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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Santíssima dualidade

Sleigh Bells

 

Um ano depois de terem editado o quarto álbum, "Jessica Rabbit", os SLEIGH BELLS mostram que continuam prolíficos. Se nesse disco deixaram 14 faixas, agora Alexis Krauss e Derek E. Miller propõem mais sete em "Kid Kruschev", registo que marca a viragem para o formato mini-álbum, anunciado como o prefencial nos próximos tempos ao permitir que a dupla nova-iorquina edite a um ritmo mais regular.

 

Como tem acontecido desde o primeiro EP, homónimo, em 2009, as novas canções voltam a derivar de um cruzamento entre pop, hard rock e electrónica, ainda que os acessos quase noise pareçam cada vez mais limados nesta fórmula. Aliás, às vezes o resultado até atinge uma serenidade inesperada, que mesmo não sendo novidade no duo estava longe de ser habitual até aqui.

 

É o caso de "AND SAINTS", o single de apresentação, no qual a voz de Krauss ganha maior protagonismo face ao novelo instrumental (na linha do que o álbum anterior já sugeria), impondo-se como elemento dominante de uma das canções mais implosivas dos SLEIGH BELLS. A tempestade de guitarras distorcidas e sintetizadores infecciosos nunca chega a ganhar forma, já que a dupla prefere manter a melodia circular e pesarosa de um tema que lida de frente com a depressão e a morte.

 

O videoclip, abstracto q.b., repesca o imaginário do liceu, com direito a cheerleaders, associado à banda desde o primeiro álbum, embora surja aqui em tom mais atormentado. Mas quem teme uma transição gótica de 180º não se apoquente: no alinhamento de "Kid Kruschev" há canções mais próximas dos discos anteriores, e se algumas soam mais a esboço de ideias do que aos SLEIGH BELLS no seu melhor, um single como "Rainmaker" (sucessor de "And Saints") vai deixando boas pistas enquanto pisca o olho ao também viciante "I Can Only Stare", do ano passado.

 

 

O herói acidental

Apesar do título e da história de resiliência após a tragédia baseada em factos reais, "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" está uns furos acima do relato edificante tão ao gosto de Hollywood. Mérito de David Gordon Green, que propõe um drama quase sempre enxuto, e de um Jake Gyllenhaal a confirmar, mais uma vez, que é dos actores imprescindíveis da sua geração.

 

Stronger

 

Depois de "Patriots Day - Unidos Por Boston", de Peter Berg, estreado no início do ano, os atentados que abalaram os EUA a 15 de Abril de 2013 voltam a ter repercussão no grande ecrã. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" também parte dos acontecimentos que se seguiram à explosão de duas bombas durante a maratona de Boston, mas, ao contrário do filme protagonizado por Mark Wahlberg, afasta-se dos códigos do thriller para se concentrar num drama familiar, às vezes quase de câmara, partindo da história de vida de um dos feridos.

 

Uma das mais de 250 vítimas da acção terrorista, Jeff Buman, de 27 anos, contou-se entre os feridos graves e teve as pernas amputadas logo após ter sido hospitalizado. Mas enquanto tentava lidar com a perda foi rapidamente promovido a herói local (e pouco depois nacional) e a símbolo inspirador de triunfo sobre a adversidade, tanto pela ajuda na identificação dos autores do crime como por não se ter deixado demover pela sua nova condição física.

 

Se com esta premissa o filme de David Gordon Green estava lançado para ser mais uma crónica de um caso da vida, especialmente conturbado e com desculpa para apelar à comoção sem grandes reservas, o resultado é um drama quase sempre inesperadamente contido, que nem precisa de fugir muito a uma fórmula demasiado reconhecível para oferecer uma abordagem subtil e envolvente.

 

Stronger_2

 

"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" pode não inventar nada ao acompanhar, de forma atenta, às vezes até exaustiva, o longo e árduo processo de recuperação (parcial) do protagonista, mas o realizador norte-americano, com um percurso inicialmente aclamado por "George Washinton" (2000) e entretanto a perder o rumo em escorregões ocasionais como "Alta Pedrada" (2008), mostra-se aqui bastante seguro enquanto trata todas as personagens e situações com rigor e respeito, dispensando a vitimização, a condescendência ou um deslumbramento de coração nas mãos.

 

Claro que também ajuda ter no elenco um protagonista a cargo de Jake Gyllenhaal, capaz de conceder humanidade e sobriedade ao que noutros casos poderia resumir-se a um desempenho feito de tiques e esgares. "STRONGER - A FORÇA DE VIVER" recusa olhar para Buman como o arquétipo que o circo mediático instalou e o actor principal faz inteira justiça a essa opção, atribuindo à personagem uma espessura emocional que também vinca os desempenhos de Tatiana Maslany e Miranda Richardson.

 

A primeira, no papel de companheira do retratado, pode ganhar aqui uma merecida visibilidade global que uma série de culto como "Orphan Black" não lhe possibilitou (mesmo que lhe tenha garantido o Emmy de Melhor Actriz). A segunda é uma secundária de luxo como mãe-galinha amparada pelo álcool e encantada com a porta aberta pela popularidade do filho.

 

Jake Gyllenhaal, Miranda Richardson, and Tatiana Maslany in STRONGER. Photo credit: Scott Garfield; Courtesy of Lionsgate and Roadside Attractions

 

Um dos aspectos mais interessantes do filme é, aliás, o contraste entre a esfera pessoal e a pública, ponto de tensão do trio que constitui o centro narrativo. E há que reconhecer alguma coragem neste olhar inspirado pelo livro biográfico do próprio Jeff Bauman, escrito com Bret Witter, que não se esquiva aos momentos mais constrangedores e dolorosos das cenas domésticas (sem cair numa montra pronta-a-chocar) e que sugere que a relação de dependência extrema do protagonista com a namorada se tornou mais evidente pelo seu estado físico, mas já vinha de trás - e aqui quaisquer tentações de heroísmo são colocadas de parte quando Gordon Green sublinha a imaturidade e conformismo da personagem principal.

 

"STRONGER - A FORÇA DE VIVER" consegue um efeito ainda mais genuíno ao convocar actores não-profissionais para os papéis de familiares, amigos e colegas de Bauman, muitos deles conhecidos do próprio, para desenhar um cenário comunitário verosímil. Só se lamenta que esta procura de realismo acabe por não se manter até ao final, já que nos últimos minutos o drama vai cedendo ao tom algo panfletário e populista que tinha evitado (e até criticado) ao longo de boa parte da sua duração, num remate tão épico como desajustado. Mas se o grande filme que as intenções e as interpretações mereciam não chega a ganhar forma, o filme possível ainda é bem melhor do que muita encomenda feita à medida das estatuetas douradas - venham elas, então, ou pelo menos duas ou três nomeações...

 

3/5

 

 

Quando cai a noite na cidade

Mais do que a carta de despedida (involuntária) ao actor protagonista, Anton Yelchin, ou uma ode (nada turística) à Invicta, "PORTO" é um olhar muito curioso sobre o lado mais arbitrário e angustiante das relações amorosas. E no seu melhor é também um retrato visceral como poucos, sobretudo tendo em conta que se trata da estreia na ficção do realizador Gabe Klinger.

 

Porto

 

Será difícil olhar para "PORTO" sem pensar, e de forma recorrente, que foi dos últimos filmes de Anton Yelchin, morto num acidente de automóvel em 2016, aos 27 anos. Até porque o sentimento de perda percorre os três capítulos desta história, centrada num caso de uma noite entre um norte-americano que vive de biscates e uma francesa estudante de Arqueologia. A estrutura não-linear insinua que o desfecho não vai ser o mais animador, mas a melancolia e a solidão já marcam o percurso dos protagonistas antes desse breve encontro (e o filme, com uma duração de uns económicos 76 minutos, é condizente com essa brevidade).

 

De qualquer forma, se a despedida abrupta a Yelchin concede a este drama uma dimensão emocional mais forte e dura, Gabe Klinger revela qualidades que não limitam o resultado a mais um filme póstumo. O realizador brasileiro-americano, que se tinha estreado na realização em 2013 com o documentário "Jogo Duplo: James Benning e Richard Linklater" depois de ter sido crítico de cinema, aventura-se na ficção com uma linguagem que lembra outras épocas e sensibilidades (como a de alguns títulos de Jim Jarmusch, que é aqui produtor ao lado do português Rodrigo Areias) enquanto vai conseguindo esboçar um universo próprio.

 

Porto_Anton_Yelchin

 

Admita-se que o arranque, com uma narrativa fragmentada, obsessivamente turva e por vezes abstracta, parece condenar a experiência ao exercício de estilo legitimado por cauções cinéfilas. Mas essa desconfiança vai-se esbatendo quando "PORTO" não só se torna mais coeso de capítulo para capítulo como concilia muito bem o estado emocional dos protagonistas (que são, aliás, quase as únicas personagens) com a atmosfera da cidade que dá título ao filme. Captada em película de 8, 16 mm e 35 mm, a Invicta surge como o cenário praticamente obrigatório e insubstituível para este romance condenado à partida, atormentado pela ingenuidade e pelo fardo do compromisso.

 

A fotografia granulada de Wyatt Garfield dá outro peso aos ambientes já de si nebulosos, num cenário à medida do jogo de elipses e repetições conduzido por Klinger. Há quem compare o percurso destes amantes ao da trilogia "Before", sobretudo quando o filme anterior do realizador teve Linklater no centro, mas o romance icónico de Jesse e Celine fica quase sempre aquém desta crueza e amargura (nem o humor ocasional dá grandes tréguas ao desconforto).

 

Por outro lado, também é verdade que a aproximação da estrutura de "PORTO" a esses ou outros filmes sobre dilemas conjugais lhe retira algum factor-surpresa quando o dispositivo é apresentado, embora não retire a força de várias cenas partilhadas por Anton Yelchin e Lucie Lucas. Ele, que nos primeiros minutos ameaça personificar o cliché do homem torturado e de costas viradas para o mundo, torna-se comovente pela obstinação e idealismo que o actor russo consegue conjugar sem cair num registo histriónico (será certamente dos seus desempenhos mais intensos). Ela, mais esquiva e contida, tem tanto de femme fatale como de frágil e hesitante, mesmo que talvez não chegue a conquistar a simpatia do espectador. E se alguns diálogos até nem serão dos mais inspirados ou memoráveis, Klinger faz com que o casal também diga muito através dos gestos e olhares, principalmente nos contextos mais íntimos - numa das cenas de sexo mais justas, credíveis e bem filmadas dos últimos tempos, por exemplo.

 

3/5

 

 

O single novo do imperador

Mark Lanegan

 

"Gargoyle", um dos bons regressos do ano, trouxe mais um capítulo meritório à discografia de MARK LANEGAN, ao reforçar a viragem electrónica q.b. do álbum antecessor, "Phantom Radio" (2014), com a voz de barítono do norte-americano à vontade em ambientes entre o gótico, o industrial e o pós-punk - nos quais as guitarras continuam, apesar de tudo, a ser as grandes protagonistas.

 

As novas canções até já passaram por palcos nacionais, embora merecessem mais do que a pouca atenção que lhes foi dispensada na primeira parte do concerto dos Guns N' Roses no Passeio Marítimo de Algés, em Junho. Em compensação, o ex-Screaming Trees edita agora um segundo single para dar outro impulso ao disco depois de "Beehive", há uns meses.

 

"EMPEROR" é dos temas mais directos (e até orelhudos) do alinhamento, com a voz de Lanegan a comandar uma marcha não propriamente desenfreada, mas ainda assim empolgante, e que acaba por ter reflexo num videoclip inspirado na queda do ditador romeno Nicolae Ceaușescu. Filmado nos subúrbios de Talin, na Estónia, é menos linear do que a canção, com uma narrativa em círculos que fica a meio caminho entre o thriller surreal e a denúcia política: