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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sol de Inverno

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NOCTURNAL SUNSHINE não deixa completamente de fora a tech-house cruzada com a pop de "Comfort", álbum de estreia de Maya Jane Coles, editado há dois anos, mas o projecto paralelo da DJ e produtora londrina é quase sempre mais contaminado por texturas dub e derivadas.

 

O disco homónimo, uma das boas novidades da semana, revela-se menos frenético do que o primeiro single dava a entender - "Take Me There", apetitoso avanço raver a puxar pelas ondulações do baixo -, embora comprove também que a britânica volta a ser bem sucedida no formato longa-duração - depois de ter já obra feita numa mão cheia de EPs.

 

Em modo mais cerebral, sem quebrar o apelo para pistas de dança esclarecidas, "Nocturnal Sunshine" nem precisa de ter faixas tão directas como o álbum anterior da sua autora para se ir insinuando. "BELIEVE", com a voz de Chelou, é a nova aposta oficial:

 

 

Queridos anos 90

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Aulas de francês, namoros difíceis, falsas amigas, cigarros partilhados e outras memórias do liceu - à frente e atrás do pavilhão... Não é uma viagem na máquina do tempo, é parte do novo álbum dos SPEEDY ORTIZ, "Foil Deer", o terceiro da banda de Massachusetts (sucessor de "Major Arcana", de 2013).

 

Quem não soubesse, diria estar em inícios dos anos 90, pela forma como o quarteto continua a revisitar o rock alternativo (quando o termo ainda fazia de facto sentido) ou o grunge, linguagens vivas na escrita sardónica de Sadie Dupuis, vocalista com eloquência à medida.

 

A alternância entre o sussurro e o grito não é uma fórmula nova, mas volta a resultar em momentos como "Homonovus" ou "Raising the Skate", enquanto a implosão de "Puffer" ou "Mister Difficult" procura outra amplitude, caminhos menos óbvios num alinhamento entre o familiar e o desafiante. O melhor refrão talvez pertença a "My Dead Girl", canção que ferve em lume brando e podia ter sido inspirada em Brittany Murphy ou na rebeldia da Drew Barrymore de há três décadas.

 

A adolescência (reimaginada ou tardia) e o livro de estilo de algum rock dos anos 90 também têm inspirado conterrâneos e contemporâneos dos Speedy Ortiz, muitas vezes no feminino. Torres mune-se de guitarras e ambientes mais agrestes, Colleen Green prefere a doçura travada por alguma ironia, a nova fase dos Best Coast opta pela pop radiofriendly e maior do que a vida, Brody Dalle reforça a maquilhagem electrónica e industrial. Deste lado do Atlântico, os londrinos Wolf Alice contrastam rudeza e vulnerabilidade com herança britpop.

 

Ainda é cedo para apontar nomes para o quadro de honra, embora "Foil Deer" esteja bem lançado. Estes dois singles, por exemplo, mostram que os seus autores vieram para ficar e nem são dos pontos altos do disco:

 

 

 

Ele é que é o presidente (mas todos gostam mais dela)

Na terceira temporada de "HOUSE OF CARDS", Frank Underwood conseguiu finalmente o que queria: tornar-se Presidente dos EUA, mesmo que um presidente substituto e não (ainda) eleito. Mas a série do Netflix também confirma o ditado de que por trás de um grande homem (ou péssimo, neste caso) há uma sempre grande mulher, com a personagem de Robin Wright a conquistar tempo de antena (na campanha eleitoral e não só) à de Kevin Spacey.

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Essa mudança fez bem à produção norte-americana de Beau Willimon (cuja ficha técnica inclui David Fincher como produtor executivo), agora mais afastada do material de origem, a minissérie homónima da BBC, e também a abdicar de alguma sordidez (e contagem de corpos) das primeiras temporadas, com mais avanços na carreira política do que criminal do protagonista.

 

Se os homicídios motivados por Frank, pelas próprias mãos ou com o apoio de terceiros, esticaram a suspensão da descrença de muitos espectadores até ao limite, a nova fase da saga ambientada na Casa Branca foi por vezes surpreendentemente sóbria e realista. Sem tantos desvios de tom, mas também sem ignorar a índole no mínimo questionável da personagem de Spacey, político disposto a tudo, "HOUSE OF CARDS" foi tanto melhor quanto mais explorou Claire Underwood, desde cedo uma figura menos plana do que a do marido.

 

Os populares apartes do protagonista, em que se dirige directamente ao espectador, podem ter-se tornado parte da imagem de marca desta saga política, mas também são, muitas vezes, das cenas mais óbvias: raramente acrescentam algo que não tivéssemos já intuído, servindo quase sempre para mastigar acontecimentos recentes ou antecipar outros que não precisavam desse dispositivo.

 

Felizmente, os argumentistas e realizadores aplicam mais vezes a dica "show, don't tell" às sequências com a personagem de Claire, mantendo-a como uma mulher esquiva, contraditória e enigmática, a atirar a série para território mais movediço. É muito por causa dela que os episódios que envolvem o presidente russo (cópia a papel químico de Vladimir Putin) são dos mais desafiantes e memoráveis da temporada, com "HOUSE OF CARDS" a mergulhar numa eventual nova Guerra Fria, no conflito do Médio Oriente ou no activismo LGBT - e a recusar entrar pelo caminho mais fácil, questionando as certezas dos protagonistas e dos espectadores.

 

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Mas Claire não é a única mulher forte da terceira temporada. Heather Dunbar, que disputa com Frank a corrida à presidência, é das adversárias mais sérias do protagonista, embora nem precise de ser especialmente temível quando os anteriores quase não lhe davam luta (com o Presidente dos EUA da segunda temporada a destacar-se como um oponente demasiado frouxo para ser verdade, um extremo de ingenuidade contra um concentrado de frieza e calculismo).  A deputada Jackie Sharp e a jornalista Kate Baldwin também tentam a causar alguns estragos, sobretudo a segunda, espelho de uma imprensa menos vulnerável  e silenciada do na fase inicial da série.

 

Mais frustrante é a personagem de Rachel, responsável pelo óptimo cliffhanger do final da segunda temporada mas aqui motor de um subenredo arrastado e problemático. A atenção à vida pessoal (quase inexistente) de Doug Stamper, ex-Chefe de Gabinete de Frank e workaholic obrigado a uma longa pausa para recuperação, até começa por ser uma forma inesperada de arrancar a temporada, dando outro peso a um secundário até então quase instrumental. Michael Kelly revela-se actor à altura do desafio e merecia mais do que o remate previsível e tardio do fecho da temporada, com um jogo de suspense que falha ao usar, mais uma vez, Rachel como mera muleta do argumento e da viagem emocional de Doug.

 

O que "HOUSE OF CARDS" consegue atingir com os episódios mais dedicados a Claire perde em momentos como esses, com um desperdício de algumas tramas secundárias que menorizam aquela que será, apesar de tudo, a temporada mais recomendável da série. Nesse aspecto, o último episódio acaba por ter alguma coerência, ao fazer corresponder o rumo de duas histórias: uma atabalhoada, outra mais intrigante. Mas com uma cena final tão seca e repentina (cortesia, lá está, da melhor personagem), capaz de elevar tanto os riscos, a curiosidade quanto ao que se segue fica mais do que garantida...

 

 

 

Perigo, perigo: alta voltagem

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"Data Panik Etcetera", o quarto álbum dos Bis, foi um dos regressos mais contagiantes do ano passado e parece ter dado novo fôlego ao trio escocês - do qual havia, infelizmente, muito poucas notícias desde inícios do milénio. Desta vez, as novidades não acabam aí e há mais música nova de alguns projectos individuais dos elementos do grupo. 

 

BATTERIES é a aventura a solo de Steven Clark (AKA Sci-Fi Steven) e tem álbum de estreia prometido para 7 de Agosto. Também prometida está uma sonoridade mais agressiva do que a habitual nos Bis, embora estes já sejam quase sempre enérgicos e acelerados. Por agora, o single de apresentação, de título homónimo, mantém a expectativa de um alinhamento ligado à corrente e remete para a banda de "Eurodisco" e "Kandy Pop" (tanto pelo frenesim instrumental como pela voz de Steven) enquanto também reaviva memórias pós-punk de uns Devo, entre sintetizadores, guitarras e um refrão pegajoso (nem que seja à força, já que dificilmente poderia ser mais repetido ao longo de dois minutos e pouco).

 

Além do single, também foi revelado o lyric video, com baterias utilizadas num ambiente retro-futurista. Despachado e eficaz, como a canção:

 

 

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