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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Miguel do outro lado do muro

Primeira surpresa: o novo filme da Pixar não é uma sequela. Segunda surpresa: além de uma história original, "COCO" é uma fábula para toda a família que consegue encantar sem ter medo de inquietar miúdos e até graúdos. A premissa pode partir do Dia dos Mortos, mas está aqui a melhor proposta dos 7 aos 77 para este Natal.

 

Coco

 

Se "Divertida-mente" voltou a elevar, há dois anos, a fasquia da Pixar, depois de alguns títulos menos marcantes, de então para cá os estúdios pareciam ter voltado a jogar pelo seguro. "A Viagem de Arlo" (2015) ainda tinha o mérito de ser uma história original, embora corresse poucos riscos ao longo de uma jornada demasiado familiar, mas "À Procura de Dory" (2016) e "Carros 3" (2017) antecipavam um rumo cada vez mais assente no conformismo e na revisitação de glórias de outros tempos.

 

Felizmente, essas sequelas foram, afinal, pistas falsas, a julgar por "COCO", que traz uma considerável (e necessária) lufada de ar fresco a um dos novos pilares do império Disney. O novo filme de Lee Unkrich ("Monstros e Companhia", "À Procura de Nemo", "Toy Story" 2 e 3), realizado em colaboração com o estreante Adrian Molina, parte de cenários e situações reconhecíveis mas aos poucos vai construindo um mundo que justifica em pleno a adesão a esta aventura.

 

Até constrói dois mundos, aliás. O da realidade de uma pequena localidade mexicana, ancorado na família de Miguel, um rapaz de 12 anos, e o Mundo dos Mortos, para onde o protagonista viaja acidentalmente enquanto tenta esconder-se da família, que quer demovê-lo da ambição de ser músico para se tornar sapateiro (seguindo assim os passos dos seus antecessores).

 

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Ao longo do primeiro terço, "COCO" não foge muito à narrativa, já vista e revista (no universo Disney e não só), do jovem decidido a perseguir os seus sonhos, independentemente dos entraves, sobretudo familiares. E se é verdade que, mais à frente, ainda há por aqui uma história de unir os pontos, com direito a uma sucessão de ameaças, picos e perseguições, o filme vai ganhando uma densidade dramática inesperada enquanto se afasta da premissa e deixa um olhar, tão imaginativo como comovente, da vida e da morte (e da vida depois da morte). 

 

Onde "Divertida-mente" lidava com a memória partindo da infância e do crescimento, aqui o foco concentra-se no envelhecimento, na perda e nas heranças familiares. E a dupla de realizadores faz acompanhar essa viagem com um deslumbre visual assente nas tradições mexicanas, em especial no Dia dos Mortos, no qual as famílias recordam e homenageiam os seus antepassados.

 

No meio das inevitáveis canções (com um igualmente inevitável travo mariachi), dos gags que condimentam as peripécias de Miguel e das muitas referências à cultura do seu país (nem faltam cameos de Frida Kahlo), "COCO" não teme fazer viragens para o sobrenatural com uma crueza rara nestes tempos de tanta animação homogeneizada, calculada ao milímetro para não ferir susceptibilidades.

 

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Unkrich e Molina apostam numa variação bem curiosa e personalizada de um imaginário à la Tim Burton, mas o prodígio técnico dos espaços, movimentos e caracterizações nunca ofusca a verdade emocional que passa pela galeria de personagens (mesmo que algumas pudessem ter sido mais exploradas numa narrativa que raramente tira o pé do acelerador) e por um argumento que guarda os trunfos para o último terço do filme (reviravoltas incluídas, embora nem sejam o mais importante aqui). 

 

O final de "COCO", então, é daqueles para deixar pais e filhos (ou bisavós e bisnetos) com o coração nas mãos, além de algumas lágrimas nos olhos, sem que o gesto seja sinónimo de oportunismo manipulador. Pelo contrário, é um remate plenamente merecido depois de tudo o que os realizadores foram moldando, com a sensibilidade e criatividade que se espera de uma proposta da Pixar. Desta vez, a tradição ainda é o que era.

 

 3,5/5

 

 

Brava dança dos heróis

Da revolta nas ruas à libertação na pista de dança, "120 BATIMENTOS POR MINUTO" mergulha fundo no flagelo da sida a partir da Paris dos anos 90. Mas se a acção é datada, o drama de Robin Campillo tem sido um dos filmes-chave do cinema europeu em 2017, com destaque para o Grande Prémio do Júri na última edição de Cannes - e merecidamente, apesar dos desequilíbrios ocasionais.

 

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Cinema de guerrilha? Teria sido fácil tornar "120 BATIMENTOS POR MINUTO" num petardo de militância, tendo em conta que Robin Campillo se debruça aqui na história real da organização activista Act Up, dedicada à prevenção e tratamento contra o alastrar do HIV em França, no início dos anos 90. O realizador franco-marroquino sabe do que fala, uma vez que foi membro da associação nessa época e algumas das suas experiências estão muito próximas das de um dos protagonistas deste drama. Mas se é nítido que o autor de "Les Revenants" e "Eastern Boys" está do lado do grupo de jovens que lutou pelos direitos dos seropositivos face à indiferença quase geral - da classe política, da comunidade médica ou dos meios de comunicação social -, o seu olhar vai muito além de um panfleto com uma visão maniqueísta do mundo.

 

Da mesma forma que denuncia a estigmatização de uma comunidade (e em especial dos homossexuais, que juntamente com as prostitutas, toxicodependentes e imigrantes eram automaticamente associados aos casos crescentes de sida), "120 BATIMENTOS POR MINUTO" também é revelador do modo voluntarioso e incisivo, embora amador e até desastrado, como a Act Up empreendia muitas das suas chamadas de atenção. Mas essa postura crítica não é incompatível com um relato que abraça a obstinação e idealismo do grupo, conjugação especialmente inspirada quando Campillo se concentra nas discussões internas com um nível de detalhe quase documental.

 

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O filme parte mesmo dessa dinâmica comunitária, com um relato minucioso dos comprissos e antagonismos, ideais e contradições, antes de se focar no diálogo e conflito da Act Up com a sociedade de então e, mais à frente, de forma gradual, na relação gay entre dois dos seus membros. Co-argumentista de "A Turma", de Laurent Cantet, o realizador está familiarizado com o entrosamento narrativo entre o colectivo e o individual e essa alternância volta a ser um elemento distintivo em "120 BATIMENTOS POR MINUTO", mas fica a sensação de que o primeiro elemento é mais conseguido do que o segundo.

 

Apesar de contar com um elenco uniformemente credível, Campillo não tira grande partido de alguns actores e personagens (como a de Adèle Haenel, uma das revelações francesas dos últimos anos), entregando o protagonismo a um relacionamento amoroso que, embora envolvente, não acrescenta muito a tantos outros filmes LGBTQ - sobretudo àqueles marcados pelos dramas da sida, como o também relativamente recente "Um Coração Normal", de Ryan Murphy, que até era menos disperso e mais complexo no retrato íntimo.

 

O argentino Nahuel Pérez Biscayart, que já se tinha destacado em "Glue", de Alexis dos Santos, e "Je Suis à Toi", de David Lambert, exibidos em Portugal no festival Queer Lisboa, impõe-se de vez como actor a seguir na pele de um activista tão revoltado quanto vulnerável, ainda que o arco da sua personagem não se desvie dos moldes de "filme de doença" (por muito que o realizador tente fintar esse conformismo com uma cena "crua" num quarto de hospital, entre outras), e por isso "120 BATIMENTOS POR MINUTO" acaba por não ser uma experiência tão desafiante na segunda metade - e as quase duas horas e meia chegam a acusar a duração em algumas sequências, impressão confirmada na recta final.

 

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Entre as acções de protesto nas ruas, escolas ou laboratórios e o drama conjugal de câmara, Campillo encontra ainda espaço para a descompressão na pista de dança, com o hedonismo dos corpos entregue à música electrónica e ao hino synthpop "Smalltown Boy", clássico dos Bronski Beat pioneiro na abordagem à temática gay (com enfoque na marginalização) em terreno mainstream.

 

A nível formal, estes episódios são alguns dos mais inventivos do filme, com a fuga para a frente das personagens a ter cruzamentos inesperados com o lado mais clínico desta história num cenário nocturno. Só é pena que a fusão vá perdendo o impacto à medida que é repetida, com ligeiras variações que não disfarçam o cansaço do modelo. Não é que "120 BATIMENTOS POR MINUTO" não conte com mais imagens fortes, com menção inevitável para uma vista do Sena inédita e arrepiante, mas Campillo mostrava outra capacidade de manter essa energia visual (e até emocional) em "Eastern Boys", filme mais livre e imprevisível. O estatuto de cineasta a ter debaixo de olho, no entanto, não sai beliscado num drama ainda pessoal e transmissível q.b. - e nos seus melhores momentos, urgente como pouca oferta a chegar às salas este ano.

 

3/5

 

 

Coragem debaixo de fogo

Ainda há heróis e "SÓ PARA BRAVOS" sabe como relembrá-los e homenageá-los partindo da história verídica de um grupo de bombeiros, num daqueles casos de equilíbrio feliz entre um argumento coeso, actores nos quais se acredita e um realizador a garantir que o fogo nunca se torna de artifício.

 

Só Para Bravos

 

Dificilmente se adivinharia que, depois da sequela "TRON: O Legado" (2010) e do muito curioso "Esquecido" (2013), Joseph Kosinski viria a trocar os cenários de ficção científica por um drama inspirado em factos reais, mas ainda assim a depender consideravelmente da tecnologia para colocar a ameaça em jogo. Não que a presença de efeitos especiais seja tão evidente desta vez, e essa discrição é logo uma das qualidades de um filme que opta sempre por se concentrar nas personagens em vez de temperar a acção com pirotecnia gratuita.

 

É verdade que as muitas sequências de incêndios que se estendem por largos quilómetros são prova de um reforço digital tão determinante como invulgarmente verosímil - sobretudo ao lado da espectacularidade ostensiva de tantos produtos de Hollywood -, mas "SÓ PARA BRAVOS" também mostra um realizador capaz de dar peso dramático a essas situações em vez de se contentar com o papel de mero tarefeiro.

 

2257471 - ONLY THE BRAVE

 

Partindo de um artigo da revista GQ, Kosinski recorda aqui os Granite Mountain Hotshots, unidade de bombeiros do Arizona que se debateu com um fogo florestal especialmente terrível em 2013, catástrofe que acaba por ter ecos nos incêndios de um Verão português tão trágico como o deste ano. A homenagem que o filme faz é, de resto, extensível a outros profissionais que, como os deste caso, são ou foram um exemplo de dedicação ao colocarem a vida em risco pela segurança da sua comunidade. Só que se noutras mãos o resultado poderia cair num relato de altruísmo cego e idealismo exacerbado, este destaca-se como um drama capaz de escapar aos moldes mais simplistas.

 

Se por um lado esta história é mais uma que nasce do encontro entre um veterano e um novato, com o primeiro a ter uma vida pessoal quase inexistente (ou que só sobrevive graças à insistência da companheira) e com o segundo na pele de perdedor mal acolhido pelo novo clã (e com direito a um colega particularmente desconfiado), por outro "SÓ PARA BRAVOS" consegue tornar singulares as inquietações e dilemas dos seus protagonistas. Até porque são protagonistas de corpo inteiro, com motivações menos óbvias do que podem parecer à partida: é o caso do chefe de bombeiros encarnado por Josh Brolin, cuja relação com a personagem de Jennifer Connelly é um dos pilares dramáticos do filme em vez de se ficar pelo elemento apenas funcional.

 

Só para Bravos 3

 

Brolin e Connelly são, de resto, uma dupla magnética e na qual facilmente se acredita, tendo aqui dos seus melhores desempenhos dos últimos anos. E felizmente nem são excepção num elenco que inclui ainda Miles Teller, cada vez mais uma confirmação do que uma promessa e com mais um exemplo de versatilidade, e secundários como Jeff Bridges, Taylor Kitsch ou Andie MacDowell (embora esta seja desaproveitada).

 

O acerto da direcção de actores é determinante tendo em conta que a recta final de "SÓ PARA BRAVOS" não será uma grande surpresa, e não necessariamente só para quem estiver a par do destino da primeira brigada de segunda classe dos EUA a conseguir estatuto de brigada especial florestal. Mas o que está para trás, ou mesmo a sobriedade do desenlace, não se limita a funcionar como hagiografia e alia as melhores intenções a outros méritos, entre eles a bela banda sonora de Joseph Trapanese, também ela a respeitar as personagens e as situações sem nunca se tornar intrusiva (uma lição para compositores como o cada vez mais bombástico Hans Zimmer e os realizadores que os recrutam).

 

Depois do também recente "Stronger - A Força de Viver", é bom dar conta que a dramatização de casos verídicos entre o heroísmo e a tragédia pode ter mais cinema do que o que sugere à primeira vista.

 

3,5/5

 

 

O lado selvagem

"O QUADRADO" confirma o interesse de Ruben Östlund por situações-limite, falhas morais e humor truculento, mas apesar do embalo da Palma de Ouro em Cannes, o novo filme do realizador sueco tem tanto de estimulante como de frustrante.

 

O Quadrado

 

Apresentado a um público mais vasto ao quarto filme, o bem recomendável "Força Maior", há três anos, Ruben Östlund tem despertado atenções ainda maiores com o seu ensaio mais recente, e novamente cínico q.b., sobre as assimetrias e hipocrisias do mundo ocidental contemporâneo.

 

Mas se a fita anterior era um drama (polvilhado por alguma comédia negra) relativamente contido e conciso, não falta pompa e circunstância a "O QUADRADO", obra com uma estrutura mais fragmentada e episódica e uma ambição formal e temática reforçada.

 

Do fosso entre o individualismo e o altruísmo ao olhar sobre tendências da arte moderna, passando pela crise migratória, pelos limites do politicamente correcto ou por um retrato das relações laborais e familiares, não faltam temas da ordem do dia, cujo aglomerado deve ter contado alguma coisa para distinções como a da mais recente edição do Festival de Cannes.

 

O Quadrado 3

 

Sim, este é um relato muito do seu (nosso) tempo e Östlund faz questão de salientar que também tem muito a dizer. Mas o que diz, ou a forma como opta por o dizer, nem sempre é tão interessante, desconcertante ou consequente como parece querer dar a entender.

 

Mesmo que não faltem aqui cenas inspiradas, no seu melhor "O QUADRADO" não chega a ser tão astuto nem incisivo como os episódios mais memoráveis de "Força Maior", por muito que o realizador tenha pontaria para vinhetas dominadas pelo sarcasmo e desconforto.

 

Sequências como as que se atiram, sem reservas, a uma suposta sátira aos ridículos da arte contemporânea não são tão subtis nem originais como se esperaria, e os resultados tornam-se ainda mais irregulares quando, noutros momentos, Östlund trata os refugiados como marionetas do seu ensaio com qualquer coisa de laboratorial (ainda que o filme acabe por assumir essa limitação mais à frente).

 

O Quadrado 2

 

Por outro lado, os desequilíbrios são parcialmente compensados quando "O QUADRADO" acaba por ser menos obstinadamente misantrópico do que o que sugere na primeira metade, já que o quotidiano conturbado do protagonista, o curador de arte de um museu, vai encontrando um caminho humanista no meio da frieza emocional. E à medida que a personagem, bem encarnada por Claes Bang, se vai revelando ambígua e complexa, o realizador distancia-se dos habitualmente comparados Lars Von Trier ou Michael Haneke, muito mais implácáveis e pessimistas quando mergulham na condição humana.

 

Curiosamente, "O QUADRADO" até chega a ser mais contundente e ácido nos pequenos momentos e detalhes do quotidiano, como o de uma esclarecedora conversa a dois sobre assédio sexual, do que nas muito comentadas longas sequências, caso daquela que desmascara o animal social num jantar de gala da elite supostamente esclarecida. Östlund quer tanto impor-se como agente provocador que às vezes se perde em sublinhados num filme que ultrapassa, desnecessariamente, as duas horas de duração, mesmo que deixe um desafio que se segue sempre com alguma curiosidade.

 

3/5