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Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

35 de 2016

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O semestre foi delas. Ou assim parece ao recordar o melhor de 2016 no cinema, na TV e nos discos que foram chegando durante os primeiros meses. É o caso do regresso de PJ Harvey, mais uma vez com o álbum certo na altura certa, ou das histórias com mulheres à frente e atrás das câmaras de "Mustang", "Meu Rei" ou "O Que Está por Vir". Mas também das protagonistas de "Muito Amadas", "Joy" e "Brooklyn", lado a lado com o avanço de Robin Wright no jogo de "House of Cards" (como actriz e realizadora) e o de muitas personagens femininas de "A Guerra dos Tronos". Só para contrariar, Deadpool trouxe uma injecção de testosterona na melhor fantasia masculina adolescente em forma de blockbuster, numa segunda vida de Ryan Reynolds comparável às aventuras de Tom Hiddleston e Ben Wishaw pelas sagas de espionagem, em formato minissérie. Na música, os Primal Scream, The Kills ou Dandy Warhols não foram explorar tanto território novo como Polly Jean, mas mostraram-se outros veteranos confiáveis ao longo de uma temporada sem surpresas de maior. E há mais filmes, séries, discos e canções a recordar ou descobrir por aqui, sem ordem de preferência:

 

10 FILMES

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"Brooklyn", John Crowley
"Deadpool", Tim Miller
"Ensurdecedor", Joachim Trier
"O Filho de Saul", László Nemes
"Joy", David O. Russell
"Meu Rei", Maïwenn
"Muito Amadas", Nabil Ayouch
"Mustang", Deniz Gamze Ergüven
"O Que Está Por Vir", Mia Hansen-Love
"Suburra", Stefano Sollima

 

5 SÉRIES

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"Flaked", Netflix
"O Gerente da Noite", AMC
"A Guerra dos Tronos", HBO
"House of Cards", Netflix
"London Spy", BBC Two

 

10 DISCOS

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"Ash & Ice", The Kills
"Chaosmosis", Primal Scream
"Cut and Paste", Oscar
"Distortland", The Dandy Warhols
"Kidsticks", Beth Orton
"Mirage", Digitalism
"Silver Souls", Compact Disk Dummies
"The Hope Six Demolition Project", PJ Harvey
"The Triad", Pantha Du Prince
"United Crushers", Poliça

 

10 CANÇÕES

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"100% or Nothing", Primal Scream
"Ablaze", School of Seven Bells
"Anxiety", Preoccupations
"Apathy", Night Shade
"Burn", Pet Shop Boys
"STYGGO", The Dandy Warhols
"The Wheel", PJ Harvey
"Utopia", Digitalism
"Watch Me", Anohni
"Wow", Beck

 

Investigação emocional

Ancorado num desempenho brilhante de Ben Wishaw (e numa personagem à altura), "LONDON SPY" é um thriller que joga com regras muito próprias, sem paralelos no pequeno ou no grande ecrã. Além do protagonista, Charlotte Rampling e Jim Broadbent dão pedigree à minissérie da BBC que parte para a espionagem a partir de uma relação homossexual - e está disponível por cá na Netflix.

 

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O formato de minissérie já se tinha mostrado feliz para variações a histórias de espionagem este ano, com "O Gerente da Noite", da AMC. E se aí Tom Hiddleston deixou muitos a reforçar a aposta no maior candidato a próximo James Bond, "LONDON SPY" também começa por surpreender pelo protagonista. Não que Ben Wishaw seja aqui um aparentado de 007 (até porque já tem lugar nessa saga como novo Q), mas porque o actor britânico tem um papel de grande fôlego que algumas produções de maior visibilidade nem sempre lhe permitem, com uma preponderância comparável à de Rami Malek na saga de "Mr. Robot" (e com uma personagem igualmente atirada para uma espiral de paranóia e contrastes recorrentes entre realidade e alucinação).

 

Ao ver a produção da BBC Two estreada no final de 2015, torna-se difícil pensar num nome mais adequado para dar corpo a Danny, jovem londrino cuja rotina alterna entre o dia sem grandes perspectivas num armazém e muitas noites de hedonismo desenfreado, assente em clubes nocturnos e encontros fugazes. É, de resto, na ressaca de uma madrugada de festa que o protagonista conhece Alex, cuja postura recatada e vida aparentemente disciplinada não poderia estar mais nos seus antípodas. Mas esta história que rapidamente se torna de amor dá razão a quem defende que os opostos se atraem, embora a atracção também se mostre uma armadilha ao revelar-se fatal, impondo um ambiente de suspense durante toda a minissérie.

 

O argumento de "LONDON SPY" é daqueles sobre os quais revelar pouco já pode equivaler a contar demasiado, sobretudo pela forma como Tom Rob Smith, o criador desta produção de cinco episódios (e autor do elogiado romance de espionagem "Child 44"), opta por uma viragem dramática no final do (excelente) primeiro capítulo, até então um retrato cândido de um relacionamento homossexual.

 

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Infelizmente para o protagonista, a ligação amorosa que dá mote a esta história não lhe traz só momentos de revelação emocional e de uma maior maturidade na forma como encara a vida a dois. Pelo contrário, inicia um novelo rocambolesco de supostas conspirações de contornos internacionais, para as quais o único aliado fiável parece ser Scottie - um sempre impecável Jim Broadbent. Uma das melhores qualidades da minissérie é, aliás, o modo como dá tempo e espaço à relação de amizade entre o novato e o veterano, que até se vai tornando mais interessante do que o quotidiano conjugal. Por um lado porque Wishaw tem uma química mais forte com Broadbent do que com Edward Holcroft, que encarna Alex, por outro porque o argumento torna Scottie numa das personagens LGBT mais complexas e comoventes em anos - a sequência em que relata o passado como agente secreto numa época em que a a homossexualidade não era aceite tem mais intensidade do que muitas cenas de acção de outros thrillers, deixando um nó na garganta que está longe de ser o único desta saga intimista.

 

Acrescente-se Charlotte Rampling ao elenco e fica claro que este é um thriller mais motivado por figuras de carne e osso do por uma sucessão de tiros e reviravoltas, mesmo que a actriz não tenha uma personagem tão desenvolvida para agarrar - o que não invalida que os seus diálogos com Wishaw sejam um deleite de ironia e sofisticação "very british" enquanto mergulham em fantasmas pessoais.

 

Com um ritmo pausado e meditativo, às vezes invulgarmente silencioso para uma série, e uma narrativa elíptica, longe da estrutura de procedural televisivo, "LONDON SPY" é uma aposta arrojada mas também algo frustrante quando o patamar elevado dos primeiros três episódios não tem um desenlace com a mesma força. O último capítulo, em especial, ameaça boa parte do realismo que o argumento, o elenco e a realização (de Jakob Verbruggen, de "The Fall" ou "The Bridge") tinham conseguido manter, apesar das reviravoltas. E em certas sequências a entrega de Ben Wishaw, com uma mistura de inocência, determinação e fragilidade, é mesmo a única âncora emocional de uma história que começa a beliscar demasiado a plausibilidade. É claro que mesmo assim o resultado chega a sobra para se sobrepor a muita concorrência, mas também deixa bem evidente como o óptimo pode ser inimigo do bom.

 

 

 

O Inverno já chegou, mas está quase a acabar

O fim está próximo? Pela primeira vez em seis temporadas, "A GUERRA DOS TRONOS" deixou essa sensação, o que deverá satisfazer, pelo menos, quem acusava a série da HBO de se arrastar.

 

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Não é que essas críticas não tivessem fundamento: durante alguns capítulos, o muito que a saga de Westeros tem para oferecer soube a pouco ao ritmo de uma hora por semana, e aí os minutos extra dos dois últimos episódios da sexta temporada fizeram a diferença.

 

Mas não foi só na duração que "Battle of the Bastards" e "The Winds of Winter" estiveram acima da média. Em momentos como esses, a série esteve à altura do hype que tem aumentando de ano para ano enquanto vai impondo expectativas estratosféricas. Se em casos como o também muito falado "The Door" a montanha pariu um rato, com um argumento espertinho e viagens temporais importadas de um "Lost" a destoarem do tom dominante da série (e quanto menos se falar dos Filhos da Floresta, melhor), os episódios mais recentes dispensaram espirais narrativas para seguirem em frente, custasse o que custasse (embora a contagem de corpos até nem tenha custado tanto como talvez muitos fãs esperassem, apesar de tudo).

 

Miguel Sapochnik, realizador que já tem currículo considerável em séries como "House" ou "Banshee", superou-se e elevou a fasquia de uma produção com mais cinema do que muitos filmes nos dois últimos capítulos da temporada: a batalha dos bastardos, imersiva e sufocante como poucas registadas no pequeno ou grande ecrã, merece mesmo ficar para a história, e todo o acompanhamento do plano maquiavélico de Cersei no episódio seguinte deixa outros 15/20 minutos de suspense noutro comprimento de onda, com uma elegância e inquietação embaladas por "The Light of the Seven", a memorável partitura instrumental de Ramin Djawadi.

 

Com um desenlace (provisório) destes, quase nos esquecemos da jornada interminável e repetitiva de Arya, do facto de Bran só estar lá para fazer o argumento andar (através de uns quantos recuos) ou de Tyrion e Daenerys terem tido tão pouco para fazer ao longo de uma temporada. Por outro lado, a troca de olhares entre Sansa e Littlefinger deixa no ar que o Inverno tardou, mas promete ser cortante, talvez mesmo implacável, agora que chegou... até porque já só há pouco mais de uma dúzia de episódios a caminho.

Então adeus, "sestras"

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É capaz de ser melhor assim... talvez seja preferível que "ORPHAN BLACK" fique mesmo pela quinta temporada, confirmação anunciada agora que a quarta chegou ao último capítulo. E chegou de forma bem menos inspirada do que um arranque que prometia recuperar a graça, subtileza e engenho dos episódios iniciais da saga de Sarah Manning e seus clones.

 

Mas nesta altura já nem Tatiana Maslany, habitualmente impecável na pele uma mão cheia de personagens, consegue disfarçar que esta história anda em círculos desde há muito, e o facto de ela ser tão boa só acentua o quão maus podem ser alguns actores secundários e as figuras que encarnam - os vilões desta temporada, então, são do mais preguiçoso e cabotino, ao nível de algumas reviravoltas de telenovela dos últimos episódios.

 

Ao contrário de temporadas anteriores, até a actriz principal começa a revelar algum cansaço, com a personagem de Krystal, estereótipo da loura burra elevado até à quinta casa, a mostrar-se um tremendo tiro ao lado - e a trazer ainda mais viragens de tom a uma história com dificuldades em manter a agilidade de outros tempos. E o pior é que clones como este roubam espaço aos que valem mesmo a pena, como Helena, que continua a ter as melhores tiradas (e das poucas em que o humor não parece forçado) mas foi completamente desaproveitada ultimamente.

 

Por isso, depois de uma quarta temporada que não conseguiu resolver os problemas da terceira, mesmo com alguns bons ingredientes pelo meio (além de Maslany, Felix e Mrs. S. vão garantindo alguma solidez dramática), será melhor dizer adeus em vez de voltar a desejar rápidas melhoras. Até porque ninguém tem muitas saudades de "Sangue Fresco"; pois não?

 

O jogo do toca e foge

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Começou bem, dentro da Muralha, com o luto (temporário?) de Jon Snow, e continuou ainda melhor, ainda em tom invernoso, numa sequência de perseguição a elevar as expectativas. Em poucos minutos, com a correria na floresta entre a neve e água gelada, as cenas de Sansa e Theon conseguiram a urgência que faltou, por exemplo, às quase três horas de "The Revenant: O Renascido", que se arrastaram pelos mesmos ambientes.

 

Um grande regresso? Infelizmente, não chegou lá. E nesta altura, a entrar na sexta temporada com o hype maior do que nunca, "A GUERRA DOS TRONOS" não pode fazer a coisa por menos, mesmo que um episódio morno seja preferível aos mais inspirados de muita concorrência. Entre a energia dos primeiros momentos e uma muito falada revelação no final, cortesia de Melisandre, ficou pouco mais do que um ponto de situação às vezes interessante (Cersei e Jaime, os Bolton), outras redundante (Arya, Daenerys, Tyrion e Varis) e num caso especialmente frustrante (as cenas com os Martell, mais próximas de uma série duvidosa com argumentistas e elenco a preço de saldo, sobretudo quando as Sand Snakes aparecem e abrem a boca).

 

Se esta vai ser mesmo a melhor temporada de sempre, com a equipa da HBO tem garantido, então ainda vai ter de melhorar muito, e a narrativa saltitante e dispersa - cinco ou dez minutos por reino - que minou o episódio anterior não ajuda. Mas é esperar para ver, já que nesta altura ainda não sabemos (quase) nada...

 

 

Reencontro de irmãs

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Por muito que Tatiana Maslany tenha, provavelmente, a interpretação mais fascinante do pequeno ecrã em anos - ao dar corpo a mais de meia dúzia de personagens sem nunca se repetir -, a terceira temporada de "ORPHAN BLACK" deixou a desejar e não fez inteira justiça ao talento da actriz canadiana, sobretudo na recta final. Demasiados suberenredos, demasiadas conspirações, demasiadas reviravoltas e demasiadas variações de tom foram deitando abaixo uma série que arrancou como um thriller urbano com traços de ficção científica e policial, além de doses generosas de humor, sempre escorreito e modesto q.b..

 

Apesar da overdose de clones (esses, até agora, não são demais), na simplificação é que pode estar o ganho e o primeiro episódio da quarta temporada segue por aí, ao voltar atrás para seguir em frente. Em vez de Sarah Manning, quase todo o tempo de antena de "The Collapse of Nature" pertence a Beth Childs, o motor da narrativa da saga embora mera nota de rodapé enquanto personagem... até aqui. A produção da BBC America (que chega cá pela Netflix) não precisa de muito mais de 40 minutos para lhe dar corpo e alma, mérito (mais uma vez) de Maslany mas também de John Fawcett e Graeme Manson, criadores da série que têm neste regresso (ou recomeço) a função de realizador e argumentista, respectivamente. Os pais estão mais presentes, as irmãs agradecem (há sempre espaço para mais uma - bem-vinda, M.K.) e os espectadores com saudades da frescura inicial desta história também...