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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando eles são pin-ups

joy_formidable

 

Em vez de se lamentarem contra a objectificação feminina na música, e em especial nos videoclips, com ensaios amargurados sobre o assunto, os JOY FORMIDABLE preferem pagar na mesma moeda. Ou seja, através de um mashup de imagens com nudez masculina (ainda que não integral), sacadas tanto da cultura pop (filmes, TV, concertos) como de anónimos que exibem o corpo nos palcos virtuais.

 

A ideia é dar espaço, por uma vez, a um olhar feminino heterossexual - no caso, o da vocalista Ritzy Bryan - mais motivado por uma celebração descontraída da sexualidade do que por um voyeurismo agressivo, muitas vezes à custa da subjugação da mulher - o modelo dominante e normativo. Se no processo os homens acabam por ser objectificados, a banda galesa admite que não vê nisso um problema, desde que as imagens tenham consentimento dos visados. Num texto que deixou online, o trio realça que não condena a objectificação, só o facto de se centrar quase sempre no mesmo género. Menos tabus e mais diversidade, com Bruce Lee ou Iggy Pop a darem corpo ao manifesto.

 

Além da colecção de corpos masculinos, o videoclip de "THE LAST THING ON MY MIND" desvenda parte do que esperar do terceiro álbum do grupo, "Hitch", com produção de Alan Moulder e data de edição a 25 de Março. Mas a ousadia fica mais a cargo das imagens do que da música, ancorada num rock indie tão competente como domesticado:

 

 

Guia para uma golpada americana

Ainda é possível fintar os modelos mais óbvios do biopic, mesmo em Hollywood. Sem ser um grande filme, "JOY" é uma pequena maravilha que tira partido da colaboração J-Law/David O. Russell - mais uma, sim, e não há mal nenhum nisso.

 

joy

 

Jennifer Lawrence e Bradley Cooper outra vez? E outra vez num filme de David O. Russell, depois do (muito simpático) "Guia Para um Final Feliz" e do (não tão conseguido) "Golpada Americana"? Ao primeiro impacto, "JOY" pode parecer mais do mesmo, e é verdade que o tom, entre a comédia e o drama em ambiente suburbano e disfuncional, não foge muito ao que tem sido regra nos últimos filmes do realizador de "Três Reis".

 

Mas também há algumas diferenças: apesar do destaque considerável na promoção do filme, Cooper tem uma personagem secundaríssima, com pouco tempo de antena, já que Russell oferece "JOY" de bandeja a Lawrence. Ela retribui com um desempenho à altura do que se espera, carregando às costas grande parte deste retrato pessoal e ascensão profissional da criadora de uma esfregona que mudaria a rotina de muitas donas de casa.

 

A história em si, variação sem grandes singularidades de uma "self made woman" embalada pelo sonho americano, não será o ponto de partida mais estimulante. Mas além da actriz, o filme tem um trunfo no realizador, que faz o que pode com um relato obrigatoriamente previsível e de fronteiras narrativas delimitadas. Em vez do caso da vida certinho e asséptico que sai demasiadas vezes da máquina de Hollywood (e outras tantas de fora dela), Russell consegue uma obra ainda inspiradora, embora mais descosida e rugosa do que muita concorrência "de prestígio" com as estatuetas douradas (ou outras) em vista.

 

Ao complementar a jornada idealista com algum cinismo, "JOY" despeja acidez q.b. no que poderia ser só mais um conto de fadas moderno, mantendo um braço de ferro entre realidade e artifício que atinge o ponto de equilíbrio numa das últimas (e melhores) sequências: a da protagonista à porta de uma loja com modelos de felicidade prontos a consumir. É o (quase) desenlace apropriado para uma viagem pelo caos e união familiar ou os bastidores das televendas, ancorada na verdade que Lawrence consegue fazer passar entre muitas distracções. Por outro lado, alguns secundários ficam reduzidos a cromos (mesmo assim, não tanto como noutros filmes de Russell, nem tão histéricos), o que não compromete suficientes bons momentos a cargo de Isabella Rossellini ou Robert De Niro.

 

Com este entrosamento entre um realizador minimamente inventivo e uma direcção de actores ao nível do que nos habituou, a sucessão de pequenas conquistas e derrotas de Joy Mangano resulta bem menos formulaica do que no papel. E torna esta nova colaboração num feelgood movie modesto mas certeiro, numa altura em que vai sendo cada vez mais difícil acreditar neles...

 

 

 

Parar é morrer

bleached

 

"Ride Your Heart" (2013), a estreia das BLEACHED, não era o álbum mais original do mundo. Antes pelo contrário, era mais um a fazer uma vénia aos girl groups dos anos 50, repensada em contexto indie rock, na linha do que fazem ou fizeram umas Dum Dum Girls, Best Coast ou Vivian Girls sem chegar aos melhores momentos destas. Mas ainda era uma amostra promissora das capacidades das irmãs Jennifer e Jessie Clavin, ex-Mika Miko, com uma mão cheia de melodias e harmonias vocais que iam ficando no ouvido.

 

Três anos depois, e agora em formato trio, ao lado da baixista Micayla Grace, as californianas não parecem ter perdido o jeito para singles despachados, directos ao assunto, e refrãos fortes. "KEEP ON KEEPIN' ON" é uma rajada de três minutos e meio a convocar palmas, segundas vozes e teclados carregados lá para o final, que destoam q.b. do molde talvez demasiado reconhecível do arranque, marcha garage pop comandada por guitarra e bateria.

 

A dupla Clavin garante que o grupo foi a sua tábua de salvação durante um período atribulado, tanto no plano amoroso como no doméstico, e traduziu parte desses episódios para o disco a editar dia 1 de Abril. O single trata de abrir o apetite com um incentivo à resiliência, numa canção urgente e com garra sem precisar de abdicar do charme. A atitude continua no videoclip, montra para um trio em modo imparável:

 

 

O ataque do clone

Onde termina a homenagem e começa a colagem? No caso de "STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA", é difícil traçar a fronteira. E esse nem é o único problema de um filme tão aguardado quanto desapontante...

 

starwars

 

Seja num original como "Super 8" ou na revitalização da saga "Star Trek", o apreço de J.J. Abrams por histórias de ficção científica apontadas a públicos de várias gerações, com uma reverência óbvia por alguns clássicos dos anos 80, fez dele uma aposta natural para relançar aventuras de jedis e sabres de luz. E até aí nada contra, mesmo com um tropeção como "Além da Escuridão: Star Trek" pelo caminho.

 

Infelizmente, essa sequela, até agora o patamar mais baixo do seu currículo como realizador, tem agora concorrência à altura com um filme que tenta fazer a ponte entre convertidos e novatos. Mas apesar de algumas caras novas, "STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA" pouco mais faz do que capitalizar nostalgia, com a colagem abusiva à obra inaugural da saga a comprometer o espírito de descoberta que fez dessa uma surpresa há quase 40 anos (e se muitos poderão reduzi-la a um pastiche de outras aventuras galácticas, na altura conseguiu fazê-lo com uma espectacularidade que mora longe do novo episódio, mais um entre tantos blockbusters de orçamento generoso).

 

As novas personagens até prometem, o filme é que não faz muito com elas. Rey e Finn são defendidos por dois jovens actores empenhados, com alguma química, mas a protagonista acaba por tornar-se em pouco mais de uma marioneta para reviravoltas do argumento, com a função de heroína intrépida e desenracasda. Precisamos de mais uma variação de Katniss, de "Os Jogos da Fome", ou Furioza, do último "Mad Max" (para não recuar mais)? Agradecemos, claro, personagens femininas com papéis de relevo, só que o esforço de Daisy Ridley não disfarça a heroína meio genérica que lhe dão (envolvê-la num novelo de segredos também não ajuda). Como ela, Finn desperta alguma simpatia, mas o dilema moral que o conduz é pouco convincente e ainda menos explorado. De qualquer forma, será sempre preferível ao "arco narrativo" de Poe, de longe um dos maiores desperdícios de actores dos últimos tempos - Oscar Isaac a passear pelos cenários sem personagem para agarrar.

 

oscar_isaac

 

Se no caso dos heróis ainda se nota, ainda assim, alguma tentativa de construção dramática - por muito que a maioria dos retornados da velha guarda, tirando um, pouco mais faça do que aparecer -, o mais frustrante deste novo episódio é mesmo o vilão. Como suceder a um ícone do gabarito de Darth Vader? Nunca com o esboço que se serve aqui, numa figura risível quando deveria ser temível. E como ela falha, falha também o suposto grande momento de tensão do filme, lá para o final, a milhas da gravidade que pretende ter (e quanto menos se falar do CGI do Supremo Líder, melhor...). Até porque, depois dessa cena, a aventura retoma a mistura de acção e humor, com as piadinhas da praxe a anularem qualquer construção de suspense. As coincidências fazem o resto, e se já é expectável contar com algumas, aqui o número de situações roça o absurdo - as desculpas para encontros das personagens ou fuga de ameaças seguem quase sempre pelas soluções mais preguiçosas, que deixam sérias dúvidas sobre a revisão do argumento.

 

Numa coisa, admita-se, "STAR WARS - O DESPERTAR DA FORÇA" não falha: Abrams consegue manter o ritmo ao longo destas mais de duas horas, mais enérgicas do que arrastadas, e até chega a entusiasmar na primeira metade. Mas bem espremidas, e passada alguma adrenalina, pouco fica: as relações entre as personagens evoluem de modo demasiado acelerado, com laços tão fortes como forçados; a sinalização do que está para trás (seja vénia ou cópia do capítulo inaugural, tanto faz) impõe uma estrutura demasiado reconhecível; e nem as sequências de acção chegam a ficar na retina (muito fogo de vista, muito dinheiro gasto, nenhum momento de antologia). Fica só mesmo um prólogo de longa duração, que se limita a lançar pistas para seguir nos próximos dois episódios. E nem sequer o disfarça, ao despedir-se com um cliffhanger na linha do pior cinema em série. Desta vez, a força não esteve com J.J. Abrams...

 

 

 

Sangue fresco

grimes_2015

 

Longe vão os tempos de "Vanessa" ou "Crystal Ball", canções que começaram por ir apresentando GRIMES antes da maior popularidade alcançada ao terceiro álbum, "Visions" (2012). De então para cá, a misteriosa canadiana que assegurava as primeiras partes dos concertos de Lykke Li, por exemplo, não deixou de somar likes no Facebook mas continuou a injectar alguma estranheza na pop, embora essa atitude já pareça confundir-se com uma obrigação em alguns momentos de "Art Angels" (2015).

 

Mesmo assim, de vez em quando Claire Boucher prova que ainda é capaz do melhor. Como em "KILL V. MAIM", a grande canção do alinhamento do último disco e uma das mais desvairadas do seu catálogo - o que não é dizer pouco, tendo em conta a bizarria ocasional dos dois primeiros registos. É também dos seus desvarios mais acessíveis, por isso não admira que tenha sido promovida a single, depois das apenas curiosas "Flesh Without Blood" e "Scream".

 

Grimes dispara em várias direcções (baixo pós-punk, electrónica dançável e musculada, refrão pegajoso à cheerleader, vozes de hélio) e da mistura sai um dos exemplares mais conseguidos da sua pop mutante, com acompanhamento visual no videoclip feito a quatro mãos ao lado do irmão, Mac Boucher, em Toronto. A amálgama contamina as imagens, entre a mitologia dos vampiros, cenários cyberpunk e influências manga, com uma viagem da estação de metro à rave num carro cor de rosa choque. Como bónus, ainda há banho de sangue no final. Mais garrido, urbano e hiperactivo era difícil:

 

 

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