Em "Blackout" (2007), Britney Spears respondeu a um período negro da sua vida pessoal com o seu disco mais interessante e elogiado até então, seguindo uma sonoridade mais urbana, obscura e arrojada (quando comparada com a dos primeiros) já iniciada do anterior "In the Zone" (2003).
"Circus", o seu sexto álbum, chega um ano depois e não diverge muito desses domínios, oferecendo mais do mesmo mas de forma menos diversificada e um pouco mais polida.

O que não é inesperado, já que a equipa de composição e produção mantém-se e é a ela que se deve o (pouco) que vale a pena guardar dos discos, já que a voz de Spears persiste entre mais limitadas do momento - mesmo dentro do panorama geralmente não muito exigente da pop mainstream.
Em "Circus" continua a ser apenas mais um elemento de canções sintéticas e demasiado genéricas, cujos ritmos conseguem por vezes entreter sem nunca compensarem as poucas surpresas na composição.
À semelhança de Lady Gaga ou da fase recente de Christina Aguilera, o electro ganha protagonismo ao R&B, mas nem a competência da produção eleva grande parte do disco a uma réplica menor - e mais insinuante - dos Goldfrapp por alturas de "Supernature".
E se aí a dupla de "Ooh La La" já não estava nos deus dias de maior inspiração, em "Circus" o sabor é ainda mais requentado.

"Womanizer", o primeiro single, é um dos exemplos mais evidentes, esgotando-se ao fim de uma ou duas audições por culpa de um refrão repetido até à exaustão, sendo daquelas canções facilmente assimiláveis pelos piores motivos.
Felizmente o disco tem episódios mais conseguidos, e não por acaso surgem todos na primeira metade.
"Kill the Lights" será talvez o mais recomendável, que tanto lembra uma das melhores canções da cantora, "Toxic", como remete para "Maneater", de Nelly Furtado.
Imersa em texturas e batidas sujas e ásperas, Spears tem aqui um dos momentos onde aborda a sua relação com a fama, questão que poderia pensar-se já encerrada num dos singles de "Blackout", "Piece of Me", mas que volta a ser uma das temáticas de "Circus" (e estando na origem do título).

As restantes terão também uma forte carga autobiográfica, seja no retrato de uma ressaca em "Blur" ou na descoberta de uma cara-metade que não desilude em "Unusual You".
Ambas sustentadas por uma electrónica etérea e ondulante, são das poucas canções a que vale a pena regressar uma vez que as outras alternam entre o banal e o apenas curioso.
No primeiro grupo incluem-se baladas feitas a régua e esquadro como "Out From Under" e sobretudo "My Baby", no segundo cabem as mais dinâmicas "If U Seek Amy", "Shattered Glass" ou a faixa-título, que pelo menos servem um aceitável embalo rítmico.
Desta combinação desequilibrada resulta um álbum que, tal como o antecessor, cumpre os mínimos, mas ainda apresenta pouco que sugira que a sua autora (aliás, intérprete) se torne (musicalmente) relevante na pop actual.

Britney Spears - "Circus"
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