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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Licença para gozar (revista e renovada)

Se "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" já não tem o efeito surpresa do primeiro filme, é uma sequela que sai a ganhar no equilíbrio entre humor, acção e puro delírio. E comprova, mais uma vez, Matthew Vaughn como um nome à parte entre os tarefeiros de Hollywood.

 

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À segunda, a piada ainda funciona. E até funciona melhor. Depois de "Kingsman: Serviços Secretos" ter adaptado, há três anos, a paródia a histórias de espionagem criada na BD por Mark Millar e Dave Gibbons, a segunda aventura resulta numa proposta menos inesperada mas ligeiramente mais consistente, que sugere estar aqui uma alternativa bem viável às missões de 007.

 

A organização britânica que dá nome à saga tem inspiração directa na fase clássica de James Bond no cinema e a abordagem de Vaughn, fiel à matriz dos comics, mostra como se faz aos últimos capítulos do agente secreto que tem sido interpretado por Daniel Craig - e em particular a um filme como "007 Spectre", um dos blockbusters mais penosos dos últimos anos.

 

"KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" não se contenta em ser um mero sucessor do capítulo inaugural e quer ser um filme mais longo, com mais personagens, mais subenredos, mais aparato tecnológico e mais situações-limite de recorte cartoonesco (destaque inevitável para uma especialmente mirabolante, na neve, com punchline à altura). E talvez tenha ainda mais violência gratuita, mesmo que não ofereça sequências tão sangrentas como as que marcaram o início da saga comandada pelo realizador britânico. O que não quer dizer que não pise o risco de outras formas, desde logo ao encaixar numa trama de espionagem assumidamente exagerada um olhar - simplista, mas ainda assim contundente - sobre a liberalização das drogas.

 

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Claro que quem se aventurar nesta sequela com alguma expectativa de realismo poderá dar o tempo por perdido, mas admita-se que este é um pastiche que não pretende levar ninguém ao engano. Apesar das alusões ao narcotráfico ou ao cenário político internacional, o filme é escapismo descarado e que não pede desculpas por isso, e decididamente não aconselhável aos mais sensíveis (o arranque graficamente explícito deixa logo esse ponto bem assente).

 

Felizmente, o que noutras mãos poderia limitar-se a um desfile de pirotecnia espampanante, ruidosa e repetitiva ganha aqui um ritmo e uma energia imparáveis e entusiasmantes, com Vaughn a conseguir passar o gozo evidente do argumento e do elenco para lá do ecrã. E isso é particularmente meritório quando o filme tem o descaramento de ultrapassar as duas horas de duração sem acusar grande cansaço, mesmo que o último terço não consiga disfarçar a estrutura formulaica (mas até no obrigatório confronto final há aqui um realizador acima de boa parte da concorrência, capaz de disparar cenas de acção esfuziantes sem deixar o espectador desorientado ou atordoado).

 

Também será justo reconhecer que Vaughn já fez melhor: "Kick Ass: O Novo Super-Herói" e "X-Men: O Início" eram filmes mais ambiciosos, inventivos e autónomos. O elenco de luxo de "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO", por exemplo, está lá mais para encher a vista e funcionar como chamariz. As personagens de Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges, introdução à curiosa faceta norte-americana de uma saga inicialmente "very british", demoram algum tempo a ser apresentadas mas não são especialmente trabalhadas (e quase se limitam a fazer a ponte com a sequela já garantida).

 

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Julianne Moore experimenta outros ares na pele de vilã pérfida, e sai-se bem nos requintes de malvadez, mas fica a sensação de que a sua Poppy podia ter ido mais longe (Emily Watson, num pequeno papel, consegue fazer mais com menos). E a forma meio arbitrária como a saga lida com a morte quebra boa parte dos riscos destas missões, por muito que o lado paródico seja intencional e que o regresso de Colin Firth (não será um spoiler referi-lo quando está no material promocional) seja uma mais-valia para o filme - a relação do mentor com o protagonista continua a gerar momentos dramaticamente fortes, tão calorosos como melancólicos, o que não deixa se ser surpreendente numa história marcada pela irrisão.

 

Além desta mistura de ingredientes, "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" ainda encontra espaço para uma participação de Elton John que não se fica por um cameo e realça a faceta delirante deste capítulo. E quando a música do britânico complementa sequências de acção, esta sequela chega a lembrar outro dos bons regressos do ano que tem um dos trunfos na banda sonora: "Guardiões da Galáxia 2". Só é pena que tanto um caso como outro sejam a excepção e não a regra num cenário de filmes pipoca cada vez mais derivativos e insípidos. Aproveitemos para saborear o atrevimento enquanto dura...

 

3/5

 

 

A soma de todos os medos

Crescer assusta e para os protagonistas de "IT" chega mesmo a ser terrível. Mas nem tudo é mau quando o lado mais tenebroso da adolescência inspira uma das melhores surpresas recentes do cinema norte-americano (e com direito a um reconhecimento merecido nas bilheteiras).

 

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Obra-prima? Clássico instantâneo? Apesar do burburinho mediático e de algum aplauso crítico, o filme de Andy Muschietti (sucessor de "Mamã", de 2013) não chega a tanto. Longe disso. Mas não deixa de ter elementos estimáveis, daqueles que não têm tido grande paralelo noutros sucessos de bilheteira dos últimos tempos - muitas vezes entregues a sequelas, prequelas, reboots ou remakes pouco imaginativos.

 

Não é que "IT" seja propriamente uma pedrada no charco, desde logo porque não só parte do livro homónimo de Stephen King como surge depois da adaptação televisiva, no formato de minissérie, estreada em inícios dos anos 90. E esses nem serão os únicos parentes próximos de um filme devedor de outras versões para o grande ecrã da obra do mesmo autor (com "Conta Comigo" à cabeça) ou de mais tesourinhos dos anos 80 como "Os Goonies". Já para não referir, claro, a habitualmente comparada "Stranger Things", tanto por terem um actor em comum (Finn Wolfhard) como, e sobretudo, pelo misto nostálgico de drama juvenil e ficção científica. Por outro lado, a série da Netflix também já assumia uma devoção óbvia pelas histórias de Stephen King e não seria estranho encontrar "It" (o livro) entre seus pontos de partida.

 

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O filme-sensação da temporada até é substancialmente mais cru, conciso e arrojado do que a produção dos irmãos Duffer, ainda que o rótulo de terror possa levar alguns ao engano. Há tentativas de assustar, sim, mas as cenas com o palhaço Pennywise não estão entre as mais convincentes, embora Bill Skarsgård seja eficaz na construção do boneco diabólico.

 

Às tantas, as sequências de "jump scares" começam a parecer impostas num filme que respira bem melhor quando se concentra na dinâmica de um grupo de pré-adolescentes, aquelas onde o argumento de Cary Fukunaga (que esteve quase a assumir a realização), Chase Palmer e Gary Dauberman mais consegue fintar (ou pelo menos disfarçar) lugares comuns associados ao género.

 

"IT" vai ganhando um capital de simpatia apreciável ao acompanhar o dia-a-dia dos seus jovens protagonistas, "losers" (expressão repetida ao longo do filme) de uma pequena localidade norte-americana cujo contacto mais próximo os ajuda a ir superando medos individuais. Uma das características mais intrigantes do filme é, aliás, a forma como vai dando a ver os receios mais íntimos de cada um, movendo-se entre inquietações pessoais mas transmissíveis que desenham um quadro do lado árduo e desconcertante da adolescência.

 

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Só é pena que, ao longo desse mergulho nas personagens, o argumento acabe por não investir em todas de igual forma. Ao longo de pouco mais de duas horas, seria sempre difícil dar espessura a sete protagonistas, mas Mike e Stan só teriam a ganhar com mais tempo de antena - assim quase acabam reduzidos a representantes do jovem afro-americano e do jovem judeu, respectivamente. Ainda mais caricaturais são as figuras secundárias, dos pais a outros adolescentes (os bullies de serviço), mas esse contraste até acaba por jogar a favor da caracterização das principais, ao reforçar o seu isolamento, ao início, e espírito de entreajuda, mais para o fim - e reforça também o fosso geracional, decisivo para que a faceta sobrenatural funcione.

 

Apoiado num elenco de nomes praticamente desconhecidos, "IT" vale também como montra de alguns novos talentos que Hollywood não deve tardar a explorar. O casting feliz ajuda muito nos saltos de narrativas e atmosferas (além de drama e suspense, há espaço para o humor ou para um triângulo amoroso) e é essencial para que se sinta um coração a bater entre sequências por vezes um tanto mecânicas, periosamente próximas de demasiados blockbusters sem alma. Mas aqui não há mesmo nada a temer - como o final comovente comprova - e, por uma vez, isso nem é um defeito num (suposto) filme de terror.

 

3,5/5

 

 

Quando se regressa em boa forma

Ao ir do confronto ao conforto, "QUANDO SE TEM 17 ANOS" não anda longe de outros dramas boy meets boy mas também vai comprovando que quem sabe nunca esquece: é um belo regresso de André Téchiné às salas nacionais.

 

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A história de dois adolescentes cuja relação começa em modo conflituoso e que aos poucos se vai tornando próxima, com a amizade a abrir caminho para algo mais, não será território novo nem no cinema queer em geral nem no de André Téchiné em particular. Afinal, essa já era a premissa de um dos filmes mais amados do realizador francês, "Os Juncos Silvestres", há mais de 20 anos (estreou em 1994), drama que inspirou outras abordagens ao despertar (homos)sexual e que é difícil não relembrar ao seguir os protagonistas de "QUANDO SE TEM 17 ANOS".

 

Mas se o ponto de partida é semelhante, voltando até a contrastar dois rapazes de um meio pequeno (uma localidade nos Pirinéus franceses) com origens sociais distintas, e se o argumento volta a guiar-se por uma narrativa clássica (novamente pautada pelo ritmo das estações do ano), o resultado ainda consegue oferecer uma frescura e desenvoltura que não são de deitar fora. 

 

O cineasta veterano (já com 74 anos) continua a ser capaz de assinar dramas credíveis e de uma subtileza mais evidente do que outros retratos comparáveis, com a atmosfera realista a traduzir-se através de uma conjugação fluída de cenários e personagens, diálogos e atenção ao pormenor.

 

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Desta vez, Téchiné tem entre os colaboradores Céline Sciamma, autora de outros olhares singulares sobre a adolescência ("Naissance de pieuvres", "Maria-rapaz", "Bando de Raparigas") e talvez uma das principais responsáveis para que "QUANDO SE TEM 17 ANOS" esteja uns furos acima de alguns títulos do realizador dos últimos anos (como o apenas competente "O Homem Demasiado Amado", de 2014).

 

Sem tentar ser um corte ou uma viragem, é sobretudo um drama sólido alicerçado nos desempenhos dos jovens Corentin Fila e Kacey Mottet Klein, convincentes num antagonismo e intimismo à flor da pele, mas também no de uma Sandrine Kiberlain tão hilariante como comovente na pele de mãe de um dos protagonistas - e que acaba por ser a principal instigadora do novelo dramático, mesmo que o seu altruísmo sem reservas quase force a suspensão da descrença do espectador.

 

A entrega dos actores e o espaço que Téchiné lhes dá ajudam a compensar alguma falta de risco, sobretudo no desenvolvimento da dinâmica dos dois adolescentes, ainda que a abordagem ao bullying escape aos contornos mais expectáveis. Já um evento trágico que abre caminho para um reencontro é demasiado telegrafado e nada incomum em histórias sobre o crescimento, por muito que o filme até o aproveite para um mergulho mais profundo nas personagens e na forma como se relacionam.

 

Limitações ocasionais como essa fazem de "QUANDO SE TEM 17 ANOS" um drama quase sempre mais agradável do que especialmente apaixonante, mas é difícil não reconhecer um regresso em forma de um realizador que deveríamos ver mais vezes nas salas.

 

3,5/5

 

 

"QUANDO SE TEM 17 ANOS" foi um dos filmes da 21ª edição do Queer Lisboa e tem estreia nacional agendada para 26 de Outubro.

 

O corpo de Jennifer

Depois dos jogos da fome, um jogo de massacre? Não parece haver grande programa em "MÃE!" além da humilhação (calculista e recorrente) da personagem de Jennifer Lawrence, por muito que Darren Aronofsky tente abrir o filme a todo o tipo de leituras.

 

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O início até nem é desinteressante. Concentrando a acção numa casa isolada, habitada por um casal, "MÃE!" arranca com uma mistura curiosa de drama conjugal árido, doses moderadas de humor escarninho e sugestões de terror psicológico, a deixar no ar que esse olhar contido sobre a esfera íntima não deverá manter-se por muito tempo.

 

Ao arrancar com a crónica da relação entre um escritor reputado em bloqueio criativo e uma mulher exclusivamente dedicada ao marido e ao lar, o novo filme de Darren Aronofsky vai colocando em jogo um olhar intrigante q.b. sobre as dinâmicas de um relacionamento, e não demora muito a apontar quem domina e quem se deixa subjugar (ou não se consegue impor). Essa ideia sai reforçada à medida que a casa vai acolhendo cada vez mais visitas, todas inesperadas, que colocam em causa a (aparente) calmaria inicial.

 

A personagem de Jennifer Lawrence, na qual a câmara se concentra, vai guiando o espectador enquanto se torna alvo crescente de pequenas humilhações, mas o que parte de uma revisão especialmente assombrada da Gata Borralheira acaba vítima de um efeito bola de neve sem travão à vista, que desaproveita o esforço da actriz. E o desempenho não chega a ir muito além do esforço porque o argumento não deixa que Lawrence componha uma personagem de corpo inteiro, embora sempre lhe ofereça mais do que ao resto do elenco.

 

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Javier Bardem, cujo percurso recente tem alternado entre o latino de serviço e caricaturas excêntricas, deixa uma interpretação a milhas do magnetismo de outros tempos (qual foi o seu último grande papel, mesmo?). De Ed Harris, então, dificilmente alguém se lembrará no final do filme. E Michelle Pfeiffer, embora num convincente modo vamp, parece ter ido passear às gravações enquanto bebia uma limonada e atirava umas farpas a Lawrence.

 

Aos poucos, vai ficando claro que "MÃE!" se interessa mais por figuras simbólicas do que propriamente por pessoas, opção que compromete o investimento emocional ainda possível durante a primeira metade mas difícil de manter na segunda. Quando Lawrence se sujeita a marioneta acumuladora de flagelos (não bastou o DiCaprio de "The Revenant: O Renascido", no ano passado?), a sucessão de episódios caóticos e prontos a inquietar e indignar sujeita-se a ter reacções entre o bocejo e o encolher de ombros.

 

É verdade que este tipo de abordagem não é inédito na filmografia de Aronofsky. Só que se "A Vida Não é um Sonho" até podia ser acusado de montra de miserabilismo pornográfico, também tinha uma energia formal rara associada ao desempenho e personagem inesquecíveis de Ellen Burstyn. O romantismo maior do que a vida de "O Último Capítulo" podia ser datado e ingénuo, mas Hugh Jackman e Rachel Weisz atiravam-se de cabeça a essa ambição - complementada por uma vertente plástica arriscada e pouco vista. E "Cisne Negro", outro retrato sinuoso de uma mulher no abismo, mantinha um equilíbrio e subtileza difíceis de gerir, no fio da navalha, dos quais "MÃE!" nunca chega a aproximar-se - se aí Aronofsky sussurava, agora grita.

 

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Não admira que o novo filme "arrojado", "provocador" e "polémico" de Aronosfky esteja a alimentar tanta discussão. Parece ter sido talhado para isso, abrindo a porta a todo o tipo de projecções e alegorias quando impõe a tentativa de ensaio civilizacional ao drama das personagens - das óbvias referências bíblicas a possíveis analogias com temáticas que vão do fascínio pela fama a alertas ambientais, passando pela crise dos refugiados ou (porque não?) pela América de Trump.

 

Só é pena que esse debate parta de uma obra cuja lógica de vale tudo a atira para a lista de filmes que se auto-destroem depois do intervalo (a lembrar outras desilusões recentes como "Foge", de Jordan Pele, ou "Arranha-Céus", de Ben Wheatley, curiosamente também com boa parte da acção confinada a um único espaço). E também é frustrante que visualmente o resultado seja igualmente desinspirado, sem o rasgo que ajudou a distinguir a filmografia de Aronofsky (pelo contrário, até tem algum do CGI menos credível de uma grande produção nos últimos tempos). Distinção, de resto, é o que menos há em "MÃE!": de "A Semente do Diabo", de Roman Polanski, a "Dogville", de Lars Von Trier, já vimos o que aqui se diz e mostra feito por outros, e bem melhor. O sacrifício de Jennifer Lawrence foi mesmo em vão.

 

1,5/5