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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sob o sol da Toscana

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Nome a conquistar o seu espaço entre o novo cinema italiano, Alice Rohrwacher estreou-se nas longas-metragens há quatro anos, com o discreto "Corpo Celeste", mas tem sido foco de maiores atenções com "O PAÍS DAS MARAVILHAS". E ainda bem, porque o mais recente drama da realizadora de 33 anos, distinguido com o Grande Prémio do Júri em Cannes e filme de abertura da Festa do Cinema Italiano, é das melhores surpresas cinematográficas da temporada.

 

Se outros méritos não tivesse, está aqui uma obra capaz de retratar o quotidiano rural sem se sujeitar a tentações de pitoresco que contaminam muita ficção - sobretudo televisiva mas também do grande ecrã. Ao acompanhar uma família da Toscana que tem a apicultura como forma de subsistência, Rohrwacher tanto deixa um olhar sobre o modo de vida quase perdido no tempo (não por acaso, a época da acção nunca é explicitada, embora tenha marcas dos anos 80), como vai construindo, a um ritmo pausado e paciente, um drama ancorado na relação entre um pai e uma filha.

 

Enquanto Gelsomina, a mais velha de quatro irmãs, tenta inscrever-se num concurso televisivo para conseguir expandir o negócio familiar de produção de mel, o pai resiste à intromissão de influências externas tanto em casa como no trabalho, no qual as filhas colaboram. Esta divergência começa, pouco a pouco, a tornar-se num conflito à medida que a adolescente vai descobrindo e defendendo a sua visão do mundo, pouco compatível com a do núcleo familiar. E  "O PAÍS DAS MARAVILHAS" acaba por se tornar numa história de crescimento melancólica e comovente, capaz de se desviar dos clichés de dramas coming of age sem que isso pareça sequer deliberado. Aliás, aqui tudo parece invulgarmente espontâneo, do realismo dos espaços às interpretações - tanto da crianças, actores não profissionais da região, como dos adultos, entre ou quais consta Monica Bellucci na pele da apresentadora televisiva idolatrada pela protagonista.

 

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O facto de algumas situações serem inspiradas na infância da realizadora ajudará a explicar essa vertente observacional tão conseguida, sobretudo o lado quase documental das cenas com as abelhas - tão ou mais impressionantes do que muitos efeitos especiais e responsáveis por uma sensação de maravilhamento sugerida pelo título e comprovada pelo filme. Junte-se a isto um olhar humanista sobre estas personagens, que tenta compreendê-las em vez de as julgar ou cair na condescendência, e "O PAÍS DAS MARAVILHAS" fica muito bem lançado a caminho de um grande filme... até ser parcialmente traído pelo final.

 

A atmosfera surreal e simbólica, sugerida em alguns momentos anteriores, acaba por se impor nos últimos vinte minutos e não só quebra o tom (e impecável verosimilhança) como pouco acrescenta a um relato que parecia já ter chegado à sua conclusão natural. Dispensavam-se os sublinhados metafóricos, a crónica terra-a-terra era mais do que suficiente - e justifica por si só, apesar de tudo, a descoberta do filme e de uma realizadora.

 

 

 

O som e a fúria

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Há dois anos, o álbum de estreia homónimo de TORRES tornou Mackenzie Scott numa cantautora a acompanhar, mesmo que não faltem vozes femininas a ter em conta em territórios entre a folk e o indie rock. Agora, a norte-americana volta a sugerir que não é preciso revolucionar esses universos para intrigar.

 

"STRANGE HELLOS", o novo single, pede alguma raiva emprestada a PJ Harvey ou Anna Calvi para um jogo de sensibilidades contrastantes, com dramatismo reforçado e elaborado face ao que se ouvia nas primeiras canções - o videoclip, para ver abaixo, sublinha o choque entre luz e sombra. Mais contida, com alguns momentos de descompressão entre a rudeza, "SPRINTER" dá título ao segundo álbum e fica como outro cartão de visita que impõe o voto de confiança neste regresso. É ir ouvindo e esperar até 18 de Maio, data da edição do disco, para tirar as dúvidas.

 

 

Juventude em marcha

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"OS COMBATENTES" chega às salas nacionais com uma colecção de referências mais do que simpáticas - soma quatro Césares entre as distinções - e não é difícil perceber porquê. A primeira obra de Thomas Cailley mostra uma frescura assinalável ao agarrar o tema da difícil entrada na idade adulta, seguindo a relação inicialmente conflituosa de dois adolescentes de uma pequena localidade francesa.

 

Arnau, que abandonou os estudos para se dedicar ao negócio de carpintaria da família, tem em Madeleine o abanão decisivo para sair do marasmo, acabando por acompanhá-la num estágio militar de Verão. E entre a complacência dele e a impulsividade dela a combinação de drama e comédia, leve mas não leviana, vai desenhando um estudo de personagens que é também um retrato de uma geração em permanente modo de preparação para o futuro. Se para Arnau o que aí vem é incerto, Madeleine não tem dúvidas: o melhor é esperar o pior e apostar num treino capaz de fintar o destino.

 

Cailley está longe de pisar território virgem mas parece rever-se na protagonista pela forma como conduz a narrativa. Também ele quer fintar as expectativas do espectador, sejam em relação aos modelos do romance juvenil com aprendizagem emocional incluída, do filme militar ou até da ficção científica apocalíptica. E consegue-o sem esticar a plausibilidade de um relato justo, luminoso e contagiante, mesmo que o final, literalmente mais sombrio, se aproveite de algumas coincidências (ainda assim, sabe como dar a volta à tentadora lógica moralista do conselho "cuidado com aquilo que desejas").

 

Se o realizador entra para a lista de nomes a acompanhar, pela forma como conjuga entusiasmo, desencanto e languidez, a energia dos actores não é menos determinante. A química entre Adèle Haenel e Kévin Azaïs, eléctrica logo à primeira troca de olhares (e de empurrões ou mordidelas), revela-se essencial para elevar o filme e acentuar o realismo das situações. A inversão dos estereótipos de género é mais uma opção astuta, bem defendida pela dupla, e a banda sonora electrónica (Vitalic, Yuksek, Hit+Run) ajuda a embalar a aventura sem exagerar na adrenalina - porque apesar da irreverência, está aqui uma primeira obra com sensibilidade e bom senso.

 

 

 

Como terminar uma temporada

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Mas afinal quem matou Lila? O mistério principal de "COMO DEFENDER UM ASSASSINO" arrastou-se durante a primeira temporada da série do canal ABC, apontou e descartou suspeitos e conseguiu trocar as voltas aos espectadores até ao último episódio. Aqui chegados, é bom ver que a resposta não foi adiada para a segunda temporada - traição que ceifou muitos fãs a "The Killing", por exemplo. Melhor ainda é a revelação em si, capaz de surpreender sem esticar demasiado a corda nem precisar de sacrificar a coerência das personagens - quase todas cada vez mais distantes do traço grosso dos primeiros capítulos.

 

Um desfecho inspirado, arrojado e muito bem oleado (com direito a episódio duplo) vem compensar alguma redundância e perda de ritmo depois da midseason finale, com os obrigatórios casos da semana a cortarem algum do entusiasmo, culpa de soluções demasiado convenientes e actores convidados de talento duvidoso. Tão ou mais dispensável foi a personagem da mãe da protagonista, que se por um lado permitiu ver a faceta vulnerável de Annalise Keating (Viola Davis) também tornou o penúltimo episódio num dramalhão familiar demasiado próximo do telefilme mais óbvio (nem faltou a tentativa de choque, perfeitamente desnecessária, à custa de um segredo do passado).

 

Não é que o final não conte ainda com um caso de tribunal da praxe, desta vez em torno de um padre (e, sim, com suspeitas de pedofilia), mas é rapidamente despachado para que a série volte a focar-se no que faz melhor: brincar, de forma habitualmente descarada, com as regras do "whodunit". E nesta despedida o descaramento é tanto que a resposta à pergunta principal dá lugar um novo mistério, ainda mais intrigante - um cliffhanger de luxo, mesmo. Pausas para respirar? Não, o que se quer é o espectador devidamente fisgado. Missão (e manipulação) cumprida, investigação suspensa até à segunda temporada.

 

O final da primeira temporada de "COMO DEFENDER UM ASSASSINO" é emitido no AXN na quinta-feira, 26 de Março, às 22h15.

 

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