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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quem são eles?

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Cash Askew e Kennedy Wenning conheceram-se há dois anos, na universidade, e da paixão comum por bandas como os Cocteau Twins ou os Sisters of Mercy nasceram os THEM ARE US TOO (TAUT). Tendo em conta as influências, não surpreende que uma das primeiras canções da dupla norte-americana, "Us Now", não só mergulhe em alguma da música mais obscura dos anos 80 como emule, quase a papel químico, os traços (e sobretudo a voz) da banda de Elizabeth Frazer.

 

Essa vénia está longe de ser caso único (os também recentes Gems que o digam) e embora os TAUT até sejam competentes na reapropriação dream pop, mostram-se mais aliciantes quando a conjugam com outros cenários. É isso que se ouve no seu novo single, "EUADAEMONIA", misterioso e sombrio no arranque, inesperadamente luminoso (mas não muito) no final, envolvente na combinação gótica e pós-punk.

 

As Dum Dum Girls, que também revisitaram ambientes próximos no último disco, contam-se entre as admiradoras iniciais de "Remain", o recém-editado álbum de estreia do duo de 21 anos. O primeiro videoclip, filmado pelos próprios, prova que Cash e Kennedy também têm a pose bem estudada:

 

 

Terna é a noite

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"Get Color", o segundo álbum dos HEALTH, editado em 2009, tem finalmente sucessor à vista. "Death Magic", o próximo registo dos californianos, chega a 7 de Agosto e já conta com uma primeira amostra. "NEW COKE" é tão rude e frenética como seria de esperar e reforça a aproximação ao electro e industrial, palpável no disco anterior e mais acessível do que a muralha noise da estreia.

 

A julgar pelos títulos das outras novas canções - "Dark Enough", "Hurt Yourself", "Drugs Exist" ou "Victim" -, este disparo sintético é apenas o rastilho para um disco pouco dado ao sossego. O videoclip do single também avança por aí, ao retratar uma noite entre a festa e o caos, com escatologia em slow motion e uma participação especial (e muito curta) de Alice Glass, talvez a celebrar a saída dos Crystal Castles:

 

 

Fruta da época

Na era da desmaterialização da música, ainda é possível que o interesse de um álbum pop não se reduza a um ou dois singles? "FROOT" sugere uma resposta optimista num regresso à boa forma de MARINA AND THE DIAMONDS.

 

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Da última vez que tínhamos ouvido Marina Diamandis, mais conhecida como MARINA AND THE DIAMONDS, foi difícil disfarçar alguma desilusão. "Electra Heart" (2012), apesar de toda a ambição conceptual (centrada na busca da fama da personagem do título) diluía muitas das qualidades e particularidades que a cantora galesa tão bem tinha evidenciado na estreia, "The Family Jewels" (2010).

Os dois álbuns mostravam uma devoção incondicional à pop mais garrida, com ecos inegáveis da electropop dos anos 1980, mas se o primeiro revelou uma voz à procura do seu caminho (com maneirismos herdados de Lene Lovich ou Kate Bush), no segundo Marina and the Diamonds parecia contentar-se em ser só mais uma, com mais estilo do que substância, composição menos exigente e produção genérica.

Depois dessa viragem, que entregou boa parte das canções a sabores do momento como Dr. Luke ou Diplo, "FROOT" marca logo a diferença na ficha técnica. Este terceiro álbum é o primeiro totalmente composto pela cantora e, em vez de uma equipa, como o anterior, recrutou apenas um nome para a produção - o britânico David Kosten, cujos créditos incluem Bat for Lashes ou Everything Everything. Não é que um disco seja melhor ou pior em função do número de autores, mas este resulta mais coeso do que "Electra Heart" sem deixar de lado a versatilidade expectável num registo de Marina Diamandis.

 

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De parto demorado - três anos são uma eternidade no contexto pop actual -, "FROOT" é obra de quem parou para pensar e equacionar um percurso que ameaçava tornar-se perigosamente próximo do de uma Katy Perry - com a desvantagem de ter uma dimensão mediática bem menor. Ainda assim, o disco antecessor não ficou completamente esquecido. "Fear and Loathing", a canção que fechava (e muito bem) "Electra Heart" em ambiente melancólico e etéreo, pode ser encarada como uma ponte para o que se ouve no novo álbum, mais centrado em preocupações existenciais como as dessa balada. Mas se há muito espaço para a introspeção ao longo do alinhamento, o ambiente festivo também continua a ter lugar por aqui, com destaque quase obrigatório para a faixa título, tentação disco com refrão delicioso, ao nível do melhor da sua autora.

"Froot", a canção, é também o arranque a sério depois da estranha escolha de "Happy" para tema de abertura do álbum. Não que esta seja uma má aposta, mas o relato espiritual em tom solene, ao piano, estaria melhor mais para o final do que antes da sequência de energia impressionante mantida por "I'm a Ruin" e "Blue".
Além do óptimo potencial para single, estes dois pedaços de pop eletrónica (exceções num disco mais orgânico do que sintético) olham para relações amorosas de um ponto de vista pouco habitual em grande parte da concorrência: o de quem as terminou e não o de quem foi dispensado. E aí Marina não tem medo de ficar mal na fotografia, com a agravante de já nem poder refugiar-se na persona de Electra Heart. Aliás, assumiu que o álbum se inspira numa relação terminada por ela, o que ajudará a explicar a ambivalência emocional do alinhamento.

 

 

"All these contradictions pouring out of me/ Just another girl in the 21st century", canta em "Can't Pin Me Down", outra das canções mais pegajosas do disco e daquelas que não acusam desgaste com audições repetidas - até porque a produção, sem ser tão idiossincrática e barroca como a de "The Family Jewels", ainda guarda algumas surpresas. Felizmente, "FROOT" dispensa mimetismos que captem o ar do tempo com a mão de Dr. Luke, o que pode dificultar a chegada a um público mais alargado mas também lhe dá outro charme e peso.

O retrato de "Solitaire", tão virado para dentro como o título da canção insinua, já bastava para sublinhar uma gravidade reforçada por "Savages" e "Immortal", finais perfeitos nos quais Marina chega ao topo (até agora) das suas capacidades como cantora, compositora e letrista. Na primeira deixa uma perspectiva muito pouco complacente da humanidade ("Underneath it all we're just savages/ Hidden behind shirts, ties and marriages"), com compasso rítmico acelerado rematado por um final apropriadamente operático. A segunda mostra-se ainda mais trágica, mas encontra alguma esperança para o ambiente pesaroso num desfecho que conjuga amor e morte. A conclusão a que chega não é propriamente uma epifania ("I don't want to be afraid, afraid to die/ I just want to be able to say that I have lived my life (...) The only thing that doesn't die is love"), o que acaba por não interessar muito quando Marina constrói aqui uma balada de recorte superior, na linha do melhor de "Ray of Light", de Madonna - e capaz de fazer sombra ao disco mais recente da rainha da pop.

Embora comece bem e impressione ainda mais no final, pelo meio "FROOT" nem sempre é tão conseguido. Momentos como "Better That That", "Forget" e sobretudo "Weeds" são demasiado formulaicos e indistintos, por isso ainda não é desta que Marina and the Diamonds volta a ter um alinhamento tão equilibrado como o da estreia. Mas enquanto os altos superarem os baixos, como acontece ao longo destas doze canções, valerá a pena continuar a acompanhar uma das melhores revelações da pop dos últimos anos.

 

 

A morte fica-lhes tão bem

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A quinta temporada de "A GUERRA DOS TRONOS" promete ser a mais arriscada e chocante até agora, tanto para as personagens como para os fãs.

 

Ter lido os livros de George R. R. Martin foi deixando de ser garantia para antecipar muitas viragens e os novos episódios reforçam essa tendência, dizendo adeus a figuras que se mantêm vivas na história original e propondo rumos diferentes para outras.

 

Esse contraste marca logo o momento mais trágico e arrepiante do capítulo inicial, com os seguintes a confirmar o que já sabíamos: em Westeros ninguém está seguro e as boas acções raramente são recompensadas. Até porque algumas das personagens vincadas pela nobreza de carácter, mas entretanto cada vez mais poderosas, também vão ficando cada vez mais impiedosas, o preço a pagar para não perderem essa posição. E não é qualquer saga que está disposta a arriscar o capital de simpatia dos protagonistas enquanto os afunda em abismos morais, com consequências especialmente fortes para os percursos de Jon Snow e Daenerys Targaryen (personagens capazes de sobreviver aos desempenhos mornos dos actores).

 

Matar ou ser morto? O cenário nem sempre é tão extremo, mas hesitar entrar no ciclo de violência e vingança é meio caminho para a perdição. Tommen Lannister, uma das personagens mais inocentes, parece estar perto de o descobrir ao tornar-se joguete das manipulações da mãe, Cersei, e da mulher, Margaery Tyrell, duas das maiores megeras dos Sete Reinos (estas sim, na pele de actrizes que se atiram com garra ao papel).

 

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A primeira sai especialmente favorecida num arranque de temporada que permite a Lena Headey dar mais nuances à personagem, sempre mais desafiante (e humanizada) quando luta pelos filhos - e agora a principal responsável por adicionar o fundamentalismo religioso à ementa temática da série.

 

Os melhores arcos narrativos partem, aliás, quase todos da dinâmica de duas figuras: do sarcasmo entre Tyrion e Varis resultam alguns dos diálogos mais memoráveis, Sansa e Littlefinger oferecem uma masterclass de calculismo e instinto de sobrevivência, Brienne e Podrick são o coração e a esperança no meio da desolação.

Nem todas as duplas funcionam (veja-se Daenerys Targaryen e Daario Naharis, casal meramente decorativo), mas pelo menos esta temporada dispensa as aventuras de Bran e Hodor, um dos subenredos mais arrastados da anterior (e de tom desajustado ao escorregar no sobrenatural).

 

A deixar mais saudades do que o jovem Stark, Oberyn Martell foi uma das baixas imperdoáveis, talvez a maior estrela da quarta temporada e seguramente a melhor revelação. Felizmente não morreu em vão e abre caminho para que a saga espreite Dorne, reino com cenário mediterrânico (mais um a juntar a uma lista de encher o olho) e três filhas bastardas que pedem justiça - naturalmente, feita pelas próprias mãos. Será desta que a contagem chega às 500 mortes?

 

 

 

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