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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Adivinha quem voltou

Só a presença de Catherine Deneuve e Catherine Frot já seria motivo suficiente para espreitar "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO", mas o novo filme de Martin Provost está à altura das actrizes e oferece-lhes personagens fortes num drama de ressentimentos e redenções.

 

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Depois de "Séraphine" e "Violette" (ou de outros títulos que não chegaram às salas nacionais), Martin Provost continua a interessar-se pelo universo feminino e ainda parece ter coisas para dizer. E no seu novo filme mostra que sabe como dizê-las, ao contrastar os percursos de duas mulheres que voltam a cruzar-se após um afastamento de décadas.

 

Claire, mãe solteira a chegar à casa dos cinquenta, vive um quotidiano rotineiro e com uma tensão crescente quando a maternidade onde trabalha como parteira promete fechar portas. Mas esse até se torna num problema secundário ao entrar em cena uma figura de um passado longínquo: Béatrice, ex-companheira do seu pai que o tinha abandonado há décadas, acrescentando motivos para o seu suicídio.

 

O que Claire pressupunha ser uma conversa casual e irrepetível, vincada por alguma crispação e desconfiança, acaba por ser a primeira de muitas de "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO", à medida que o dia-a-dia das protagonistas se vai tornando cada vez mais interligado - em parte devido ao estado de saúde de Béatrice, agora mais frágil. 

 

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Provost, ao acompanhar o retomar da relação destas duas mulheres, não se desvia muito da fórmula centrada em duas figuras cuja discordância inicial, com choque de temperamentos pelo meio, vai dando espaço a uma cumplicidade crescente. Esta premissa já originou inúmeros filmes, sobretudo comédias (e aqui o drama também é temperado por algum humor), mas o realizador francês nem precisa de inventar nada: basta-lhe a generosidade de dar às suas actrizes figuras à medida do seu talento, num estudo de personagens fluído e sóbrio, paciente e realista, exigente mas acessível.

 

Frot, no papel de uma mulher solitária e taciturna, embora obstinada e altruísta, mantém uma contenção que se vai dissipando à medida que interage com uma Deneuve mais desregrada e desbocada, contraste determinante para equilibrar um drama que nunca escorrega nem para a sisudez nem para a ligeireza.

 

Além de um argumento sólido e diálogos inspirados, Provost segue-as com uma realização que não insiste em chamar a atenção para si própria mas que deixa, ainda assim, algumas boas ideias. As cenas assombradas pela doença de Béatrice, por exemplo, conseguem uma justeza difícil de gerir (na medida certa de comoção e distanciamento) e uma pacata sequência de projecção de slides resulta num momento desconcertante sobre a perda e a memória.

 

Pormenores como esses, associados à inteligência emocional de que o realizador nunca abdica, ajudam a elevar "DUAS MULHERES, UM ENCONTRO" acima do que poderia ficar-se pelo mero filme de actrizes (que no caso já nem seria pouco), num daqueles dramas modestos e sensíveis que vão sendo uma raridade, sobretudo nas estreias de Verão. 

 

3,5/5

 

 

O Inverno chegou, mas a tempestade está longe

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O arranque foi uma daquelas prendas para os fãs - pelo menos para os adeptos da Casa Stark, que serão a maioria - e prometia um episódio bombástico. O final, não menos épico, apostou noutro tipo de grandiosidade, mais uma vez a fazer a ponte entre o passado, o presente e o futuro de uma mitologia já sedimentada.

 

Pelo meio, contudo, o primeiro capítulo da sétima temporada de "A GUERRA DOS TRONOS" não se desviou muito do baralhar e voltar a dar já habitual no inícios de época da produção da HBO. O que não será tanto defeito mas feitio, mesmo que a relativa proximidade do final da saga (falta apenas uma dúzia de episódios) talvez fizesse esperar outra urgência.

 

Por outro lado, também não são necessárias grandes reviravoltas para já quando este regresso soube equilibrar esses escassos picos de intensidade com momentos intimistas, mais preocupados em dar tempo e espaço às personagens em vez de fazer a narrativa avançar mecanicamente. Foi o caso das relações tensas entre irmãos, tanto nas cenas com Jon Snow e Sansa Stark como nos planos de Cersei e Jaime Lannister, através de discussões nas quais a estratégia se cruzou com a empatia para chegar a novas formas de jogar o jogo.

 

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A ideia que fica é que nesta altura já ninguém consegue jogar sozinho, como Sandor "Cão de Caça" Clegane também constatou num episódio que deu novas facetas à sua personagem. Igualmente a beneficiar do maior tempo de antena, Euron Greyjoy deixou provas do carisma que, agora sim, sugere poder estar aqui o grande vilão desta temporada, como tanto promete a equipa criativa - o desempenho do dinamarquês Pilou Asbæk ajudou e confirmou as melhores expectativas de quem o tinha visto na (óptima) série "Borgen".

 

Menos essencial, o alívio cómico a cargo de Sam Tarly ofereceu, ainda assim, uma sequência com a montagem mais inventiva (e razoavelmente divertida), além de abrir caminho para aquele que deverá ser um dos elementos-chave do desenlace da saga. Já a famigerada participação de Ed Sheeran, apesar de um início demasiado espertinho e ostensivo (compare-se com as passagens discretas dos Sigur Rós ou Mastodon pela série) acabou por resultar numa lufada de ar fresco para o arco narrativo de Arya Stark, que andava a rodar em seco há duas temporadas.

 

Posto isto, vamos começar?

 

Em boa companhia

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Jarvis Cocker já tinha colaborado com FEIST em "CENTURY", um dos temas do último álbum da canadiana, e por isso não surpreende que também surja no final do videoclip do novo single. Mas antes há outra convidada, mais inesperada: Maria Doyle Kennedy, bem conhecida dos fãs da série "Orphan Black" (como a intrépida Siobhan, ou Mrs. S.), que entra em conflito com a cantautora antes de conseguir alguma sintonia.

 

O salto entre o confronto e o abraço já vem, aliás, da própria canção, um belo exemplar da faceta agreste de "Pleasure", na linha da viragem austera q.b. do antecessor "Metals" (2011). Assente num braço de ferro entre percussão e guitarras, o tema é um portento de rock terra-a-terra que assume um tom mais meditativo no desfecho, com a contribuição spoken word do ex-vocalista dos Pulp a ser acompanhada por imagens que se afastam da batalha coreografada do arranque do videoclip. Além de um single imponente, "CENTURY" serve de lembrete para ir voltando a um disco que insiste, e bem, em não se revelar de forma tão directa:

 

 

35 de 2017

2017

 

A falta de grandes novidades da silly season é sempre bom pretexto para ir recordando aquilo que o ano foi oferecendo. E no primeiro semestre, 2017 deixou alguns filmes, discos e séries que vale a pena descobrir, registar ou revisitar. No cinema, parte das melhores surpresas não contaram com o merecido tempo em sala, culpa de uma distribuição desmesurada (houve semanas com uma dezena de estreias de interesse questionável) e de uma promoção às vezes nula, mas apesar de tudo filmes como "Corações de Pedra", "Homenzinhos" ou "A Tribo" tiveram a sua oportunidade (mesmo que alguns tenham estreado com um atraso incompreensível nos dias de hoje). A oferta televisiva talvez seja ainda mais variada, e se "The Americans" já ganhou lugar entre as maiores certezas dos últimos anos, é pena que "Humans" seja tão eclipsada por sagas de ficção científica (sobretudo no cinema) que vivem das glórias do passado. Por outro lado, o presente e o futuro passam pelos novos álbuns dos Austra, Blanck Mass ou (surpresa?) Goldfrapp enquanto Feist ou Mark Lanegan mantêm o sabor intemporal. Também de regresso, os Fischerspooner ou os GEMS deixaram amostras muito promissoras de discos a aguardar nos próximos meses. Enquanto não chegam esses e outros, fica a lista do balanço provisório de 2017:

 

 10 FILMES

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"A Minha Vida de Courgette", Claude Barras
"A Tribo", Myroslav Slaboshpytskyi
"Aquarius", Kleber Mendonça Filho
"Corações de Pedra", Guðmundur Arnar Guðmundsson
"Esta Terra é Nossa", Lucas Belvaux
"Glória", Kristina Grozeva e Petar Valchanov
"Homenzinhos", Ira Sachs
"Moonlight", Barry Jenkins
"Mulheres do Século XX", Mike Mills
"Vale de Amor", Guillaume Nicloux

 

10 DISCOS

Goldfrapp

 

"Future Politics", Austra
"Gargoyle", Mark Lanegan Band
"Império Automano", PZ
"Kelly Lee Owens", Kelly Lee Owens
"Pleasure", Feist
"Polaar", Maud Geffray
"Ripe Dreams, Pipe Dreams", Cameron Avery
"Silver Eye", Goldfrapp
"Spirit", Depeche Mode
"World Eater", Blanck Mass

 

 10 CANÇÕES

Gems

 

"Alphabet Block", Marnie
"Automaton", Jamiroquai
"Become the One", Goldfrapp
"Free Fall", GEMS
"Gaia", Austra
"Have Fun Tonight", Fischerspooner
"No Longer Making Time", Slowdive
"Please", Blanck Mass
"Polaar", Maud Geffray
"Thinking of a Place", The War on Drugs

 

5 SÉRIES

Humans

 

"Dear White People" (T1), Netflix
"Humans" (T2), Channel 4/AMC
"Master of None" (T2), Netflix
"The Americans" (T5), FX
"The Son" (T1), AMC