeça, movendo-se por vezes em terreno demasiado reconhecível. Por outro, a nova obra de David Ayer surpreende por ser um monolítico de crueza e desencanto - tão seguro e à prova de bala como o tanque no qual decorre grande parte da acção - que talvez não se esperasse tendo em conta a filmografia do seu autor.

"Fim de Turno" já tinha apresentado um drama envolvente, então com dois polícias, mais equilibrado do que o que estava para trás, e o realizador norte-americano sai-se igualmente bem neste mergulho nos finais Segunda Guerra Mundial centrado em cinco soldados dos Aliados na Alemanha.

Do quinteto, a dupla do sargento e do recruta mais jovem merece atenção especial e lembra a dinâmica entre veterano e novato já vista e revista - em filmes de guerra e noutros, como "Dia de Treino", de Antoine Fuqua, com argumento de Ayer. Mas Brad Pitt e o muito promissor Logan Lerman (aqui a tentar afastar-se da imagem adolescente de Percy Jackson) são tão convincentes, tanto nos momentos de choque como de empatia, que a abordagem de "Fúria" acaba por parecer mais fresca do que o que realmente é.

Os outros soldados não são menos credíveis e, também por isso, é pena que o filme nunca lhes dê tanto tempo de antena. Ainda assim, todos acabam por ter espaço para brilhar: Michael Peña cumpre, mesmo sem poder mostrar o que vale como em "Fim de Turno", Shia LaBeouf comprova que há actor para além das polémicas e Jon Bernthal chega a roubar algumas cenas aos protagonistas na pele da personagem mais imprevisível e explosiva do grupo.

 

furia_2

 

Além de escolher os actores a dedo, Ayer sobressai pelo realismo e intensidade, temperados com algum humor negro, que injecta na maioria destas mais de duas horas pouco preocupadas em apontar inocentes ou culpados - quem esperar um filme de guerra patriótico e insuflado de heroísmo não o encontra aqui, uma das maiores vantagens face ao sobrevalorizado título de Spielberg no qual se poderá ter inspirado.

A forma metódica, rigorosa, e no entanto nervosa com que o realizador filma sequências de combate também eleva "Fúria" acima de boa parte da concorrência - no departamento de blockbusters, então, é cada vez mais raro termos direito a cenas de acção tão bem orquestradas como a do confronto entre dois tanques, a milhas do registo de videoclip hiperactivo com câmara à mão. Mais surpreendente é o abandono do tanque para concentrar a tensão na casa de duas alemãs, pico dramático de um filme a espaços demasiado convencional e linear mas capaz de compensar em desvios como esse - e a ocasião sublinha, talvez como nenhuma outra, a aliança inabalável entre realizador e elenco.

Contasse o desfecho com uma sequência desse fôlego e "Fúria" teria um impacto mais forte e inquietante. Infelizmente, e apesar das valências técnicas de Ayer na sucessão de disparos (já agora, a fotografia cor de chumbo com que Roman Vasyanov forra o filme não lhe fica atrás e não podia ser mais apropriada), os últimos minutos tornam-se mais arrastados do que empolgantes. Mas se o arco narrativo do quinteto podia ser mais bem resolvido, o final não chega a diluir o impacto emocional de uma viagem com muito a reter.

 

Para uma rave ao anoitecer

dusky

 

A vénia dos Dusky a alguma música de dança dos anos 90 já era uma das marcas do duo londrino, mas num single como "Yoohoo" é especialmente inegável. Da estrutura rítmica 4/4 à presença do piano, o tema resulta num pedaço de deep house tão directo como os que Alfie Granger-Howell e Nick Harriman têm vindo a deixar, tanto no álbum de estreia ("Stick By This", de 2011) como nos vários EPs.

 

Não por acaso, o sample vocal é de "Catch", dos Kosheen, banda que também deve alguma coisa à electrónica dançável de há duas décadas, e o videoclip, com animação retro inspirada em flyers de festas desses tempos, não destoaria na programação do saudoso "Chill Out Zone", da MTV. Mas nem é preciso ter experiência em raves para aderir ao crescendo de euforia (o título não engana), seja na versão original ou na editada, com metade da duração:

 

 

O amor está no ar

interstellar

 

"Interstellar" passa tanto tempo deslumbrado consigo próprio que raramente resulta na experiência deslumbrante que prometia.

 

Christopher Nolan quer envolver-nos a todo o custo nesta saga familiar e espacial maior do que a vida (e capaz de percorrer boa parte do universo), mas nem a música épica (e tão intrusiva) de Hans Zimmer, nem as várias discussões científicas (com uma overdose de cenas expositivas), nem as reviravoltas abundantes (não falta o clímax, por sinal bem conveniente, de fazer cair o queixo aos mais impressionáveis) servem de muito quando o filme está tão pouco interessado nas personagens.

 

Sim, a relação entre um pai e uma filha é indissociável da missão que procura novos mundos para salvar a Humanidade, condenada à extinção, só que "Interstellar" faz quase sempre um retrato à base dos rodriguinhos mais óbvios e preguiçosos (a derrapar para diálogos de telenovela), com personagens que servem, antes de mais, um percurso de unir os pontos.

 

Matthew McConaughey e Anne Hathaway bem se esforçam, e às vezes até conseguem, desenhar pessoas credíveis (apesar de ele ter feito papéis mais desafiantes ultimamente e de ela ser obrigada a debitar um discurso risível lá para o fim), mas serão a única excepção num filme que apregoa o amor como poucos - e de forma escancarada - sem parecer amar, ou sequer gostar por aí além ou interessar-se minimamente, pelas personagens.

 

interstellar2

 

E assim vemos uma Jessica Chastain invulgarmente desconfortável com o pouco que lhe dão, um Michael Caine a fazer de Michael Caine pela enésima vez (mais muleta do argumento do que outra coisa), uma participação dispensável de Matt Damon que só parece estar lá para injectar alguma acção ou dois astronautas (os que acompanham McConaughey e Hathaway) reduzidos a paisagem. Que o robô da nave tenha mais personalidade do que qualquer um deles não surpreende num filme em que até o protagonista se esquece da personagem do filho (para quê chamar Casey Affleck para uma mais uma cena de tensão forçada, então?).

 

O argumento vai sempre pedindo que se aceite muita coisa (começando logo pela forma tão despachada como o protagonista adere à missão) sem se preocupar em retribuir o investimento com inspiração à altura.

 

O espectáculo visual sai a ganhar ao drama familiar, mas até esse é servido em doses muito moderadas quando "Interstellar" dura quase três horas - pelo menos para quem já viu meia dúzia de filmes de ficção científica. Sequências como a de uma onda gigante e algumas imagens do espaço (as do buraco negro ou do buraco de verme) impressionam, como impressiona um cenário que também surpreende o protagonista perto do final, a confirmar que há por aqui algumas boas ideias. Só é pena que fique tão pouco na retina e no coração ainda menos...

 

 

 

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