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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O maluco do riso

"DEADPOOL" só não é o melhor filme de super-heróis em muito tempo porque rejeita esse rótulo ao tentar parodiar o género. E enquanto o faz, destaca-se como um blockbuster bem mais divertido do que a maioria, mesmo quando é vítima dos clichés que aponta.

 

deadpool_promo

 

Ao longo dos últimos 25 anos, o mercenário mais desbocado da Marvel conseguiu ir ultrapassando o seu estatuto inicial de personagem de terceira linha à medida que muitos adolescentes (e não só) foram alargando o culto em torno das suas aventuras. Primeiro em "New Mutants" e "X-Force" (duas revistas do universo X-Men) e depois a solo, as missões de Deadpool ofereceram doses generosas de humor e violência, alguma esquizofrenia e uma tendência para furar a quarta parede, com o anti-herói canadiano a dirigir-se directamente aos leitores (dispositivo que não sendo uma novidade nos comics da companhia, acabou por ficar mais associado a esta personagem do que a qualquer outra, com a eventual excepção da Mulher-Hulk).

 

Entre os adeptos da mistura irreverente/disparatada/subversiva/juvenil/politicamente incorrecta (riscar o que não interessa, dependendo do argumentista) e de tom muito auto-consciente contava-se Ryan Reynolds, que ao longo de mais de dez anos tentou levar o alter ego de Wade Wilson ao grande ecrã num filme que conseguisse manter a linguagem desbragada da BD. A primeira tentativa foi um desastre que muitos já terão esquecido, com Deadpool a surgir como um dos convidados no também desastroso "X-Men Origens: Wolverine", numa versão quase irreconhecível e a deixar alguma hesitação face a um reencontro do actor com a personagem (um filme como "Lanterna Verde" também não contribuiu para a boa reputação entre os fãs de super-heróis).

 

Sete anos depois do pior capítulo da saga mutante no cinema, a Fox e a Marvel parecem ter aprendido com os erros e cederam à insistência de Reynolds e restante equipa de "DEADPOOL", permitindo o carimbo de "Rated R" para o filme, mesmo que esta limitasse, à partida, o número de espectadores. E acabou por ser a opção mais certeira, não só a nível de mercado (com recordes batidos de semana a semana, superando as melhores expectativas) mas sobretudo na vertente criativa, não impondo grandes fronteiras ao tipo de linguagem, violência ou conteúdo sexual, o que faz todo o sentido tendo em conta a personagem.

 

DEADPOOL

 

Com um espaço de manobra pouco habitual em aventuras de super-heróis, tanto Reynolds como o realizador estreante Tim Miller e os argumentistas Rhett Reese e Paul Wernick (de "Zombieland", outra paródia bem sucedida) fazem finalmente justiça ao mercenário que consegue ser mais tagarela do que o Homem-Aranha (uma das inspirações óbvias para o seu fato, aliás). As piadas, quase sempre menos familiares do que as de Peter Parker, são mesmo o maior trunfo do filme, metralhadas a um ritmo mais alucinante do que as balas do anti-herói de moral duvidosa e dos vilões sem escrúpulos.

Há tiradas truculentas para todos os gostos, do bom ao mau (dispensavam-se algumas cenas infelizes num táxi), e mesmo que seja difícil apreciar ou digerir tudo, a entrega de Reynolds ao papel é evidente e dá valor acrescentado a muitos gags, sejam farpas sobre inúmeros recantos da cultura pop ou sátiras aos filmes de super-heróis - com piscadelas de olho mais fortes aos dos X-Men.

 

Dois elementos da equipa mutante são, de resto, coadjuvantes da missão de Deadpool no filme: o veterano Colossus, ainda sem grande espaço no cinema, e a novata Negasonic Teenage Warhead (sim, um nome de código rebuscado para acabar com todos os nomes de código rebuscados). Tal como a maioria das personagens secundárias do filme, não chegam a ir muito além da caricatura anunciada logo no genérico inicial (figura criada por CGI e adolescente cínica, respectivamente), embora funcionem como compasso moral (também ridicularizado pelo protagonista). Os vilões de serviço são outras vítimas desses simplismos, sem grandes sinais particulares, e aí "DEADPOOL" não chega a ser um filme tão transgressor como julga: não basta disparar sobre os lugares comuns dos filmes de super-heróis, convém ir mais longe e surpreender com alternativas mais entusiasmantes, como o fizeram, por exemplo, "Kick-Ass - O Novo Super-Herói" ou "Scott Pilgrim Contra o Mundo".

 

deadpool-movie-image

 

A realização não ajuda muito: Miller é pouco inventivo nas cenas de acção e ao início a história ameaça cair no espalhafato monótono da saga "Os Mercenários", com tiroteios intermináveis e violência gratuita sem travões (ainda que o exagero seja mais do que sublinhado). Quando as personagens guardam as armas, o filme ganha outro interesse, até porque, como Deadpool diz a certa altura, esta também é uma história de amor e de terror: o romance com Vanessa mostra que afinal há aqui um coração a bater (óptima química entre Reynolds e Morena Baccarin), a obrigatória recordação da origem cria alguma tensão para além do ruído (e chega a lembrar o esquecido "Darkman", de Sam Raimi). E graças a momentos como esses, o protagonista consegue ser mais do que o boneco sarcástico vendido pelo material promocional, com âncora emocional no desempenho de Reynolds (que mostra aqui ser capaz do melhor, tal como nos pouco vistos "Enterrado" ou "As Vozes").

 

Um anti-herói carismático e a invejável abundância de piadas, aliados a algumas viragens de tom, chegam para fazer deste o filme-pipoca mais conseguido e hilariante dos últimos tempos, e é essa energia que acaba por salvar o último terço, aquele em que "DEADPOOL" cede desavergonhadamente à rotina dos super-heróis. Não há jogada meta-referencial que disfarce a vénia às regras do jogo de uma batalha encenada de forma preguiçosa, com efeitos especiais que denunciam o ar relativamente barato do filme e cenários de destruição massiva que já não impressionam. Um diálogo entre Wade e Vanessa no apartamento, mais atrás, tinha deixado muito mais impacto. Por isso deixa-se agora o pedido para a sequela, já confirmada (vale a pena ficar até ao final dos créditos): da próxima, espera-se mais conversa e menos acção.

 

 

 

Para não esquecer a velha ordem

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Enquanto se preparam para voltar aos palcos, já em Março, depois de terem regressado aos discos no ano passado, os NEW ORDER continuam a promover "Music Complete", o seu décimo álbum e um dos mais elogiados em muito tempo, apesar da ausência de Peter Hook.

 

Tirando o ligeiro reforço electrónico da maioria das canções, o alinhamento não trouxe grandes novidades ao universo dos britânicos, mas neste caso o baralhar e voltar a dar ainda é, pelo menos, quase sempre eficaz. Tão eficaz como a escolha dos singles, que depois de "Restless" e "Tutti Frutti" chega agora a "SINGULARITY", outro tema que caberia facilmente em discos anteriores embora continue a fazer sentido hoje.

 

Se a voz e palavras de Bernard Summer voltam a conjugar-se sem esforço com um instrumental acelerado e dançável, a combinação ganha outra urgência quando integrada no videoclip do tema. Com imagens retiradas do documentário "B-Movie: Lust & Sound in West-Berlin 1979-1989", de Jörg A. Hoppe, Heiko Lange e Klaus Maeck, estreado no ano passado e centrado no frenesim artístico da Berlim Ocidental, a colagem alarga a ressonância da canção ao dar novo peso à letra (sobretudo a versos como "Winter came so soon/ And summer never happened" ou "We're all lost souls/ We can't come home"). E ao recuar até à fase mais vibrante do punk, aposta numa estética que lembra a dos primeiros anos dos New Order - e mais ainda dos Joy Division, entre a euforia cultural e o caos político-social, sem nunca perder o ritmo:

 

 

As virgens oprimidas (mas que não se ficam)

Candidata francesa ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "MUSTANG" é uma ode à resiliência defendida com graça e garra por um quinteto de jovens actrizes. E uma bela estreia na realização de Deniz Gamze Ergüven, realizadora turca radicada em França.

 

mustang

 

Tem havido quem compare esta história de um grupo de irmãs do interior da Turquia ao relato das manas Lisbon feito por Sofia Coppola em "As Virgens Suicidas". A própria realizadora, Deniz Gamze Ergüven, assume a influência, mas se o ponto de partida até tem algumas semelhanças - sobretudo o da adolescência feminina num ambiente enclausurado, física e socialmente -, esta primeira obra está longe de se esgotar numa versão muçulmana desse drama protagonizado por Kirsten Dunst.

 

Até porque se não falta a "MUSTANG" alguma melancolia, cortesia das dores do crescimento e sobretudo das muitas restrições a que as cinco irmãs orfãs são sujeitas - à medida que a avó tenta arranjar-lhes marido ao longo de umas férias de Verão -, o filme é também um retrato muitas vezes enérgico e espevitado desse isolamento imposto, tanto quanto as hormonas de um grupo de raparigas entre os 11 e os 17 anos que convivem 24 horas por dia na mesma casa.  

 

A noção e domínio do espaço é, aliás, um dos méritos da realizadora, que consegue tornar um recurso como a câmara à mão numa aposta ganha, ao manter-se quase sempre à altura das personagens, especialmente nas (muitas) cenas de interiores, vincadas por grandes planos e planos de conjunto com o quinteto (que surge como personagem colectiva antes de o argumento ir desenhando pequenos arcos individuais).

 

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Pouco a pouco, o filme vai sendo conduzido pelo olhar de Lale, a irmã mais nova, ainda pré-adolescente, a que mais se insurge contra o fundamentalismo e também a que tem algum tempo, ainda assim, para procurar uma fuga. E mais do que na denúncia de um sistema repressor, em especial para as mulheres, "MUSTANG" centra-se na obstinação da protagonista, que conjugada com a sua inocência e idealismo deixará qualquer espectador do seu lado.

 

Já o capital de simpatia pelos "antagonistas" será bastante limitado, tanto que às vezes o filme ameaça escorregar para um maniqueísmo dispensável e sujeitar-se a um objecto de denúncia. Ainda assim, Gamze Ergüven e a co-argumentista Alice Winocour (realizadora de "Agustine") dão um retrato suficientemente ambíguo tanto da avó como das tias, elas próprias vítimas de ditames masculinos instituídos e assimilados, e só a personagem do tio chega a beliscar a subtileza e verossimilhança de boa parte da narrativa (muito por culpa de uma atrocidade em particular que poderia ter ficado de fora).

 

Isso não chega, felizmente, para quebrar nem o encanto nem o impacto desta co-produção francesa, turca e alemã, sobretudo quando grande parte do tempo segue cinco personagens tão vivas e luminosas como a fotografia de tom veraneante. A espontaneidade delas compensa a pontual mão pesada do argumento (apesar de tudo compreensível numa primeira obra) e a sua luta pela liberdade, ainda que momentânea, deixa sequências de antologia que vão do comovente (como a do estádio de futebol) ao hilariante (a reacção das tias, logo a seguir).

 

A banda sonora de Warren Ellis está à altura, o que não é mero detalhe quando poderia forçar a nota de algumas cenas e atirá-las para a vitimização (que o diga "Quarto", de Lenny Abrahamson, também em cartaz). Mas à imagem da pequena Lale, "MUSTANG" não aceita esse estado e opta por outro rumo, encaminhando-se para o das grandes surpresas da temporada.

 

 

 

Regressados e (des)controlados

Tal como os My Bloody Valentine, Ride ou Slowdive nos últimos anos, também os LUSH têm direito a uma segunda vida (e a uma nova geração de fãs) depois de terem aproximado o shoegaze da pop em inícios da década de 90.

 

lush

 

Em Dezembro, os britânicos já tinham editado "Chorus", caixa especial com os três álbuns e duas compilações, lançamento que acompanhou o anúncio do regresso aos palcos pela primeira vez em 20 anos (agora com Justin Welsch, ex-baterista das Elastica, a substituir Chris Acland, que se suicidou em 1996). Mas ao contrário do que aconteceu com outros colegas de percurso, além dos concertos também há canções novas, pelo menos as quatro do EP "The Blind Spot", previsto para 22 de Abril, novamente através da 4AD.

 

Daniel Hunt, dos Ladytron, é um dos produtores do disco (o outro é Jim Abiss), escolha que fará sentido para quem ouviu álbuns como "The Witching Hour" e sobretudo "Velocifero", cuja mistura de guitarras estratosféricas e duas vozes femininas etéreas deve alguma coisa à banda de "Spooky" e "Spit". E esses estão longe de ser caso único, como têm mostrado grupos na linha dos Asobi Seksu, The Pains of Being Pure at Heart ou School of Seven Bells ao longo dos últimos anos.

 

Apesar da considerável produção recente inspirada no lado mais melódico do shoegaze, a primeira canção dos Lush em duas décadas acaba por não se confundir com nenhuma nova banda e soa inequivocamente a... Lush. "OUT OF CONTROL", o novo single, caberia facilmente num disco antigo do quarteto, mas nem por isso deixa um travo anacrónico. Tem antes um sabor intemporal, até porque o tempo não parece ter passado pela voz de reconhecível de Miki Berenyi, mais uma vez a embalar uma canção atmosférica, aqui na faceta controlada q.b. do grupo (ou seja, distante da tensão instrumental e emocional de clássicos como "Desire Lines" ou "Superblast!").

 

Um regresso mais acolhedor do que surpreendente, é certo, e talvez seja melhor assim. O refrão vai pedindo audições repetidas e o videoclip, ancorado na adolescência com toques de melancolia e realismo britânico, assenta-lhe bem:

 

 

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