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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Em boa companhia

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Jarvis Cocker já tinha colaborado com FEIST em "CENTURY", um dos temas do último álbum da canadiana, e por isso não surpreende que também surja no final do videoclip do novo single. Mas antes há outra convidada, mais inesperada: Maria Doyle Kennedy, bem conhecida dos fãs da série "Orphan Black" (como a intrépida Siobhan, ou Mrs. S.), que entra em conflito com a cantautora antes de conseguir alguma sintonia.

 

O salto entre o confronto e o abraço já vem, aliás, da própria canção, um belo exemplar da faceta agreste de "Pleasure", na linha da viragem austera q.b. do antecessor "Metals" (2011). Assente num braço de ferro entre percussão e guitarras, o tema é um portento de rock terra-a-terra que assume um tom mais meditativo no desfecho, com a contribuição spoken word do ex-vocalista dos Pulp a ser acompanhada por imagens que se afastam da batalha coreografada do arranque do videoclip. Além de um single imponente, "CENTURY" serve de lembrete para ir voltando a um disco que insiste, e bem, em não se revelar de forma tão directa:

 

 

35 de 2017

2017

 

A falta de grandes novidades da silly season é sempre bom pretexto para ir recordando aquilo que o ano foi oferecendo. E no primeiro semestre, 2017 deixou alguns filmes, discos e séries que vale a pena descobrir, registar ou revisitar. No cinema, parte das melhores surpresas não contaram com o merecido tempo em sala, culpa de uma distribuição desmesurada (houve semanas com uma dezena de estreias de interesse questionável) e de uma promoção às vezes nula, mas apesar de tudo filmes como "Corações de Pedra", "Homenzinhos" ou "A Tribo" tiveram a sua oportunidade (mesmo que alguns tenham estreado com um atraso incompreensível nos dias de hoje). A oferta televisiva talvez seja ainda mais variada, e se "The Americans" já ganhou lugar entre as maiores certezas dos últimos anos, é pena que "Humans" seja tão eclipsada por sagas de ficção científica (sobretudo no cinema) que vivem das glórias do passado. Por outro lado, o presente e o futuro passam pelos novos álbuns dos Austra, Blanck Mass ou (surpresa?) Goldfrapp enquanto Feist ou Mark Lanegan mantêm o sabor intemporal. Também de regresso, os Fischerspooner ou os GEMS deixaram amostras muito promissoras de discos a aguardar nos próximos meses. Enquanto não chegam esses e outros, fica a lista do balanço provisório de 2017:

 

 10 FILMES

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"A Minha Vida de Courgette", Claude Barras
"A Tribo", Myroslav Slaboshpytskyi
"Aquarius", Kleber Mendonça Filho
"Corações de Pedra", Guðmundur Arnar Guðmundsson
"Esta Terra é Nossa", Lucas Belvaux
"Glória", Kristina Grozeva e Petar Valchanov
"Homenzinhos", Ira Sachs
"Moonlight", Barry Jenkins
"Mulheres do Século XX", Mike Mills
"Vale de Amor", Guillaume Nicloux

 

10 DISCOS

Goldfrapp

 

"Future Politics", Austra
"Gargoyle", Mark Lanegan Band
"Império Automano", PZ
"Kelly Lee Owens", Kelly Lee Owens
"Pleasure", Feist
"Polaar", Maud Geffray
"Ripe Dreams, Pipe Dreams", Cameron Avery
"Silver Eye", Goldfrapp
"Spirit", Depeche Mode
"World Eater", Blanck Mass

 

 10 CANÇÕES

Gems

 

"Alphabet Block", Marnie
"Automaton", Jamiroquai
"Become the One", Goldfrapp
"Free Fall", GEMS
"Gaia", Austra
"Have Fun Tonight", Fischerspooner
"No Longer Making Time", Slowdive
"Please", Blanck Mass
"Polaar", Maud Geffray
"Thinking of a Place", The War on Drugs

 

5 SÉRIES

Humans

 

"Dear White People" (T1), Netflix
"Humans" (T2), Channel 4/AMC
"Master of None" (T2), Netflix
"The Americans" (T5), FX
"The Son" (T1), AMC

 

Onde está a revolução, Depeche Mode?

O mote para o novo álbum dos DEPECHE MODE foi a revolução, mas "SPIRIT", embora com uma carga política mais marcada do que o habitual no trio britânico, acaba por ser musicalmente conservador.

 

depeche_mode_2017

 

"Where's the revolution?", perguntava Dave Gahan no single de apresentação do 14º álbum da sua banda de sempre, deixando antever uma costela política mais visível do que o que o que tem sido regra nas suas canções dos últimos anos. Mas essa vertente interventiva está longe de ser inédita nos Depeche Mode, com o próprio tema de avanço a lembrar a certa altura algumas palavras e inquietações de "Stripped" (1986), ainda que o grupo troque agora a televisão pela religião (do desafio de "Let me hear you make decisions/  Without your television" do single clássico de "Black Celebration" passou às questões "Who's making your decisions?/ You or your religion?").

 

Tendo em conta que desde meados dos anos 90 a escrita da banda passou a lidar, de forma quase exclusiva (e a espaços exaustiva), com o universo emocional explorado por Martin Gore (o principal compositor), compreende-se que este novo olhar para a realidade exterior desperte outras atenções e conceda a "SPIRIT" um perfil distinto dos antecessores mais próximos.

 

Boa parte do alinhamento é bastante directo num retrato pouco optimista dos dias de hoje, do arranque ritmado e inflexível de "Going Backwards" ao mais contemplativo "The Worst Crime", com Gahan em modo crooner enquanto enumera uma série de falhanços colectivos ("Blame misinformation/ Misguided leaders/ Apathetic hesitation/ Uneducated readers"). O apontar de dedo de "Scum" é complementado por uma moldura sonora mais tensa, apesar de dançável, mas quer esta quer "You Move", com balanço a fazer jus ao título, destacam-se mais pelas variações na produção (entregue a James Ford, dos Simian Mobile Disco) do que pelas surpresas na composição.

 

depeche_mode_spirit

 

Essa evolução na continuidade já vem de trás (desde "Ultra", de 1997, o último grande álbum dos Depeche Mode?) e a postura mais política de "SPIRIT" não chega, por si só, para mudar muito as coisas. Até porque nem é necessariamente uma vantagem quando algumas letras escorregam em simplismos e lugares comuns, caso da denúncia estafada de "Poorman", talvez a canção mais fraca do disco (acesso bluesy já de si pouco inspirado e a disparar farpas genéricas na linha de "Corporations get the breaks/ Keeping almost everything they make").

 

O próprio "Where's the Revolution", apesar de ser um single eficaz com potencial para crescer ao vivo, é Depeche Mode em piloto automático, mesmo que ancorado numa letra condizente com os tempos de revoltas em redes sociais. Por isso, chega a ser irónico que "SPIRIT" se mostre mais aventureiro ao espreitar territórios intimistas, da cumplicidade ao luar de "Cover Me" (Dave Gahan em grande forma, um novelo instrumental intrigante q.b.) à obstinação de "So Much Love", viragem propulsiva num jogo de luz e sombra.

 

Outros momentos a guardar incluem a aspereza metálica de "Poison Heart", com o blues a revelar-se um aliado seguro, ou o mais sintético "No More (This Is the Last Time)", pop negra embora a recusar um final infeliz. Mas a despedida de "SPIRIT" fica mesmo por conta de "Fail", provavelmente a melhor canção da vertente mais politizada do disco. É uma das duas que Martin Gore interpreta aqui - ao lado da breve e também recomendável "Eternal" - e resume o ponto de situação actual deixado por muitas das anteriores ("Our souls are corrupt/ Our minds are messed up/ Our consciences bankrupt/ Oh, we're fucked").

 

O quadro não é nada auspicioso, mas a forma como a voz se conjuga com os sintetizadores, num tema final de compasso lento e inquietante, ampara parte do derrotismo da letra e deixa no ar a possibilidade de um vislumbre de esperança - ou não fosse este um álbum de uma banda que já nos deixou tantas canções "de fé e devoção". A próxima missa passa por Portugal já daqui a poucos dias - a 8 de Julho no NOS Alive, no Passeio Marítimo de Algés - e "SPIRIT", além de funcionar como pretexto oportuno para o regresso, ainda oferece alguns salmos, como "Fail", que justificam um grande palco e público à altura. Se a revolução sonora ficou pelo caminho, a celebração estará certamente garantida...

 

 

 

Trance à islandesa

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20 anos depois de "Polydistortion", o disco que os colocou entre as maiores revelações islandesas da década de 90, os GUSGUS preparam-se para editar aquele que será já o seu décimo álbum. "Lies Are More Flexible" deve chegar na rentrée, mas a banda apresentou entretanto o primeiro single, que será também o tema de abertura dos seus concertos deste Verão.

 

"FEATHERLIGHT" segue a linha dos alinhamentos de "Mexico" (2014) ou "Arabian Horse" (2011) ao investir em electrónica atmosférica e dançável, com influências vincadas do trance mas sem cair nos traços mais óbvios e espalhafatosos do género.

 

A voz reconhecível de Daníel Ágúst Haraldsson e a produção minimalista e subtil ajudam a fazer da receita dos GUSGUS um caso à parte na música de dança, mesmo que este nem seja dos seus singles essenciais. Mas é suficientemente envolvente para deixar curiosidade sobre o que aí vem, ao mesmo tempo que promete ser um bom aquecimento para actuações que não dispensam momentos mais frenéticos (como o brilhante "Airwaves", da colheita recente). O videoclip mantém o lado performativo de outros complementos visuais do grupo: