Dom | 15 Mar 09
Canções sobre o fracasso numa actuação falhada

"Howling Songs" (2008), o mais recente disco de Matt Elliott, foi que motivou o regresso do cantautor britânico à ZDB, em Lisboa, na noite de sexta-feira, após uma passagem pelo mesmo espaço no ano passado.

 

O álbum, o terceiro de uma trilogia iniciada com "Drinking Songs" (2005) e que continuou em "Failing Songs" (2007), apresenta mais um conjunto de canções atormentadas e frequentemente claustrofóbicas, assentes numa folk sombria que sugere proximidades com a melancolia balcânica de Beirut, a amargura de alguns momentos de Leonard Cohen ou a carga estranha e perturbante de Scott Walker.

 

Embora o músico confira intensidade aos seus discos através de uma considerável complexidade intrumental e de uma voz envolvente tanto nos episódios sussurrantes como nos mais intempestivos, estes pecam por conter canções demasiado semelhantes e não conseguem evitar alguma monotonia.

 

 

Ao vivo o cenário não se mostrou muito diferente, e ao longo da hora e meia de actuação não foram poucos os momentos em que o trovador urbano pareceu estar a cantar e tocar sempre o mesmo tema - a duração destes, muitas vezes longa, também contribuiu para isso.

 

Mas nem foi por esta excessiva homogeneidade que o concerto desapontou, já que apesar das canções não terem estruturas muito distintas umas das outras e de por vezes geraram algum cansaço por apostarem sempre em atmosferas nos limites da depressão, revelam solidez e beleza suficiente para compensar estas limitações - seja nas magnéticas sobreposições vocais ou nos contrastes abruptos entre episódios apaziguados e explosivos (por vezes quase noise).

 

Infelizmente, estes temas foram mal aproveitados por uma actuação que dificilmente pode considerar-se um concerto, pelo menos se por este se entende que o músico em palco de facto canta e toca o que se ouve.

E a sensação que Elliott deixou foi a de que uma grande parte - para não dizer gigantesta - do que se ouviu era material pré-gravado, que mais do que complementar o espectáculo se impôs como o elemento central.

 

 

E quando assim é, por muito boas que as canções sejam - e as de Elliott nem são das mais inspiradas -, o resultado dificilmente deixa de ser frustrante, sobretudo quando não há muito a acontecer em palco - o cantautor tocou sozinho, alternando entre duas guitarras e ocasionais passagens pela flauta e escaleta, embora estas últimas tenham passado quase despercebidas entre os sons pré-gravados.

 

Foi no mínimo decepcionante ver o músico cantar com alguma entrega e, de repente, a trocar uma guitarra por outra, deixando de cantar mas sem que a sua voz - a parte pré-gravada - tenha deixado de se ouvir. Ou quando deixou de tocar para se concentrar num assobio e os acordes que tocava continuaram audíveis.

 

Exemplos destes repetiram-se ao longo de toda a actuação, e se se compreende que seja impossível apenas uma pessoa tocar em simultâneo tudo o que as canções exibem em disco, enveredar por este tipo de soluções torna o que poderia ser um concerto com alguma densidade num karaoke mal disfarçado.
É certo que muitos concertos recorrem a sons pré-gravados, mas quando essa opção se revela tão exagerada seria preferível simplificar as canções ou convocar outros músicos.

 

 

O momento mais paradigmático registou-se no último tema antes do encore, "The Maid We Messed", simultaneamente o melhor e pior do concerto.

O melhor porque é uma composição espantosa, provavelmente a mais memorável de Elliott, cuja electrónica presente num breakbeat hipnótico em crescendo tem mais a ver com o seu projecto anterior (e mais interessante), Third Eye Foundation, do que com o que desenvolve em nome próprio, tendencialmente acústico.
Mas foi também o pior da noite porque se tornou penoso ver um tema tão bom ser apenas reproduzido mas não interpretado, já que o músico apenas alternou instrumentos que pouco ou nada interferiram naquilo que de facto se ouvia - material pré-gravado, mais uma vez.

 

Ainda assim, e apesar de alguns espectadores terem saído a meio, a maior parte do público de uma sala bem composta não deixou de aplaudir no final de cada tema - e à saída ouviram-se muitas reacções de entusiasmo.

Elliott retribuiu, tanto em constantes "obrigados" como em elogios à concentração e silêncio da audiência.

Ou seja, apesar de tudo o músico parece continuar a ter quem pague para o ver num eventual regresso a palcos nacionais. Mas espera-se que aí apresente um concerto a sério, porque assim não vale.

 

 

 

Matt Elliott - "The Kursk"

 


música: "Siren Song", Bat For Lashes

publicado por gonn1000 às 02:45
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Comentários:
De Filipe Estácio a 15 de Março de 2009 às 12:12
Não eram partes pré-gravadas. Eram tocadas no momento e colocadas a repetir através de equipamento apropriado. E é bastante difícil de o fazer correctamente. O Matt Elliott demonstrou muita habilidade em trabalhar com loops. É pena que o autor tenha pegado num detalhe do qual não tem uma percepção correcta para criticar o concerto.


De gonn1000 a 15 de Março de 2009 às 13:55
Tudo bem, não disse que ele não tinha tocado nada, mas de qualquer forma não me parece que tenha conseguido fazer essa repetição de forma muito convincente. Pelo menos para mim os momentos em que ele deixou de cantar e a voz continuou a ouvir-se (e nem estou a falar da camada de voz sobreposta) geraram uma quebra no efeito que o concerto estava a ter. E infelizmente exemplos como esse repetiram-se. Pode haver quem reconheça ali habilidade mas para mim nesses moldes não funciona. E em temas como "The Maid We Messed" - que durou cerca de vinte minutos - foi mesmo quase tudo pré-gravado.





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