Dom | 12 Set 10
Pára ou o papá dispara

 

Todas as famílias são psicóticas, diz o título de um livro de Douglas Coupland. Mas algumas são mais psicóticas do que outras e a de "Canino", segunda longa-metragem do grego Giorgos Lanthimos, vai seguramente à frente nesse campeonato.

 

Perto deste vencedor do prémio Un Certain Regard de Cannes, em 2009, a maioria dos filmes sobre famílias disfuncionais é tão ácida e crua como um episódio de "Anatomia de Grey".

Drama com tanto de absurdo como de estranhamente realista, leva ao limite a ideia de pais-galinha ao focar um casal que, na tentativa de proteger os três filhos de influências externas, consegue mantê-los sempre fechados em casa (ainda assim, com direito a jardim) até à entrada na idade adulta.

 

Aqui e ali a remeter para algumas experiências de Michael Haneke, sobretudo no olhar clínico e rigor formal, "Canino" não só é mais certeiro e equilibrado do que os últimos filmes do autor de "Funny Games" como atira Lanthimos para o grupo de potenciais realizadores de culto. Pelo menos junto dos espectadores com estômagos fortes, capazes de aguentar os murros de algumas cenas de antologia.

 

 


música: "City With No Children", Arcade Fire

publicado por gonn1000 às 23:59
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Comentários:
De João Guakjas a 21 de Setembro de 2010 às 11:15
Este filme é daqueles que não é para todos. Não é um filme "normal" digamos assim. Tem cenas que nos chocam mas que ao mesmo tempo têm piada. Pelo ridículo do universo que é criada pelos pais dos jovens.

Pretendiam um mundo sem "maus pensamentos" para os filhos. Sem a má influência, mas no fundo eles acabam por cometer coisas que enfim... São repugnantes para o comum mortal...

Afinal que mundo é este que os pais criaram para os filhos? Será ele o melhor? No meio de tanta ignorância...Não sei se esse é o melhor "caminho", digamos.

Um excelente filme! 4 estrelas na minha opinião ;)

Abraço


De armyofufs a 21 de Setembro de 2010 às 11:18
No que concerne à minha opinião relativa ao filme vou, antes de mais, analisá-lo segundo o conteúdo (mote central), labor para o qual me encontro mais apto. Em primeira instância devo salientar que transcorre toda a obra, a meu ver, uma dualidade que o realizador arrisca em que se torne paradoxo: a dualidade vida em sociedade/isolamento-enclausuramente. E este mesmo possível paradoxo é canalizado para a figura incoerente e contraditória do pai, sendo, não obstante, irredutível e intransigente no que toca às suas ideologias educacionais. Aliás, arrisco considerar o pai O protagonista da trama, relegando todos os outros para uma posição ridiculamente subalterna. O pai rege autocraticamente a casa, resoluto, é ele quem providencia todas as condições pata todo e qualquer acontecimento que se desenvolve, até mesmo para os que, aparentemente lhes são intangíveis, do ponto de vista da possibilidade de exercer jugo sobre os mesmos. E passo a elucidar. É o pai quem decide, cego, piamente convicto na validade categórica desta ideia, apartar os descendestes de interacções sociais de qualquer índole (embora neste ponto se possa argumentar que a família é a "célula social" e que, portanto, os filhos não chegam a ser ostracizados até às últimas consequências), pois que a sociedade seria o advento de todo o mal, de toda a corrupção, de toda a devassidão e indolência. Ora logo aqui se pode evocar uma certa influência de Kant a Rousseau e, negativamente, de Thomas Hobbes. De Rousseau, porque este mesmo declarou que a sociedade secundava a origem de toda a malícia humana. De Kant, porque este considerou que o Homem tinha uma disposição inicial para o bem, mas que nas suas vivências era conspurcado por uma apetência natural para o mal. Uma ingerência negativa de Thomas Hobbes, por teorizar de uma forma diametralmente oposta a Rousseau, considerando que, enquanto isolado, o Homem é "mau" (e coloco este vocábulo entre aspas precisamente por este conceito não se aplicar fora da vida em sociedade), por natureza, e que, por forma a almejar um maior grau de estabilidade e segurança, sacrifica algo do seu egocentrismo em prol de um certo "bem comum". Ora, eu compactuo com a opinião de Hobbes. Em primeiro lugar, penso que em Rousseau existe uma enorme lacuna quando este emprega concepções abstractas, como o antagonismo Bem/Mal à vida isolada. Tais conceitos, a meu ver, não são mais que convenções a que a sociedade, com a evolução, tratou de prover de algum significado. É com este ponto de vista que o pai compactua. No que se refere Kant, vou desde já enunciar aqueles que me parecem ser os erros, tanto de Kant, como de uma eventual interpretação da sua filosofia, por parte do pai. Penso que Kant erra ao considerar (e neste ponto vai, em determinada medida, de encontro a Rousseau) que o Homem é, em essência, bom e que este estado ético e/ou moral se poderá perpetuar mediante a subjugação a uma moral autónoma e universal. Ora, para começar, considero tremendamente temerário (principalmente para alguém tão estritamente racional como Kant) asseverar de uma hipotética disposição inicial para o "Bem" do ser humano. Em segundo lugar, e sendo apologista do egoísmo psicológico, não creio que, mesmo que TaL fosse verdade, fosse tangível ao comum dos mortais manter-se nesse imaculado estado no decorrer de toda a sua existência. No que se refere ao pai, penso que o erro tem uma dupla vertente. Primeiro, por acreditar piamente na teoria de Rousseau, e não compreender que ao procurar circunscrever os filhos a um estado natural (pela visão de Hobbes) não estaria, de todo, a libertá-los da TaL apetência natural para o mal, defendida por Kant. Findo o devaneio, vou passar a explanar mais claramente os pontos dos quais deriva esta análise.


De armyofufs a 21 de Setembro de 2010 às 11:19
1º - Referi, inicialmente, que o pai é alguém incoerente. E porquê? Porque permite-se viver na contradição que implica a crença cega na validade universal do seu método educacional e, ao mesmo tempo, mantém uma vida social activa e que vai contra tudo em que ele mesmo quer impor aos filhos. Notam a aporia que é permitir-se continuar a viver num "mundo" que, a ser ver, é a fonte da qual brota todo o mal ("Desejo que os seus filhos recebam as piores influência e se tornem maus"...é algo assim que ele usa como opróbrio contra a funcionária). Podem considerar que o pai, tendo averiguado da irreversibilidade da transmutação moral em que a sociedade o prostrou, e não podendo, dessa forma, "salvar-se" a si mesmo, mártir, degladia e, até, contraria determinados parâmetros sociais (frustrado com a investida da funcionária Christine contra a sua "obra", chega a assentir o incesto entre dois dos filhos, nunca hesitando na manutenção da integridade das rotinas moribundas a que sujeita os filhos e que, acredita, os tornaram pessoas melhores).2º - Considero, até, o "episódio" da troca das cassetes de vídeo por uma "lambidela" o ponto de maior tensão emocional do filme. Senão, vejamos. O filme, aquele mundo a que assistimos boquiabertos, incrédulos, ao longo de uma hora e meia, não é mais que a materialização de um projecto inteligível do progenitor masculino. Ora quando este vislumbra um atentado de proporções indetermináveis, como é uma influência externa de tal magnitude, no desespero, perde a racionalidade e violenta a filha e a empregada, com isto submetendo a filha a uma experiência que deveria ser evitada, pois é contrária ao seu modus operandi. Trata-se pois de uma grande visão, por parte do realizador, da natureza humana, da tendência para a irracionalidade face ao desmoronar do nosso sonho, do projecto para o qual se batalhou incansavelmente durante toda uma vida.
O que referi, trata-se, pois, a meu ver, do cerne da obra.


De armyofufs a 21 de Setembro de 2010 às 11:19
Quanto ao resto, tenho ainda outros pontos a frisar: 1º - A insurreição da filha mais velha que, por melhor que tenha sido o tratamento recebido por parte da família e por mais idílico que tenha sido o mundo que para ela conceberam, não deixa de revelar curiosidade para com o mundo exterior e de buscar a verdade, embora para isso tenha que violar a sua própria integridade física e, quiçá, aventurar-se em algo completamente desconhecido e que, comummente, conduziria ao medo.
2º - Não obstante o esforço do pai em manter a patranha, é impotente em evitar certos desvios morais e animalescos dos filhos, como quando a filha mais velha efectua um corte no braço do irmão, ou quando a filha mais nova chantageia Christine, quando, supostamente, deveria atender ao seu pedido de forma altruísta, ou até quando o filho não vacila em pôr cobro à vida do gato, não procurando, sequer, compreender o desconhecido. Acontecimentos que levam a indagar da subjectividade do "bem" e dos limites/alcance do mesmo. 3º - A mulher submissa, insípida, que actua mais como carrasco da "condenação" decretada pelo marido sobre os filhos.
4º - O pai que não priva o filho dos prazeres carnais, embora regrados e que faz as filhas dançar, revelando, a uma certo nível epicurismo.


De armyofufs a 21 de Setembro de 2010 às 11:20
Pronto, a nível artístico, devo confessar que não tenho competências suficientes para fazer uma avaliação coerente, tratando-se TaLvez de um "handicap" meu.

Sintetizando a análise anterior, concluo que é um filme que, certamente, recomendarei a pessoas com idade e/ou maturidade suficientes para o apreciarem correctamente, e, sem dúvida, uma obra-prima da sétima arte.

P.S.: Esqueci-me de dar a conhecer uma curiosidade acerca do filme, que li algures. Houve quem se manifestasse contra a cena do esventramento do gato, e argumentava instigar à violência contra os animais. Quer dizer, LOL. Penso que a cena vale mais, e é importante no filme, devido ao seu carácter simbólico do que ao choque visual que, invariavelmente, produz. E, além do mais, quem contemplar o filme até ao fim, ou até mesmo àquele momento, penso que não irá será muito instigado a comportar-se como os irmãos. LOL

Desculpa se me alonguei.
Abraço


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'ETs In Da Bairro', de Joe Cornish
críticas: filmes de 2011


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- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Drive - Risco Duplo", Nicolas Winding Refn
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- "Gritos 4", Wes Craven
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