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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Ainda vale a pena ter fé em Scorsese?

Mais do que a crise de fé na qual se centra, "SILÊNCIO" expõe a crise criativa de Martin Scorsese naquele que é o seu pior filme desde "Kundun" - e quase tão académico e arrastado como esse outro olhar sobre a religião.

 

Silence (2017).Andrew Garfield as Father Rodrigues and Yosuke Kubozuka as Kichijiro

 

Era legítimo esperar (muito) mais daquele que tem sido anunciado como o projecto de vida do realizador de "Taxi Driver" ou "Casino", mantido na gaveta há cerca de três décadas e consecutivamente adiado. Não é difícil de perceber a espera, tendo em conta que a abordagem mais directa de Scorsese ao catolicismo tinha sido o controverso "A Última Tentação de Cristo" e que o mergulho seguinte na religião - aí através do budismo - resultou naquele que será talvez o seu pior filme, o falhado "Kundun" (1997).

 

Mas se a fase mais recente do cineasta já não era das mais memoráveis, "SILÊNCIO" consegue destacar-se como a sua obra mais decepcionante em 20 anos, raramente conseguindo agarrar a complexidade temática ancorada na dúvida e na fé a partir do livro homónimo do japonês Shusaku Endo. Em vez de uma discussão teológica adulta e ambivalente, este relato da jornada de dois padres jesuítas portugueses no Japão do século XVII quase nunca se asfasta de um tom simplista e didáctico, desperdiçando as questões intrigantes colocadas em jogo.

 

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A voz off quase constante, sobretudo a do protagonista, o Padre Ferreira de Andrew Garfield, é logo um problema. Em vez de convidar à reflexão sugerida pelo título, o filme atropela o espectador com os pensamentos e inquietações do sacerdote. Mas mais do que constante, essa opção é repetitiva no que tem para dizer, centrando-se quase sempre no preço que os missionários católicos têm de pagar caso renunciem (ou não) à fé numa sociedade oriental implacável com quem demonstre crer em Cristo.

 

Que "SILÊNCIO" perca quase três horas a revisitar questões e situações sem com isso propor uma variação consequente é apenas uma das fragilidades de um filme plano e esquemático, que além da falta de economia narrativa nunca consegue desenhar personagens de corpo inteiro e limita-se a reforçar estereótipos. Os japoneses são reduzidos ao papel de vítimas ingénuas ou de opressores sem escrúpulos, exceptuando uma figura que entra e sai de cena sem nunca ganhar espessura dramática - está lá, como as outras, para fazer a história avançar. Os padres jesuítas não são muito mais interessantes, já que Liam Neeson e Adam Driver têm poucas oportunidades de mostrar o que valem quando o protagonismo é entregue a um Andrew Garfield esforçado, mas incapaz de dar corpo à experiência visceral que a sua personagem ultrapassa (os monólogos e diálogos que lhe entregam também não lhe fazem grandes favores, admita-se).

 

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Quando o filme chega à recta final, tenta desfazer algum do maniqueísmo do retrato ao colocar em causa a missão dos jesuítas e o seu suposto altruísmo, sobretudo através de um reencontro que passou grande parte do tempo a preparar. Mas essa viragem não só chega demasiado tarde como continua a privilegiar, ainda assim, a visão ocidental, mantendo o olhar meio pitoresco sobre os japoneses e chegando a escorregar no kitsch quando alterna tragédia e comédia (às vezes é difícil de dizer se a segunda é ou não voluntária, com a dicção das poucas palavras portuguesas referidas a contribuir para o constrangimento).

 

Salvam-se alguns belos cenários naturais e a recriação competente (embora indistinta) de época, muito pouco quando nem a realização está à altura do nome (o campo-contracampo habitual nas cenas de diálogos podia ter a assinatura de um qualquer tarefeiro de Hollywood e só reforça a sensação de estarmos perante um telefilme no grande ecrã). De resto, quem quiser ficar a par da presença jesuíta no Oriente sairá mais bem servido com um dos inúmeros artigos de jornal publicados a propósito do filme. "SILÊNCIO" não é particularmente esclarecedor na contextualização (passa ao lado, por exemplo, do sincretismo praticado num Japão religiosamente menos tirânico do que Scorsese sugere) e cumpre ainda menos na dramatização destes acontecimentos.

 

 

 

O capital humano

Entre o relato coming of age e o drama familiar, "HOMENZINHOS" dá razão a quem aponta Ira Sachs como cronista hábil tanto do quotidiano de Nova Iorque como das relações humanas modernas - aqui com o factor económico a moldar aproximações e despedidas.

 

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Filmes como "Deixa as Luzes Acesas" (2012) ou o mais recente "Love Is Strange - O Amor é uma Coisa Estranha", estreado em Portugal no ano passado, ajudaram a colocar Ira Sachs entre os nomes em ascensão no cinema independente norte-americano, elogiados pelo foco no humanismo das suas crónicas em ambientes nova-iorquinos e também pela quase recusa de grandes artifícios formais.

 

"HOMENZINHOS", sem pretender mudar muito a mistura de drama e comédia dominante noutras obras bem acolhidas em Sundance, não trai a reputação do seu autor e até a consolida ao apresentar um retrato fluído, empático e credível ao longo dos seus 85 minutos (algo económicos mas bastante certeiros).

 

A partir de duas famílias do bairro de Brooklyn e do impasse em torno da renda de uma loja, Sachs acompanha o dia-a-dia dos pais, que se vai tornando sufocante à medida que esse conflito burocrático não vai tendo solução à vista, e sobretudo o dos filhos, ambos recém-chegados à adolescência. E ao fazer conviver estes dois relatos, mesmo dando prioridade ao das personagens mais novas, o realizador e argumentista consegue deixar um olhar que tanto capta a inocência, deslumbramento e entrega das primeiras amizades como vinca, pela questão financeira que afasta as duas famílias, o preço a pagar quando elementos externos ameaçam desgastar ou mesmo aniquilar uma relação.

 

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Não por acaso, "HOMENZINHOS" arranca com o luto em torno de uma figura que funciona como elo entre as duas famílias, mas recupera esse estado emocional ao longo de uma história em que a cumplicidade tem tanto peso como a perda. À medida que os dois adolescentes vão aprendendo, como alguém diz a certa altura, a "deixar coisas para trás", Sachs deixa uma crónica coming of age (às vezes a insinuar um coming out) mais complexa do que muitos outros dramas juvenis, vincada por uma atenção rara ao detalhe e pelo afinco de todo o elenco (a juntar veteranos como Greg Kinnear, Alfred Molina ou Paulina García à dupla de estreantes Theo Taplitz e Michael Barbieri, actores sem experiência mas nos quais é fácil acreditar).

 

Se vários diálogos (e atitudes) dos dois jovens protagonistas são inevitavelmente caracterizados por alguma ingenuidade, a visão do realizador é decididamente adulta, o que só torna o antagonismo familiar mais difícil de solucionar ao recusar apontar bons e maus - até porque todas as personagens acabam por sofrer as consequências da gentrificação. E daí resulta também o sabor agridoce deste pequeno filme, mais envolvente e refrescante do que muitos retratos new yorker dos últimos tempos ancorados na classe média intelectual q.b. (de Woody Allen a Noam Bachmann, adeptos de um cinismo que não mora por estes lados). Numa altura em que as salas estendem a passadeira vermelha aos prováveis nomeados aos Óscares, vale a pena olhar para o lado e dar atenção a estreias como esta.

 

 

 

Quando o realismo britânico tem eco universal

Da crítica cerrada ao Estado Social da nova Europa ao drama britânico de tradição realista, "EU, DANIEL BLAKE" mostra que o cinema de Ken Loach continua igual a si próprio. Mas também que o realizador veterano ainda tem muito a dizer, dentro e fora de portas.

 

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Os filmes de Ken Loach que tinham chegado a salas nacionais nos últimos anos, tanto dramas de época ("O Salão de Jimmy", "Brisa de Mudança") como olhares contemporâneos ("A Parte dos Anjos") deixavam evidente que o cineasta octagenário continuava a ser eficaz em retratos realistas, mas não só ficaram aquém de obras que ajudaram a consolidar o seu nome como mantinham, por vezes, as personagens reféns da militância do argumento (ainda que esta tenha feito parte do seu cinema desde a raiz).

"EU, DANIEL BLAKE", que vem interromper a suposta reforma do realizador (anunciada em 2014) e saiu contemplado com a Palma de Ouro em Cannes no ano passado, não pretende, à partida, mudar o estado das coisas, já que não se afasta dos territórios e temáticas habituais de Loach, dando voz àqueles que raramente a têm em cenários que ficam fora da lente de muitos realizadores. Esta história de um carpinteiro de meia-idade que lida com a precariedade laboral em Newcastle até chega a lembrar a jornada acidentada de Peter Mullan em "O Meu Nome é Joe" (1998), desde logo pelo título, o que também se explicará pela partilha do argumentista, Paul Laverty, cúmplice habitual de Loach desde meados da década de 90.

Essa proximidade, no entanto, resulta aqui mais como sinal de coerência de uma obra do que como exercício redundante, seja porque "EU, DANIEL BLAKE" parece ser um exemplo claro do filme certo na altura certa (que dirá tanto a quem mora em Newcastle como em Lisboa) ou porque o argumento, embora algo esquemático (em particular num final que facilmente se adivinha), consegue dar espaço a personagens que são figuras multifacetadas e não meras peças de um ensaio sociológico bem intencionado.

 

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Por cada vez que o filme ronda o miserabilismo, expectável no relato de um homem com um estado de saúde frágil que tenta orientar-se na máquina burocrática da Segurança Social, há quase sempre um momento de descompressão a equilibrar o tom. Geralmente, o efeito é cortesia do actor protagonista, o comediante de stand-up Dave Johns, a conciliar aqui gravidade e irreverência, ou então de um olhar colectivo que finta maniqueísmos associados a profissões, origens sociais ou etnias, dando abertura à cumplicidade e à empatia entre os esquecidos pelo sistema mas também entre estes e alguns dos seus representantes.

De um elenco que não falha uma nota e continua a dar bom nome à escola realista de Loach, vale a pena destacar Hayley Squires na pele de jovem desempregada, mãe solteira de dois filhos, responsável por algumas das cenas mais comoventes (inesquecível, a do Banco Alimentar), nas quais a realização e o argumento nunca traem a dignidade de um olhar que poderia confundir-se com o registo estereotipado de muitos casos da vida.

 

Esse tom justo mantém-se nas sequências com algum humor entre o desespero, como aquelas em que o protagonista se inicia na informática - a lembrar a procura de emprego de Vincent Lindon no também recente "A Lei do Mercado" - e "EU, DANIEL BLAKE" só não é ainda mais convincente porque o desenlace prova que Loach ainda tem a mão demasiado pesada em alguns momentos - o que em nada invalida, de qualquer forma, o misto de angústia e resiliência de um estudo de personagem a não deixar passar.

 

 

 

Retrato de uma senhora

Quem é "ELA"? O novo filme de Paul Verhoeven nunca chega a dar a resposta toda, mas o fascínio está mais na viagem do que no destino - e sobretudo em Isabelle Huppert, capaz de elevar este arriscado (e desequilibrado) conto amoral.

 

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O próprio realizador de "Instinto Fatal" ou "Robocop - O Polícia do Futuro" tem admitido em entrevistas que o papel de Isabelle Huppert nesta adaptação do livro "Oh..." (2012), de Philippe Djian, foi muito além da mera vertente interpretativa, com a actriz francesa a moldar novos acontecimentos da história durante as filmagens, sem qualquer aviso prévio. E essa apropriação acaba por ser sugerida em vários momentos destas mais de duas horas sempre agarradas à protagonista, uma determinada mulher de negócios (e mãe, e amante, e amiga...) de meia-idade que dificilmente encaixaria tão bem na pele de outra estrela - na pele de Nicole Kidman ou Diane Lane, que rejeitaram o convite, "ELA" teria sido certamente um filme muito diferente e quase de certeza menos fascinante.

 

Não é que o mérito seja todo da actriz que este ano teve outros papéis de realce em "O que Está por Vir" ou "Ensurdecedor": Verhoeven arranca o filme com uma cena de violação e o que se segue tem sido amplamente elogiado, tanto pela forma como foge à vitimização fácil deste tipo de crónicas como por rejeitar a caracterização da protagonista como heroína feminista e modelo de comportamento. Mas por muito que o resultado seja, à partida, mais sofisticado do que a imagem de marca do holandês (para o pior e mais recentemente para o melhor, marcada por "Showgirls"), naquele que é o seu primeiro filme falado em francês e ambientado na burguesia parisiense, "ELA" acaba por nem sempre acompanhar o desempenho de recorte superior de Huppert, de longe o seu elemento mais confiável e consistente.

 

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Verhoeven sai-se bem na conjugação de comédia de costumes truculenta com thriller psicológico mais ancorado em obsessões do que em traumas e recalcamentos, mistura difícil mas conseguida quando nem ele nem Huppert se levam muito a sério. Por outro lado, essa ironia também dá a esta narrativa um tom demasiado auto-consciente (ouça-se a música a meio caminho do terror nas cenas supostamente mais tensas) que faz com que os conflitos em jogo se sigam sempre com algum distanciamento.

 

Aliás, só com distanciamento se podem aceitar viragens como as da segunda metade de "ELA", com Verhoeven igual a si próprio - o que nem sempre é uma vantagem - e a ameaçar quebrar a verossimilhança. Se o filme não se auto-destrói, é sobretudo graças a Huppert, capaz de se manter inabalável independentemente do absurdo da situação - e de nos fazer acreditar na mulher ambígua e intimidante que defende.

 

Embora segui-la seja sempre um desafio convidativo, até porque o realizador é hábil a percorrer a sua rotina amorosa, familiar e profissional, assim como na gestão de flashbacks, as personagens com as quais se vai cruzando ficam, infelizmente, aquém da sua figura de corpo inteiro. A colecção de cromos que o argumento junta está, pelo contrário, demasiado próxima das caricaturas de muitas comédias francesas que continuam a chegar quase todas as semanas às salas, e assim a densidade dramática esgota-se praticamente na protagonista. E isso, ao lado de cenas como a da revelação da identidade do violador (menos surpreendente do que o que o filme parece pensar) ou do final meio Deus ex machina (e meio desapontante depois de momentos bem mais astutos), corta alguma da força de "ELA", mesmo que esteja aqui um dos objectos mais desafiantes (e inesperadamente lúdicos) de 2016.