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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

O caminho das estrelas

depeche_mode_2017

 

Boa parte do que se tem dito sobre o último álbum dos DEPECHE MODE passa pela vertente política acentuada, mas "Spirit" até é mais interessante quando se concentra no universo individual. E nem é preciso ir mais longe do que "COVER ME", uma das melhores canções de um disco que dificilmente ficará entre os clássicos do trio britânico.

 

A arrancar em modo bluesy antes de se entregar a um instrumental que reforça os sintetizadores, e apresentando um Dave Gahan em óptima forma, a canção mostra que a banda ainda é a mais credível a trabalhar a fórmula que instituiu. Essa personalidade sai ampliada no videoclip, nova colaboração com o cúmplice Anton Corbijn, e o resultado pode ser visto como um sucessor temático e espiritual do clássico "Enjoy the Silence".

 

Tal como nas imagens do hino de "Violator" (1990), o vocalista está no centro de uma viagem que parte agora das ruas quase desertas de Los Angeles para uma nave espacial. O rei deu lugar ao astronauta, mas a solidão em modo contemplativo mantém-se, agora a preto e branco:

 

 

"COVER ME" é o novo single extraído do álbum e abre caminho para a edição de várias remisturas em formato digital, CD e vinyl a 6 de Outubro. Entre os nomes que as assinam destacam-se as Warpaint, Ellen Allien, Erol Alkan ou Josh T. Pearson.

 

Haja charme e savoir faire

Paupière

 

Revelados no EP "Jeunes instants", no ano passado, os PAUPIÈRE deixavam aí boas pistas para apreciadores de uma synthpop atenta aos ensinamentos dos Human League, Visage, Depeche Mode (dos primeiros tempos) ou dos mais esquecidos Deux - apenas alguns nomes da lista de favoritos do trio canadiano.

 

Essa primeira impressão não enganou. "À JAMAIS PRIVÉ DE RÉPONSES", o álbum do projecto de Pierre-Luc Begin, Julia Daigle e Eliane Préfontaine, mantém-se entre essas coordenadas mas expande um universo que deve tanto à geração new romantic como à chanson, com temas entoados a três vozes e sempre a optar pelo francês como idioma.

 

O disco é um dos lançamentos mais recentes da Lisbon Lux Records, editora de Montreal dedicada à pop electrónica, e talvez por isso não ande longe dos ambientes de alguns colegas de etiqueta, como os Sans Sebastien, outros que juntam melancolia, boémia e romantismo com um savoir faire assinalável. Mas os Automelodi, Xeno & Oaklander, Yelle ou Vive la Fête também podem ser apontados como parentes próximos da banda, que diz encontrar nos filmes de Xavier Dolan uma sensibilidade comparável à dos seus olhares sobre as relações modernas.  

 

Embora só seja editado a 15 de Setembro, "À jamais privé de réponses" já pode ser ouvido até lá, gratuitamente e na íntegra, no site da ICI Musique.

 

Como aperitivo, servem-se os vídeos de duas canções do EP de estreia, "Elle et luie" e "Cinq heures", e o do novo single, "Rex". Bon appétit!

 

 

 

 

Alison do outro lado da câmara

goldfrapp_2017

 

Nova chamada de atenção para um dos melhores regressos do ano. "EVERYTHING IS NEVER ENOUGH" é a aposta oficial mais recente para o sétimo disco dos GOLDFRAPP, "Silver Eye", o tal que devolveu a dupla britânica a domínios electrónicos - aqueles nos quais habitualmente está mais inspirada, pelo menos no formato álbum.

 

Percebe-se a escolha do tema, já que é dos mais imediatos do alinhamento, mas quem se tinha habituado a ele na versão original, que ultrapassava os cinco minutos de duração, talvez estranhe a edição promocional, que não chega aos quatro.

 

Nada que retire o apelo de um acesso dançável cujo travo místico parece sair reforçado no videoclip. Tal como o do single anterior, "Systemagic", a realização ficou a cargo da própria Alison Goldfrapp, que aqui aposta num tom mais luminoso - tendo Fuerteventura, nas Canárias, como cenário - enquanto volta a recorrer a ambientes oníricos q.b. habitados por corpos esculturais com pouco a esconder (neste caso só um, masculino, além da presença da cantora). Alguns novos anúncios a margarinas e detergentes que se cuidem:

 

 

A melhor defesa é baixar as expectativas

Demolidor, Jessica Jones, Luke Cage e Punho de Ferro finalmente juntos no pequeno ecrã, depois de aventuras em nome próprio? O encontro é o maior trunfo de "OS DEFENSORES", mas também é quase o único de uma minissérie que não tem muito para oferecer.

 

Os_Defensores

 

A montanha pariu um rato, embora o problema já venha de trás. Se a primeira temporada de "Demolidor", estreada há dois anos, pareceu impor um novo patamar nas adaptações de super-heróis, numa parceria promissora entre a Marvel e a Netflix que trouxe um tom mais urbano, realista e adulto, as apostas seguintes do serviço de streaming no mesmo universo não se mostaram tão aliciantes.

 

"Jessica Jones", embora muito elogiada pela suposta vertente feminista, arrastou-se ao longo de 13 episódios assentes sempre no mesmo vilão e em personagens secundárias a milhas das da saga de Matt Murdock. "Luke Cage" valeu pelo olhar sobre a comunidade afro-americana, mas também teve dificuldades em justificar a duração face ao que tinha para dizer. "Punho de Ferro", a adaptação mais criticada, seguiu por um caminho juvenil e despretensioso sem deixar grandes saudades. Já a segunda temporada de "Demolidor" até ficou na memória pela versão credível do Justiceiro, novidade infelizmente sabotada por uma Elektra esquecível.  

 

Um dos problemas de "OS DEFENSORES" é, aliás, o regresso da anti-heroína criada por Frank Miller, que não teve grande sorte na BD (a Marvel nunca soube o que fazer com ela depois das primeiras aventuras) e muito menos nos ecrãs. A versão televisiva pode não ter sido tão desastrosa como a cinematográfica, mas a actriz Élodie Yung está longe de emanar o lado esquivo, empolgante e sinuoso que a personagem pedia, embora o argumento também não a ajude muito.

 

Marvel's The Defenders

 

O reencontro de Elektra e Matt Murdock limita-se a repetir a dinâmica que já não era convincente na segunda temporada de "Demolidor" e que aqui se torna ainda mais cansativa. Pior ainda, o envolvimento com a Mão faz com que essa organização milenar e poderosa seja reduzida a um grupelho de vilões amadores, resultado especialmente penoso quando um dos principais motivos para insistir nos dois primeiros episódios (os mais dispersos e soporíferos) é Sigourney Weaver, que acaba por ser desperdiçada no papel de Alexandra, a nova antagonista (personagem que vive mais da entrega da actriz do que do esmero do argumento).

 

Incapaz de dar condimentos especiais à enésima ameaça a Nova Iorque, "OS DEFENSORES" sai-se melhor quando se concentra nas interacções da equipa, entre avanços e recuos, conflitos de personalidade e cumplicidades insperadas (mais para as personagens do que para fãs que reconhecerão algumas alianças da BD, de protagonistas como Luke Cage e Punho de Ferro a secundárias como Misty Knight e Colleen Wing).

 

Os_Defensores_2

 

A reunião até traz um pormenor visual curioso, ao conjugar na mesma saga as tonalidades reconhecíveis das séries de cada super-herói (escarlate para "Demolidor", azul para "Jessica Jones", dourado para "Luke Cage", verde para "Punho de Ferro"). Quando as histórias individuais se cruzam num restaurante chinês, ao quarto episódio, a iluminação do espaço vai-se moldando à paleta cromática associada às personagens, numa escolha que revela uma atenção ao detalhe sem paralelos num argumento rotineiro ou numa realização geralmente indistinta (e quanto menos se falar de alguns diálogos, melhor).

 

Em vez de ficar como uma saga marcante, "OS DEFENSORES" lembra os muitos encontros inconsequentes de super-heróis na BD, onde a graça está mais na junção das personagens do que no que as envolve. Se não se esperar mais do que isso, até diverte. E como só tem oito episódios em vez dos habituais 13, também não chega a maçar assim tanto...

 

2/5