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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando o sonho comanda a vida

Candidato húngaro a Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, "CORPO E ALMA" é um belo retrato de duas solidões partilhadas captado pela veterana Ildikó Enyedi. Entre o real e o onírico, está aqui um dos dramas românticos mais curiosos e sensíveis dos últimos tempos.

 

Corpo e Alma

 

Há quase 20 anos sem assinar uma longa-metragem - a mais recente até agora era "Simon mágus", de 1999 -, Ildikó Enyedi dedicou-se este milénio à realização de dezenas de episódios da série "Terápia" e de duas curtas, quando parecia deixar para trás um dos percursos mais celebrados do cinema húngaro contemporâneo (e com maior expressão internacional a partir de finais da década de 80).

 

Mas se o regresso ao grande ecrã demorou, não tem passado despercebido: "CORPO E ALMA" foi dos títulos europeus mais elogiados de 2017, contou com o Urso de Ouro do Festival de Berlim entre as muitas distinções e está bem colocado na corrida ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, sendo um dos nove finalistas. E traz de volta a obra da cineasta a salas nacionais, onde teve distribuição irregular ao longo dos anos.

 

O regresso também se faz sem pressas na própria acção do filme. Enyedi leva o seu tempo a apresentar as personagens e sobretudo a interligá-las com as sequências centradas em veados numa floresta, à partida pouco mais do que separadores do olhar sobre o quotidiano de um matadouro nos arredores de Budapeste. O director financeiro da empresa, um homem reservado de meia-idade, e a recém-chegada inspectora de qualidade, ainda mais circunspecta e tímida, além de algumas décadas mais nova, são alvo de especial atenção num drama assente na esfera laboral e pessoal - que se tornam cada vez mais próximas pelas viragens oníricas da narrativa.

 

Corpo e Alma

 

Ao acompanhar a rotina diurna e nocturna da dupla protagonista, "CORPO E ALMA" vai movendo um par improvável entre a solidão e a comunhão, com os avanços e recuos que não andam longe da dinâmica de uma comédia romântica. Só que aqui o humor é quase sempre tão árido e subtil como o drama e o romance nunca se instala como uma solução fácil e milagrosa para a inadaptação quase irredutível das personagens.

 

Se noutras mãos o cruzamento de um tom clínico com aproximações ao realismo mágico poderia resultar indigesto, Enyedi prova saber sempre como quer apresentar e para onde quer levar esta história, num retrato nem impossivelmente esperançoso nem demasiado desesperado. Talvez não precisasse de duas horas para a contar: a meio o filme acusa alguma redundância, em cenas como as muitas dos protagonistas nos seus apartamentos, à noite, nas quais a solidão parece ser a única companhia para a vida. Mas o último terço confirma que quem sabe nunca esquece, em particular numa sequência ao som de um tema de Laura Marling, provavelmente a mais perturbante (e na qual o filme poderia autodestruir-se se conduzido por uma cineasta menos capaz).

 

Muito bem defendido pelos desempenhos de Géza Morcsányi, sexagenário que se estreia aqui na interpretação, e da mais jovem Alexandra Borbély, uma revelação num papel ainda mais extremo mas que nunca cai numa amostra de tiques, este estudo de personagens e das suas dificuldades de socialização justifica a (re)descoberta de uma realizadora e, por arrasto, de uma cinematografia que bem podia passar mais vezes por cá. Talvez a noite dos Óscares até acabe por ajudar desta vez...

 

 3/5

 

 

65 de 2017

2017

 

Num ano em que as personagens femininas dominaram boa parte das atenções (do novo "Star Wars" a "Mulher Maravilha" passando por "The Handmaid's Tale" ou "Big Little Lies"), é pena que as de "Mulheres do Século XX" tenham passado relativamente despercebidas. O filme de Mike Mills chegou a ser nomeado para os Óscares, é verdade, mas apenas na categoria de Melhor Argumento Adaptado quando merecia ter estado na corrida principal em várias frentes - e até, ou sobretudo, na categoria disputada por "Moonlight" e "La La Land - Melodia de Amor", que ofuscaram toda a concorrência.

 

A dramedy protagonizada por Annette Bening é o destaque principal das escolhas de cinema abaixo, embora entre as melhores estreias dos últimos meses também pudessem estar "Esta Terra é Nossa" (Lucas Belvaux), "O Meu Belo Sol Interior" (Claire Denis), "It" (Andy Muschietti), "Quando se tem 17 Anos" (André Téchiné) ou "Só Para Bravos" (Joseph Kosinski) além das dez que fazem parte da lista.

 

Na música, a revisitação do ano também acaba por ter as mulheres em grande plano com os regressos de Austra (finalmente com estreia em sala por cá, além do novo disco), Goldfrapp, Feist, Charlotte Gainsbourg ou as surpreendentes St. Vincent e Zola Jesus (diz quem não era o maior fã dos álbuns anteriores de ambas).

 

St Vincent

 

Mas se no caso dos filmes e dos álbuns houve tempo para descobrir grande parte das estreias e lançamentos com potencial, nas séries a sensação que fica é a de que há cada vez mais a passar ao lado - ou a continuar em lista de espera quando algumas novidades da semana vão tendo prioridade. E isso também explica que entre muito boa ficção televisiva justamente celebrada, tanto pela imprensa como pelo grande público, haja pérolas que poderiam ter voos mais altos - "Humans" e "The Expanse", por exemplo, sugerem que a melhor ficção científica do ano passou mesmo pelo pequeno ecrã (e a primeira metade da primeira temporada de "Star Trek: Discovery" só veio reforçar essa ideia), apesar de só terem uma fracção da atenção de algumas propostas do género no cinema.

 

A juntar a este balanço de 2017 ficam ainda canções que vale a pena ir mantendo por perto (muitas) e concertos a não esquecer tão cedo (poucos mas muito bons). E duas ou três desilusões devidamente compensadas pelas dezenas de novidades que fazem o melhor dos últimos doze meses:

 

10 FILMES

Mulheres do Século XX

 

"A Minha Vida de Courgette", Claude Barras
"A Paixão de Van Gogh", Hugh Welchman e Dorota Kobiela
"A Tribo", Myroslav Slaboshpytskyi
"Aquarius", Kleber Mendonça Filho
"Coco", Adrian Molina e Lee Unkrich
"Corações de Pedra", Guðmundur Arnar Guðmundsson
"Duas Mulheres, Um Encontro", Martin Provost
"Homenzinhos", Ira Sachs
"Moonlight", Barry Jenkins
"Mulheres do Século XX", Mike Mills

Fora de circuito: "Corpo Elétrico", Marcelo Caetano" (Queer Lisboa); "Nós, ao Anoitecer", Ritesh Batra (Netflix)
Barretes do ano: "Alien: Covenant", Ridley Scott; "Fragmentado", M. Night Shyamalan; "Mãe!", Darren Aronofsky

 

10 SÉRIES

Humans

 

"A Guerra dos Tronos" (T7), HBO/Syfy
"Dear White People" (T1), Netflix
"F Is for Family" (T2), Netflix
"Gomorra" (T2), Sky Italia/RTP2
"Humans" (T2), Channel 4/AMC
"Master of None" (T2), Netflix
"Ozark" (T1), Netflix
"The Americans" (T5), FX/FOX
"The Expanse" (T2), Netflix
"The Good Place" (T1), Netflix

Desilusão do ano: "Bloodline" (T3), Netflix

 

10 DISCOS

Austra

 

"Future Politics", Austra
"Hiss Spun", Chelsea Wolfe
"Masseduction", St. Vincent
"Okovi", Zola Jesus
"Pleasure", Feist
"Plunge", Fever Ray
"Polaar", Maud Geffray
"Rest", Charlotte Gainsbourg
"Silver Eye", Goldfrapp
"World Eater", Blanck Mass

Disco nacional: "Império Automano", PZ

 

30 CANÇÕES

Blanck Mass

 

"A Part of Us", Fever Ray
"Alphabet Block", Marnie
"Automaton", Jamiroquai
"Become the One", Goldfrapp
"Before and After Faith", Trent Reznor and Atticus Ross
"Bicep", TR/ST
"Century", Feist feat. Jarvis Cocker
"Défunte lune de miel", Paupière
"Down and Out", EMA
"Electric Blue", Arcade Fire
"Free Fall", GEMS
"Gaia", Austra
"Have Fun Tonight", Fischerspooner
"I'm So Free", Beck
"Intro - Onda de Som", Sara Tavares
"Living Upside Down", Cut Copy
"Mais", PZ
"No Longer Making Time", Slowdive
"Nocturne", Mark Lanegan Band
"Please", Blanck Mass
"Polaar", Maud Geffray
"Rest", Charlotte Gainsbourg
"Sugarboy", St. Vincent
"The Camp", PJ Harvey and Ramy Essam
"The Underside of Power", Algiers
"Thinking of a Place", The War on Drugs
"Throwing Lines", Kelly Lee Owens
"Two Thousand and Seventeen", Four Tet
"Wait for Signal", Tricky feat. Asia Argento
"Wiseblood", Zola Jesus

 

5 CONCERTOS

Lamb

 

Austra no Musicbox Lisboa
Hercules & Love Affair no Lisboa Dance Festival
Lamb no Coliseu dos Recreios
Mount Kimbie no Lisboa Dance Festival
Três Tristes Tigres no Lux

 

Juliette à beira de um ataque de nervos

Capaz de se manter luminosa numa personagem com queda para a auto-indulgência, Juliette Binoche é um óptimo motivo para não deixar passar "O MEU BELO SOL INTERIOR". Mas o novo filme de Claire Denis tem outros méritos que o tornam numa das últimas estreias de 2017 a merecer atenção.

 

O Meu Belo Sol Interior

 

A julgar pelo título e pelo cartaz promocional, este drama centrado numa artista plástica de meia-idade arrisca-se a passar por mais uma crónica feminina dominada por tiradas de auto-ajuda, com Juliette Binoche numa resposta francesa a alguns filmes-veículo para Julia Roberts ou Diane Lane. Mas de uma realizadora como Claire Denis ("Trouble Every Day", "Beau travail") dificilmente se esperaria qualquer sinal de ligeireza delicodoce, tendo em conta os olhares muitas vezes crus e sinuosos que têm vincado a obra da francesa (nem sempre com grande expressão em salas nacionais).

 

"O MEU BELO SOL INTERIOR" não foge à regra e, por isso, um contacto inicial mais desatento pode levar ao engano, ainda que este mergulho no caos afectivo de uma mulher se aproxime, aqui e ali, de territórios da comédia romântica. Mas é uma comédia com um humor bastante comedido e um romance bem menos solar do que o título do filme dá a entender, já que Denis está mais interessada em observar os relacionamentos tóxicos de uma certa elite intelectual parisiense do que em desenvolver histórias de amor inspiradoras.

 

Grande parte do filme assenta, aliás, na insegurança, ansiedade e até no desespero da protagonista, atirada para um ciclo de ilusão e frustração amorosa que a leva a iniciar relações sucessivas com vários homens. Denis nem tenta disfarçar que cada novo começo está condenado a ser também um novo falhanço, tanto que o argumento do filme pode resumir-se a um apanhado de vinhetas entre encontros sociais e episódios íntimos.

 

o_meu_belo_sol_interior

 

Só que em vez de resultar numa limitação, essa narrativa tão circular acaba por conferir boa parte do charme de "O MEU BELO SOL INTERIOR", sobretudo por servir de pretexto para alguns dos diálogos mais inspirados, perspicazes e envolventes dos últimos tempos (alguns a partir de "Fragmentos de um Discurso Amoroso", de Roland Barthes, sem nunca caírem em excessos literários, presunçosos ou verborreicos). E quando essas conversas têm entre as interlocutoras uma actriz em estado de graça com secundários à altura (caso de Xavier Beauvois, Bruno Podalydès ou Nicolas Duvauchelle) torna-se difícil não as acompanhar.

 

Juliette Binoche deixa um dos seus melhores desempenhos recentes e é o centro narrativo e emocional de um filme que, a espaços, ameaça cair no relato da pobre menina rica. Mas é aí que o humor entra em jogo e Denis assume que estes são mesmo problemas de primeiro mundo, e muito burgueses, deixando um retrato crítico sobre o seu meio sem olhar de cima para a protagonista. Pelo contrário, o pânico da solidão é muito palpável, como o são as dificuldades de uma vida a dois numa idade que reage mal à inocência e entrega plena de outros tempos, em especial quando as diferenças de classe podem colocar mais uma barreira (e acabam por conduzir a uma cena-chave que confirma o carácter tendencialmente volátil da personagem de Binoche).

 

"O MEU BELO SOL INTERIOR" só perde algum fôlego e desenvoltura mais para o final, que não sendo desajustado também não é dos mais imaginativos, além de que a entrada abrupta em cena de Gerard Dépardieu e Valeria Bruni Tedeschi quase parece uma manobra de distracção. Mas não é filme que mereça ficar perdido entre as últimas remessas de estreias do ano, principalmente quando oferece muito mais do que aquilo que sugere à primeira vista.

 

 3,5/5

 

 

Miguel do outro lado do muro

Primeira surpresa: o novo filme da Pixar não é uma sequela. Segunda surpresa: além de uma história original, "COCO" é uma fábula para toda a família que consegue encantar sem ter medo de inquietar miúdos e até graúdos. A premissa pode partir do Dia dos Mortos, mas está aqui a melhor proposta dos 7 aos 77 para este Natal.

 

Coco

 

Se "Divertida-mente" voltou a elevar, há dois anos, a fasquia da Pixar, depois de alguns títulos menos marcantes, de então para cá os estúdios pareciam ter voltado a jogar pelo seguro. "A Viagem de Arlo" (2015) ainda tinha o mérito de ser uma história original, embora corresse poucos riscos ao longo de uma jornada demasiado familiar, mas "À Procura de Dory" (2016) e "Carros 3" (2017) antecipavam um rumo cada vez mais assente no conformismo e na revisitação de glórias de outros tempos.

 

Felizmente, essas sequelas foram, afinal, pistas falsas, a julgar por "COCO", que traz uma considerável (e necessária) lufada de ar fresco a um dos novos pilares do império Disney. O novo filme de Lee Unkrich ("Monstros e Companhia", "À Procura de Nemo", "Toy Story" 2 e 3), realizado em colaboração com o estreante Adrian Molina, parte de cenários e situações reconhecíveis mas aos poucos vai construindo um mundo que justifica em pleno a adesão a esta aventura.

 

Até constrói dois mundos, aliás. O da realidade de uma pequena localidade mexicana, ancorado na família de Miguel, um rapaz de 12 anos, e o Mundo dos Mortos, para onde o protagonista viaja acidentalmente enquanto tenta esconder-se da família, que quer demovê-lo da ambição de ser músico para se tornar sapateiro (seguindo assim os passos dos seus antecessores).

 

Coco_3

 

Ao longo do primeiro terço, "COCO" não foge muito à narrativa, já vista e revista (no universo Disney e não só), do jovem decidido a perseguir os seus sonhos, independentemente dos entraves, sobretudo familiares. E se é verdade que, mais à frente, ainda há por aqui uma história de unir os pontos, com direito a uma sucessão de ameaças, picos e perseguições, o filme vai ganhando uma densidade dramática inesperada enquanto se afasta da premissa e deixa um olhar, tão imaginativo como comovente, da vida e da morte (e da vida depois da morte). 

 

Onde "Divertida-mente" lidava com a memória partindo da infância e do crescimento, aqui o foco concentra-se no envelhecimento, na perda e nas heranças familiares. E a dupla de realizadores faz acompanhar essa viagem com um deslumbre visual assente nas tradições mexicanas, em especial no Dia dos Mortos, no qual as famílias recordam e homenageiam os seus antepassados.

 

No meio das inevitáveis canções (com um igualmente inevitável travo mariachi), dos gags que condimentam as peripécias de Miguel e das muitas referências à cultura do seu país (nem faltam cameos de Frida Kahlo), "COCO" não teme fazer viragens para o sobrenatural com uma crueza rara nestes tempos de tanta animação homogeneizada, calculada ao milímetro para não ferir susceptibilidades.

 

Coco_2

 

Unkrich e Molina apostam numa variação bem curiosa e personalizada de um imaginário à la Tim Burton, mas o prodígio técnico dos espaços, movimentos e caracterizações nunca ofusca a verdade emocional que passa pela galeria de personagens (mesmo que algumas pudessem ter sido mais exploradas numa narrativa que raramente tira o pé do acelerador) e por um argumento que guarda os trunfos para o último terço do filme (reviravoltas incluídas, embora nem sejam o mais importante aqui). 

 

O final de "COCO", então, é daqueles para deixar pais e filhos (ou bisavós e bisnetos) com o coração nas mãos, além de algumas lágrimas nos olhos, sem que o gesto seja sinónimo de oportunismo manipulador. Pelo contrário, é um remate plenamente merecido depois de tudo o que os realizadores foram moldando, com a sensibilidade e criatividade que se espera de uma proposta da Pixar. Desta vez, a tradição ainda é o que era.

 

 3,5/5