Dom | 3 Fev 08
Dois (ou três?) em um

Uma das qualidades de "Marselha" (Marseille, 2004) é a de não ser um filme fácil, jogando com as expectativas do espectador ao confrontá-lo com uma estrutura narrativa invulgar e, até certo ponto, engenhosa.

Infelizmente, essa carga inventiva nem sempre joga a seu favor, uma vez que a tentativa de surpreender deita abaixo grande parte da intensidade dramática que o filme vai moldando, pacientemente, durante a primeira parte.

 

A quinta obra de Angela Schanelec acompanha inicialmente a chegada de Sophie, uma jovem fotógrafa alemã, à cidade francesa que dá título ao filme. A troca de apartamento, durante alguns dias, com uma estudante, obriga-a a romper com a rotina do seu dia-a-dia em Berlim, a lidar com a solidão e a tentar adaptar-se a um novo contexto. E também a conhecer novas pessoas, como o mecânico de uma oficina a que recorre e com o qual estabele uma óbvia empatia, esboçando o seu primeiro sorriso após vários minutos de filme.

 

 

Durante estes episódios, dos passeios solitários da protagonista às suas saídas nocturnas com jovens locais, "Marselha" demarca-se como uma obra promissora, apostando num ritmo pausado, mas não monótono, numa realização com muitos planos fixos e enquadramentos minuciosos e numa eficaz secura dramática que o aproxima de domínios documentais. Uma sequência, centrada numa longa conversa de bar entre Sophie e o mecânico, é particularmente conseguida, transbordando espontaneidade e vibração emocional.

 

Se continuasse por aqui, "Marselha" seria provavelmente um belo filme, mas Schanelec muda repentinamente o espaço da acção e a protagonista, desviando-se para Berlim e concentrando atenções em Anna, irmã de Sophie, investindo na sua frustração profissional e dilemas conjugais.

Este corte, que até poderia ser interessante, serve apenas para encher o filme com duas exaustivas sequências de muito duvidosa relevância, uma decorrida numa sessão de fotos e outra no ensaio de uma peça de teatro, onde o tédio acaba por instalar-se. O facto de Hanna ser uma personagem pouco estimulante e da actriz que a interpreta não possuir - pelo menos aqui - a estranha fotogenia e olhar indecifrável da que encarna Sophie, Maren Eggert (por vezes a lembrar Valeria Bruni Tedeschi), também não ajuda.

 

 

Sophie volta a ganhar protagonismo na recta final, embora se veja envolvida numa situação bem diferente das do início e que pareça, por isso, deslocada, reforçando as falhas de um argumento que peca por excesso de arbitrariedade.

 

"Marselha" evidencia que Schanelec tem talento, mas esperava-se mais de uma realizadora que é tida como uma das essenciais da Nova Escola de Berlim, movimento que nos últimos anos tem reflectido as tensões quotidianas da sociedade alemã contemporânea recorrendo a um despojamento formal que acentua a vertente realista.

Ainda assim, fica a ténue esperança de que "Marselha" possa ser salvo por um impiedoso director's cut, aproveitando os primeiros 30/40 minutos e eliminando - ou repensando - todos os que se seguem, para que este não pareça dois (ou mesmo três) filmes mal cosidos mas o refrescante estudo de personagens sugerido nos momentos iniciais.

 

 

"Marselha" é um dos filmes da KINO - Mostra de Cinema de Expressão Alemã, presente no cinema São Jorge, em Lisboa, até 6 de Fevereiro


música: "Amor Fugaz", María Daniela Y Su Sonido Lasser

publicado por gonn1000 às 17:41
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Comentários:
De carochinha a 4 de Fevereiro de 2008 às 00:27
vais fazer um post sobre o sweeney todd? estou curiosa com esse filme e gostava de saber se vais falar dele aqui no blog.
bjs e que continues o excelente trabalho


De gonn1000 a 4 de Fevereiro de 2008 às 02:26
Já o vi, mas não gostei :(
Talvez fale dele entretanto.
Obrigado :)


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