Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Gelado de Outono

BECK mais pop não há: "COLORS" é um desvio assumido da "maturidade" de "Morning Phase" e opta claramente pela festa em vez da introspecção. E nem precisa de ser um grande álbum para se revelar contagiante.

 

beck

 

Depois de responder ao contemplativo "Mutations" (1998) com o delírio de "Midnite Vultures" (1999) e de sair do mergulho interior de "Sea Change" (2002) com o mais enérgico "Guero" (2005), BECK volta a fazer uma manobra semelhante três anos após a edição de "Morning Phase", um dos seus discos mais elogiados e o tal que lhe deu o reconhecimento oficial da indústria ao ser premiado com o Grammy de Álbum do Ano.

 

Em vez de se manter nos tons outonais de um dos seus registos mais melancólicos, vincado por heranças da folk e da country, o norte-americano parece querer sublinhar que a aproximação do meio século de vida (o autor de "Loser" soprou 47 velas no Verão passado) não é sinal de rendição a ambientes sonoros mais serenos e meditativos. Nem seria legítimo esperá-lo tendo em conta que a sua discografia, mesmo com pontos de contacto entre algumas edições, é mais dominada pela surpresa do que pelo regresso a cenários habituais.

 

No caso de "Colors", o 13º longa-duração de uma carreira de quase 25 anos, o cenário é mesmo pouco habitual e talvez por isso não esteja a ser recebido com o consenso que agraciou a maioria dos antecessores. É provavelmente o álbum mais imediato de BECK, com canções incisivas e quase sempre dançáveis, resultado da colaboração com Greg Kurstin. O produtor de êxitos de Adele, Sia ou Pink não seria o nome mais expectável, até porque não é conhecido por pop especialmente desafiante, mas acabou por se mostrar eficaz para o que o autor do disco pretendia: um conjunto de canções nem retro nem modernas, com uma profusão de texturas e camadas que não se anulassem mutuamente na mistura.

 

Beck_Colors_Album

 

Pode dizer-se que o objetivo foi alcançado, mesmo que "Colors" não se imponha numa discografia já longa e ecléctica. BECK podia não estar a pensar numa pop moderna mas este soa a um disco da geração EDM, embora mantendo a personalidade de uma das revelações dos anos 90.

 

"Up All Night", com um hedonismo funk em moldura electrónica, não destoaria numa playlist entre as canções mais recentes dos Daft Punk e Justin Timberlake. "Wow", tão ou mais orelhuda, é outro exemplo de uma faceta lúdica que "Morning Phase" ameaçava deixar definitivamente para trás, com uma conjugação viciante de batidas e harmonias vocais a piscar o olho ao hip-hop contemporâneo (numa actualização do corta e cola dos dias de "Odelay").

 

Se estes dois temas foram dos primeiros avanços do disco, praticamente todas as canções de "Colors" têm potencial de single. "Dreams", outro cartão de visita, remete para o psicadelismo de uns Tame Impala da vertente mais sintética, aproximação que também marca a faixa-título, entre sintetizadores e flautas. "Seventh Heaven" lembra outros australianos amigos da synthpop, os Cut Copy, com coros em falsete a pedir aos céus um futuro com dias melhores.

 

Beck_2017

 

Já "Dear Life", ancorada no piano, é canção de recorte mais clássico, se por clássico entendermos Beatles via Elliott Smith. Mas talvez seja em "So Free" que "Colors" atinge o ponto de rebuçado: antes do refrão a viagem ameaça derrapar para o terreno pantanoso da EDM, mas as guitarras acabam por reclamar protagonismo entre um ritmo frenético e rodopiante, com um crescendo ampliado pelos contrastes vocais rumo a uma euforia que pede um palco.

 

Menos convincente, "No Distraction" mostra um balanço irregular ao alternar entre um arranque devedor dos Police com viragens para os Killers nos momentos mais acelerados, antes de regressar à casa de partida no refrão (sem ganhar muito com isso). É talvez o maior desvio do alinhamento face ao que já ouvimos de BECK, mas não compromete um sortido pop mais saboroso do que alguns discos anteriores com aclamação generalizada. Pelo menos se não lhe pedirmos mais do que aquilo que pretende oferecer.

 

3/5

 

 

Licença para gozar (revista e renovada)

Se "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" já não tem o efeito surpresa do primeiro filme, é uma sequela que sai a ganhar no equilíbrio entre humor, acção e puro delírio. E comprova, mais uma vez, Matthew Vaughn como um nome à parte entre os tarefeiros de Hollywood.

 

kingsman

 

À segunda, a piada ainda funciona. E até funciona melhor. Depois de "Kingsman: Serviços Secretos" ter adaptado, há três anos, a paródia a histórias de espionagem criada na BD por Mark Millar e Dave Gibbons, a segunda aventura resulta numa proposta menos inesperada mas ligeiramente mais consistente, que sugere estar aqui uma alternativa bem viável às missões de 007.

 

A organização britânica que dá nome à saga tem inspiração directa na fase clássica de James Bond no cinema e a abordagem de Vaughn, fiel à matriz dos comics, mostra como se faz aos últimos capítulos do agente secreto que tem sido interpretado por Daniel Craig - e em particular a um filme como "007 Spectre", um dos blockbusters mais penosos dos últimos anos.

 

"KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" não se contenta em ser um mero sucessor do capítulo inaugural e quer ser um filme mais longo, com mais personagens, mais subenredos, mais aparato tecnológico e mais situações-limite de recorte cartoonesco (destaque inevitável para uma especialmente mirabolante, na neve, com punchline à altura). E talvez tenha ainda mais violência gratuita, mesmo que não ofereça sequências tão sangrentas como as que marcaram o início da saga comandada pelo realizador britânico. O que não quer dizer que não pise o risco de outras formas, desde logo ao encaixar numa trama de espionagem assumidamente exagerada um olhar - simplista, mas ainda assim contundente - sobre a liberalização das drogas.

 

Kingsman2

 

Claro que quem se aventurar nesta sequela com alguma expectativa de realismo poderá dar o tempo por perdido, mas admita-se que este é um pastiche que não pretende levar ninguém ao engano. Apesar das alusões ao narcotráfico ou ao cenário político internacional, o filme é escapismo descarado e que não pede desculpas por isso, e decididamente não aconselhável aos mais sensíveis (o arranque graficamente explícito deixa logo esse ponto bem assente).

 

Felizmente, o que noutras mãos poderia limitar-se a um desfile de pirotecnia espampanante, ruidosa e repetitiva ganha aqui um ritmo e uma energia imparáveis e entusiasmantes, com Vaughn a conseguir passar o gozo evidente do argumento e do elenco para lá do ecrã. E isso é particularmente meritório quando o filme tem o descaramento de ultrapassar as duas horas de duração sem acusar grande cansaço, mesmo que o último terço não consiga disfarçar a estrutura formulaica (mas até no obrigatório confronto final há aqui um realizador acima de boa parte da concorrência, capaz de disparar cenas de acção esfuziantes sem deixar o espectador desorientado ou atordoado).

 

Também será justo reconhecer que Vaughn já fez melhor: "Kick Ass: O Novo Super-Herói" e "X-Men: O Início" eram filmes mais ambiciosos, inventivos e autónomos. O elenco de luxo de "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO", por exemplo, está lá mais para encher a vista e funcionar como chamariz. As personagens de Channing Tatum, Halle Berry e Jeff Bridges, introdução à curiosa faceta norte-americana de uma saga inicialmente "very british", demoram algum tempo a ser apresentadas mas não são especialmente trabalhadas (e quase se limitam a fazer a ponte com a sequela já garantida).

 

Kingsman3

 

Julianne Moore experimenta outros ares na pele de vilã pérfida, e sai-se bem nos requintes de malvadez, mas fica a sensação de que a sua Poppy podia ter ido mais longe (Emily Watson, num pequeno papel, consegue fazer mais com menos). E a forma meio arbitrária como a saga lida com a morte quebra boa parte dos riscos destas missões, por muito que o lado paródico seja intencional e que o regresso de Colin Firth (não será um spoiler referi-lo quando está no material promocional) seja uma mais-valia para o filme - a relação do mentor com o protagonista continua a gerar momentos dramaticamente fortes, tão calorosos como melancólicos, o que não deixa se ser surpreendente numa história marcada pela irrisão.

 

Além desta mistura de ingredientes, "KINGSMAN: O CÍRCULO DOURADO" ainda encontra espaço para uma participação de Elton John que não se fica por um cameo e realça a faceta delirante deste capítulo. E quando a música do britânico complementa sequências de acção, esta sequela chega a lembrar outro dos bons regressos do ano que tem um dos trunfos na banda sonora: "Guardiões da Galáxia 2". Só é pena que tanto um caso como outro sejam a excepção e não a regra num cenário de filmes pipoca cada vez mais derivativos e insípidos. Aproveitemos para saborear o atrevimento enquanto dura...

 

3/5

 

 

Caminho para a salvação

Ancorado numa das melhores interpretações de James Franco, "O MEU NOME É MICHAEL" adapta uma história verídica que parte de um conflito interior entre espiritualidade e (homos)sexualidade. A viagem identitária é irregular, mas recompensadora.

 

I_Am_Michael

 

Quando boa parte do cinema LGBTI ainda insiste em repetir variações sobre relatos coming out ou boy meets boy, a estreia de Justin Kelly nas longas-metragens tem desde logo a vantagem da premissa.

 

A vida de Michael Glatze, activista e jornalista gay com um percurso marcado pela defesa dos direitos homossexuais (incluindo a criação de uma publicação temática) que acabaria por se tornar num pastor cristão fundamentalista, é um ponto de partida aliciante para um biopic. O nome de Gus Vant Sant na produção executiva também é promissor. E o elenco, encabeçado por um James Franco surpreendente ao lado dos confiáveis Zachary Quinto e Emma Roberts, ajuda ainda mais.

 

Mesmo assim, "O MEU NOME É MICHAEL" é daqueles casos em que a execução fica uns furos abaixo do mote, a que não será alheio o facto de se tratar de uma primeira obra. Baseado num artigo da The New York Times Magazine escrito por Benoit Denizet-Lewis, antigo amigo do protagonista, o filme tem sido criticado, e com alguma razão, pela vertente demasiado episódica ou pela narração em off (sobretudo na primeira metade). Mas se estes recursos são duas das maiores limitações de dramas biográficos, aqui quebram algum do potencial sem retirarem a força de um estudo de personagem atípico.

 

I_am_Michael_2

 

O olhar digressivo sobre vários anos do retratado impede que algumas fases sejam tão explorados como mereciam, embora não comprometa a espiral descendente que o desempenho de James Franco ajuda a tornar credível e suficientemente inquietante - e a voz off até se perdoa quando é uma porta de entrada para os posts do blog de Glatze, aos quais o realizador recorre de forma comedida.

 

Além da pontaria para o tema e elenco, o maior trunfo de Justin Kelly é a resistência a maniqueísmos numa história que poderia ser facilmente reduzida a um tom sensacionalista ou a um panfleto LGBTI. "O MEU NOME É MICHAEL" opta pela empatia e pela ambiguidade, mantendo o espectador ao lado do protagonista sem se conformar com um relato acrítico - pelo contrário, é bastante directo ao apontar a estranheza que vai dominando Glatze na segunda metade do filme, tendo o mérito adicional de contar com um actor capaz de a agarrar sem histrionismos.

 

Do tom inicial mais garrido, vincado por uma montagem electrizante q.b. e uma intromissão documental oportuna, até à implosão que se segue no confronto com a vertigem da morte, o retrato acaba por conseguir traduzir a visão de um homem cuja necessidade de pertença surge atormentada pela dúvida e pela fuga obstinada a rótulos, sejam religiosos ou sexuais. E enquanto acompanha o seu desespero ao tentar conjugar dois mundos aparentemente incompatíveis, apresenta um realizador interessado em dar novos mundos ao cinema queer (como "King Cobra", o filme seguinte, também com James Franco, confirmou no ano passado - embora tenha chegado a Portugal apenas pela Netflix).

 

3/5

 

 

Primavera Árabe ou Verão escaldante?

Entre o drama e o thriller, "CLASH" escapa às armadilhas do filme de denúncia ao mergulhar nas consequências da Primavera Árabe no Egipto. Mohamed Diab, que já tinha dado eco à revolução em "Cairo 678" (2010), volta a afirmar-se como uma das vozes do país a ouvir - e também a ver em estreias aconselháveis como esta.

 

clash

 

Dezenas de pessoas detidas numa carrinha da polícia ao longo de hora e meia - tempo que o espectador acompanha, uma vez que para as personagens o enclausuramento é bem mais longo. Podia ser a premissa de uma série B despachada, mas no caso da segunda longa-metragem de Mohamed Diab é o formato encontrado para colocar em conflito - e outras tantas vezes em sintonia - as facções que levaram aos protestos de rua tensos e violentos no Egipto durante o Verão de 2013.

 

"CLASH" situa a acção no Cairo logo após o presidente Mohammed Morsi ter sido deposto pelos militares, opondo os membros e simpatizantes da Irmandade Muçulmana aos liberais, do lado das forças armadas. E também encontra espaço para quem não se revê num destes polos, que de resto se tornam menos extremados quando as ideologias parecem não oferecer respostas para situações concretas - e frequentemente aflitivas.

 

Clash_2

 

Sem nunca sair da parte de trás da carrinha, embora filme várias vezes o exterior, Diab vai captando e cruzando os rostos e as inquietações da sua amálgama de cativos, e é admirável como consegue ir gerindo e desenvolvendo tantos sem nunca os reduzir a personagens-tipo (sendo assim bem-sucedido onde Christopher Nolan falhou no também recente e bélico "Dunkirk").

 

É verdade que acaba por estar aqui uma montra da sociedade egípcia, ou boa parte dela, num grupo convenientemente diverso: além dos fundamentalistas islâmicos e dos que procuram um caminho no Ocidente, determinantes para que haja conflito, cruzam-se faixas etárias, classes sociais e profissões (ou falta delas). Mas admita-se que "CLASH" está mais interessado em mostrar como cada um tem as suas razões do que em tomar partido, e tanto abraça como encosta à parede todas as figuras que convoca - incluindo jornalistas e polícias.

 

Este misto conseguido de realismo e humanismo é mérito de um argumento eficaz, capaz de conjugar suspense e carga dramática, e de uma direcção de actores sem falhas, onde não é difícil acreditar naquelas personagens mesmo quando há uma ou outra situação mais forçada (como naquela que contrasta pais e filhos das duas facções, num braço de ferro entre a esperança e a tragédia).

 

Clash_3

 

E se o interior da carrinha em modo panela de pressão convence, a recriação das manifestações de rua consegue ser ainda mais arrepiante, ao dar conta de como o caos civilizacional pode instalar-se de forma tão repentina no quotidiano urbano. O pânico crescente da intrusão do exterior vai travando os momentos espirituosos com que Diab tempera a narrativa, decisivos para que o filme não se afunde num relato plano e miserabilista.

 

Só é pena que o realizador não seja tão hábil quando se serve de uma câmara à mão epiléptica para captar (e reforçar) os momentos mais agitados, recurso quase esgotado que não tem aqui variações muito estimulantes. Com outro fôlego cinematográfico nessas cenas - e, já agora, um final mais inspirado -, "CLASH" seria filme para reforçar o impacto... mas seja como for há aqui muito de bom para além das intenções.

 

3/5