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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Berlim, 1945

Lea_Porcelain

 

Com ecos de ambientes pós-punk, góticos e industriais de travo anos 80, o álbum de estreia dos LEA PORCELAIN está longe de propor uma colecção de canções veraneante. Mas nem por isso deixa de ser uma das boas surpresas da temporada.

 

"Hymns of the Night" dificilmente poderia ser um título mais apropriado para o disco da dupla alemã, com o tom sorumbático a propagar-se por canções nas quais o título também não engana, de "Bones" a "White Noise". Qualquer semelhança com contemporâneos como os Preoccupations (ex-Viet Cong) ou First Hate não será pura coincidência, uma vez que todos partilham a devoção por nomes como Joy Division, Depeche Mode e Cabaret Voltaire (ou pelo menos a audição atenta de alguns dos seus álbuns).

 

Mas se não são tremendamente originais, o produtor Julien Bracht e o vocalista Markus Nikolaus mostram-se bastante à vontade com o território que percorrem, não se limitando a repisá-lo. Prova disso são temas como "LOOSE LIFE", o novo single, que continua a fazer tanto sentido em 2017 como teria feito em 1987, embora o videoclip até recue mais uns anos.

 

Criado a partir de uma recolha de imagens de arquivo da reconstrução de Berlim e Potsdam em 1945, logo após a Segunda Guerra Mundial, o vídeo acompanha uma canção inspirada na queda de uma grande cidade e, diz a banda, pretende lembrar como a paz continua a ser volátil ao fim de várias décadas. A combinação é eficaz e a remistura de Roman Flügel também convence, ao trocar as guitarras e a aura suja do original por sintetizadores e uma produção mais polida.

 

 

O Inverno do nosso descontentamento

O mais surpreendente da sétima temporada de "A GUERRA DOS TRONOS" talvez seja o número (ainda elevado) de personagens que sobreviveram até aqui. Falta de risco de uma série conhecida por não poupar quase ninguém, doa a quem doer?

 

Sansa_Stark

 

O fim está próximo, garante "A GUERRA DOS TRONOS". O aviso não é novo e até tem sido repetido desde a primeira temporada da produção da HBO. Mas o desenlace da sétima época não deixa dúvidas, até porque depois da (impressionante) destruição da Muralha só faltam mesmo seis episódios até dizer adeus de vez aos Sete Reinos de Westeros - ou pelo menos até os quatro (ou mais) spin-offs lá voltarem para outras aventuras num passado remoto.

 

Um dos aspectos muito comentados da recta final tem sido, aliás, o ritmo bem mais acelerado do que aquele a que a série era associada - nem sempre de forma elogiosa, com alguns fãs a queixarem-se do tempo em que algumas personagens iam de A a B. A mudança é compreensível, tendo em conta o número limitado de horas reservado para o fecho da saga, mas em certos momentos a sétima temporada deixou a sensação de quebra do pacto narrativo com o espectador.

 

No sexto capítulo, "Beyond the Wall", esse contraste foi especialmente gritante e ajudou a tornar uma das jornadas mais promissoras (a que acompanhou o "Esquadrão Suicida" de Jon Snow nos domínios dos White Walkers) numa das mais frustrantes, embora nem tanto pelos quilómetros percorridos por várias personagens à velocidade da luz, mas pela preguiça de um argumento encostado a soluções Deus Ex Machina durante a grande batalha no gelo - com o regresso tão abrupto como conveniente de um Stark a destacar-se como manobra mais insultuosa.

 

Lannisters

 

No mesmo episódio, os guionistas jogaram ainda mais pelo seguro ao pouparem quase todas as personagens de uma missão particularmente perigosa, despachando apenas a mais irrelevante - e pela qual poucos fãs terão suspirado. Nada que não se tenha mantido ao longo de toda a temporada, que exceptuando Olenna Tyrell (numa despedida feita ao seu nível, deliciosamente truculenta) insistiu em livrar-se apenas de figuras mal amadas, das Sand Snakes a Littlefinger.

 

E falando do mestre da manipulação, a sua trama com Arya e Sansa Stark foi um exemplo infeliz de derrapagem para territórios de telenovela ou de mau romance de cordel, com uma reviravolta forçada que além de enganar Lorde Baelish, fez batota com o que mostrou ao espectador (mas podia ter sido pior e, pelo menos, a natureza das irmãs saiu incólume no final).

 

Também menos espontânea do que seria desejável, a aproximação entre Jon Snow e Daenerys Targaryen deixa dúvidas sobre se dar a muitos fãs aquilo que eles querem (ou esperam) será a melhor opção - não ajuda que Kit Harington e Emilia Clarke sejam dos actores menos convincentes do elenco. Por outro lado, enquanto algumas das personagens mais intrigantes tiveram uma participação reduzida - pobres Brienne of Tarth ou Melisandre, com tão pouco para fazer -, outras com mais tempo de antena são já meras muletas do argumento (Bran Stark, numa função que já vem de trás) ou estão a caminho disso (Sam Tarly e a sua nada credível cura de Jorah Mormont).

 

Theon_Greyjoy

 

Se entre tantas limitações o balanço pode parecer negativo, no seu melhor "A GUERRA DOS TRONOS" mostrou ser mesmo um caso à parte na televisão actual - e merecedora do culto invulgar que tem consolidado. Os primeiros episódios da temporada conseguiram conjugar intriga palaciana e injecções de adrenalina com uma habilidade assinalável, deixando momentos altos no ataque de Euron Greyjoy ao navio dos sobrinhos ou na batalha que opôs o exército de Jaime Lannister à Mãe dos Dragões.

 

Os reencontros dos Stark, há muito ansiados, sobressaíram entre os laços refeitos (tendência alargada no início do último episódio) enquanto que Cersei Lannister, sendo ou não a rainha, segue bem posicionada na corrida a vilã mais memorável da saga. A personagem da excelente Lena Headey é ainda das que têm um percurso mais coerente, ao lado do mais subestimado Theon Greyjoy, cujo caminho entre a perdição e a redenção manteve todas as nuances que ajudam esta saga a fazer a diferença. O maior desafio da oitava e última temporada, mais do que encher o olho com um combate entre os vivos e os mortos, é mesmo ser capaz de olhar desta forma para tantas (óptimas) personagens em tão poucos episódios...

 

3,5/5

 

The Dandy Warhols, 20 anos depois

Dandy_Warhols_1998

 

O segundo álbum dos DANDY WARHOLS é daqueles casos em que os singles enganaram. A celebrar 20 anos este Verão, o disco que teve "Not If You Were the Last Junkie on Earth", "Every Day Should Be a Holiday" e "Boys Better" como amostras especialmente mediáticas também contou, ao longo de um alinhamento que ultrapassou uma hora de duração, com um conjunto de canções bem mais ecléctico do que esse trio de indie pop contagiante e hedonista (que além de ser dos mais ouvidos do seu tempo - em parte devido à rotação constante em "Alternative Nation", da MTV - , guardou lugar entre os clássicos da banda de Portland).

 

Editado a 15 de Julho de 1997, "... THE DANDY WARHOLS COME DOWN" surgiu na ressaca do grunge e da britpop, e se chega a incorporar elementos de ambos (sobretudo da segunda escola), está a milhas das tendências electrónicas de fim de milénio cujo impacto levava alguns a decretar a morte do rock (mais uma vez, e não seria a última).

 

Come_Down

 

No ano em que "OK Computer" foi a bóia de salvação de muitos dos que ainda insistiam em agarrar-se às guitarras, o quarteto liderado por Courtney Taylo-Taylor não temeu ser mais anacrónico do que o grupo de Thom Yorke enquanto optou pelo humor e pela despretensão em vez da depressão pós-moderna sem fim à vista. O que não quer dizer que além da ironia de "Cool as Kim Deal""Hard on for Jesus" ou, claro, o já referido "Not If You Were the Last Junkie on Earth" (alguns títulos são todo um programa), não haja aqui espaço para episódios mais densos, e até inesperadamente melancólicos - confirmar no segmento que arranca na belíssima "Good Morning", ainda uma das canções mais perfeitas da banda, e segue por "Whipping Tree" e "Green".

 

Depois de uma estreia discreta mas promissora, com "Dandys Rule OK?" (1995), marcada por influências directas dos Ride ou dos Blur, recuando ainda até aos Jesus and Mary Chain ou Velvet Underground, este segundo passo travou algum peso shoegazer sem deixar de lado o psicadelismo, cruzando-o com outras referências díspares, do glam à new wave ("Every Day Should Be a Holiday", sempre irresistível, teria descendência óbvia no mais sintético "Welcome to the Monkey House", álbum de 2003).

 

A combinação de ingredientes só deixa reservas no final do alinhamento, com "Pete International Airport" e "The Creep Out" a apresentarem instrumentais longos e repetitivos, em ambiente drone, que infelizmente viriam a servir de molde para alguns dos discos mais auto-indulgentes do grupo (os da fase mais recente, exceptuando o regresso inspirado em "Distortland").

 

Dandy_Warhols_1997

 

Antes de lá chegar, no entanto, "... THE DANDY WARHOLS COME DOWN" é uma prova de vitalidade de uma banda mais interessada em experimentar e em divertir-se nesse processo do que em revolucionar o que quer que seja. E se a coesão instrumental é notável - tanto nos momentos mais intensos, a tirar partido do efeito wall of sound da produção, como nos mais contidos (caso de "Orange", a pedir audições repetidas até se infiltrar) -, boa parte do carisma também se deve a Courtey Taylor-Taylor, vocalista cuja versatilidade nunca foi tão reconhecida como merecia - não há muitos que se saiam tão bem entre um registo grave e agudo, entre o melancólico e o obstinadamente festivo.

 

"Thirteen Tales From Urban Bohemia", álbum editado três anos depois e catapultado por um single tão ubíquo como "Bohemian Like You", daria outra visibilidade aos Dandy Warhols, mesmo que também tenha levado muitos a arrumá-los (injustamente) na gaveta de one hit wonders. Mais conciso e polido, superou ligeiramente o antecessor, mas ainda assim "... THE DANDY WARHOLS COME DOWN" não só envelheceu muito bem como será, espera-se, um prato forte do regresso da banda a Portugal, já esta sexta-feira, 25 de Agosto, em Vilar de Mouros. Num festival particularmente nostálgico, a partir da 1h40 é hora de festejar como se fosse 1997.

 

 

 

 

O Outono está a chegar

chelsea_wolfe

 

A caminho do quinto álbum, a música de CHELSEA WOLFE não dá sinais de aligeirar as tormentas exploradas em discos como o da estreia, "The Grime and the Glow" (2010), ou o mais recente "Abyss" (2015).

 

"Hiss Spun" é um dos motivos para ter em conta a agenda de edições de Setembro (está previsto para dia 22) e não deverá abandonar um universo que por esta altura já se tornou característico, com fronteiras pouco nítidas entre ambientes góticos, folk tão ou mais negra e influências directas do metal.

 

"16 PSYCHE", o novo single, mostra uma faceta especialmente robusta, amparada numa fúria de guitarras muito anos 90 - ou pelo menos os anos 90 de uns Marilyn Manson ou Nine Inch Nails, cuja herança também parece chegar, até de forma mais denunciada, aos cenários do videoclip e à própria imagem da cantautora norte-americana:

 

 

O Verão continua a não passar por estes lados, e talvez ainda bem. Aguardemos o Outono e mais canções como esta ou a também recente "Vex", colaboração com Troy Van Leeuwen (Queens of the Stone Age) na guitarra e Aaron Turner (Isis) na voz gutural, a sugerir que a costela metal pode ter mais peso nas próximas assombrações.

 

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