"Pecados Íntimos" (Little Children), de Todd Field, lança mais um olhar sobre esse quotidiano onde uma aparente serenidade e um contagioso marasmo envolvem um bairro nos arredores de Boston, explorando as idiossincrasias de alguns dos seus habitantes cuja "normalidade" será mais ilusória do que palpável.
À partida, não estará aqui (e não está) nada que não tenha já sido objecto de atenção noutros (muitos) filmes, mas se Field não desbrava caminhos desconhecidos consegue, e muito bem, apresentar um retrato que escapa quase sempre ao óbvio, moldando personagens de corpo inteiro e não meras caricaturas que compilam excentricidades.

Field, que adapta o livro de Tom Perrotta, revela sensibilidade e inteligência neste envolvente retrato dos comportamentos de adultos que ainda estão a aprender a lidar com as suas responsabilidades, e não demora muito para que se perceba que "Little Children", o título original do filme, se refere a eles e não aos seus filhos.
Sarah e Brad serão o exemplo mais paradigmático, encetando uma relação adúltera que funciona como um excitante ponto de fuga à rotina letárgica dos seus casamentos, uma oportunidade de inverter o status quo e injectar alguma adrenalina ao ennui existencial que se propaga por todos.

Percorrendo de forma refrescante cenários já vistos e revistos, "Pecados Íntimos" alterna várias vezes de tom ao longo das suas mais de duas horas mas raramente falha na sua interligação. A narração em off, escolha algo duvidosa nos primeiros minutos, acaba por se justificar com o decorrer da narrativa, e tem mesmo um papel preponderante para que a densa carga dramática do filme seja condimentada com preciosos episódios cómicos, que emergem nos momentos mais inesperados. Field, para além de uma realização sem reparos, mostra-se atento aos comportamentos humanos, mergulhando nas suas contradições sem nunca as julgar, arriscando-se a deixar o espectador desnorteado por se rever tanto em sequências caracterizadas por um raro sentido de observação.

O primeiro grande filme a estrear em 2007, só muito dificilmente "Pecados Íntimos" não será recordado no final do ano como um dos melhores. Drama adulto, sério sem ser sisudo, ousado mas dispensando excessos de irreverência, aperfeiçoa as capacidades que Todd Field evidenciava ocasionalmente no anterior "Vidas Privadas" e que, agora sim, se torna num cineasta a não perder de vista.
cinema
música
bd/comics
cultura pop
blogs: cinema
blogs: música
blogs: diversos
- "127 Horas", Danny Boyle
- "A Nossa Vida", Daniele Luchetti
- "A Pele Onde Eu Vivo", Pedro Almodóvar
- "Amigos Coloridos", Will Gluck
- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Drive - Risco Duplo", Nicolas Winding Refn
- "Green Hornet", Michel Gondry
- "Gritos 4", Wes Craven
- "Hanna", Joe Wright
- "Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2", David Yates
- "Insidioso", James Wan
- "Jane Eyre", Cary Fukunaga
- "Kaboom - Alucinação", Gregg Araki
- "Melancolia", Lars von Trier
- "O Amor é o Melhor Remédio", Edward Zwick
- "O Código Base", Duncan Jones
- "Os Agentes do Destino", George Nolfi
- "Os Bem-Amados", Christophe Honoré
- "Pequenas Mentiras Entre Amigos", Guillaume Canet
- "Sem Identidade", Pierre Morel
- "Sem Tempo", Andrew Niccol
- "Tournée - Em Digressão", Mathieu Amalric
- "X-Men: O Início", Matthew Vaughn
- Beyoncé - "4"
- Britney Spears - "Femme Fatale"
- Cansei de Ser Sexy - "La Liberación"
- Cut Copy - "Zonoscope"
- Digitalism - "I Love You Dude"
- Duran Duran - "All You Need is Now"
- Florence + The Machine - "Ceremonials"
- The Gift - "Explode"
- Jamie Woon - "Mirrorwriting"
- The Kills - "Blood Pressures"
- Lady Gaga - "Born This Way"
- Ladytron - "Gravity the Seducer"
- Lykke Li - "Wounded Rhymes"
- Mesa- "Automático"
- Moby - "Destroyed"
- PJ Harvey - "Let England Shake"
- Poly Styrene - "Generation Indigo"
- R.E.M. - "Collapse into Now"
- The Shoes - "Crack my Bones"
- Smix Smox Smux - "Os Gloriosos Smix Smox Smux Derrotarão os Exércitos Capitalistas"
- The Strokes - "Angles"