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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A verdade da loucura

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35 anos depois do anterior, THE POP GROUP edita a 23 de Fevereiro um novo álbum, "Citizen Zombie", a marcar um regresso aos originais antecedido por duas compilações, no ano passado, e vários concertos desde 2010 - com mais uma dose agendada para os próximos meses.

 

Para já, os pioneiros do pós-punk abrem caminho com "MAD TRUTH", em ambiente boémio nascido de uma fusão dub/disco/funk próxima da que a banda de Bristol fazia em inícios dos anos 80. Neste caso, quem sabe parece não esquecer e a mistura ainda resulta hoje, como já tinha resultado no álbum mais recente do mentor do projecto, Mark Stewart - "The Politics of Envy", de 2012, festa industrial que convidou contemporâneos ou descendentes como Primal Scream, Daddy G (Massive Attack), Lee 'Scratch' Perry, Douglas Hart (Jesus & Mary Chain), Gina Birch (Raincoats) ou Factory Floor.

 

O videoclip do novo single mostra que, à semelhança do vocalista, estes veteranos estão mais interessados em fazer pontes com gerações mais recentes do que em assentar na nostalgia. E assim recrutaram Asia Argento para captar a explosão de cores e movimentos do primeiro de novos manifestos pop:

 

 

À procura de um formato

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O arranque da segunda temporada de "LOOKING" confirma o que a primeira já tinha sugerido: meia hora por episódio está longe de ser a duração mais favorável para esta série da HBO, centrada em três amigos gays de São Francisco.

 

"Looking for the Promised Land", o capítulo inicial, é logo sintomático. O retiro do trio protagonista para uma casa na floresta, durante um fim de semana, oferece uma boa alternativa ao ambiente urbano habitual até aqui. Mas este reencontro com Patrick, Agustin e Dom, entre a pacatez da chegada e a passagem para uma rave a céu aberto, passa tão a correr que acaba por saber a pouco. Não que seja tempo perdido, longe disso. Só que uma duração tão curta por episódio, invulgar numa série dramática (mesmo que vincada por vários momentos cómicos), não se dá especialmente bem com o ritmo semanal. E essa será a maior limitação de uma aposta que, ao fim de três novos capítulos, parece ganhar pela (re)visão de conjunto, como aliás já tinha acontecido com a temporada anterior, em que o todo era maior do que a soma das partes.

 

Apesar de servida em doses moderadas e de assentar numa leveza rara no meio de tantas séries drásticas e urgentes, a nova fase de "LOOKING" é tão ou mais cativante do que a que apresentou o dia-a-dia de três amigos que agora partilham o protagonismo com outras personagens regulares - Kevin e Richie, que compõem o triângulo amoroso de Patrick, têm mais tempo de antena e os fãs agradecem, num reforço complementado pela desbocada Doris, a tentar livrar-se do rótulo "fag hag" (palavras de Agustin).

 

LOOKING.Season 2.Episode 02.Day 01

 

A química entre o elenco está cada vez mais forte e a espontaneidade dos diálogos é uma lição para muitos exemplos do pequeno ou do grande ecrã, qualidades que seriam de esperar em Andrew Haigh ("Weekend"), um dos argumentistas e realizadores, cujo tom intimista e observacional é mantido por Ryan Fleck ("Half Nelson - Encurralados") e outros nomes atrás das câmaras.

 

Nem o avanço para situações mais ou menos habituais em dramas LBGT, como a abordagem da SIDA, praticamente deixada de lado na primeira temporada, faz com que "LOOKING" abdique das suas idiossincrasias. A forma como Patrick lida com o tema, no segundo episódio, é um bom exemplo, aliás, do salto do particular para o universal que os melhores momentos da série conseguem dar sem sequer parecerem esforçar-se. Não sendo um arco narrativo inédito (até as telenovelas já passaram por aí), conquista pelo tom tão tenso como espirituoso, completamente condizente com o protagonista e com a fase que a sua relação atravessa. Só é pena, lá está, que a lógica semanal "menos é mais", que até funciona em retratos como esse, não faça inteira justiça a uma série tão bem sintonizada com as suas personagens.  

 

A segunda temporada de "LOOKING" estreia esta quinta-feira em Portugal, no TV Séries, a partir das 23 horas.

 

 

 

Sombras e nevoeiro

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Interpol? Joy Division? The Chameleons? É difícil não pensar em alguma destas referências ao percorrer o álbum de estreia homónimo dos VIET CONG. Felizmente, e ao contrário de muitas bandas que recuperaram o pós-punk na viragem do milénio, as canções destes canadianos não se ficam pela homenagem reverente e insistem em abrir o seu próprio caminho, com direito a imprevistos e atalhos pouco canónicos.

 

"SILHOUETTES", o novo single, nem será um caso muito extremo, seguindo mais à letra o livro de estilo dos Interpol do que a maioria dos momentos do disco. Mas não só recupera parte da intensidade inicial dos nova-iorquinos como oferece algumas viragens quando parece estar a acomodar-se. O videoclip mostra um interesse comparável no misto de familiaridade e estranheza, ao juntar influências da ficção científica de Phillip K. Dick ou Arthur C. Clarke e dos ambientes de filmes de terror com casas assombradas: 

 

 

Da Ucrânia com furor

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Faz sentido que os KAZAKY tenham sido escolhidos para acompanhar Madonna no videoclip de "Girl Gone Wild". Afinal, desde 2010 que estes ucranianos têm levado muito a sério uma das máximas da rainha da pop: "Express yourself, don't repress yourself".

 

À custa disso - sobretudo pela pose andrógina ou por dançarem de saltos altos -, um dos seus concertos no Quirguistão teve de ser cancelado quando centenas de manifestantes anti-gay invadiram a sala. Mais comedido, o Ministério da Cultura russo limitou-se a distingui-los com o epíteto de "grupo imoral que contraria os valores humanos básicos".

 

Mas nem assim a a boy band deixa de actuar, com danças e coreografias capazes de destronar qualquer concorrência, nem de editar álbuns (já vão dois) e cada vez mais singles. Se a vertente visual dá que falar, a música também não é de se deitar fora, com flirts entre synth pop, house ou electro seguidores dos ensinamentos mais agitados de uns Depeche Mode, Pet Shop Boys, Fischerspooner ou Presets. "WHAT YOU GONNA DO", o novo single, é esclarecedor e atira uma bomba para a pista de dança com videoclip à altura:

 

 

Tiro ao lado

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Desde "Gran Torino" (2008) que Clint Eastwood não faz um filme marcante - "J. Edgar" talvez seja a excepção -, mas mesmo assim era legítimo esperar alguma coisa de "SNIPER AMERICANO". Infelizmente, a obra que tem batido recordes de bilheteira nos EUA reduz-se a uma hagiografia simplista tornada ainda pior ao confundir liberdade criativa com desonestidade intelectual.

 

Chris Kyle, o protagonista, foi o maior atirador da história militar-norte americana (responsável por pelo menos 160 mortes no Iraque) e esteve longe de ser uma figura consensual, como aliás o próprio assinalou na autobiografia em que o filme se baseia. Mas Eastwood e o seu argumentista parecem ter lido o livro na diagonal e deixam de fora alguns dos episódios mais controversos (como os assassinatos nos EUA que o autor reclama, nunca confirmados), sintomas de fantasmas psicológicos e de um assumido prazer em premir o gatilho que "SNIPER AMERICANO" ignora, preferindo apostar na glorificação de um inequívoco herói patriótico (devidamente rematada com um final solene e pesaroso, tão colado a telefilmes de "casos da vida" como o flashback explicativo do início).

 

Pode dizer-se que, sendo um exercício de ficção, o filme está à vontade para adoptar um ângulo mais parcial do que o que se esperaria numa reportagem ou num documentário. O que é legítimo, embora não só pinte um retrato idílico e postiço do soldado também conhecido como "A Lenda" e ex-guarda costas de Sarah Palin - contando meias verdades a meio mundo que não procure saber mais - como resulta num drama que desperdiça grande parte do potencial. E assim deparamo-nos com um biopic genérico e domesticado, que dispara ao lado tanto como estudo de personagem (demasiado polido e esquemático), reflexão sobre a guerra (ainda que esta seja mais ambígua do que o retrato do protagonista) ou mero entretenimento (a modorra vai tomando conta destas mais de duas horas com muita ganga narrativa).

 

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Nem tudo é mau: Bradley Cooper consegue fazer com a personagem se torne credível, na mais merecida das três nomeações para os Óscares que já teve, e Sienna Miller é tão ou mais surpreendente, ainda que no papel ingrato de esposa e mãe chorosa já visto em tantos filmes de guerra ou policiais (a cena em que o casal se conhece, das mais espontâneas e bem escritas, prometia mais do que o drama doméstico tão mecânico que se segue).

 

Mas nem a entrega da dupla chega para aguentar o olhar tão maniqueísta, com os iraquianos sujeitos a meras peças de tabuleiro prontas a esbanjar em cenas de tiroteio (com direito a suspense à custa de idosos e criancinhas) ou ao papel de traidores mal agradecidos. Pior ainda é o vilão de serviço, Mustafa, ex-atleta olímpico que passa o filme a fazer parkour sem debitar uma palavra antes de um duelo final que seria risível até numa aventura de super-heróis. Essa sequência também está entre as maiores "liberdades criativas" deste biopic, tendo em conta que Kyle admitiu nunca ter conhecido o sniper sírio. Se a ideia era inventar tanto, não teria sido preferível criar uma história de raiz? Independentemente disso, a que "SNIPER AMERICANO" oferece é arrastada, esquecível e tão rudimentar como o bebé falso que se tornou num fenómeno.

 

 

 

Videodrone

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Enquanto os Death in Vegas não dão novidades desde o algo esquecido "Trans-Love Energies", de 2011, o mentor dos britânicos, vai propondo algumas através da sua nova editora. Criada no ano passado por Richard Fearless, a Drone já editou dois registos do seu fundador e aposta agora em D'MARC CANTU, produtor que se move pela electrónica geralmente dançável desde inícios do milénio.

 

Depois de passar por várias etiquetas, assumir outros tantos pseudónimos e somar dezenas de singles, EPs e um álbum, o norte-americano desvia-se do terreno techno ou house (multifacetado) num instrumental de linhagem electro.

 

Repetitivo e infeccioso, "DECAY" é também, curiosamente, dos temas do produtor que mais se aproximam da dupla de "The Contino Sessions", o que só lhe fica bem e parece estar de acordo com a electrónica exploratória e distorcida que Fearless procura. Cantu diz que o single lhe lembra vídeos caseiros e memórias esbatidas, imaginário que não anda longe dos ambientes e efeitos de um videoclip não aconselhado a epilépticos:

 

 

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