Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Os limites do controlo

Andy_Butler

 

Os HERCULES & LOVE AFFAIR já marcaram 2017, por cá, com a actuação no Lisboa Dance Festival há poucas semanas. Além de clássicos de álbuns anteriores, um dos temas que fez a festa foi o primeiro avanço do próximo, "CONTROLLER", acolhido sem grandes hesitações pelo público da LX Factory.

 

Colaboração com Faris Badwan, vocalista dos The Horrors e Cat's Eyes (um dos muitos convidados do novo registo), o single mantém a mistura de house e disco habitual no projecto de Andy Butler mas é consideravelmente mais negro do que alguns antecessores, ao mergulhar numa espiral de dominação e submissão com moldura rítmica tão ou mais insinuante.

 

Faz sentido, por isso, que o videoclip também partilhe essa atmosfera, através de olhares sobre vários quartos cujos ocupantes são alvo de sugestões S&M ou de variações sobre alguns filmes e séries claustrofóbicos q.b. (de "Poltergeist" a "Quarto", passando por "American Horror Story"). Esses ambientes, mais densos do que eufóricos, parecem ser mesmo a marca da nova fase da banda nova-iorquina: já tinha sido assim nas canções inéditas do último concerto lisboeta e Butler tem reconhecido o momento de viragem do álbum que deverá chegar em Julho. Por agora, a curiosidade está devidamente atiçada:

 

 

Ainda há luz nestas canções

compact_disk_dummies

 

Depois de terem sido uma das boas revelações do ano passado, com um álbum de estreia promissor e contagiante, os COMPACT DISK DUMMIES continuam a apostar nas canções de "Silvers Souls". E ainda bem, já que muitas faixas da dupla belga têm potencial de single e merecem ser recuperadas para a banda sonora de mais um Verão, que até parece ter chegado mais cedo.

 

É o caso de "REMAIN IN LIGHT", colaboração dos irmãos Janus e Lennert Coorevits com um coro infantil baseada num jogo de luz e sombra que também passa para o videoclip. Os pequenos colaboradores juntam-se às imagens, nas quais os elementos da dupla surgem como eventuais parentes dos synths da série "Humans", a sublinhar a aproximação à ficção científica desta pop electrónica quase sempre dançável. Um bom pretexto para voltar (re)descobrir o álbum enquanto não surgem notícias de um sucessor:

 

 

Fundo de catálogo (107): The Chemical Brothers

Antes de "Hey Boy Hey Girl", antes de "Star Guitar", muito antes de "Galvanize" houve "Block Rockin' Beats", tema de abertura do disco que levou os CHEMICAL BROTHERS para outra divisão. "DIG YOUR OWN HOLE", o segundo álbum da dupla britânica, tornou Ed Simons e Tom Rowlands nos maiores embaixadores do big beat na década de 90, ao lado dos Prodigy e Fatboy Slim, e é um dos clássicos que chega aos 20 anos em 2017.

 

dig_your_own_hole

 

É verdade que "Exit Planet Dust" (1995) já tinha aberto caminho para que o duo ganhasse lugar na produção electrónica desse tempo, sobretudo pela aproximação dos universos do rock, do hip-hop e da música de dança, mas a segunda investida teve outros contornos criativos e sobretudo mediáticos.

 

Afinal, foi com o álbum lançado a 7 de Abril de 1997 que os dois produtores de Manchester saltaram da Junior Boy's Own, editora mais assoaciada à música de dança, para uma fábrica de blockbusters como a Virgin, ou que chegaram ao lugar cimeiro do top britânico em dose dupla, com os singles "Setting Sun" e "Block Rockin' Beats". O primeiro tema até teve direito a um convidado de luxo, Noel Gallagher, que em plena fase áurea dos Oasis encontrou espaço na agenda para colaborar com a dupla depois de ter insistido para dar voz a uma das canções do disco - e também depois de se ter viciado no álbum anterior, e em especial na brilhante "Life Is Sweet", com a participação de Tim Burgess, dos Charlatans.

 

 

A guest list de "DIG YOUR OWN HOLE" não é das mais recheadas da discografia dos Chemical Brothers, mas dá conta dos horizontes que teriam outra ambição nos anos seguintes.

 

Kool Herc reforça a vénia da dupla ao hip-hop no colosso "Elektrobank", com videoclip icónico realizado por Spike Jonze em torno das acrobacias de uma muito jovem Sofia Coppola. No extremo oposto, Beth Orton consegue ser graciosa enquanto lida com uma ressaca no arranque quase bucólico de "Where Do I Begin", dando um segundo passo, depois da participação em "Exit Planet Dust", para se tornar na cúmplice mais habitual do duo. E Jonathan Donahue, vocalista dos Mercury Rev, toca clarinete no grande final a cargo de "The Private Psychedelic Reel", instrumental épico de quase  dez minutos e ainda um dos maiores prodígios de ritmos, melodias e texturas dos Chemical Brothers.

 

 

O início do alinhamento não é menos portentoso, com "Block Rockin' Beats", que apesar de alguma saturação ainda está entre os picos do big beat - tal como está a esquecida faixa-título, logo a seguir, cuja gestão de batidas faz sombra a muita produção EDM demasiado celebrada nos últimos anos.

 

A pista de dança impõe-se como destino de forma ainda mais demarcada na sequência de "It Doesn't Matter", "Don't Stop the Rock" e "Get Up on It Like This", cuja mescla techno, house e funk não sairá tão favorecida em audições caseiras mas dá conta da perícia de Rowlands e Simons na mistura e colagens. E ajuda a deixar claro o papel de "DIG YOUR OWN HOLE" na electrónica mais cinética do seu ano, ao lado de "Homework", dos Daft Punk, ou "The Fat of the Land", dos Prodigy, outros álbuns que não perderam a frescura depois da maioridade.

 

Dar o corpo ao manifesto

dream_wife_2017

 

"I am not my body/ I am somebody", insiste Rakel Mjöll no novo single das DREAM WIFE, sucessor natural da postura feminista de uma banda que aqui também parece olhar para questões da identidade de género. E se a letra de "SOMEBODY" se debruça sobre o corpo, a música provoca-o com o fraseado e atitude da vocalista, bem acompanhada por guitarras de alma pós-punk.

 

Um ano depois de "EP01", de temas como "Loilta" e a caminho do álbum de estreia, a canção deixa novos motivos para ir seguindo o trio de duas britânicas e uma islandesa, cujo revivalismo soa mais emplogante do que o de outras descendências do rock alternativo dos anos 80. Já o videoclip deixa a ideia de que essa garra é ainda mais imponente em palco, o que ajuda a explicar o burburinho em festivais como o SXSW:

 

 

A solo, mas solidária

marnie_2017

 

"Where's the revolution? Come on, people, you're letting me down", questionam e desabafam os Depeche Mode no primeiro single do seu novo álbum. "Is there anybody out there speaking the truth? Don't believe what they tell you", dispara por sua vez Helen MARNIE, uma das vocalistas da banda que melhor tem seguido os passos, neste milénio, da escola da pop electrónica que Dave Gahan e companhia ajudaram a criar há quatro décadas.

 

Mas enquanto os Ladytron não anunciam um sucessor para o já distante "Gravity the Seducer" (2011), um dos seus elementos já vai a caminho do segundo álbum em nome próprio. Como sugere o novo single, "LOST MAPS", o alinhamento do disco que se segue a "Crystal World" (2013) e está previsto para 2 de Junho é mais político, desde logo no título, "Strange Words and Weird Wars". E se o cartão de visita anterior, o brilhante e irresistível "Alphabet Block", não o deixava muito evidente, a letra da nova aposta é bem mais esclarecedora.

 

"Is anybody out there looking for you? Do they know what you've been through?", pergunta Marnie, e as frases ganham outra ressonância no videoclip, com inspiração directa na crise dos refugiados. Tal como os Depeche Mode, a britânica arrisca medir o pulso do clima social sem adiantar grandes soluções, mas nem eram necessárias imagens para a canção ganhar um sentido de urgência assinalável: basta a marcha synthpop, imponente e infecciosa, e uma voz que continua a ser das mais confiáveis destes tempos entre texturas electrónicas: