Dom | 4 Mar 12
O sexo e a cidade

 

"Vergonha" é um filme com muito para admirar e muito pouco para sentir. Steve McQueen, artista plástico tornado realizador, faz questão de sugerir esse passado numa obra visualmente inatacável - da brilhante fotografia de tom azul metálico à realização crua, precisa e geométrica, o britânico não deixa nenhum plano ao acaso. E é por esse lado plástico que consegue a pequena proeza de nos apresentar um olhar singular sobre Nova Iorque, talvez a cidade que mais vemos no grande ecrã.

 

Mas se enquanto esteta McQueen tem personalidade mais do que suficiente, a vertente narrativa de "Vergonha" fica quase sempre vários degraus abaixo. Pior: torna-o num daqueles filmes que se esgota na premissa, raramente ultrapassando os lugares comuns que se esperariam quando a conhecemos.

 

Sim, as experiências de um trintão nova-iorquino para quem o sexo é um refúgio, uma rotina e uma forma de alienação podem ser intrigantes, motivo de reflexão e dizer muito sobre os tempos em que vivemos. Infelizmente, e embora por vezes até nos iluda com quadros fortes, McQueen aborda esta jornada sem grande rasgo, caminhando para um desfecho simultaneamente previsível, forçado, melodramático e até algo moralista.

 

Michael Fassbender, na pele do protagonista, volta a justificar todos os elogios numa personagem a que se entrega, como nunca antes, de corpo inteiro (o que não é dizer pouco), ainda que o realizador menorize a sua presença quando a sublinha com música pronta a insuflar emoção (deitando abaixo a sobriedade de alguns momentos), tentativas de simbolismo demasiado óbvias (como na última cena de sexo) ou simples auto-indulgência (quando a personagem de Carey Mulligan, meramente utilitária, canta "New York, New York" numa pretensa sequência de antologia que confunde pompa com densidade).

 

O resultado, estando longe de vergonhoso, também fica aquém da segunda obra imperdível que McQueen poderia ter aqui - mesmo que o britânico, quando nos deixa algumas cenas de facto inspiradas, filme o sexo e a cidade como poucos.

 

 

 



publicado por gonn1000 às 22:27
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'ETs In Da Bairro', de Joe Cornish
críticas: filmes de 2011


- "127 Horas", Danny Boyle
- "A Nossa Vida", Daniele Luchetti
- "A Pele Onde Eu Vivo", Pedro Almodóvar
- "Amigos Coloridos", Will Gluck
- "Blue Valentine - Só Tu e Eu", Derek Cianfrance
- "Cisne Negro", Darren Aronofsky
- "Drive - Risco Duplo", Nicolas Winding Refn
- "Green Hornet", Michel Gondry
- "Gritos 4", Wes Craven
- "Hanna", Joe Wright
- "Harry Potter e os Talismãs da Morte: Parte 2", David Yates
- "Insidioso", James Wan
- "Jane Eyre", Cary Fukunaga
- "Kaboom - Alucinação", Gregg Araki
- "Melancolia", Lars von Trier
- "O Amor é o Melhor Remédio", Edward Zwick
- "O Código Base", Duncan Jones
- "Os Agentes do Destino", George Nolfi
- "Os Bem-Amados", Christophe Honoré
- "Pequenas Mentiras Entre Amigos", Guillaume Canet
- "Sem Identidade", Pierre Morel
- "Sem Tempo", Andrew Niccol
- "Tournée - Em Digressão", Mathieu Amalric
- "X-Men: O Início", Matthew Vaughn