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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Aprender a ser feliz

Actor, realizador, argumentista, produtor: Aziz Ansari continua a acumular funções na segunda temporada de "MASTER OF NONE". E se a série volta a ser autobiográfica (e até umbiguista) q.b., também deixa mais algumas vinhetas - quase sempre inspiradas - sobre uma certa geração urbana em permanente adaptação à idade adulta.

 

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Os dez novos episódios da comédia dramática criada por Aziz Ansari e Alan Yang (que também é um dos actores secundários) levam mais longe as possibilidades criativas que uma plataforma como a Netflix permite. Embora o dia-a-dia de Dev Shah, um comediante nova-iorquino de ascendência indiana (tal como o actor que o encarna), seja quase sempre o centro dos acontecimentos, o formato está muito longe da linha de montagem da sitcom ou da linearidade narrativa de uma série dramática convencional.

 

Como já era regra na primeira temporada, de 2015, há aqui espaço para variações de tom e de duração (cada capítulo ronda os 30 minutos mas um arrisca os 60) enquanto a jornada pessoal e profissional do protagonista se vai cruzando com questões como a discriminação, religião, sexismo, homofobia ou fossos geracionais, raramente forçando a nota. Se na época anterior alguns diálogos soavam demasiado escritos, sobretudo quando se debruçavam sobre a forma como os indianos são vistos e retratados, à segunda "MASTER OF NONE" consegue outra fluidez ao falar de coisas sérias sem abdicar da leveza - mas afastando-se quase sempre da ligeireza.

 

Ligeirinhos, ligeirinhos, só mesmo os dois episódios iniciais, que encontram Dev no interior italiano, cumprindo assim a promessa do (surpreendente) final da primeira temporada. Infelizmente, os dias do protagonista em Modena, apesar de encantadores, servem pouco mais do que uma versão de postal turístico "alla italiana", com uma abundância de lugares comuns a combinar mal com uma série que tenta fugir aos estereótipos. Das mil formas de cozinhar pasta à sucessão de belas paisagens, passando pela ode ao "dolce fare niente" ou pela homenagem a "Ladrões de Bicicletas", de Vittorio De Sica (incluindo fotografia a preto e branco e citações directas), a sensação é mesmo a de déjà-vu. E até o (des)encontro repentino de Dev com uma turista, que tenta injectar alguma melancolia no meio de tanta luz, acaba por ser apressado e mal aproveitado.

 

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A sensação não será estranha para quem viu a primeira temporada, que também demorou algum tempo a arrancar antes de oferecer alguns episódios de antologia, como se fossem médias-metragens integradas num quadro maior (com destaque especial para uma viagem a Nashville ou um dia a dois sem sair do quarto). Mas Dev não demora muito a voltar a Nova Iorque e parece ser aí que "MASTER OF NONE" faz mais sentido: Ansari e Yang são especialmente bons a dar novos ângulos sobre cenários e situações já muitas vezes percorridos, desvendando recantos geográficos e sobretudo emocionais na cidade que nunca dorme.

 

O episódio "New York, I Love You" é dos casos mais evidentes, ao dispensar as personagens habituais para contar três histórias - interligadas por uma estrutura narrativa em mosaico - centradas naqueles que raramente têm tempo de antena (na ficção e não só). É verdade que a série já costuma deixar um olhar atento sobre as minorias (as comunidades indianas e asiáticas em particular), mas aqui acompanha um segurança negro, uma empregada de loja surda e um taxista imigrante to Burundi fazendo-se valer de um sentido de observação apurado, trocando a condescendência pelo humor e deixando um dos maiores exemplos de liberdade formal (vale a pena salientar o segundo segmento, a provar que o experimentalismo pode ser lúdico).

 

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Outra conjugação engenhosa de tempo e espaço surge em "Thanksgiving", relato sobre a descoberta sexual de Denise, uma das amigas de Dev, e a homofobia familiar - que parte de uma mãe impecavelmente interpretada pela pouco vista Angela Bassett. Com a acção a desenrolar-se no Dia de Acção de Graças entre 1995 e 2017, é talvez o episódio mais dramático da série, embora o humor também volte a ser fundamental nesta história que mostra que "Moonlight" não esgotou o potencial da abordagem de questões LGBTI na comunidade afro-americana.

 

Além das famílias dos amigos, Dev volta a olhar para a sua e passa em "Religion" por outro tema fracturante (o título é auto-explicativo). Ou que talvez fosse fracturante noutra ficção, já que aqui a sua herança muçulmana não é olhada nem com reverência nem com escárnio, antes de forma calorosa e espirituosa - e na qual a vontade de comer carne de porco pode ser o tudo ou nada do equilíbrio familiar. É dos episódios em que "MASTER OF NONE" revela ter o coração no sítio certo, mesmo que o casting deixe muitas reservas - os pais de Aziz voltam a fazer de pais de Dev, gesto simpático mas que resulta em alguns dos diálogos mais forçados da temporada (e infelizmente o actor que encarna o primo não é muito melhor).

 

Estes cruzamentos de temas, por onde passa ainda a vida profissional do protagonista - que na segunda temporada o encontra na apresentação de um concurso televisivo de cupcakes - vai sendo desenvolvido em paralelo com a costela de comédia romântica da série - que já vem, aliás, da temporada anterior. Veja-se "First Date": além de um exemplo de montagem impecável, é um ensaio hilariante sobre os absurdos dos relacionamentos modernos, com ênfase na frivolidade da utilização sem reservas de aplicações de encontros online.

 

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Mas à medida que se aproxima do final, o arco da vida amorosa de Dev vai ganhando outra gravidade ao discutir as fronteiras entre a amizade e o amor, a cumplicidade a carência, a liberdade e a solidão. Aziz Ansari reconheceu a influência de "Antes do Amanhecer", de Richard Linklater, bem como das suas duas sequelas, e não é difícil pensar em Ethan Hawke e Julie Delpy ao ver os passeios do protagonista e de uma amiga regressada em longos planos-sequência (ou, por exemplo, no muito amado episódio de "Looking" que segue um dia de Patrick e Richie). 

 

Apesar dessa proximidade, será justo reconhecer que "MASTER OF NONE" ocupa seu próprio espaço, nem que seja ao retomar nos últimos capítulos as heranças italianas do arranque (e de forma mais arejada, seja um visionamento a dois de "A Aventura", de Antonioni, ou a dança ao som de uma canção não menos clássica). Esta recta final também impõe um tom dolente com o qual Aziz Ansari estão tão à vontade como no cómico, à medida que distracções como as exigências do telemóvel ou os roteiros de restaurantes da moda vão perdendo terreno. E quando Itália também já não é um refúgio possível, pelo menos terá sempre Nova Iorque... e as possibilidades de novos episódios, oportunidades e destinos logo ao virar da esquina, nos quais uma série destas consegue fazer acreditar como poucas.

 

 

 

De França com louvor

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Numa altura em que já começam a surgir balanços provisórios do ano musical, o álbum de estreia de MAUD GEFFRAY merece juntar-se à lista de boas surpresas. A Les Inrocks até diz que "Polaar" é o segundo melhor disco de música electrónica do primeiro semestre (logo atrás do mais recente de Arca, homónimo), escolha que talvez empole em demasia a prata da casa mas que pelo menos chama merecidas atenções para a cantora e produtora francesa.

 

Se a faixa título tinha deixado uma óptima impressão inicial, o alinhamento mostra que a metade feminina dos Scratch Massive também convence em nome próprio, apesar de nem sempre brilhar tanto como nesse single. Em contrapartida, tem o mérito de seguir noutras direcções em vez de se ficar por uma synthpop orquestral.

 

É o que acontece em "FOREVER BLIND", a nova aposta, que nasce de cruzamentos electro, house e techno e introduz uma voz feminina a meio (na linha de Grimes ou Kelly Lee Owens) quando aparentava ser apenas instrumental - como o são algumas das melhores faixas do álbum. O videoclip alarga a faceta onírica do tema e não destoaria no saudoso "Chill Out Zone", da MTV, a altas horas da madrugada de um fim de semana.

 

 

A ronda da noite

Fischerspooner

 

Parecendo que não, já passaram quase 20 anos (!) desde que os FISCHERSPOONER editaram o álbum de estreia, "#1" (2001), e se tornaram automaticamente numa das referências do electroclash - cena que recontextualizou a faceta mais crua e hedonista da pop electrónica da década de 80, tanto na música como na imagem.

 

Os discos seguintes da dupla nova-iorquina, mesmo com alguns momentos infecciosos, nunca conseguiram aproximar-se do efeito surpresa de hinos como "Emerge", mas o hiato criativo - mantido desde "Entertainment", de 2009 - parece ter trazido de volta parte da inspiração dos primeiros tempos.

 

"HAVE FUN TONIGHT", o novo single, abre caminho para o quarto álbum de Warren Fischer e Casey Spooner, "SIR", agendado para Setembro. E as novidades não se ficam por aqui, tendo em conta que a canção é produzida por Boots e... Michael Stipe. O ex-vocalista dos R.E.M. colabora, de resto, em todas as faixas do disco enquanto co-compositor e produtor, numa parceria que dificilmente se adivinhava.

 

Embora o álbum só chegue no fim do Verão, esta amostra é uma sugestão bem eficaz para as pistas no período estival, como aliás o videoclip insinua em ambiente homoerótico de tom vintage - a meio caminho entre a iconografia do também regressado Tom of Finland ou um Arraial Pride com dress code anos 80 (ainda que menos extravagante do que o habitual nos Fischerspooner):

 

 

Angel song

pj_harvey

 

Depois de "Let England Shake" (2011) e "The Hope Six Demolition Project" (2016), PJ HARVEY parece ter-se decididamente afastado dos seus demónios pessoais para apostar em olhares universais - sobretudo de realidades pouco vistas, pelo menos do ângulo através do qual as observa.

 

"THE CAMP" é o exemplo mais recente dessa aposta, tema nascido de uma colaboração com o músico egípico RAMY ESSAM e inspirada pela crise de refugiados sírios no Líbano - país que tem acolhido milhares de pessoas muito para além da sua capacidade. Como o alerta não se fica pelas palavras, todos os lucros das vendas digitais serão doados à ONG Beyond Association, uma das entidades mais activas no apoio a crianças e adolescentes do Líbano.

 

Mas além das boas intenções, a canção vale por si e alarga o contacto da autora de "To Brig You My Love" com as músicas do mundo, aqui via influências do Médio Oriente oferecidas pelo colaborador. Em pouco mais de quatro minutos, há tempo para as duas vozes alternarem o protagonismo antes de se juntarem para um final quase trovadoresco, que estará entre os mais bonitos da fase recente de PJ Harvey (o que não é dizer pouco).

 

O videoclip de Rick Holbrook recorre a imagens do fotojornalista Giles Duley e a lista de créditos completa-se com John Parish, cúmplice habitual da britânica e produtor do tema:

 

 

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