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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Sombras da escuridão

emily_jane_white_2016

 

"They Moved in Shadow All Together", o quinto álbum de EMILY JANE WHITE, teve um lançamento discreto em Abril mas bem merece ser (re)descoberto - ou não fosse, à semelhança dos anteriores, um conjunto de canções de perfil outonal como poucas.

 

A cantautora revelada com "Dark Undercoat" (2007) e voz de outros discos a reter, caso de "Ode to Sentience" (2010), volta a inspirar-se na folk, nos blues ou na literatura gótica sulista - "Outer Dark", de Cormac MacCarthy, foi um dos pontos de partida - e regressa aqui a um formato acústico depois da (muito promissora) experiência com a pop electrónica do projecto Night Shade, no início do ano.

 

Talves por a rentrée ser uma altura mais condizente com a sua música, a norte-americana revelou há poucos dias o novo videoclip, do tema "FROZEN GARDEN", melancólico mas menos sombrio do que as suas composições habituais. Já "PALLID EYES", o single anterior, de recursos mais minimalistas (quase só com coros e dedilhar de guitarra acústica como adereços), mostra-a tão arrepiante como no seu melhor - e fica entre os grandes momentos de um álbum a ter por perto nestes dias:

 

 

 

O segredo dos seus olhos

Valeu a pena esperar para ver "Looking: The Movie" no grande ecrã, o filme de encerramento do QUEER LISBOA 20. Mas antes houve outras surpresas no festival que passou pelo Cinema São Jorge e pela Cinemateca nos últimos dias - como as quatro abaixo, para juntar a estas:

 

looking

 

"LOOKING: THE MOVIE", de Andrew Haigh: Num filme que surgiu para fechar pontas soltas - as das histórias de três amigos gay de São Francisco ao longo de duas temporadas da série homónima -, faz sentido que o seu protagonista queira fazer o mesmo com a sua vida pessoal, regressando ao lugar onde foi (in)feliz para encerrar capítulos amorosos e poder seguir em frente. E logo aí esta transição da produção da HBO para outro formato começa por ganhar um espaço próprio, ao ser simultaneamente um fim de ciclo e um recomeço, funcionando como a tal prenda para os fãs que o canal norte-americano tinha prometido mas conseguindo impor-se como objecto independente, tendo o seu próprio arco narrativo e abrindo a porta a novos adeptos.

 

Embora a cena final da série já fosse um desenlace memorável (talvez até mais do que o que o desta extensão), "LOOKING: THE MOVIE" não é uma mera desculpa para voltar a juntar o elenco e dizer adeus de vez - ao contrário, por exemplo, da obra de abertura do festival. Tratando-se de um telefilme, compreende-se que a nível formal não se distancie muito da série, o que não será uma limitação quando o material de base já contava com episódios invulgarmente cinematográficos. Esta hora e meia pode não ter a inspiração dos melhores, mas a duração mais longa dá-lhe um fôlego do qual se sentia falta demasiadas vezes nos 30 minutos semanais. Isso não quer dizer que não saiba a pouco em alguns momentos (Dominic, em especial, tem uma presença menos preponderante), pormenor apesar de tudo desculpável quando o resultado deixa um olhar tão conseguido sobre a solidão e a cumplicidade - e o salto do medo para a entrega - a partir dos (re)encontros de Patrick.

 

Tal como na série, o tom é melancólico mas caloroso, à altura de um protagonista angustiado mas capaz de manter o idealismo. E Haigh acompanha-o com humor certeiro e referências às vezes sucessivas à cultura pop, armas prontas a disparar quando os diálogos ameaçam derrapar para dicas de auto-ajuda. Se estes são ágeis e credíveis, os olhares não têm menos impacto, sobretudo os que Patrick troca com Kevin e Richie em dois momentos-chave da sua história - decisivos para o impacto emocional que o filme vai deixando entre cenas mais ligeiras. E quando os olhares dão lugar a algumas das palavras mais agrestes, numa discoteca, Haigh dá uma bofetada de luva branca a muitos detractores da série - cortesia da desbocada Doris -, deixando claro que, em vez querer ser porta-estandarte de uma forma legítima de representação de uma comunidade, está mais interessado em reflectir emoções universais através de retratos individuais. Como qualquer boa história, LGBTI ou não, no pequeno ou no grande ecrã.

 

 

barash

 

"BARASH", de Michal Vinik: Não falta charme a esta primeira longa-metragem do realizador israelita, seja o da actriz principal (Sivan Noam Shimon), perfeitamente convincente como adolescente com garra mas entediada face à rotina de uma pequena localidade, seja o atrevimento que passa da protagonista para um filme que nunca se leva muito a sério, mesmo tendo o conflito israelo-árabe nas imediações. Só que esse capital de simpatia, que não é de se deitar fora, nem sempre chega para seguir com mais do que mera curiosidade o que é, na essência, um drama coming of age (a caminho do coming out) relativamente convencional. A relação entre duas raparigas não domina os acontecimentos tanto como se esperaria à partida, mas ainda assim parece pouco mais do que um sucedâneo de "A Vida de Adèle", repetindo a dinâmica e até uma cena de sexo que deixa pouco para a imaginação (ainda que seja muito mais descontraída e sucinta do que a do filme de Abdellatif Kechiche). Entre o humor seco do quotidiano familiar, o mistério de uma irmã desaparecida e a iniciação no álcool e nas drogas, com um segmento mais declaradamente político (e satírico) pelo meio, o filme não se fica pelo drama conjugal, só que também não chega a aprofundar outros cenários com grande profundidade. Nem outras personagens, quase todas esquemáticas, num relativo desperdício de elenco do qual só a protagonista sobressai como figura de corpo inteiro - mas que deixa, de qualquer forma, alguma vontade de ver mais da actriz e do realizador.

 

 

goat

 

"GOAT", de Andrew Neel: Começa como um thriller intrigante sobre a violência, a dominação e o trauma, escorrega de forma demasiado abrupta para territórios de um after-school special pronto-a-revoltar, com debate encomendado para o final da sessão. Ecorrega mas, apesar de tudo, não cai nas piores armadilhas de um caso da vida da experiência universitária numa fraternidade norte-americana, com a possibilidade de explosão e/ou tragédia por perto. O realizador norte-americano, na sua segunda longa-metragem, é metódico, para não dizer exaustivo, na apresentação dos rituais de subjugação e humilhação a que muitos caloiros se sujeitam, e o esforço não resulta inglório quando tem actores seguros no centro: Ben Schnetzer como protagonista que recusa o papel de vítima, Nick Jonas (sim, o cantor) na pele de irmão esquivo, dividido entre o papel de agressor e protector. Infelizmente, a relação entre a dupla, bem construída e desenvolvida, não tem paralelo noutros aspectos do que fica sobretudo como um filme de denúncia, incapaz de manter a ambiguidade no retrato dos estudantes-carrascos, papéis entregues a actores menos confiáveis (ou que não têm grande oportunidade de mostrar o que valem em personagens-tipo, descontando um cameo surpreendente de James Franco, também produtor do filme). É pena quando pelo caminho ficam algumas boas ideias de realização e montagem (como uma sequência numa pista de atletismo), assim como um olhar sobre a brutalidade que recusa a histeria dramática.

 

 

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"SPA NIGHT", de Andrew Ahn: É raro encontrar um realizador que saiba tão bem o que e como dizer logo na primeira longa-metragem, tomando o tempo necessário para apresentar os seus espaços e figuras, desenhando e mantendo um tom - aqui contemplativo, de emoções rarefeitas, silêncios e sussurros, sem no entanto cair no hermetismo nem na auto-indulgência. Talvez porque Andrew Ahn seja tão controlado (não confundir com certinho) como o protagonista deste drama assumidamente pessoal, ou não fosse também ele um norte-americano de ascendência sul-coreana. Tímido e circuspecto, David encontra-se dividido não só entre culturas mas principalmente entre expectativas, sobretudo familiares, ao tentar manter-se como filho modelo enquanto tenta dominar a sua (homos)sexualidade a par de aspirações profissionais diferentes das traçadas pelos pais. Mas em vez de carregar em mais um relato de discriminação, Ahn prefere debruçar-se na falta de comunicação e nas desilusões do sonho americano, motores da vida dupla do protagonista - que começa a trabalhar num spa coreano de Los Angeles, palco da sua descoberta sexual, durante o horário em que supostamente estaria na universidade paga pela família. Com uma beleza plástica evidente, mas nada exibicionista, em especial nas cenas nocturnas de tons azulados, "SPA NIGHT" é um exemplo de rigor visual em sintonia com um desenvolvimento dramático ao qual também não faltam subtilezas - incluindo algumas viragens narrativas, seja o rumo do reencontro com um amigo de infância ou o desenlace apropriadamente implosivo. Essencial é também a cumplicidade do elenco nuclear, do desespero surdo dos pais (até certo ponto) ao jovem actor Joe Seo, com uma expressão dificil de decifrar e por isso perfeita para um protagonista que tenta esconder-se dele próprio - mas que em última instância se limita a correr num filme para ver com calma.

 

 

taekwondo

 

"TAEKWONDO", de Marco Berguer e Martín Faria: Habitué do Queer Lisboa (e Porto), Marco Berger volta aos seus temas habituais depois de filmes como "Plan B" ou "Ausente": a linha que separa (nas suas histórias, quase sempre fina) a amizade entre homens de sentimentos mais íntimos. Aqui o realizador argentino, ao lado do conterrâneo Martín Faria, fecha um grupo de amigos numa casa durante as férias, com piscina ou sauna incluídas, e é ainda mais obsessivo no escrutínio descomplexado (e descaradamente voyeurista) dos seus corpos. E também bem-humorado sem ser óbvio, cruzando clichés da representação masculina e a sua desconstrução, atirando um homossexual não assumido para um grupo de amigos hetero. Mas serão mesmo? A dúvida instala-se em torno de (pelo menos) um deles e a partir daí o filme faz um jogo de cintura (quase literal) entre o suspense e o romance iniciático, ameaçando clímaxes (em mais de um sentido) mas conjugando a manipulação lânguida com um olhar sensível e cru sobre as relações - entre eles e eles e entre eles e elas, quando as mulheres entram em cena a meio. E de um conjunto de personagens inicialmente estereotipadas vai traçando o perfil de pessoas a sério, acompanhando-as com questões sérias (prontas a desmontar rótulos) no meio do ardiloso jogo de sugestões (e seduções às vezes involuntárias). Com um ritmo tão pausado como as obras anteriores de Berger, o filme mostra um realizador mais do que à vontade na construção de um novelo intimista e mais intrincado do que parece ao primeiro contacto, destacando-se pela precisão dos enquadramentos ou pela espontaneidade do elenco de jovens actores. Só faltou mesmo limar os últimos 15/20 minutos, nos quais já disse tudo o que tinha para dizer e arrasta demasiado a dúvida em torno do par protagonista, com a inquietação a abrir espaço ao desinteresse - neste caso, o melhor são mesmo os preliminares...

 

 

A nova ordem chilena dança-se aqui

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Se os Pet Shop Boys ou os New Order tivessem filhos ou netos chilenos, podiam muito bem ser os DËNVER. Este duo ele & ela é, ao lado de Javiera Mena ou Gepe, uma das maiores exportações da pop electrónica do país, que se tornou ainda mais sintética no último álbum, "Sangre Cita" (2015), já o quarto de uma discografia iniciada há dez anos.

 

Entre o alinhamento está aquele que é também o novo single, além de uma óptima porta de entrada para a banda de Mariana Montenegro e Milton Mahan. "EL FONDO DEL BARRO", rebuçado dançável com embalo house, é um lamento amoroso cantado, como sempre, na língua materna da dupla, inspirado por desilusões adolescentes que também passam para o videoclip a preto e branco - protagonizado por um grupo de amigos a procurar no karaoke o escape possível para corações partidos, explicou a banda.

 

Apontado às pistas de dança, o tema não vai nada mal como hino de fim de Verão e serve de pretexto para (re)descobrir um álbum a guardar outras surpresas, melancólicas mas docinhas, em canções como "Yo para ti no soy nadie" ou "Noche profunda". Vale?

 

 

Dois amores, uma trivialidade e uma raridade

Há muito a descobrir no QUEER LISBOA 20 e pouco tempo para ir dando conta de tudo. Do balanço (positivo) dos últimos dias, ficam aqui as impressões de quatro filmes do festival que está até 24 de Setembro no Cinema São Jorge e na Cinemateca. De França ao Chile, da comédia ao drama, da curta à longa-metragem:

 

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"THÉO ET HUGO DANS LE MÊME BATEAU", de Jacques Martineau e Olivier Ducastel: Começa com uma longa cena de sexo gay, em grupo, que vai rapidamente do erotismo a cenas explícitas q.b., mas se esse arranque é dos mais crus que se têm visto (e mais bem filmados, já agora), este drama ambientado numa madrugada em Paris tem pouco de gratuito e escabroso. Pelo contrário, depois do primeiro impacto, o filme do duo de realizadores franceses salta para a fantasia romântica sem que se perca pelo caminho, sabendo como desenhar o nascer de uma intimidade que vai muito para além dos corpos, a partir do encontro da jovem dupla protagonista entre dezenas de estranhos, continuando a envolver com a jornada nocturna por ruas pouco óbvias da cidade do amor. "Antes do Amanhecer", de Richard Linklater, será uma aproximação quase imediata, pelo construir de uma relação apresentado quase em tempo real, e um episódio especialmente acarinhado da série "Looking" (centrado em Patrick e Richie) também vem à memória. Mas não faltam aqui singularidades, seja pela sombra do HIV que marca toda a acção - com direito a cenas algo didácticas sobre a profilaxia pós-exposição, é verdade - ou pelos traços de realismo social das breves conversas dos dois rapazes com terceiros (vincadas pela temática da imigração ou desemprego). E depois há, claro, François Nambot e Geoffrey Couet, actores praticamente desconhecidos mas com uma química e entrega que fazem com que se acredite, sem grandes reservas, neste amor à primeira vista.

 

 

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"ABSOLUTELY FABULOUS: THE MOVIE", de Mandie Fletcher: As protagonistas, agora já na casa dos sessenta, podem continuar fabulosas, mas o filme não o é tanto. A adaptação da muito popular britcom televisiva dos anos 90, há muito adiada, até consegue voltar a juntar o gang feminino que acompanhava Patsy e Edina no pequeno ecrã, e se para os fãs mais acérrimos será bom reencontrar as personagens, este salto para o cinema não tem grande motivo para existir além disso. Ou disso e de uma mão cheia de gargalhadas, distribuídas com algum ritmo nos primeiros dois terços mas a perder alguma eficácia mais para o final. A duração do filme, relativamente curta (hora e meia), acaba por ser demais para uma narrativa que não avança nem atrasa o status quo das personagens, colocando em jogo a tensão entre mãe e filha num modelo similar ao de demasiados episódios da série (com a diferença de Saffron ter menos para fazer aqui do que em alguns deles). Guardam-se alguns gags hilariantes (o do exercício físico de Edina ou os das reacções a notícias sobre Kate Moss são de antologia) e fica a tentativa de captar o ar do tempo (Uber e redes sociais incluídos), assim como a própria passagem do tempo com o envelhecimento a ser uma questão. Já a caracterização da comunidade LGBTI (do gay de serviço às pessoas trans) é só anacrónica, na linha de uma sitcom estereotipada dos anos 90. Uma sictom como... "Absolutamente Fabulosas". Afinal, para um filme ser cinema não basta ter projecção no grande ecrã...

 

 

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"ALFA", de Javier Ferreiro: Um actor porno não é de ferro. Nem mesmo quando se chama Alfa, como o protagonista desta curta-metragem lacónica e lânguida, profissional veterano que não consegue recuperar da perda do companheiro com o qual se iniciou na indústria dos filmes para adultos. O espanhol Javier Ferreiro segue-o durante quase 20 minutos entre os bastidores das filmagens, sem glorificar nem desdenhar a actividade, num retrato ficcionado que desconstrói, em ambiente de fim de festa, o mito do macho latino. Longe do fulgor dos primeiros tempos, o cubano Alfa Méndez é um corpo escultural que se move cada vez mais como um fantasma, DILF idolatrado pelos colegas mais novos mas sem o motor amoroso para que o contacto físico mereça ser filmado. O estudo de personagem é mais ensaiado do que verdadeiramente consumado, mas isso será mais limitação do formato do que de um realizador e um actor que parecem estar em sintonia.

 

 

rara

 

"RARA", de Pepa San Martín: A premissa desta longa-metragem de estreia abre logo portas para a militância, ao basear-se num caso verídico de um casal de mulheres que perdeu a custódia das filhas de uma delas para o pai. Mas em vez de um panfleto, este drama chileno traz o melhor do cinema sul-americano recente (do realismo árido ao aprumo do elenco) e olha para as suas personagens sem juízos de valor nem condescendências, sejam elas crianças ou adultos, hetero ou homossexuais. Guiado pelo olhar de Sara, a filha mais velha, o resultado vai da serenidade ao caos familiar, com uma conjugação de melancolia e humor a vincar também a entrada na adolescência da protagonista e a procura de um lugar avesso a rótulos fáceis e limitadores. Sem ser um caso de tremenda originalidade, o filme mostra uma segurança invulgar (ou rara, lá está) para uma primeira obra, sobretudo ao conseguir ser emotivo e comovente sem nunca escorregar para rodriguinhos de gosto duvidoso. Dificilmente se negará aqui o estatuto de promessa, como dificilmente se sai da sala sem um nó na garganta, imprescindível num bom relato sobre os dilemas do crescimento.

 

Escola shoegaze, classe de 2016

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Nova chamada de atenção para um dos bons (embora já algo esquecidos) álbuns do ano. Depois de "On My Heart" e da fantástica "Ablaze", "SIGNALS" é agora o single retirado de "SVIIB", o quarto disco dos SCHOOL OF SEVEN BELLS.

 

O projecto, que conta apenas com Alejandra Deheza (Benjamin Curtis, a outra metade da dupla norte-americana, morreu vítima de um linfoma em 2013 mas ainda colaborou nos últimos temas), tem-se destacado desde o início pela sua pop atmosférica de perfil shoegaze e a aposta mais recente não foge à regra. Só que antes de chegar ao frenesim envolvente de guitarras, no refrão, "SIGNALS" tenta um flirt com as novas formas do r&b tanto pelo modo de cantar da vocalista como pela batida minimal.

 

A mistura funciona e oferece um dos momentos mais directos do álbum, por isso não é grande surpresa que chegue a cartão de visita oficial - já com videoclip protagonizado por Alejandra entre ambientes urbanos e sci-fi. E se ajudar para que muitos queiram ir conhecer o que está para trás, tanto melhor, porque vale tudo a pena:

 

 

Uma estreia absolutamente fabulosa e outros filmes

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Eddy e Patsy estão de volta e não faltam à inauguração do QUEER LISBOA 2016. A 20ª edição do Festival Internacional de Cinema Queer arranca às 21 horas desta sexta-feira no São Jorge, em Lisboa, com "ABSOLUTELY FABULOUS: THE MOVIE", passagem para o grande ecrã da série que marcou a britcom nos anos 90. Com a adaptação de Mandie Fletcher voltam também as protagonistas, Jennifer Saunders e Joanna Lumley, assim como outras actrizes do elenco regular da sitcom - além de Kate Moss, envolvida num acidente que dá o mote ao filme com exibição única nas salas portuguesas no festival (repete no sábado, dia 17, às 17h15, até porque a sessão de sexta já está esgotada).

 

O destaque da sessão de encerramento, a 24 de Setembro, também partiu do pequeno ecrã. "LOOKING: THE MOVIE", o muito aguardado telefilme de Andrew Haigh ("Weekend"), fecha a história de Patrick e das outras personagens da série da HBO que gerou culto e controvérsia. Esta estreia nacional será a última das mais de 100 dedicadas à produção LGBTI recente, novamente através de curtas e longas-metragens, da ficção e do documentário, de secções competitivas ou das Noites Hard, Panorama ou Queer Art exibidas no Cinema São Jorge e na Cinemateca.

 

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A programação inclui também as já habituais exposições e a secção Queer Pop, ambas de entrada livre - com a segunda a recordar este ano Freddie Mercury, Annie Lennox e a videografia de Derek Jarman, realizador alvo de uma retrospectiva mais ampla ao longo do evento.

 

Entre as novidades do festival mais antigo da capital está também o espectáculo "50. Orlando, ouve", de André Murraças, homenagem às vítimas do tiroteio na discoteca Pulse, nos EUA, que conta com a participação de 50 pessoas - anónimos, actores e figuras públicas - e estreia no palco do São Jorge na primeira noite, antes da sessão de abertura.

 

E como do arranque ao encerramento a escolha é mais vasta, e nem sempre tão óbvia, ficam por aqui sugestões de CINCO FILMES A TER EM CONTA ao longo desta 20ª edição (ficando mais algumas já prometidas para os próximos dias):

 

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"GOAT", de Andrew Neel: É dos filmes mais falados da secção Panorama, depois do burburinho que deixou nos festivais de Sundance ou de Berlim. Um dos motivos terá sido a participação de Nick Jonas (esse, o ex-elemento da boyband), outro o facto de ter James Franco como actor e produtor. Mas não falta quem elogie a crueza deste drama ambientado numa universidade norte-americana, que promete uma espécie de bromance on acid - pela forma como leva ao extremo os rituais de iniciação masculinos nas fraternidades. Ah, e um dos argumentistas é de David Gordon Green ("George Washington", "Joe", "Prince Avalanche").

 

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"LAS LINDAS", de Melissa Liebenthal: "Do you know what it feels like for a girl?", perguntava Madonna numa canção há uns anos. A autora deste documentário pode nem ser fã da rainha da pop mas volta a lançar a questão, centrando-se na forma como a mulher é vista e nas pressões (sobretudo de imagem) a que continua a estar sujeita. A realizadora argentina, até aqui com um percurso nas curtas-metragens, baseia-se na sua própria experiência, recuando à infância e ao arquivo pessoal de fotos e vídeos. E felizmente não parece levar-se demasiado a sério num filme já premiado no festival de Roterdão.

 

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"RARA", de Pepa San Martín: A mãe de Sara vive com outra mulher, o que para ela não é um problema mas para o pai está longe de ser pacífico. E esse incómodo pode propagar-se a terceiros nesta primeira longa-metragem de uma revelação chilena que se destacou no teatro (como actriz e encenadora) e teve uma curta premiada em Berlim. Em vez do dramalhão de outros relatos sobre a homofobia, o filme tem sido elogiado por uma candura que não trai o realismo acentuado pelo elenco e argumento. Um potencial boa surpresa (mais uma) do cinema sul-americano.

 

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"SPA NIGHT", de Andrew Ahn: Centrado numa família de imigrantes coreanos de Los Angeles, este drama distinguido em Sundance chega depois de duas também elogiadas curtas LGBTI. O realizador norte-americano, mas com raízes da Coreia do Sul, volta a deixar indícios autobiográficos ao acompanhar um rapaz dividido entre o desejo e a tradição, partindo dos seus encontro num spa local. A maioria das reações tem destacado o ritmo paciente e o tom minimalista, mas também a subtileza e personalidade deste olhar sobre a(s) identidade(s).

 

Taekwondo

 

"TAEKWONDO", de Marco Berger e Martín Faria: Depois de ter sido destacado no Queer Lisboa, com os "Plan B" e "Ausente", ou no Queer Porto, com o mais recente "Mariposa", Marco Berger volta à programação do festival e à secção competitiva. Desta vez, o realizador argentino colaborou com o conterrâneo Martín Farina (vindo do cinema documental, publicidade e videoclips), embora os seus temas não pareçam ter mudado muito: este é mais um filme sobre a amizade entre dois rapazes, desta vez durante umas férias, com outros amigos, numa casa de campo nos arredores de Buenos Aires. Mas se seguir os passos dos anteriores, vai ser bom.

 

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