"Howling Songs" (2008), o mais recente disco de Matt Elliott, foi que motivou o regresso do cantautor britânico à ZDB, em Lisboa, na noite de sexta-feira, após uma passagem pelo mesmo espaço no ano passado.
O álbum, o terceiro de uma trilogia iniciada com "Drinking Songs" (2005) e que continuou em "Failing Songs" (2007), apresenta mais um conjunto de canções atormentadas e frequentemente claustrofóbicas, assentes numa folk sombria que sugere proximidades com a melancolia balcânica de Beirut, a amargura de alguns momentos de Leonard Cohen ou a carga estranha e perturbante de Scott Walker.
Embora o músico confira intensidade aos seus discos através de uma considerável complexidade intrumental e de uma voz envolvente tanto nos episódios sussurrantes como nos mais intempestivos, estes pecam por conter canções demasiado semelhantes e não conseguem evitar alguma monotonia.

Ao vivo o cenário não se mostrou muito diferente, e ao longo da hora e meia de actuação não foram poucos os momentos em que o trovador urbano pareceu estar a cantar e tocar sempre o mesmo tema - a duração destes, muitas vezes longa, também contribuiu para isso.
Mas nem foi por esta excessiva homogeneidade que o concerto desapontou, já que apesar das canções não terem estruturas muito distintas umas das outras e de por vezes geraram algum cansaço por apostarem sempre em atmosferas nos limites da depressão, revelam solidez e beleza suficiente para compensar estas limitações - seja nas magnéticas sobreposições vocais ou nos contrastes abruptos entre episódios apaziguados e explosivos (por vezes quase noise).
Infelizmente, estes temas foram mal aproveitados por uma actuação que dificilmente pode considerar-se um concerto, pelo menos se por este se entende que o músico em palco de facto canta e toca o que se ouve.
E a sensação que Elliott deixou foi a de que uma grande parte - para não dizer gigantesta - do que se ouviu era material pré-gravado, que mais do que complementar o espectáculo se impôs como o elemento central.

E quando assim é, por muito boas que as canções sejam - e as de Elliott nem são das mais inspiradas -, o resultado dificilmente deixa de ser frustrante, sobretudo quando não há muito a acontecer em palco - o cantautor tocou sozinho, alternando entre duas guitarras e ocasionais passagens pela flauta e escaleta, embora estas últimas tenham passado quase despercebidas entre os sons pré-gravados.
Foi no mínimo decepcionante ver o músico cantar com alguma entrega e, de repente, a trocar uma guitarra por outra, deixando de cantar mas sem que a sua voz - a parte pré-gravada - tenha deixado de se ouvir. Ou quando deixou de tocar para se concentrar num assobio e os acordes que tocava continuaram audíveis.
Exemplos destes repetiram-se ao longo de toda a actuação, e se se compreende que seja impossível apenas uma pessoa tocar em simultâneo tudo o que as canções exibem em disco, enveredar por este tipo de soluções torna o que poderia ser um concerto com alguma densidade num karaoke mal disfarçado.
É certo que muitos concertos recorrem a sons pré-gravados, mas quando essa opção se revela tão exagerada seria preferível simplificar as canções ou convocar outros músicos.

O momento mais paradigmático registou-se no último tema antes do encore, "The Maid We Messed", simultaneamente o melhor e pior do concerto.
O melhor porque é uma composição espantosa, provavelmente a mais memorável de Elliott, cuja electrónica presente num breakbeat hipnótico em crescendo tem mais a ver com o seu projecto anterior (e mais interessante), Third Eye Foundation, do que com o que desenvolve em nome próprio, tendencialmente acústico.
Mas foi também o pior da noite porque se tornou penoso ver um tema tão bom ser apenas reproduzido mas não interpretado, já que o músico apenas alternou instrumentos que pouco ou nada interferiram naquilo que de facto se ouvia - material pré-gravado, mais uma vez.
Ainda assim, e apesar de alguns espectadores terem saído a meio, a maior parte do público de uma sala bem composta não deixou de aplaudir no final de cada tema - e à saída ouviram-se muitas reacções de entusiasmo.
Elliott retribuiu, tanto em constantes "obrigados" como em elogios à concentração e silêncio da audiência.
Ou seja, apesar de tudo o músico parece continuar a ter quem pague para o ver num eventual regresso a palcos nacionais. Mas espera-se que aí apresente um concerto a sério, porque assim não vale.

Matt Elliott - "The Kursk"
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