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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Apanhem-nos se puderem

Iceage

 

Sem novidades desde 2014, ano da edição do seu terceiro álbum, "Plowing Into the Field of Love", os ICEAGE interrompem finalmente o hiato criativo com um inédito. E "CATCH IT" compensa a ausência dos dinamarqueses com quase seis minutos de uma marcha gótica e psicadélica, que tem direito a viragem rítmica a meio acompanhada de um mergulho mais fundo na distorção.

 

O vocalista Elias Bender Rønnenfel, que nos últimos anos andou mais ocupado com o projecto a solo, Marching Church, reforça o registo denso e volta a dar razão a quem nele viu um discípulo de Nick Cave por alturas do álbum de estreia do grupo, em 2009. Mas apesar de assombrado, o novelo sonoro guiado por guitarras difícies de domar deixa espaço para alguma esperança lá para o final - pelo menos no videoclip da canção, que termina com o actor David Dastmalchian ("Twin Peaks") e a filha em ambiente de calma depois da tempestade.

 

Além do novo single, os ICEAGE anunciaram uma digressão em várias cidades europeias e norte-americanas a partir de Maio (Portugal não está contemplado), mas não há notícias de um quarto álbum a caminho. Em todo o caso, está aqui um dos bons regressos do início de 2018:

 

 

Imitação da vida

Ancorado nos desempenhos de Annette Bening e de um surpreendente Jamie Bell, "AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL" revisita os últimos dias da actriz Gloria Grahame num biopic mais imaginativo do que o habitual. E é, provavelmente, o filme mais conseguido do escocês Paul McGuigan.

 

As Estrelas Não Morrem em Liverpool

 

Modesto, mas caloroso, este drama baseado no livro homónimo do actor britânico Peter Turner partilha a história da sua relação com Gloria Grahame, ícone de Hollywood 30 anos mais velha que tem aqui um relato íntimo da sua fase menos mediática - a que sucedeu a papéis em filmes como "Do Céu Caiu Uma Estrela", "Matar ou Não Matar" ou "Cativos do Mal", este último a valer-lhe o Óscar de Melhor Actriz Secundária em 1953.

 

Enquanto outros biopics tentam concentrar a vida do retratado em cerca de duas horas, "AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL" segue os passos do livro e debruça-se no início e fim do último relacionamento amoroso de Grahame, contados não necessariamente por essa ordem numa narrativa que recusa a linearidade de demasiadas propostas do género. Essa tentativa de fuga ao academismo marca também a forma como Paul McGuigan conjuga o artifício cinematográfico com uma história baseada em factos verídicos, em especial nas transições entre sequências que cruzam tempos e espaços, de meados dos anos 70 a inícios de 80 ou dos EUA a Inglaterra - e Liverpool em particular, cidade natal de Peter Turner e também aquela onde conheceu a actriz.

 

O realizador escocês, cujo currículo dos últimos anos inclui séries televisivas e filmes de acção (como "Push - Os Poderosos" ou o curioso "Há Dias de Azar"), estava longe de ser uma escolha óbvia para este relato, mas consegue dar alguma sensibilidade e personalidade a uma crónica conjugal atormentada pela frustração e, a certa altura, pela doença. E se na segunda metade do filme não chega a afastar a narrativa de cenários familiares q.b. de casos da vida com a morte à espreita, antes de lá chegar desenha os altos e baixos de uma relação com algum fulgor, como numa cena de dança caseira a aliar simplicidade, empatia e criatividade.

 

As Estrelas Não Morrem em Liverpool 2

 

O carinho óbvio que McGuigan tem pelo casal, assim como a admiração pela figura e obra de Grahame, sai reforçado pela direcção de actores, impecável dos protagonistas aos secundários. E como Annette Bening já não terá nada a provar a ninguém, encarnando aqui tanto a faceta mais luminosa como vulnerável de outro ícone de Hollywood, a grande surpresa do filme até acaba por ser Jamie Bell, comovente na pele de Peter Turner e decisivo para que este biopic tenha um peso emocional acima da média. Afinal o já distante "Billy Elliott" (2000) não enganava, ainda há por aqui um actor apesar de muitas escolhas pouco certeiras desde esse filme revelação.

 

Embora "AS ESTRELAS NÃO MORREM EM LIVERPOOL" nunca chegue a confirmar o rasgo formal que as primeiras sequências insinuam, as presenças de Bening e Bell, juntamente com as de Julie Walters ou Vanessa Redgrave em pequenos papéis, compensam a vertente mais mecânica de "filme de doença" que se instala mais para o final ou redundâncias ocasionais nas cenas a dois. Mas infelizmente (e ironicamente) nem elas deverão ser suficientes para que este olhar sobre a vida pós-fama sobressaia na temporada da corrida às estatuetas da "grande festa do cinema"...

 

  3/5

 

 

Aceitam-se reclamações

L7

 

Depois de terem regressado no ano passado com "Dispatch From Mar-a-Lago", canção que atirava algumas farpas a Donald Trump, as L7 voltam a mostrar-se iguais a si próprias no segundo tema original desde "Slap Happy", álbum de 1999.

 

"I CAME BACK TO BITCH" diz ao que vem logo no título e encontra as californianas insatisfeitas com o estado das coisas, mas sem abdicarem do sentido de humor, num single com alguns ambientes de Wall Street (e aparentados) na mira. A crítica à ganância desenfreada e à apropriação (que a banda vê como abusiva) do termo "rock star" tem moldura sonora na linha de discos como "Smell the Magic" (1991), através de um rock directo e orelhudo guiado pela voz espinhosa de Donita Sparks, ainda com ecos da escola riot grrrl.

 

Nada de novo, é verdade, mas o carisma mantém-se e a atitude é tão bem-vinda como em meados dos anos 90, quando o quarteto foi dos maiores símbolos de guitarras no feminino. "L7: Pretend We’re Dead", documentário de Sarah Price estreado em Outubro passado (sem distribuição em Portugal), já era, tal como a primeira canção nova, sinal de que a segunda vida da banda estava aí para durar, depois de um hiato em 2011.

 

A partir de Abril deste ano o regresso também passa pela estrada, com alguns concertos já agendados - por enquanto, só nos EUA -, que sugerem um novo álbum a caminho. Por agora, podemos ver Sparks e companhia no videoclip de "I CAME BACK TO BITCH", em modo tão do it yourself como nos primeiros dias do grupo. Neste caso, também nem é preciso mais:

 

 

Fundo de catálogo (108): Air

Air - Moon Safari

 

Se a pop francesa (e a de perfil electrónico em particular) alcançou novos voos em meados da década de 90, "MOON SAFARI" foi a cereja no cimo do bolo desse fôlego criativo com grande visibilidade internacional.

 

Editado a 16 de Janeiro de 1998, o álbum de estreia dos AIR resultou numa brisa entre a tensão de fim de milénio da música mais aventureira desse tempo e chega aos 20 anos sem muitas rugas. "Kelly Watch the Stars", uma das faixas mais populares, tinha sabor a clássico instantâneo e mantêm-se entre o melhor da colheita onírica da dupla de Versalhes, continuando a soar diferente de tudo o que Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin (ou outros) viriam a fazer depois.

 

Tão sedutor e encantatório, "Sexy Boy" foi mais um single invulgar, de sabor retrofuturista, entre electrónica de sabor nostálgico e um apelo intemporal (ou que pelo menos não parece fora do prazo de validade 20 anos depois). E o mais contemplativo "All I Need" compõe o trio de singles perfeitos acompanhados por videoclips ao mesmo nível, todos realizados por Mike Mills (que viria a dirigir "Chupa no Dedo" ou "Mulheres do Século XX"), também eles decisivos para que a linguagem dos Air conseguisse cativar a geração MTV.

 

Moon Safari

 

Tal como há duas décadas, o alinhamento de "MOON SAFARI" nunca chega a acompanhar o brilhantismo desses cartões de visita, sobretudo numa recta final em modo lounge mais agradável do que essencial. Mas vale sempre a pena regressar a "You Make It Easy" (com a voz de "All I Need", Beth Hirsch, noutro dos momentos mais calorosos do disco), ao vododer servido com melodias em ponto de rebuçado de "Remember" ou ao arranque elegantíssimo e espacial de "La Femme d'Argent".

 

Momentos como esses ajudam a reforçar os sinais de personalidade de uma música não tão exclusivamente electrónica como a de muitos conterrâneos da altura (Daft Punk, Etienne De Crécy, Dimitri from Paris), na qual o baixo, os teclados ou os sopros ganham algum protagonismo entre as texturas quase sempre em lume brando - embora longe dos lugares comuns de algum downtempo e "novas tendências" chill out que começavam a instituir-se por esse dias. No caso dos AIR, este safari pelo lado mais sonhador do french touch pode continuar nostálgico, sim, mas não soa requentado.

 

Videoclip de "Kelly Watch the Stars":

 

 

Videoclip de "Sexy Boy":

 

 

Videoclip de "All I Need":