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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Regresso à casa de partida

Alison_Moyet

 

Há quatro anos, com "The Minutes", ALISON MOYET não só regressou à pop electrónica - que a tornou célebre nos tempos dos Yazoo - como assinou um dos álbuns mais elogiados do seu percurso a solo.

 

No próximo mês, dia 16, a britânica edita o disco sucessor, "Other", já o nono de uma carreira em nome próprio iniciada em 1984. Talvez motivada pelo bom acolhimento do registo de 2013, volta a colaborar com Guy Sigsworth, produtor que já tinha ajudado Björk ou Madonna a darem alguns passos importantes em terreno sintético.

 

Moyet descreve "Other" como "um álbum de pop electrónica inteligente e aventureira" que parte do seu papel cada vez mais de observadora à medida que se vai instalando na meia idade. Depois de ter revelado a faixa-título há uns meses, aposta agora em "REASSURING PINCHES", o primeiro single oficial e uma canção talvez mais representativa do disco, uma vez que está mais ancorada na synthpop - embora os sintetizadores nunca cheguem a ofuscar uma voz ainda reconhecível e imponente:

 

 

Manifesto synthpop

O disco mais assumidamente político dos AUSTRA não submete as canções à mensagem. "FUTURE POLITICS", o terceiro álbum dos canadianos, é tão livre e pessoal no mergulho na pop electrónica como os anteriores - mesmo quando não é tão imediato.

 

austra_2017

 

Tendo em conta que Katie Stelmanis apontava textos de economistas e filósofos entre as pistas para o terceiro álbum da sua banda, centrado em alternativas às previsões mais distópicas de tempos conturbados, poderia supor-se que "FUTURE POLITICS" seria ainda mais denso do que os antecessores, "Feel It Break" (2011) e "Olympia" (2013). Para não dizer mais pesadão, dada a lógica relativamente conceptual e ambiciosa de um alinhamento com uma postura política mais pronunciada.

 

O resultado, no entanto, parece ser antes um caso de evolução na continuidade do que uma viragem radical na identidade do quarteto canadiano, o que são boas notícias quando o caminho até aqui o colocava entre as forças mais aconselháveis da pop electrónica surgidas nesta década.

 

Longe de oferecer um ensaio exaustivo sobre os tempos que correm, "FUTURE POLITICS" vai pontuando as canções com ocasionais sinais de alerta na linha do que já se ouvia nos antecessores, como aliás os primeiros singles também sugeriram: "Utopia", uma balada cristalina e esperançosa com um olhar comunitário, e a faixa-título, mais dançável, urgente e ressentida (farpas como "I'm not a coward like them/ I don't need more money" podiam ser banda sonora de muitos casos de colarinho branco, do Canadá a Portugal). 

 

austra_future_politics

 

Estes dois temas de avanço, ao anteciparem o álbum de forma tão inspirada, também acabam por ser responsáveis por alguma desilusão às primeiras audições, uma vez que o alinhamento não conta com outros momentos que agarrem de forma tão imediata - sobretudo na segunda metade, talvez o segmento mais cerebral de um álbum dos Austra. E isso nem se deve à eventual costela política de algumas canções, antes a uma sonoridade que não dispara tantos hinos para a pista de dança como Katie Stelmanis tinha garantido há uns meses.

 

Nesse aspecto, "FUTURE POLITICS" não é um disco assim tão certeiro para os dias acelerados de hoje. É daqueles que pedem tempo e reclamam atenção, esforço devidamente recompensado pela labriríntica e propulsiva "Freepower", pela house dopada e sinuosa de "43" e sobretudo pela alquimia synth pop de "Gaia" (com uma voz operática a brilhar como nunca antes no final) e a mais introspectiva e etérea "Beyond a Mortal" (a sugerir as pistas que Grimes podia ter seguido no último álbum).

 

Muito bem produzido, este é ainda dos discos que encorajam audições com auscultadores, a melhor opção para ir desvendado as camadas destas texturas, da espiral claustrofóbica de "I'm a Monster" à electropop borbulhante de "I Love You More Than You Love Yourself". E se na composição nem sempre arrebata tanto, deixa mais um capítulo estimável de um percurso que se tem mantido consistente e coerente. Para discografias como esta, o futuro não é menos do que promissor...

 

 

 

Beleza americana

juanita_stein

 

Enquanto os Howling Bells mantêm o pousio criativo desde "Heartstrings", de 2014, a vocalista dos australianos tem andado ocupada com o seu disco de estreia a solo.

 

JUANITA STEIN já tinha dado a ouvir "Stargazer", o primeiro avanço, em finais do ano passado, e esta semana anunciou o título e data de lançamento do álbum. "America" tem edição prevista para 28 de Julho e parte de uma visão idealizada dos EUA, inspirada por cenários do imaginário dos anos 50 e 60 e canções de nomes como Patsy Cline, Roy Orbison ou Dusty Springfield.

 

"DARK HORSE", o novo tema que abre caminho para o disco, mantém o embalo folk do anterior e convoca imagens do interior norte-americano. Não por acaso, o videoclip, de tons sépia, foi gravado no Texas, durante a passagem da cantora pelo festival SXSW há poucos meses:

 

 

Entre a melancolia e a festa, o melhor e o nem por isso

Placebo_Foto de Rita Sousa Vieira

 

Vale a pena celebrar os 20 anos do álbum de estreia dos PLACEBO - e por arrasto, da carreira da banda? Claro que sim, mas Brian Molko e Stefan Osdal fizeram uma revisitação tímida dos seus primeiros discos, esta semana em Lisboa, num concerto que também contou com o pior (leia-se canções mais recentes) do grupo. Recordo a noite no Coliseu dos Recreios neste artigo do SAPO Mag.

 

Ataque ao poder

algiers

 

De uma assentada, os ALGIERS estrearam o novo single e videoclip e ainda anunciaram o disco que a canção apresenta. "THE UNDERSIDE OF POWER", o segundo álbum da banda de Atlanta, está agendado para 23 de Junho. E se mantiver a linha do tema homónimo parte directamente de onde "Algiers" tinha ficado em 2015, com um caldeirão (quase sempre e escaldar) de rock, soul, pós-punk, gospel e condimentos industriais.

 

O disco do trio tornado quarteto (com a adição de Matt Long, ex-baterista dos Bloc Party) tem Adrian Utley, dos Portishead, entre os produtores enquanto que Randall Dunn, dos Sunn O))), assegura a mistura. Por agora, tanto um como o outro parecem dedicados em manter a urgência e intensidade do grupo, num single flamejante e de refrão orelhudo que abre a porta para canções inspiradas na violência e racismo da cidade natal do projecto ou no desnorte europeu pós-Brexit (registado a partir de Londres, onde reside parte da banda).

 

As imagens de "THE UNDERSIDE OF POWER" reforçam ainda mais a consciência social que os Algiers já demarcavam na estreia, alternando entre uma narrativa com o grupo na pele da resistência num bunker e excertos saídos dos arquivos da luta pelos direitos civis. Se a música ainda é uma arma, pode vir aí uma das granadas do ano:

 

 

 

A senhora dança (e faz dançar)

goldfrapp_2017

 

Saudades de "Black Cherry" (2003) e "Supernature" (2005)? Os GOLDFRAPP parecem ter algumas e arrancam o novo álbum, "Silver Eye", com canções que não destoariam nos seus dois discos mais electrónicos e dançáveis.

 

Além de faixa de abertura, "Anymore" foi o primeiro single, com uma eficácia para as pistas que o duo britânico não mostrava há muito. "SYSTEMAGIC" segue-lhe os passos noutro acesso pulsante e contagiante, com Alison Goldfrapp a revisitar a faceta de diva electro depois dos cenários mais serenos de "Tales of Us" (2013) enquanto Will Gregory prova que não perdeu a mão para ambientes hedonistas.

 

Hedonismo, de resto, é o que não falta no videoclip do tema, acabado de estrear e dirigido pela própria cantora. Centrado numa coreografia de illyr, nome em ascenção no universo das artes de palco, leva mais longe as ideias cénicas já apresentadas pela dupla ao vivo no programa "Later... with Jools Holland", há poucos dias, e faz lembrar os híbridos de música e imagem dos extintos Kazaky. Entretanto também lembra que os Goldfrapp não actuam em Portugal há uns tempos e que não era nada mau vê-los nesta digressão - até porque grande parte de "Silver Eye" está facilmente entre o melhor que já fizeram.