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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Santíssima dualidade

Sleigh Bells

 

Um ano depois de terem editado o quarto álbum, "Jessica Rabbit", os SLEIGH BELLS mostram que continuam prolíficos. Se nesse disco deixaram 14 faixas, agora Alexis Krauss e Derek E. Miller propõem mais sete em "Kid Kruschev", registo que marca a viragem para o formato mini-álbum, anunciado como o prefencial nos próximos tempos ao permitir que a dupla nova-iorquina edite a um ritmo mais regular.

 

Como tem acontecido desde o primeiro EP, homónimo, em 2009, as novas canções voltam a derivar de um cruzamento entre pop, hard rock e electrónica, ainda que os acessos quase noise pareçam cada vez mais limados nesta fórmula. Aliás, às vezes o resultado até atinge uma serenidade inesperada, que mesmo não sendo novidade no duo estava longe de ser habitual até aqui.

 

É o caso de "AND SAINTS", o single de apresentação, no qual a voz de Krauss ganha maior protagonismo face ao novelo instrumental (na linha do que o álbum anterior já sugeria), impondo-se como elemento dominante de uma das canções mais implosivas dos SLEIGH BELLS. A tempestade de guitarras distorcidas e sintetizadores infecciosos nunca chega a ganhar forma, já que a dupla prefere manter a melodia circular e pesarosa de um tema que lida de frente com a depressão e a morte.

 

O videoclip, abstracto q.b., repesca o imaginário do liceu, com direito a cheerleaders, associado à banda desde o primeiro álbum, embora surja aqui em tom mais atormentado. Mas quem teme uma transição gótica de 180º não se apoquente: no alinhamento de "Kid Kruschev" há canções mais próximas dos discos anteriores, e se algumas soam mais a esboço de ideias do que aos SLEIGH BELLS no seu melhor, um single como "Rainmaker" (sucessor de "And Saints") vai deixando boas pistas enquanto pisca o olho ao também viciante "I Can Only Stare", do ano passado.

 

 

O single novo do imperador

Mark Lanegan

 

"Gargoyle", um dos bons regressos do ano, trouxe mais um capítulo meritório à discografia de MARK LANEGAN, ao reforçar a viragem electrónica q.b. do álbum antecessor, "Phantom Radio" (2014), com a voz de barítono do norte-americano à vontade em ambientes entre o gótico, o industrial e o pós-punk - nos quais as guitarras continuam, apesar de tudo, a ser as grandes protagonistas.

 

As novas canções até já passaram por palcos nacionais, embora merecessem mais do que a pouca atenção que lhes foi dispensada na primeira parte do concerto dos Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés, em Junho. Em compensação, o ex-Screaming Trees edita agora um segundo single para dar outro impulso ao disco depois de "Beehive", há uns meses.

 

"EMPEROR" é dos temas mais directos (e até orelhudos) do alinhamento, com a voz de Lanegan a comandar uma marcha não propriamente desenfreada, mas ainda assim empolgante, e que acaba por ter reflexo num videoclip inspirado na queda do ditador romeno Nicolae Ceaușescu. Filmado nos subúrbios de Talin, na Estónia, é menos linear do que a canção, com uma narrativa em círculos que fica a meio caminho entre o thriller surreal e a denúcia política:

 

 

A noite (e o jogo) dos mortos-vivos

PZ

 

"Império Auto-Mano", o quarto álbum de PZ, não só é dos mais conseguidos do projecto a solo de Paulo Zé Pimenta como merece figurar entre os melhores da produção nacional deste ano. E caso vinhetas sobre os absurdos do quotidiano na linha de "Olá""No Meu Lugar" ou "Mais" não fossem suficientes para comprovar que a receita com condimentos hip-hop, funk, electropop ou techno à moda do portuense está cada vez mais apurada (e continua com direito a sotaque inconfundível na música que se faz por cá), há agora mais uma chamada de atenção para o disco.

 

"ZONA ZOMBIE" ganha novo fôlego a tempo da noite de Halloween e o título não engana: é dos temas mais sombrios, mesmo que não abdique do humor que percorre o álbum, e junta os sussurros de PZ (em tom mais intimidante do que o habitual) a uma penumbra electrónica que não anda longe da faceta sintética e implosiva de uns Nine Inch Nails.

 

O videoclip mantém-se fiel ao título e vai colocando mortos-vivos no caminho do protagonista, uma versão animada do músico (à qual não falta o pijama já conhecido de outros vídeos ou palcos), num passeio que além de remeter para o cinema de terror também é uma homenagem aos videojogos dos primórdios (a cargo da Check It Out Studios, do Porto). Anos 80 bem medidos para ir voltando a um álbum que ajuda a dar graça a 2017:

 

 

Despertando depois do sonho

Scratch Massive

 

Entre as boas surpresas da pop electrónica deste ano conta-se "Polaar", o primeiro álbum a solo de Maud Geffray, metade dos SCRATCH MASSIVE. Mas além do percurso em nome próprio, a cantora, compositora e produtora francesa também se tem dedicado às canções da dupla que forma com Sébastien Chenut, na preparação do primeiro disco de originais do projecto desde o já demasiado distante "Nuit de rêve", de 2011.

 

Se nesse álbum a banda convidou vozes como as de Daníel Ágúst (dos Gus Gus), Jimmy Somerville (ex-Bronski Beat e Communards) ou Koudlam, num óptimo alinhamento entre a synthpop mais negra, a darkwave e algumas bandas sonoras dos anos 80 (como as de filmes de John Carpenter), a primeira amostra do próximo registo sintoniza-se com cenários mais contemporâneos.

 

"SUNKEN", o single de avanço de "Sunken City", mantém-se em terreno electrónico, mas perto da faceta eufórica (embora enigmática q.b.) de uns Röyksopp ou Grimes, enquanto alarga as colaborações da dupla ao requisitar a cantautora Léonie Pernet (que partilha o protagonismo vocal com Maud Geffray). Já o videoclip, realizado por Sébastien Chenut, conta com a actriz Roxane e a DJ Mesquida Eiko Hara, sugerindo que há mais convidados a caminho - uma possibilidade para ir confirmando até 23 de Março de 2018, data da edição do novo disco.