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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

45 de 2015

O regresso inspirado de M. Night Shyamalan (finalmente!) e um dos melhores filmes da Pixar foram das poucas excepções num ano pouco excepcional para o cinema. Tanto que se tornou difícil escolher dez estreias acima da média para fechar o balanço (o curto tempo em cartaz de algumas que prometiam também não ajudou muito).

 

Mais confiável, a oferta no pequeno ecrã reforçou as opções (obrigado, Netflix, mais pelas séries do que pelos filmes) e complicou a vida de quem quer ir a todas as novidades e temporadas, da estreia de "Mr. Robot" (surpresa do ano?) ao adeus a "Looking". Nos canais tradicionais, vale a pena aplaudir algumas apostas da RTP2 ("Borgen" chegou com atraso, mas ainda bem que chegou).

 

Na música, o formato álbum já viu dias melhores, como os últimos anos também têm mostrado, o que não quer dizer que a colheita tenha sido má. E num ano em que ouvi mais álbuns do que espreitei palcos, fiquei pelo menos com (muito) boas memórias do Festival Música do Mundo de Sines ou dos Garbage em Londres.

 

Sem ordem de preferência, os pontos altos do ano em filmes, séries, discos e canções passaram por aqui:

 

10 FILMES

divertida-mente

 

"'71", Yann Demange
"A Visita", M. Night Shyamalan
"Da Natureza", Ole Giæver e Marte Vold
"Divertida-Mente", Pete Docter e Ronaldo Del Carmen
"Força Maior", Ruben Östlund
"Minha Mãe", Nanni Moretti
"Morte Limpa", Andrew Niccol
"O País das Maravilhas", Alice Rohrwacher
"O Verão de May", Cherien Dabis
"Os Combatentes", Thomas Cailley
 

Fora de circuito: "7 Kinds of Wrath", Christos Voupouras (QueerLisboa)/ "Oriented", Jake Witzenfeld (QueerLisboa)
Maior perda de tempo: "Ascensão de Júpiter", Andy e Lana Wachowski/ "Vício Intrínseco", Paul Thomas Anderson

 

10 SÉRIES

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"A Guerra dos Tronos", HBO
"Borgen", DR1
"Como Defender um Assassino", ABC
"Daredevil", Netflix
"Gomorra", Sky Italia
"House of Cards", Netflix
"Humans", AMC/Channel 4
"Looking", HBO
"Mr. Robot", USA Network
"The Americans", FX

 

Maior perda de tempo: "Sense8", Netflix

 

 10 DISCOS

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"California Nights", Best Coast
"Dumb Flesh", Blanck Mass
"I Want to Grow Up", Colleen Green
"Kill the One You Love", GEMS
"right on!", jennylee
"Working Girl", Little Boots
"FROOT", Marina and the Diamonds
"Real Life", Real Lies
"Deeper", The Soft Moon
"Destroyer", Telepathe

Disco português: "Mar Aberto", MEDEIROS/LUCAS
Desilusão do ano: "Rebel Heart", Madonna

 

 15 CANÇÕES

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"Notget", Björk
"Cruel Sport", Blanck Mass
"Miniskirt", Braids
"Springtime Linn", Clark
"Deeper Than Love", Colleen Green
"Fumo Denso", DJ Ride feat. Capicua
"Kill V. Maim", Grimes
"Storm's End", Leftfield
"Savages", Marina and the Diamonds
"Borders", M.I.A.
"Hotel", Nocturnal Sunshine
"Blackmarket Blues", Real Lies
"Meet Your Maker", Shlohmo
"Accelerate", Susanne Sundfør
"Tipo Ya", Throes + the Shine

 

Há algo de fresco no reino da Dinamarca

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Os RANGLEKLODS não serão propriamente novatos. "Straitjacket", editado em Maio, é já o segundo álbum do duo formado em 2010, em Copenhaga, mas ainda assim Esben Andersen e Pernille Smith-Sivertsen estão longe de ser nomes sonantes, mesmo dentro da electrónica mais dançável e obscura em que se movem.

 

E é pena que não sejam, porque o sucessor de "Beekeeper" (2012), apesar de algo esquizofrénico na mistura de atmosferas, serve alguns bons cartuchos tanto para o horário nobre da pista de dança como para o after hours ou mais além - o breakbeat lânguido de "Tricks" para o primeiro caso, o gótico sintético de "Schoolgirls" ou "Forgive" para o segundo, por exemplo.

 

A unir os contraste de ambientes estão as vozes, com a dele a lembrar um Mark Lanegan mais afastado do rock e da folk, mas nem por isso menos denso, e a dela, não tão presente, a remeter para um encontro entre Elizabeth Fraser e Grimes, sobretudo no single "LOST U". A canção, que abre o disco e foi a primeira aposta oficial, é dos momentos mais contagiantes do alinhamento, ao avançar pela house 4/4 para a desconstruir na segunda metade. Desse choque entre imediatismo e estranheza sai o melhor dos RANGLEKLODS, num single a milhas dos chatíssimos Disclosure e aparentados, banda sonora mais habitual de noites como as do videoclip:

 

 

Disponível para amar (e dançar)

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Depois de um EP a meias com os Röyksopp, no ano passado, ROBYN quis voltar a aproximar-se do formato banda e o resultado foi um novo mini-álbum, "Love Is Free", editado neste Verão.

 

A cantora sueca começou por juntar-se ao produtor Christian Falk (veterano cujo currículo inclui a produção do hit "7 Seconds", de Youssou N'Dour e Neneh Cherry, ou a co-composição de vários temas dos Whale), mas a morte do músico, devido a um cancro, acabou por motivar a entrada de um novo colaborador no projecto, o teclista Markus Jägerstedt.

 

Entre os primeiros esboços e as versões finais, as cinco faixas foram reforçando contornos electrónicos e dançáveis, viragem que faz do EP de ROBYN & LA BAGATELLE MAGIQUE um dos mais frenéticos da cantora de "With Every Heartbeat" - com o compasso rítmico a dar embalo a relatos de celebração da liberdade individual, emocional ou sexual.

 

A faixa título dá uma boa ideia do que esperar. "LOVE IS FREE" junta mais uma voz, a da rapper Maluca, e concentra o clima de festa do mini-álbum, com um pé no acid house e outro no hip-hop, entre uns Dee-Lite e M.I.A. ao lado de uma quase overdose de cowbell. O videoclip mantém a euforia do single e marca uma parceria com outro músico, SSION, ao qual foi entregue a realização:

 

 

Miss Robot

Mas afinal, quem é Anita? Enquanto vai dando resposta a esta pergunta, a primeira temporada de "HUMANS" oferece uma das surpresas da ficção científica recente.

 

humans_amc

 

Num futuro não muito distante - às vezes, até demasiado próximo - , a família Hawkins decide finalmente comprar um synth, uma espécie de robô aprimorado (sobretudo na aparência e postura) capaz de fazer várias tarefas até então exclusivas dos humanos, de forma mais rápida e eficaz do que a maioria destes. E até aí tudo bem, mesmo com alguma discórdia entre pais e filhos em relação à decisão, não fosse dar-se o caso de Anita, o modelo em causa, começar a ter comportamentos pontuais que fogem ao padrão estipulado no manual de instruções.

 

O conflito (ou harmonia) entre o Homem e a máquina já alimenta boa parte da ficção científica há muito, da literatura ao cinema, mas não só é um tema cada vez mais actual (e em certos casos não tão ficcional assim) como ainda tem espaço de manobra para variações intrigantes. Esta co-produção entre o norte-americano AMC e o britânico Channel 4 estará entre os melhores exemplos dos últimos tempos, adaptando a premiada série sueca "Real Humans" (2012) com uma óbvia sofisticação de meios (sem se tornar visualmente ostensiva) enquanto valoriza o óptimo elenco que tem à disposição.

 

Ao lado da família de classe média que serve de âncora narrativa e emocional desta saga, os criadores Jonathan Brackley e Sam Vincent vão apresentando uma outra, certamente menos tradicional, até por se tratar de um grupo de synths. Mas de synths com consciência, em busca da sua liberdade e individualidade, ambição que esbarra com um sistema que os encara como um electrodoméstico multiusos (incluindo tarefas para maiores de 18).

 

humans_amc_2

 

Se o território é familiar, e até foi abordado este ano em "Ex-Machina", "HUMANS" propõe um retrato mais empático e menos clínico do que esse filme de Alex Garland, por exemplo, tirando partido de uma galeria de personagens com espaço para crescer - e não discriminando entre humanos e máquinas. Tanto dá destaque a muitas revelações, com menção quase obrigatória para Gemma Chan, perfeita na exigente viagem emocional de Anita, como para veteranos como William Hurt, que na pele de um investigador solitário, com uma relação paternal com um synth, tem daqueles papéis à altura pouco vistos no cinema em muitos anos.

 

Sem viver de uma acumulação de cliffhangers ou outros golpes narrativos mais ou menos recorrentes no pequeno ecrã, a série arranca de forma discreta, até demasiado modesta à primeira vista, mas vai cativando pelo equilíbrio na forma como gere os muitos arcos narrativos e um tom capaz de oscilar, com fluidez, entre o thriller, o drama e um humor muito bem-vindo (e muito alicerçado nas personagens, afastando-se da sisudez de outras histórias futuristas centradas na inteligência artificial). O único senão é mesmo o de oito episódios saberem a pouco, interrompendo a acção numa altura em que o potencial de algumas personagens começava a confirmar-se. Felizmente não é um caso perdido quando há uma segunda temporada a caminho, já em 2016, e é daquelas para marcar na agenda...