Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A noite (e o jogo) dos mortos-vivos

PZ

 

"Império Auto-Mano", o quarto álbum de PZ, não só é dos mais conseguidos do projecto a solo de Paulo Zé Pimenta como merece figurar entre os melhores da produção nacional deste ano. E caso vinhetas sobre os absurdos do quotidiano na linha de "Olá""No Meu Lugar" ou "Mais" não fossem suficientes para comprovar que a receita com condimentos hip-hop, funk, electropop ou techno à moda do portuense está cada vez mais apurada (e continua com direito a sotaque inconfundível na música que se faz por cá), há agora mais uma chamada de atenção para o disco.

 

"ZONA ZOMBIE" ganha novo fôlego a tempo da noite de Halloween e o título não engana: é dos temas mais sombrios, mesmo que não abdique do humor que percorre o álbum, e junta os sussurros de PZ (em tom mais intimidante do que o habitual) a uma penumbra electrónica que não anda longe da faceta sintética e implosiva de uns Nine Inch Nails.

 

O videoclip mantém-se fiel ao título e vai colocando mortos-vivos no caminho do protagonista, uma versão animada do músico (à qual não falta o pijama já conhecido de outros vídeos ou palcos), num passeio que além de remeter para o cinema de terror também é uma homenagem aos videojogos dos primórdios (a cargo da Check It Out Studios, do Porto). Anos 80 bem medidos para ir voltando a um álbum que ajuda a dar graça a 2017:

 

 

Políticas do futuro e (grandes) canções do presente

Da excelente forma vocal de Katie Stelmanis a uma banda inegavelmente coesa, nada falhou no concerto dos AUSTRA no Musicbox Lisboa, no sábado passado. E além de apresentar o novo disco, "Future Politics", a banda canadiana aproveitou para recordar o melhor dos anteriores - ou seja, alguma da melhor pop electrónica nascida nos últimos anos.

 

Austra_Musicbox1

 

Com três álbuns e dois EPs no currículo, já era tempo de os AUSTRA terem direito a estreia lisboeta, depois de uma passagem por palcos nacionais no festival Milhões de Festa, em 2013. Até porque nesses discos está um dos percursos mais consistentes desta década em terreno electrónico, mesmo que, talvez exceptuando uma maior atenção em torno do álbum de estreia ("Feel It Break", de 2011), tenha sido demasiado ofuscado por outros sabores da indietronica do momento (não necessariamente mais interessantes).

 

Por outro lado, essa espera considerável acabou por sair compensada quando, em 2017, a banda de Toronto já conta com uma rodagem de palco capaz de assegurar um equilíbrio impressionante em todas as vertentes, da cumplicidade dos elementos à selecção do alinhamento. A fluidez do concerto no Musicbox, integrado no Jameson Urban Routes, não parece ter sido obra de um acaso feliz mas de um grupo que, chegado ao terceiro álbum ("Future Politics", editado em Janeiro deste ano) sabe perfeitamente o que está a fazer, o que quer dizer e como deve transmiti-lo a quem o ouve.

 

Austra_Musicbox2

 

Acompanhada de mais três músicos em palco, Katie Stelmanis comprovou que a voz que comanda as canções em estúdio mantém esse efeito ao vivo, continuando a conjugar-se com um novelo sintético sem se perder nele. E o seu tom operático adaptou-se tão bem a momentos solenes, às vezes quase de ambientes litúrgicos, como a descargas efusivas direccionadas para o corpo. Para os momentos de maior frenesim rítmico também foi determinante a presença da bateria, naquela que ficou como a maior diferença instrumental face aos discos - e a injectar, ou a reforçar, uma bem-vinda pulsão física a boa parte do alinhamento (lado a lado com a presença mais reconhecível de teclados, sintetizadores e baixo).

 

Apresentando-se com um longo vestido vermelho, a vocalista e mentora do projecto foi o centro de uma actuação que dispensou adornos visuais e até grandes declarações ao público de uma sala bem composta. Stelmanis foi afável e agradeceu aos espectadores e aos colegas, é certo, mas quase todas as palavras foram mesmo empregues nas canções que se sucederam sem entraves.

 

Austra_Musicbox3

 

E quase só houve espaço para grandes canções, num arranque que privilegiou as mais recentes. Os singles "Future Politics" e "Utopia" geraram o frenesim que já se esperava, "I'm a Monster" ou "Freepower" saíram francamente a ganhar face ao formato gravado - a primeira mais pela voz, a segunda pela secção rítmica. E o final de "Gaia" continua a ser qualquer coisa, com a interpretação grandiosa de Stelmanis a tornar-se maior do que a vida sem derrapar para o exibicionismo (feito que marcou outros momentos da noite e é uma masterclass para muitas supostas divas pop).

 

Na segunda metade de uma actuação de pouco mais de uma hora, o foco desviou-se para recordações inevitáveis dos primeiros álbuns, da belíssima "Home" ao desvario a caminho do industrial de "Beat and the Pulse", sem deixar de oferecer algumas surpresas. Foi o caso da nova versão de "The Villain", talvez o ponto alto do disco de estreia, a apostar numa faceta mais trepidante (quase punk funk num longo remate instrumental) sem deixar de ser atormentada. A canção resultou num dos maiores convites à dança, com o público a acompanhar a banda num cenário iluminado por tons escarlate, a contrastar com a synthpop gélida de momentos anteriores. Já "Habitat", em modo contemplativo, recuperou a faixa-título do EP de 2014, num encore onde temas como "Forgive Me" ou "Spellwork" seriam talvez mais esperadas. A fechar, o embalo de "Hurt Me Now", entre o épico e o melancólico, assegurou a sensação de missão cumprida mas a deixar a vontade de um reencontro um pouco mais longo. Seria pedir muito um concerto de sala em nome próprio?

 

4/5

 

Ela Minus

 

Antes dos Austra, a noite do Jameson Urban Routes de sábado foi inaugurada por ELA MINUS, cantautora que tem assegurado as primeiras partes da digressão da banda e assume o papel de baterista nos seus concertos. Apresentando-se sozinha em palco, a colombiana Gabriela Jimeno foi cantando e manipulando ritmos de uma pop electrónica que promete "música luminosa para tempos negros". E foi de ritmos cintilantes que se fez boa parte de uma actuação curta mas promissora, centrada nos temas de EPs que abrem caminho para um álbum em preparação. "Juan Sant" ou "I Wish I Had a Hat" contaram-se entre as amostras sedutoras, mas a boa impressão saiu reforçada pela atitude de Minus, que não se deixou ficar fechada no seu pequeno mundo (o que às vezes acontece em actuações individuais assentes em base electrónica) e insistiu em aproximar-se dos espectadores, chegando a distrair alguns dos seus telemóveis quando saiu do palco para se juntar a eles. Além deste capital de simpatia, houve um ponto especialmente alto na despedida, com um crescendo rítmico dançável, viciante e a prometer coisas melhores para quem se mantiver atento a este percurso. 

 

3/5

 

Surma

 

Numa noite inicialmente marcada pela presença feminina, o Musicbox recebeu ainda SURMA, projecto de Débora Umbelino, na apresentação do seu disco de estreia, "Antwerpen", editado no mês passado. Tal como Ela Minus, a cantautora e multi-instrumentista de Leiria não precisou de companhia em palco para se aventurar em ambientes etéreos de vistas largas, entre o aconchegante e o enigmático, ganhando algum nervo numa recta final mais eléctrica. O cruzamento de vários géneros e épocas foi intrigante (entre o público ouviam-se comparações a cantautoras indie nórdicas ou clássicos da dream pop da editora 4AD) e Surma revelou desenvoltura na gestão de teclados, samples, loops ou guitarra, mas embora se tenham ouvido muitos apontamentos instrumentais curiosos, ficaram a faltar canções memoráveis. E ao contrário das texturas, a voz não registou grandes variações, mantendo-se num registo agudo e algo monocórdico, nem sempre convivendo da forma mais estimulante com o novelo rítmico. Ficaram algumas boas ideias, e alguma idiossincrasia que sobressai apesar das muitas referências, mas por agora insuficientes para sustentarem um espectáculo de cerca de uma hora de duração.

 

2/5

 

Fotos: Facebook do Musicbox Lisboa

 

Despertando depois do sonho

Scratch Massive

 

Entre as boas surpresas da pop electrónica deste ano conta-se "Polaar", o primeiro álbum a solo de Maud Geffray, metade dos SCRATCH MASSIVE. Mas além do percurso em nome próprio, a cantora, compositora e produtora francesa também se tem dedicado às canções da dupla que forma com Sébastien Chenut, na preparação do primeiro disco de originais do projecto desde o já demasiado distante "Nuit de rêve", de 2011.

 

Se nesse álbum a banda convidou vozes como as de Daníel Ágúst (dos Gus Gus), Jimmy Somerville (ex-Bronski Beat e Communards) ou Koudlam, num óptimo alinhamento entre a synthpop mais negra, a darkwave e algumas bandas sonoras dos anos 80 (como as de filmes de John Carpenter), a primeira amostra do próximo registo sintoniza-se com cenários mais contemporâneos.

 

"SUNKEN", o single de avanço de "Sunken City", mantém-se em terreno electrónico, mas perto da faceta eufórica (embora enigmática q.b.) de uns Röyksopp ou Grimes, enquanto alarga as colaborações da dupla ao requisitar a cantautora Léonie Pernet (que partilha o protagonismo vocal com Maud Geffray). Já o videoclip, realizado por Sébastien Chenut, conta com a actriz Roxane e a DJ Mesquida Eiko Hara, sugerindo que há mais convidados a caminho - uma possibilidade para ir confirmando até 23 de Março de 2018, data da edição do novo disco.

 

 

Gelado de Outono

BECK mais pop não há: "COLORS" é um desvio assumido da "maturidade" de "Morning Phase" e opta claramente pela festa em vez da introspecção. E nem precisa de ser um grande álbum para se revelar contagiante.

 

beck

 

Depois de responder ao contemplativo "Mutations" (1998) com o delírio de "Midnite Vultures" (1999) e de sair do mergulho interior de "Sea Change" (2002) com o mais enérgico "Guero" (2005), BECK volta a fazer uma manobra semelhante três anos após a edição de "Morning Phase", um dos seus discos mais elogiados e o tal que lhe deu o reconhecimento oficial da indústria ao ser premiado com o Grammy de Álbum do Ano.

 

Em vez de se manter nos tons outonais de um dos seus registos mais melancólicos, vincado por heranças da folk e da country, o norte-americano parece querer sublinhar que a aproximação do meio século de vida (o autor de "Loser" soprou 47 velas no Verão passado) não é sinal de rendição a ambientes sonoros mais serenos e meditativos. Nem seria legítimo esperá-lo tendo em conta que a sua discografia, mesmo com pontos de contacto entre algumas edições, é mais dominada pela surpresa do que pelo regresso a cenários habituais.

 

No caso de "Colors", o 13º longa-duração de uma carreira de quase 25 anos, o cenário é mesmo pouco habitual e talvez por isso não esteja a ser recebido com o consenso que agraciou a maioria dos antecessores. É provavelmente o álbum mais imediato de BECK, com canções incisivas e quase sempre dançáveis, resultado da colaboração com Greg Kurstin. O produtor de êxitos de Adele, Sia ou Pink não seria o nome mais expectável, até porque não é conhecido por pop especialmente desafiante, mas acabou por se mostrar eficaz para o que o autor do disco pretendia: um conjunto de canções nem retro nem modernas, com uma profusão de texturas e camadas que não se anulassem mutuamente na mistura.

 

Beck_Colors_Album

 

Pode dizer-se que o objetivo foi alcançado, mesmo que "Colors" não se imponha numa discografia já longa e ecléctica. BECK podia não estar a pensar numa pop moderna mas este soa a um disco da geração EDM, embora mantendo a personalidade de uma das revelações dos anos 90.

 

"Up All Night", com um hedonismo funk em moldura electrónica, não destoaria numa playlist entre as canções mais recentes dos Daft Punk e Justin Timberlake. "Wow", tão ou mais orelhuda, é outro exemplo de uma faceta lúdica que "Morning Phase" ameaçava deixar definitivamente para trás, com uma conjugação viciante de batidas e harmonias vocais a piscar o olho ao hip-hop contemporâneo (numa actualização do corta e cola dos dias de "Odelay").

 

Se estes dois temas foram dos primeiros avanços do disco, praticamente todas as canções de "Colors" têm potencial de single. "Dreams", outro cartão de visita, remete para o psicadelismo de uns Tame Impala da vertente mais sintética, aproximação que também marca a faixa-título, entre sintetizadores e flautas. "Seventh Heaven" lembra outros australianos amigos da synthpop, os Cut Copy, com coros em falsete a pedir aos céus um futuro com dias melhores.

 

Beck_2017

 

Já "Dear Life", ancorada no piano, é canção de recorte mais clássico, se por clássico entendermos Beatles via Elliott Smith. Mas talvez seja em "So Free" que "Colors" atinge o ponto de rebuçado: antes do refrão a viagem ameaça derrapar para o terreno pantanoso da EDM, mas as guitarras acabam por reclamar protagonismo entre um ritmo frenético e rodopiante, com um crescendo ampliado pelos contrastes vocais rumo a uma euforia que pede um palco.

 

Menos convincente, "No Distraction" mostra um balanço irregular ao alternar entre um arranque devedor dos Police com viragens para os Killers nos momentos mais acelerados, antes de regressar à casa de partida no refrão (sem ganhar muito com isso). É talvez o maior desvio do alinhamento face ao que já ouvimos de BECK, mas não compromete um sortido pop mais saboroso do que alguns discos anteriores com aclamação generalizada. Pelo menos se não lhe pedirmos mais do que aquilo que pretende oferecer.

 

3/5

 

 

Pág. 1/3