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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Crónicas de um mundo em ruínas

Gary_Numan

 

Um mundo sem tecnologia, quase todo ocupado por um deserto sem fim à vista, no qual comida, água e outros recursos são muitas vezes uma miragem. Premissa de um novo filme de ficção científica? Podia ser, mas no caso é o ponto de partida do próximo álbum de GARY NUMAN.

 

"Savage (Songs from a Broken World)", previsto para 15 de Setembro, será já o 21º longa-duração de originais do pioneiro da pop electrónica e inspirou-se na vitória eleitoral de Donald Trump e no aquecimento global para desenhar uma realidade pós-apocalíptica, centrada no desespero e na luta pela sobrevivência.

 

Sucessor de "Splinter (Songs From a Broken Mind)", de 2013, o disco parece manter a influência de cenários industriais da escola Nine Inch Nails na música do britânico (muitas vezes apontado como referência por Trent Reznor), ou pelo menos é a impressão que fica ao ouvir o primeiro single. 

 

"MY NAME IS RUIN", ancorada no timbre reconhecível de Numan, é uma marcha sintética agressiva q.b., mas orelhuda, que conta com a filha do cantor, Persia, como voz convidada. A participação mantém-se no videoclip, realizado por Chris Corner (ex-Sneaker Pimps e mentor dos IAMX), com ambientes entre os de sagas como "Mad Max" ou "The Walking Dead" - e o tema, aliás, não ficava nada mal nos filmes e na série:

 

 

Perto da vista, longe do coração

Christopher Nolan parece acreditar que o peso de um episódio verídico marcante chega, por si só, para conceder impacto dramático a "DUNKIRK". E por isso o tour de force técnico do seu primeiro filme de guerra é pouco mais do que um desperdício, tão vistoso como vazio.

 

Dunkirk

 

Se na viragem do milénio o autor de "Memento" foi ganhando lugar entre os realizadores mais curiosos a saltar das margens para o mainstream, nos últimos anos o britânico tem ficado aquém do efeito lúdico de "A Origem" ou da intensidade de "O Cavaleiro das Trevas". O terceiro mergulho no universo de Batman foi uma desilusão, a aventura espacial rocambolesca de "Insterstellar" continua a ter lugar cativo entre os filmes mais sobrevalorizados desta década e "DUNKIRK" fica agora como terceiro regresso decepcionante consecutivo.

 

A Batalha de Dunquerque, capítulo decisivo da Segunda Guerra Mundial, é retratada por Nolan em várias frentes (terra, mar e ar, cada uma com o seu arco narrativo), mas tirando a mais-valia didáctica do olhar sobre a evacuação de cerca de 300 mil soldados aliados da localidade francesa, a sensação saliente é a de oportunidade perdida. E é uma sensação ainda mais desapontante quando o filme até começa de forma promissora, seja pela tentativa de apresentar os acontecimentos recorrendo mais às imagens (dispensando o digital) do que a diálogos explicativos e, sobretudo, pela empolgante sequência de suspense na qual dois soldados transportam outro numa maca.

 

Dunkirk_3

 

Complementado pela música de Hans Zimmer, esse episódio inicial é uma montra do inegável poderio técnico de Nolan, capaz de conjugar os impressionantes valores de produção com acção filmada de forma ofegante mas sempre clara, logo aí a suplantar muita concorrência directa que aposta tudo numa câmara epiléptica.

 

Infelizmente, este arranque inspirado está longe de ter correspondência em grande parte dos que se seguem durante quase duas horas. Em vez de trunfo ocasional, a banda sonora acaba por ser adereço recorrente, e quase sempre em modo exaltado, numa sucessão de crescendos feitos à medida do argumento. A narrativa é pouco mais do que uma alternância de situações-limite, com Nolan mais preocupado em saltitar entre espaço e tempo do que em acompanhar a fundo as pessoas por detrás dos rostos que vai filmando.

 

É verdade que o forte do britânico nunca foi o de criar e desenvolver personagens particularmente interessantes e memoráveis - se o Joker será das poucas excepções, deve muito a Heath Ledger -, mas aqui essa limitação é ainda mais óbvia. E mesmo que se aceite que possa ser intencional, optando pelo retrato colectivo, "DUNKIRK" dá geralmente prioridade a malabarismos já esperados em Nolan, sejam cronológicos (aqui perfeitamente desnecessários e pura manobra de distracção) ou visuais.

 

Dunkirk_2

 

Não é que não haja uma mão-cheia de cenas de encher a vista, embora às tantas as dos pilotos, por exemplo, já sejam mero separador para insuflar expectativa em relação aos subenredos de três soldados (encarnados por actores revelação, entre os quais o muito falado Harry Styles, que Nolan nunca deixa ir muito longe) ou ao de um altruísta Mark Rylance, cujo talento e empenho mereciam outro fôlego dramático - mas se a sua presença aqui ainda é justificada, não se percebe porque é que Nolan recrutou Tom Hardy para fazer tão pouco (desperdício ao nível do papel de Oscar Isaac em "Star Wars - O Despertar da Força", outro piloto mais figurante do que personagem).

 

Sempre é melhor do que um Michael Bay ou um Zack Snyder, desculparão alguns. Claro que sim, Nolan tem uma sofisticação a milhas desse estardalhaço enquanto foge a armadilhas patrióticas (o soldado de Cillian Murphy ajuda a conseguir alguma ambiguidade) ou ao drama puxa-lágrima, expectáveis num filme de guerra que também quer ser filme-pipoca. Mas baixar tanto a fasquia para inflacionar "DUNKIRK" diz mais sobre o estado da oferta de muito cinema mainstream anglo-saxónico actual do que das qualidades da proposta de Nolan - que as tem, só não chegam para recomendar o filme e muito menos para o tornar obrigatório num ano de tantas boas estreias sem um décimo da atenção.

 

2/5

 

 

Olha o passarão

Bird_Brains

 

Enquanto não chega a rentrée e, com ela, uma série de novos álbuns, um dos bons lançamentos do Verão fica por conta dos HOLY FUCK. O EP "Bird Brains" é o sucessor do quarto álbum dos canadianos, "Congrats", editado no ano passado, e deixa mais quatro temas (quase todos instrumentais, como é habitual na banda) que se movem entre uma mistura de rock, electrónica, noise ou industrial sem se decidirem necessariamente por um território.

 

A faixa título é a primeira amostra oficial e arranca a lembrar uma versão mais robusta de "Flat Beat", o clássico de Mr. Oizo, antes de se atirar a outros ambientes. O frenesim apontado às pistas de dança mantém-se no videoclip, um concentrado de hedonismo que a realizadora Allison Johnston diz ter partido dos lugares comuns associados às festas - e motivados por vídeos como o de "Hot In Herre", de Nelly.

 

O protagonista do deboche mostra que o grupo de Toronto continua interessado em seguir animais fora do seu ambiente, alucinados q.b. (vale a pena recordar "Red Lights"), num shot de adrenalina a condizer com um single daqueles para irritar os vizinhos:

 

 

Adivinha quem voltou

Só a presença de Catherine Deneuve e Catherine Frot já seria motivo suficiente para espreitar "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO", mas o novo filme de Martin Provost está à altura das actrizes e oferece-lhes personagens fortes num drama de ressentimentos e redenções.

 

duas_mulheres_um_encontro

 

Depois de "Séraphine" e "Violette" (ou de outros títulos que não chegaram às salas nacionais), Martin Provost continua a interessar-se pelo universo feminino e ainda parece ter coisas para dizer. E no seu novo filme mostra que sabe como dizê-las, ao contrastar os percursos de duas mulheres que voltam a cruzar-se após um afastamento de décadas.

 

Claire, mãe solteira a chegar à casa dos cinquenta, vive um quotidiano rotineiro e com uma tensão crescente quando a maternidade onde trabalha como parteira promete fechar portas. Mas esse até se torna num problema secundário ao entrar em cena uma figura de um passado longínquo: Béatrice, ex-companheira do seu pai que o tinha abandonado há décadas, acrescentando motivos para o seu suicídio.

 

O que Claire pressupunha ser uma conversa casual e irrepetível, vincada por alguma crispação e desconfiança, acaba por ser a primeira de muitas de "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO", à medida que o dia-a-dia das protagonistas se vai tornando cada vez mais interligado - em parte devido ao estado de saúde de Béatrice, agora mais frágil. 

 

duas_mulheres_um_encontro_2

 

Provost, ao acompanhar o retomar da relação destas duas mulheres, não se desvia muito da fórmula centrada em duas figuras cuja discordância inicial, com choque de temperamentos pelo meio, vai dando espaço a uma cumplicidade crescente. Esta premissa já originou inúmeros filmes, sobretudo comédias (e aqui o drama também é temperado por algum humor), mas o realizador francês nem precisa de inventar nada: basta-lhe a generosidade de dar às suas actrizes figuras à medida do seu talento, num estudo de personagens fluído e sóbrio, paciente e realista, exigente mas acessível.

 

Frot, no papel de uma mulher solitária e taciturna, embora obstinada e altruísta, mantém uma contenção que se vai dissipando à medida que interage com uma Deneuve mais desregrada e desbocada, contraste determinante para equilibrar um drama que nunca escorrega nem para a sisudez nem para a ligeireza.

 

Além de um argumento sólido e diálogos inspirados, Provost segue-as com uma realização que não insiste em chamar a atenção para si própria mas que deixa, ainda assim, algumas boas ideias. As cenas assombradas pela doença de Béatrice, por exemplo, conseguem uma justeza difícil de gerir (na medida certa de comoção e distanciamento) e uma pacata sequência de projecção de slides resulta num momento desconcertante sobre a perda e a memória.

 

Pormenores como esses, associados à inteligência emocional de que o realizador nunca abdica, ajudam a elevar "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO" acima do que poderia ficar-se pelo mero filme de actrizes (que no caso já nem seria pouco), num daqueles dramas modestos e sensíveis que vão sendo uma raridade, sobretudo nas estreias de Verão. 

 

3,5/5

 

 

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