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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O gosto dos outros

jake_shears_kylie

 

Como o hiato dos Scissor Sisters, mantido já desde "The Magic Hour" (2012), ainda não tem fim à vista, Jake Shears vai fazendo a festa com outras companhias. A mais recente é a das NERVO, dupla australiana que o convidou para uma das faixas do seu álbum de estreia, "Collateral", editado este Verão.

 

Shears não só agradeceu como se fez acompanhar da amiga Kylie Minogue e de Nile Rodgers, tomando a liberdade de engordar a guest list. E assim não foi difícil fazer de "THE OTHER BOYS" a canção mais bem frequentada de um duo EDM que não costuma ter temas brilhantes nem colaborações especialmente recomendáveis - Nicky Romero, Steve Aoki ou Afrojack estão entre os suspeitos do costume na ficha técnica...

 

Não é que o resultado seja um single excepcional, mas o star power também não é desperdiçado numa pastilha elástica com sabor disco, ritmo imparável (a valer por uns quantos shots) ou um refrão que se cola à primeira e aguenta bem audições repetidas. Ajuda que soe mais a Scissor Sisters e a Kylie Minogue do que às próprias NERVO (com direito a guitarrada do mentor dos Chic no final) e o misto de euforia a despretensão tem representantes à altura nos cantores, que não ficam nada aquém dos bailarinos no videoclip. As filmagens devem ter sido divertidas:

 

 

Os miúdos estão bem

nocturnal_sunshine

 

Algures entre um ensaio para uma revista de moda vanguardista q.b., uma rave mais agreste e extrema do que o habitual ou uma versão negra de "Os Jogos da Fome" (ou outra saga sci-fi para adolescentes e jovens adultos) está o cenário do novo videoclip de NOCTURNAL SUNSHINE, o projecto paralelo (e também a solo) de Maya Jane Coles.

 

O álbum que revelou a nova faceta da DJ britânica, lançado no início do ano, não terá o apelo pop de "Confort" mas vem confirmar que está por aqui um dos valores seguros da música de dança recente. Depois dos singles "Take Me There" e "Believe", cabe agora a "IT'S ALRIGHT" garantir uma nova porta de entrada para um disco a ter em conta.

 

A canção até acaba por ser o single mais representativo do que o alinhamento tem para oferecer, ao aprofundar os contornos dub da nova vertente da sua autora. As imagens carregam no lado nocturno, numa madrugada em que o nascer do sol ainda parece estar longe:

 

 

A primeira vez de Jenny

Jennylee

 

Quase três minutos de pós-punk tão tenso como acolhedor, cortesia de uma voz capaz de ir do sussurro ao grito e a um baixo ondulante que domina a instrumentação. Não começa nada mal, a aventura a solo de Jenny Lee Lindberg, AKA JENNYLEE.

 

A baixista e segunda voz das Warpaint prepara-se para editar o álbum de estreia enquanto a banda não regressa como o sucessor do disco homónimo, lançado no ano passado, e deixa em "NEVER" um primeiro avanço a prometer boas coisas.

 

"Right On!" está agendado para 11 de Dezembro e terá entre os convidados Dan Elkan, vocalista e guitarrista dos Them Hills, ou Stella Mozgawa, baterista das Warpaint, e a sua autora tem dito que as dez novas canções não vão fugir muito de ambientes góticos e new wave, que de resto já tinham sido mais explorados pela sua banda no último álbum - e num concerto memorável na Aula Magna.

 

A julgar pelos excertos de algumas faixas que Jennylee tem partilhado nas redes sociais, a folk (vestida de negro) também parece deixar marca no que aí vem, conduzida por uma voz que poderá justificar mais atenções. Por agora, "Never" trata de atiçar a curiosidade:

 

 

A noite mais longa

Estranho numa terra estranha, o soldado inglês que protagoniza "'71" é abandonado nas ruas de Belfast, em 1971, quando a cidade se tornou campo de batalha entre católicos e protestantes. E assim passa de figura que tenta impor alguma ordem a alvo a abater ao longo de uma noite invulgarmente tensa, captada com nervo à altura pela câmara de Yann Demange, na sua estreia no cinema depois de um currículo na televisão.

71



Embora seja francês, o realizador estudou com atenção as lições do realismo britânico, mostrando um à vontade evidente no retrato cru e realista, com uma gestão de tempo e espaço admirável, sobretudo numa primeira obra (capaz de dar injectar nova vida ao algo estafado recurso da câmara à mão), e uma reconstituição de época igualmente convincente.

Sem trazer nada de especialmente novo, quer em relação ao olhar sobre o conflito irlandês, quer à combinação de drama, thriller e filme de guerra, o resultado serve algumas das sequências mais cinéticas dos últimos tempos, com a vantagem de serem muito mais terra-a-terra do que boa parte das produções de orçamento mais avultado. E por isso é mais fácil acreditar em algumas situações-limite que o argumento vai combinando estrategicamente, entre os labirintos dos subúrbios numa noite angustiante sem fim à vista.

Esse lado físico também funciona porque a direcção de actores não fica aquém da boa tradição do realismo britânico. Nem tanto por Jack O'Connell, um protagonista competente, ainda que não seja uma personagem particularmente forte, mas sobretudo pelos óptimos secundários, alguns a ter de fazer muito com poucas cenas. Uma vez que o período da acção é limitado e avança quase em tempo real, a evolução das personagens também não pode alcançar grandes voos, embora Demange consiga, pelo menos, conferir ambiguidade a todas sem favorecer qualquer lado da barricada.

 

O humanismo em tempos de guerra assenta bem a "'71", eleva o que poderia esgotar-se num exercício de estilo e compensa uma recta final sem o rasgo do arranque. Felizmente, neste caso a enchurrada de prémios em festivais não foi só por conta do tema e boas intenções...

 

 

 

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