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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Quando se regressa em boa forma

Ao ir do confronto ao conforto, "QUANDO SE TEM 17 ANOS" não anda longe de outros dramas boy meets boy mas também vai comprovando que quem sabe nunca esquece: é um belo regresso de André Téchiné às salas nacionais.

 

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A história de dois adolescentes cuja relação começa em modo conflituoso e que aos poucos se vai tornando próxima, com a amizade a abrir caminho para algo mais, não será território novo nem no cinema queer em geral nem no de André Téchiné em particular. Afinal, essa já era a premissa de um dos filmes mais amados do realizador francês, "Os Juncos Silvestres", há mais de 20 anos (estreou em 1994), drama que inspirou outras abordagens ao despertar (homos)sexual e que é difícil não relembrar ao seguir os protagonistas de "QUANDO SE TEM 17 ANOS".

 

Mas se o ponto de partida é semelhante, voltando até a contrastar dois rapazes de um meio pequeno (uma localidade nos Pirinéus franceses) com origens sociais distintas, e se o argumento volta a guiar-se por uma narrativa clássica (novamente pautada pelo ritmo das estações do ano), o resultado ainda consegue oferecer uma frescura e desenvoltura que não são de deitar fora. 

 

O cineasta veterano (já com 74 anos) continua a ser capaz de assinar dramas credíveis e de uma subtileza mais evidente do que outros retratos comparáveis, com a atmosfera realista a traduzir-se através de uma conjugação fluída de cenários e personagens, diálogos e atenção ao pormenor.

 

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Desta vez, Téchiné tem entre os colaboradores Céline Sciamma, autora de outros olhares singulares sobre a adolescência ("Naissance de pieuvres", "Maria-rapaz", "Bando de Raparigas") e talvez uma das principais responsáveis para que "QUANDO SE TEM 17 ANOS" esteja uns furos acima de alguns títulos do realizador dos últimos anos (como o apenas competente "O Homem Demasiado Amado", de 2014).

 

Sem tentar ser um corte ou uma viragem, é sobretudo um drama sólido alicerçado nos desempenhos dos jovens Corentin Fila e Kacey Mottet Klein, convincentes num antagonismo e intimismo à flor da pele, mas também no de uma Sandrine Kiberlain tão hilariante como comovente na pele de mãe de um dos protagonistas - e que acaba por ser a principal instigadora do novelo dramático, mesmo que o seu altruísmo sem reservas quase force a suspensão da descrença do espectador.

 

A entrega dos actores e o espaço que Téchiné lhes dá ajudam a compensar alguma falta de risco, sobretudo no desenvolvimento da dinâmica dos dois adolescentes, ainda que a abordagem ao bullying escape aos contornos mais expectáveis. Já um evento trágico que abre caminho para um reencontro é demasiado telegrafado e nada incomum em histórias sobre o crescimento, por muito que o filme até o aproveite para um mergulho mais profundo nas personagens e na forma como se relacionam.

 

Limitações ocasionais como essa fazem de "QUANDO SE TEM 17 ANOS" um drama quase sempre mais agradável do que especialmente apaixonante, mas é difícil não reconhecer um regresso em forma de um realizador que deveríamos ver mais vezes nas salas.

 

3,5/5

 

 

"QUANDO SE TEM 17 ANOS" foi um dos filmes da 21ª edição do Queer Lisboa e tem estreia nacional agendada para 26 de Outubro.

 

O corpo de Jennifer

Depois dos jogos da fome, um jogo de massacre? Não parece haver grande programa em "MÃE!" além da humilhação (calculista e recorrente) da personagem de Jennifer Lawrence, por muito que Darren Aronofsky tente abrir o filme a todo o tipo de leituras.

 

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O início até nem é desinteressante. Concentrando a acção numa casa isolada, habitada por um casal, "MÃE!" arranca com uma mistura curiosa de drama conjugal árido, doses moderadas de humor escarninho e sugestões de terror psicológico, a deixar no ar que esse olhar contido sobre a esfera íntima não deverá manter-se por muito tempo.

 

Ao arrancar com a crónica da relação entre um escritor reputado em bloqueio criativo e uma mulher exclusivamente dedicada ao marido e ao lar, o novo filme de Darren Aronofsky vai colocando em jogo um olhar intrigante q.b. sobre as dinâmicas de um relacionamento, e não demora muito a apontar quem domina e quem se deixa subjugar (ou não se consegue impor). Essa ideia sai reforçada à medida que a casa vai acolhendo cada vez mais visitas, todas inesperadas, que colocam em causa a (aparente) calmaria inicial.

 

A personagem de Jennifer Lawrence, na qual a câmara se concentra, vai guiando o espectador enquanto se torna alvo crescente de pequenas humilhações, mas o que parte de uma revisão especialmente assombrada da Gata Borralheira acaba vítima de um efeito bola de neve sem travão à vista, que desaproveita o esforço da actriz. E o desempenho não chega a ir muito além do esforço porque o argumento não deixa que Lawrence componha uma personagem de corpo inteiro, embora sempre lhe ofereça mais do que ao resto do elenco.

 

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Javier Bardem, cujo percurso recente tem alternado entre o latino de serviço e caricaturas excêntricas, deixa uma interpretação a milhas do magnetismo de outros tempos (qual foi o seu último grande papel, mesmo?). De Ed Harris, então, dificilmente alguém se lembrará no final do filme. E Michelle Pfeiffer, embora num convincente modo vamp, parece ter ido passear às gravações enquanto bebia uma limonada e atirava umas farpas a Lawrence.

 

Aos poucos, vai ficando claro que "MÃE!" se interessa mais por figuras simbólicas do que propriamente por pessoas, opção que compromete o investimento emocional ainda possível durante a primeira metade mas difícil de manter na segunda. Quando Lawrence se sujeita a marioneta acumuladora de flagelos (não bastou o DiCaprio de "The Revenant: O Renascido", no ano passado?), a sucessão de episódios caóticos e prontos a inquietar e indignar sujeita-se a ter reacções entre o bocejo e o encolher de ombros.

 

É verdade que este tipo de abordagem não é inédito na filmografia de Aronofsky. Só que se "A Vida Não é um Sonho" até podia ser acusado de montra de miserabilismo pornográfico, também tinha uma energia formal rara associada ao desempenho e personagem inesquecíveis de Ellen Burstyn. O romantismo maior do que a vida de "O Último Capítulo" podia ser datado e ingénuo, mas Hugh Jackman e Rachel Weisz atiravam-se de cabeça a essa ambição - complementada por uma vertente plástica arriscada e pouco vista. E "Cisne Negro", outro retrato sinuoso de uma mulher no abismo, mantinha um equilíbrio e subtileza difíceis de gerir, no fio da navalha, dos quais "MÃE!" nunca chega a aproximar-se - se aí Aronofsky sussurava, agora grita.

 

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Não admira que o novo filme "arrojado", "provocador" e "polémico" de Aronosfky esteja a alimentar tanta discussão. Parece ter sido talhado para isso, abrindo a porta a todo o tipo de projecções e alegorias quando impõe a tentativa de ensaio civilizacional ao drama das personagens - das óbvias referências bíblicas a possíveis analogias com temáticas que vão do fascínio pela fama a alertas ambientais, passando pela crise dos refugiados ou (porque não?) pela América de Trump.

 

Só é pena que esse debate parta de uma obra cuja lógica de vale tudo a atira para a lista de filmes que se auto-destroem depois do intervalo (a lembrar outras desilusões recentes como "Foge", de Jordan Pele, ou "Arranha-Céus", de Ben Wheatley, curiosamente também com boa parte da acção confinada a um único espaço). E também é frustrante que visualmente o resultado seja igualmente desinspirado, sem o rasgo que ajudou a distinguir a filmografia de Aronofsky (pelo contrário, até tem algum do CGI menos credível de uma grande produção nos últimos tempos). Distinção, de resto, é o que menos há em "MÃE!": de "A Semente do Diabo", de Roman Polanski, a "Dogville", de Lars Von Trier, já vimos o que aqui se diz e mostra feito por outros, e bem melhor. O sacrifício de Jennifer Lawrence foi mesmo em vão.

 

1,5/5

 

 

 

Livre, leve e solto

Entre a lei do mercado as leis do desejo, "CORPO ELÉTRICO" encontra um espaço próprio tanto no cinema brasileiro recente como nas narrativas LGBTQI. E o olhar de Marcelo Caetano, na sua estreia nas longas-metragens, escolhe o optimismo à angústia sem trair a vertente de realismo social.

 

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Tendo em conta que é assinado por alguém que já colaborou em filmes como "Aquarius", de Kleber Mendonça Filho, ou "Tatuagem", de Hilton Lacerda - como co-argumentista ou assistente de realização - e que já tem curtas de ficção e documentais no currículo, não surpreende que "CORPO ELÉTRICO" tenha uma fluidez e segurança invulgares numa primeira longa-metragem.

 

Mas há mais do que isso neste drama de Marcelo Caetano, capaz de desenhar um universo específico que tira partido do melhor dos seus colaboradores (algumas cenas longas e lânguidas com planos fixos lembram "Boi Neon", de Gabriel Mascaró, outro cúmplice anterior) enquanto vai fintando lugares comuns de retratos próximos com leveza e despretensão.

 

O filme parte do quotidiano de Elias, um estilista de 23 anos que vai apresentado o microcosmos de uma pequena fábrica têxtil de São Paulo, com a acção a concentrar-se tanto na rotina laboral como no convívio entre os trabalhadores depois do trabalho. Embora tenha uma posição hierarquicamente superior, o protagonista abraça os colegas como a família que encontrou na metrópole depois de se afastar dos pais, fazendo outras alianças pelo caminho, de um professor abastado a um grupo de travestis, sem parecer preocupar-se muito com diferenças de classe, género, etnia ou orientação sexual.

 

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Essa postura liberta de catalogações passa, de resto, pela visão do mundo que o realizador propõe, seja pelos encontros sexuais de Elias com outros homens, sem a ideia de um amor romântico à vista (e aí distinguindo-se dos mais habituais relatos boy meets boy), seja pela ausência evidente de grandes sinais de homofobia nas personagens secundárias, e nos colegas de trabalho em particular (afastando-se assim de modelos de abordagem ao coming out). 

 

"É um cenário improvável mas não impossível", defendeu Marcelo Caetano no final da sessão de "CORPO ELÉTRICO" no Queer Lisboa, no Cinema São Jorge, onde respondeu a algumas questões do público. E o filme agarra bem essa possibilidade, ainda que residual, concentrando-se em gente de carne e osso em vez de estereótipos (mesmo que o trecho centrado nas drag queens, a meio, ameace limitar-se ao retrato deslumbrado e edificante, embora com uma energia visual assinalável).

 

Uma das maiores qualidades deste olhar é mesmo a de se mostrar aberto a códigos de comportamento não-normativos (hetero ou homo) sem pretender impô-los ao espectador. A procura do amor romântico, por exemplo, não é uma meta nem sequer uma preocupação para o protagonista, mas está longe de ser repudiada ou criticada pelo filme - como uma sequência final se encarrega, aliás, de deixar claro - por muito que o realizador a aponte como imposição de muitas artes (do cinema à música, passando pela literatura).

 

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Também ajuda muito que "CORPO ELÉTRICO" consiga irradiar esse idealismo sem cair num panfleto utópico, até porque Caetano está claramente à vontade num registo realista, dando tempo e espaço aos actores e ao improviso. E se em duas ou três cenas talvez até lhes dê demasiado (alguma concisão não prejudicaria o resultado final), isso está longe de ser um problema quando oferece, de forma tão espontânea e contagiante, uma atmosfera de convívio, partilha e comunhão - o antídodo para o cansaço, os abusos laborais (ainda que com capa diplomática) ou os acessos de solidão que não deixa de documentar.

 

Uma sequência de antologia, com um travelling no início de uma saída nocturna de Elias e dos colegas (dominada por uma profusão de rostos e conversas), é um dos melhores exemplos disso mesmo enquanto explica a inspiração do filme no título no poema "I Sing the Body Electric", de Walt Whitman. Aí, "O CORPO ELÉTRICO" dá o salto do individual para o colectivo e mais tarde, no desfecho, mostra que, como dizia a canção, o corpo é que paga (a festa). Mesmo que uns paguem mais do que outros, como o estatuto relativamente privilegiado de Elias se encarrega de garantir, apesar de tudo.

 

3,5/5

 

 

"CORPO ELÉTRICO" é um dos filmes em competição no Queer Lisboa, que decorre até 23 de Setembro no Cinema São Jorge.

Caminho para a salvação

Ancorado numa das melhores interpretações de James Franco, "O MEU NOME É MICHAEL" adapta uma história verídica que parte de um conflito interior entre espiritualidade e (homos)sexualidade. A viagem identitária é irregular, mas recompensadora.

 

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Quando boa parte do cinema LGBTI ainda insiste em repetir variações sobre relatos coming out ou boy meets boy, a estreia de Justin Kelly nas longas-metragens tem desde logo a vantagem da premissa.

 

A vida de Michael Glatze, activista e jornalista gay com um percurso marcado pela defesa dos direitos homossexuais (incluindo a criação de uma publicação temática) que acabaria por se tornar num pastor cristão fundamentalista, é um ponto de partida aliciante para um biopic. O nome de Gus Vant Sant na produção executiva também é promissor. E o elenco, encabeçado por um James Franco surpreendente ao lado dos confiáveis Zachary Quinto e Emma Roberts, ajuda ainda mais.

 

Mesmo assim, "O MEU NOME É MICHAEL" é daqueles casos em que a execução fica uns furos abaixo do mote, a que não será alheio o facto de se tratar de uma primeira obra. Baseado num artigo da The New York Times Magazine escrito por Benoit Denizet-Lewis, antigo amigo do protagonista, o filme tem sido criticado, e com alguma razão, pela vertente demasiado episódica ou pela narração em off (sobretudo na primeira metade). Mas se estes recursos são duas das maiores limitações de dramas biográficos, aqui quebram algum do potencial sem retirarem a força de um estudo de personagem atípico.

 

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O olhar digressivo sobre vários anos do retratado impede que algumas fases sejam tão explorados como mereciam, embora não comprometa a espiral descendente que o desempenho de James Franco ajuda a tornar credível e suficientemente inquietante - e a voz off até se perdoa quando é uma porta de entrada para os posts do blog de Glatze, aos quais o realizador recorre de forma comedida.

 

Além da pontaria para o tema e elenco, o maior trunfo de Justin Kelly é a resistência a maniqueísmos numa história que poderia ser facilmente reduzida a um tom sensacionalista ou a um panfleto LGBTI. "O MEU NOME É MICHAEL" opta pela empatia e pela ambiguidade, mantendo o espectador ao lado do protagonista sem se conformar com um relato acrítico - pelo contrário, é bastante directo ao apontar a estranheza que vai dominando Glatze na segunda metade do filme, tendo o mérito adicional de contar com um actor capaz de a agarrar sem histrionismos.

 

Do tom inicial mais garrido, vincado por uma montagem electrizante q.b. e uma intromissão documental oportuna, até à implosão que se segue no confronto com a vertigem da morte, o retrato acaba por conseguir traduzir a visão de um homem cuja necessidade de pertença surge atormentada pela dúvida e pela fuga obstinada a rótulos, sejam religiosos ou sexuais. E enquanto acompanha o seu desespero ao tentar conjugar dois mundos aparentemente incompatíveis, apresenta um realizador interessado em dar novos mundos ao cinema queer (como "King Cobra", o filme seguinte, também com James Franco, confirmou no ano passado - embora tenha chegado a Portugal apenas pela Netflix).

 

3/5