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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Com que voz(es)

adult_shannon

 

Já passaram cinco anos desde que os Light Asylum juntaram estilhaços darkwave e synth pop (facção nada reluzente) no álbum de estreia homónimo, ainda sem sucessor à vista. Mas um disco como "Detroit House Guests", o novo dos ADULT., permite, pelo menos, voltar a ouvir a vocalista de uma das bandas mais intempestivas de Brooklyn.

 

Shannon Funchness é uma das muitas convidadas do alinhamento - que inclui também as vozes de gente como Michael Gira (Swans) ou Douglas J McCarthy (Nitzer Ebb) - e até tem direito a duas colaborações com a dupla de Adam Lee Miller e Nicola Kuperus.

 

Em "Stop (and Start Again)", o seu timbre gutural e possante conduz uma marcha pós-punk alimentada por baixo e sintetizadores. "WE CHASE THE SOUND", mais ríspida e assente numa pulsão EBM, está entre os outros poucos momentos directos de um álbum no qual nem sempre é fácil ir entrando. A canção destaca-se também como nova aposta oficial para o disco, depois de "They're Just Words", e o videoclip encontra Funchness e os ADULT. em ambiente raver, consideravelmente alucinado, assombrado e excêntrico:

 

 

É sempre um prazer

feist

 

28 de Abril: é neste dia que chega "Pleasure", o novo álbum de FEIST e o quinto da canadiana. Mas "PLEASURE", a canção, já tem algumas semanas e tem sido difícil (quase impossível?) ouvi-la sem pensar logo nos primeiros discos de PJ Harvey. Nada contra, uma vez que Polly Jean tem andado com outras preocupações ultimamente e há sempre espaço para mais vozes femininas que não tenham medo de olhar para a intimidade com esta crueza bluesy.

 

A amostra inicial do álbum leva mais longe a depuração do distante "Metals" (de 2011, já?), com um minimalismo quase só de voz e guitarra a vincar um crescendo lento, mas intrigante, entre o tom introspectivo dos primeiros minutos e o remate com direito a palmas. Igualmente lo-fi é o videoclip, muito longe de prodígios visuais como "My Moon My Man" ou "1234", parecendo contentar-se em apresentar uma nova imagem de FEIST ou das suas demonstrações de air guitar. O gesto é coerente com a aridez que também passa por "Century", o outro inédito entretanto revelado e ao qual nem a colaboração de Jarvis Cocker traz especial pompa - nem é necessária quando este rock pele e osso vai tão bem assim mesmo.

 

  

Os limites do controlo

Andy_Butler

 

Os HERCULES & LOVE AFFAIR já marcaram 2017, por cá, com a actuação no Lisboa Dance Festival há poucas semanas. Além de clássicos de álbuns anteriores, um dos temas que fez a festa foi o primeiro avanço do próximo, "CONTROLLER", acolhido sem grandes hesitações pelo público da LX Factory.

 

Colaboração com Faris Badwan, vocalista dos The Horrors e Cat's Eyes (um dos muitos convidados do novo registo), o single mantém a mistura de house e disco habitual no projecto de Andy Butler mas é consideravelmente mais negro do que alguns antecessores, ao mergulhar numa espiral de dominação e submissão com moldura rítmica tão ou mais insinuante.

 

Faz sentido, por isso, que o videoclip também partilhe essa atmosfera, através de olhares sobre vários quartos cujos ocupantes são alvo de sugestões S&M ou de variações sobre alguns filmes e séries claustrofóbicos q.b. (de "Poltergeist" a "Quarto", passando por "American Horror Story"). Esses ambientes, mais densos do que eufóricos, parecem ser mesmo a marca da nova fase da banda nova-iorquina: já tinha sido assim nas canções inéditas do último concerto lisboeta e Butler tem reconhecido o momento de viragem do álbum que deverá chegar em Julho. Por agora, a curiosidade está devidamente atiçada:

 

 

Ainda há luz nestas canções

compact_disk_dummies

 

Depois de terem sido uma das boas revelações do ano passado, com um álbum de estreia promissor e contagiante, os COMPACT DISK DUMMIES continuam a apostar nas canções de "Silvers Souls". E ainda bem, já que muitas faixas da dupla belga têm potencial de single e merecem ser recuperadas para a banda sonora de mais um Verão, que até parece ter chegado mais cedo.

 

É o caso de "REMAIN IN LIGHT", colaboração dos irmãos Janus e Lennert Coorevits com um coro infantil baseada num jogo de luz e sombra que também passa para o videoclip. Os pequenos colaboradores juntam-se às imagens, nas quais os elementos da dupla surgem como eventuais parentes dos synths da série "Humans", a sublinhar a aproximação à ficção científica desta pop electrónica quase sempre dançável. Um bom pretexto para voltar (re)descobrir o álbum enquanto não surgem notícias de um sucessor:

 

 

Fundo de catálogo (107): The Chemical Brothers

Antes de "Hey Boy Hey Girl", antes de "Star Guitar", muito antes de "Galvanize" houve "Block Rockin' Beats", tema de abertura do disco que levou os CHEMICAL BROTHERS para outra divisão. "DIG YOUR OWN HOLE", o segundo álbum da dupla britânica, tornou Ed Simons e Tom Rowlands nos maiores embaixadores do big beat na década de 90, ao lado dos Prodigy e Fatboy Slim, e é um dos clássicos que chega aos 20 anos em 2017.

 

dig_your_own_hole

 

É verdade que "Exit Planet Dust" (1995) já tinha aberto caminho para que o duo ganhasse lugar na produção electrónica desse tempo, sobretudo pela aproximação dos universos do rock, do hip-hop e da música de dança, mas a segunda investida teve outros contornos criativos e sobretudo mediáticos.

 

Afinal, foi com o álbum lançado a 7 de Abril de 1997 que os dois produtores de Manchester saltaram da Junior Boy's Own, editora mais assoaciada à música de dança, para uma fábrica de blockbusters como a Virgin, ou que chegaram ao lugar cimeiro do top britânico em dose dupla, com os singles "Setting Sun" e "Block Rockin' Beats". O primeiro tema até teve direito a um convidado de luxo, Noel Gallagher, que em plena fase áurea dos Oasis encontrou espaço na agenda para colaborar com a dupla depois de ter insistido para dar voz a uma das canções do disco - e também depois de se ter viciado no álbum anterior, e em especial na brilhante "Life Is Sweet", com a participação de Tim Burgess, dos Charlatans.

 

 

A guest list de "DIG YOUR OWN HOLE" não é das mais recheadas da discografia dos Chemical Brothers, mas dá conta dos horizontes que teriam outra ambição nos anos seguintes.

 

Kool Herc reforça a vénia da dupla ao hip-hop no colosso "Elektrobank", com videoclip icónico realizado por Spike Jonze em torno das acrobacias de uma muito jovem Sofia Coppola. No extremo oposto, Beth Orton consegue ser graciosa enquanto lida com uma ressaca no arranque quase bucólico de "Where Do I Begin", dando um segundo passo, depois da participação em "Exit Planet Dust", para se tornar na cúmplice mais habitual do duo. E Jonathan Donahue, vocalista dos Mercury Rev, toca clarinete no grande final a cargo de "The Private Psychedelic Reel", instrumental épico de quase  dez minutos e ainda um dos maiores prodígios de ritmos, melodias e texturas dos Chemical Brothers.

 

 

O início do alinhamento não é menos portentoso, com "Block Rockin' Beats", que apesar de alguma saturação ainda está entre os picos do big beat - tal como está a esquecida faixa-título, logo a seguir, cuja gestão de batidas faz sombra a muita produção EDM demasiado celebrada nos últimos anos.

 

A pista de dança impõe-se como destino de forma ainda mais demarcada na sequência de "It Doesn't Matter", "Don't Stop the Rock" e "Get Up on It Like This", cuja mescla techno, house e funk não sairá tão favorecida em audições caseiras mas dá conta da perícia de Rowlands e Simons na mistura e colagens. E ajuda a deixar claro o papel de "DIG YOUR OWN HOLE" na electrónica mais cinética do seu ano, ao lado de "Homework", dos Daft Punk, ou "The Fat of the Land", dos Prodigy, outros álbuns que não perderam a frescura depois da maioridade.