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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Charlotte para sempre (ou pelo menos para os próximos dias)

 

Filha de peixe sabe nadar? O percurso musical de CHARLOTTE GAINSBOURG já tinha dado a entender que sim, mas o seu novo álbum, "Rest", editado esta sexta-feira, deve mais à memória da sua meia-irmã do que à sombra do pai.

 

A morte da fotógrafa Kate Bishop, em 2013, impôs-se como a inspiração dominante do quarto disco de originais da cantautora (e actriz) franco-inglesa, cuja experiência catártica a levou a escrever todas as letras pela primeira vez, a maioria em francês, naquele que será o seu conjunto de canções mais pessoal. E também o mais promissor, pela lista de colaboradores de luxo - que inclui os produtores SebastiAn e Guy-Manuel de Homem-Christo (dos Daft Punk), mas também Owen Pallett ou Paul McCartney - e sobretudo pelos muito convincentes singles de apresentação.

 

"Deadly Valentine", um belo pedaço de electrónica dançável de sabor french touch (entretanto já com remistura dos Soulwax), abriu caminho para a meditativa e sussurrada "Rest", ao piano, e para a mais recente "RING-A-RING O'ROSES", talvez a melhor até aqui, com uma pop sonhadora e sedutora algures entre os melhores Air e os Ladytron da fase "Gravity the Seducer". O videoclip pode ser visto abaixo, o álbum já está à espera de ser ouvido na plataforma digital mais próxima:

 

 

Festa prolongada, festa abençoada

21 anos depois, os LAMB celebraram o primeiro álbum num regresso a Lisboa que nem precisou de ter casa cheia para resultar numa festa memorável - e com benção (obrigatória) do anjinho Gabriel no final.

 

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Em 1996, "Lamb", o álbum de estreia do projecto de Andy Barlow e Lou Rhodes, foi um dos muitos a juntar-se à lista de novas tendências da música de dança e também daqueles rotulados como trip-hop, depois de nomes como os Massive Attack, Tricky ou Portishead terem ajudado a consolidar esse (então) novo género. Mas esse é também um rótulo que a dupla de Manchester hoje rejeita, e com alguma razão, porque o que se escutava no seu primeiro disco não se limitava a paisagens densas e claustrofóbicas, oriundas do dub e ensaiadas pelas bandas que cunharam o chamado som de Bristol.

Ele, produtor intrigado pelas linguagens do drum n' bass e do breakbeat, e ela, cantautora inspirada por heranças folk, tentavam antes juntar esses universos aparentemente díspares num formato canção que aceitava ainda ecos do jazz, num cruzamento acústico e electrónico que, sim, também passava pelos ambientes sedutores e/ou sinuosos do trip-hop, mas tinha horizontes mais vastos.

Que os LAMB sejam hoje recordados por muitos, às vezes apenas e só, como a banda de "Gabriel", êxito inesperado que se tornou ubíquo em Portugal já na viragem do milénio, acaba por ser irónico e sobretudo injusto, ao reflectir tão pouco daquilo que os seus primeiros álbuns tinham para oferecer.

Felizmente, 21 anos depois, "Lamb" volta a ganhar nova vida, agora em palco, ao estar no centro da mais recente digressão do grupo, e com direito a ser interpretado ao vivo na íntegra pela primeira vez - na linha de revisitações recentes que têm agraciado outros álbuns emblemáticos da segunda metade dos anos 1990, curiosamente também em domínio electrónico, como o disco de estreia homónimo dos Garbage ou "Guia Espiritual", dos Três Tristes Tigres.

 

Lamb Album

 

Algumas canções do álbum até tiveram a sua estreia absoluta ao vivo nesta digressão, como Lou Rhodes assinalou no início do concerto no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, esta terça-feira, depois de uma actuação no Coliseu do Porto na véspera. E tal como também tinha ocorrido na Invicta, o espectáculo na capital recordou os temas de "Lamb" pela ordem do alinhamento do disco, numa daquelas propostas irrecusáveis para qualquer fã.

A corrida à sala lisboeta, no entanto, não repetiu a adesão em massa de outros tempos - os tais vincados pelo sucesso de "Gabriel" ou episódios anteriores, quando a dupla já era uma banda com um culto assinalável por cá. E o facto de o Coliseu dos Recreios estar (apenas) bem composto, mas longe de esgotado, não deixou de ser algo estranho tendo em conta que os Lamb já não atuavam por cá desde 2011, quando apresentaram o álbum "5" no Centro Cultural de Belém.

Em compensação, se nessa visita anterior tinham assinado um concerto demasiado curto, com pouco mais de uma hora de duração, na mais recente apresentaram uma actuação tanto maior, com quase o dobro do tempo, como melhor, ao apostar num alinhamento mais forte e defendido por mais colaboradores (a dupla fez-se acompanhar de quatro músicos, entre as cordas, percussão e sopros).

Não há amor como o primeiro

Se houvesse dúvidas de que "Lamb" ainda continua a manter-se um álbum de recorte superior, esta foi a ocasião para as tirar. Não que o concerto se tenha limitado a ser uma mera transposição a papel químico do que se ouve no disco, antes pelo contrário: os arranjos surgiram quase todos renovados sem comprometerem a estrutura das canções, numa actualização sonora subtil que mostra como as novas tendências de 1996 não têm de soar anacrónicas em 2017.

 

Andy Barlow

 

"Lusty", "God Bless" ou "Cotton Wool", que abriram a noite, são grandes canções em qualquer época e das que expõem de forma mais evidente o contraste entre a faceta humana e maquinal da música dos LAMB, com a aparente fragilidade de Lou a medir forças com a energia cinética disparada por Andy. Mas a voz nunca ficou submersa na teia instrumental, tanto das programações e teclados a cargo da metade masculina da dupla como da presença igualmente habitual da bateria ou do contrabaixo (este último a reforçar a aproximação ainda mais vincada ao vivo a domínios do jazz e a fazer esquecer quaisquer vestígios de trip-hop em momentos como o ótimo instrumental "Merge").

Entre as estreias em palco contou-se "Zero", canção que a vocalista confessou ter sido das mais difíceis de revisitar por se ter inspirado na perda de uma criança. "Mas agora tenho duas crianças mais altas do que eu", acrescentou com um sorriso estampado, ao apresentar um tema que encara hoje como menos sombrio do que há duas décadas. E foi mesmo dos episódios mais bonitos da noite, dispensando, tal como na versão gravada, grandes adereços além da guitarra acústica e de elementos eletrónicos muito discretos. Outra das estreias, e também das melhores recordações, foi "Feela", o último tema do alinhamento de "Lamb" e o mais minimal, momento-chave para confirmar que a voz de Lou pouco ou nada mudou ao longo dos últimos 21 anos.

Ainda assim, a faixa mais celebrada do disco foi, provavelmente e sem surpresas, "Górecki", single que chamou as primeiras atenções para a música dos LAMB e está entre os seus temas mais populares. E não é difícil perceber porquê: contém a fusão perfeita do que torna o duo singular, partindo da faceta intimista de Lou antes de se render a um crescendo de euforia instrumental e dançável servido por Andy. Ao vivo, o produtor entregou as programações a um colega para se dedicar à percussão, tal como no videoclip do tema, numa das muitas ocasiões em que instigou reacções bem visíveis e audíveis do público - ao longo da noite não deixou de pedir gritos, aplausos e braços no ar, com o entusiasmo de um adolescente que vive a sua primeira digressão.

O salto de "Lamb" para o palco só não foi tão conseguido em "Trans Fatty Acid", o que não quer dizer que tenha corrido mal. A versão mais musculada, com um acesso rock inesperado na dupla, até foi muito bem acolhida pelos espectadores, mas ainda deixou saudades da original, muito mais implosiva, longa e arrepiante, com uma aura industrial que o concerto nunca chegou a sugerir.

 

Lou Rhodes

 
E depois de "Lamb"?

Uma actuação apenas centrada em "Lamb" já seria mais do que suficiente para justificar a ida ao Coliseu, sobretudo quando o rasgo do disco teve eco na postura dos músicos, mas a festa continuou, e bem. Antes de Lou regressar a palco, então com um novo vestido dourado e outro chapéu excêntrico q.b., Andy e os outros músicos iniciaram uma viagem pelos discos seguintes com o instrumental "Angelica", um dos momentos altos de "Between Darkness and Wonder" (2003), ancorado no piano e em texturas eletrónicas.

Nesta segunda fase do concerto, o difícil era escolher, uma vez que a discografia dos LAMB conta com seis álbuns. E apenas o quinto, "5", ficou de fora de uma viagem que incluiu a muito aplaudida "What Sound", a explosão drum n' bass de "Little Things", tão vertiginosa hoje como em 1999, e "Ear Parcel", um dos instrumentais mais populares, a convocar uma nova e vibrante aliança entre trompete e contrabaixo depois de "Merge".

Depois das recordações, ainda houve espaço para mais estreias: as de temas do álbum mais recente dos LAMB, "Backspace Unwind", de 2014, que nunca tinha chegado a ser apresentado em Portugal. "We Fall In Love", "As Satellites Go By" e a faixa-título estão já muito longe do lado cru e exploratório de "Lamb" e mostram a dupla a aderir a estruturas mais convencionais, mas a sua eficácia ao vivo foi inegável, com boa parte do público a deixar-se contagiar por uma sonoridade sintética e virada para as pistas.

É também por aí que segue "Illumina", a nova canção da dupla, uma boa confecção de pop electrónica que teria encerrado o concerto caso não faltasse o encore a cargo da inevitável "Gabriel". "Não podíamos deixar de tocar esta", assumiu Lou. E não podiam mesmo, como se viu pela reação dos muitos que se deixaram embalar pelo tema mais icónico dos LAMB, além do mais aguardado por uma fatia significativa do público. Mas se o final não guardou surpresas, antes de lá chegar o concerto soube conciliar o passado e o presente sem se render à nostalgia nem tentar gritar a novidade, quase sempre com canções muito acima da média. Que fossem assim todas as veteranias em cenário pop...

 

4/5

 

Fotos: Ana Castro. Texto originalmente publicado no SAPO Mag

 

Santíssima dualidade

Sleigh Bells

 

Um ano depois de terem editado o quarto álbum, "Jessica Rabbit", os SLEIGH BELLS mostram que continuam prolíficos. Se nesse disco deixaram 14 faixas, agora Alexis Krauss e Derek E. Miller propõem mais sete em "Kid Kruschev", registo que marca a viragem para o formato mini-álbum, anunciado como o prefencial nos próximos tempos ao permitir que a dupla nova-iorquina edite a um ritmo mais regular.

 

Como tem acontecido desde o primeiro EP, homónimo, em 2009, as novas canções voltam a derivar de um cruzamento entre pop, hard rock e electrónica, ainda que os acessos quase noise pareçam cada vez mais limados nesta fórmula. Aliás, às vezes o resultado até atinge uma serenidade inesperada, que mesmo não sendo novidade no duo estava longe de ser habitual até aqui.

 

É o caso de "AND SAINTS", o single de apresentação, no qual a voz de Krauss ganha maior protagonismo face ao novelo instrumental (na linha do que o álbum anterior já sugeria), impondo-se como elemento dominante de uma das canções mais implosivas dos SLEIGH BELLS. A tempestade de guitarras distorcidas e sintetizadores infecciosos nunca chega a ganhar forma, já que a dupla prefere manter a melodia circular e pesarosa de um tema que lida de frente com a depressão e a morte.

 

O videoclip, abstracto q.b., repesca o imaginário do liceu, com direito a cheerleaders, associado à banda desde o primeiro álbum, embora surja aqui em tom mais atormentado. Mas quem teme uma transição gótica de 180º não se apoquente: no alinhamento de "Kid Kruschev" há canções mais próximas dos discos anteriores, e se algumas soam mais a esboço de ideias do que aos SLEIGH BELLS no seu melhor, um single como "Rainmaker" (sucessor de "And Saints") vai deixando boas pistas enquanto pisca o olho ao também viciante "I Can Only Stare", do ano passado.

 

 

O herói acidental

Apesar do título e da história de resiliência após a tragédia baseada em factos reais, "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" está uns furos acima do relato edificante tão ao gosto de Hollywood. Mérito de David Gordon Green, que propõe um drama quase sempre enxuto, e de um Jake Gyllenhaal a confirmar, mais uma vez, que é dos actores imprescindíveis da sua geração.

 

Stronger

 

Depois de "Patriots Day - Unidos Por Boston", de Peter Berg, estreado no início do ano, os atentados que abalaram os EUA a 15 de Abril de 2013 voltam a ter repercussão no grande ecrã. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" também parte dos acontecimentos que se seguiram à explosão de duas bombas durante a maratona de Boston, mas, ao contrário do filme protagonizado por Mark Wahlberg, afasta-se dos códigos do thriller para se concentrar num drama familiar, às vezes quase de câmara, partindo da história de vida de um dos feridos.

 

Uma das mais de 250 vítimas da acção terrorista, Jeff Buman, de 27 anos, contou-se entre os feridos graves e teve as pernas amputadas logo após ter sido hospitalizado. Mas enquanto tentava lidar com a perda foi rapidamente promovido a herói local (e pouco depois nacional) e a símbolo inspirador de triunfo sobre a adversidade, tanto pela ajuda na identificação dos autores do crime como por não se ter deixado demover pela sua nova condição física.

 

Se com esta premissa o filme de David Gordon Green estava lançado para ser mais uma crónica de um caso da vida, especialmente conturbado e com desculpa para apelar à comoção sem grandes reservas, o resultado é um drama quase sempre inesperadamente contido, que nem precisa de fugir muito a uma fórmula demasiado reconhecível para oferecer uma abordagem subtil e envolvente.

 

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"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" pode não inventar nada ao acompanhar, de forma atenta, às vezes até exaustiva, o longo e árduo processo de recuperação (parcial) do protagonista, mas o realizador norte-americano, com um percurso inicialmente aclamado por "George Washinton" (2000) e entretanto a perder o rumo em escorregões ocasionais como "Alta Pedrada" (2008), mostra-se aqui bastante seguro enquanto trata todas as personagens e situações com rigor e respeito, dispensando a vitimização, a condescendência ou um deslumbramento de coração nas mãos.

 

Claro que também ajuda ter no elenco um protagonista a cargo de Jake Gyllenhaal, capaz de conceder humanidade e sobriedade ao que noutros casos poderia resumir-se a um desempenho feito de tiques e esgares. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" recusa olhar para Buman como o arquétipo que o circo mediático instalou e o actor principal faz inteira justiça a essa opção, atribuindo à personagem uma espessura emocional que também vinca os desempenhos de Tatiana Maslany e Miranda Richardson.

 

A primeira, no papel de companheira do retratado, pode ganhar aqui uma merecida visibilidade global que uma série de culto como "Orphan Black" não lhe possibilitou (mesmo que lhe tenha garantido o Emmy de Melhor Actriz). A segunda é uma secundária de luxo como mãe-galinha amparada pelo álcool e encantada com a porta aberta pela popularidade do filho.

 

Jake Gyllenhaal, Miranda Richardson, and Tatiana Maslany in STRONGER. Photo credit: Scott Garfield; Courtesy of Lionsgate and Roadside Attractions

 

Um dos aspectos mais interessantes do filme é, aliás, o contraste entre a esfera pessoal e a pública, ponto de tensão do trio que constitui o centro narrativo. E há que reconhecer alguma coragem neste olhar inspirado pelo livro biográfico do próprio Jeff Bauman, escrito com Bret Witter, que não se esquiva aos momentos mais constrangedores e dolorosos das cenas domésticas (sem cair numa montra pronta-a-chocar) e que sugere que a relação de dependência extrema do protagonista com a namorada se tornou mais evidente pelo seu estado físico, mas já vinha de trás - e aqui quaisquer tentações de heroísmo são colocadas de parte quando Gordon Green sublinha a imaturidade e conformismo da personagem principal.

 

"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" consegue um efeito ainda mais genuíno ao convocar actores não-profissionais para os papéis de familiares, amigos e colegas de Bauman, muitos deles conhecidos do próprio, para desenhar um cenário comunitário verosímil. Só se lamenta que esta procura de realismo acabe por não se manter até ao final, já que nos últimos minutos o drama vai cedendo ao tom algo panfletário e populista que tinha evitado (e até criticado) ao longo de boa parte da sua duração, num remate tão épico como desajustado. Mas se o grande filme que as intenções e as interpretações mereciam não chega a ganhar forma, o filme possível ainda é bem melhor do que muita encomenda feita à medida das estatuetas douradas - venham elas, então, ou pelo menos duas ou três nomeações...

 

3/5