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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

A noite (e o jogo) dos mortos-vivos

PZ

 

"Império Auto-Mano", o quarto álbum de PZ, não só é dos mais conseguidos do projecto a solo de Paulo Zé Pimenta como merece figurar entre os melhores da produção nacional deste ano. E caso vinhetas sobre os absurdos do quotidiano na linha de "Olá""No Meu Lugar" ou "Mais" não fossem suficientes para comprovar que a receita com condimentos hip-hop, funk, electropop ou techno à moda do portuense está cada vez mais apurada (e continua com direito a sotaque inconfundível na música que se faz por cá), há agora mais uma chamada de atenção para o disco.

 

"ZONA ZOMBIE" ganha novo fôlego a tempo da noite de Halloween e o título não engana: é dos temas mais sombrios, mesmo que não abdique do humor que percorre o álbum, e junta os sussurros de PZ (em tom mais intimidante do que o habitual) a uma penumbra electrónica que não anda longe da faceta sintética e implosiva de uns Nine Inch Nails.

 

O videoclip mantém-se fiel ao título e vai colocando mortos-vivos no caminho do protagonista, uma versão animada do músico (à qual não falta o pijama já conhecido de outros vídeos ou palcos), num passeio que além de remeter para o cinema de terror também é uma homenagem aos videojogos dos primórdios (a cargo da Check It Out Studios, do Porto). Anos 80 bem medidos para ir voltando a um álbum que ajuda a dar graça a 2017:

 

 

Despertando depois do sonho

Scratch Massive

 

Entre as boas surpresas da pop electrónica deste ano conta-se "Polaar", o primeiro álbum a solo de Maud Geffray, metade dos SCRATCH MASSIVE. Mas além do percurso em nome próprio, a cantora, compositora e produtora francesa também se tem dedicado às canções da dupla que forma com Sébastien Chenut, na preparação do primeiro disco de originais do projecto desde o já demasiado distante "Nuit de rêve", de 2011.

 

Se nesse álbum a banda convidou vozes como as de Daníel Ágúst (dos Gus Gus), Jimmy Somerville (ex-Bronski Beat e Communards) ou Koudlam, num óptimo alinhamento entre a synthpop mais negra, a darkwave e algumas bandas sonoras dos anos 80 (como as de filmes de John Carpenter), a primeira amostra do próximo registo sintoniza-se com cenários mais contemporâneos.

 

"SUNKEN", o single de avanço de "Sunken City", mantém-se em terreno electrónico, mas perto da faceta eufórica (embora enigmática q.b.) de uns Röyksopp ou Grimes, enquanto alarga as colaborações da dupla ao requisitar a cantautora Léonie Pernet (que partilha o protagonismo vocal com Maud Geffray). Já o videoclip, realizado por Sébastien Chenut, conta com a actriz Roxane e a DJ Mesquida Eiko Hara, sugerindo que há mais convidados a caminho - uma possibilidade para ir confirmando até 23 de Março de 2018, data da edição do novo disco.

 

 

Felizes juntos

Fischerspooner

 

De volta aos discos depois de um hiato mantido desde "Entertainment", de 2009, os FISCHERSPOONER têm sabido escolher as companhias. O primeiro tema revelado este ano, "Have Fun Tonight", deu conta da colaboração com Michael Stipe, que se mantém em todas as faixas do próximo álbum, "SIR", agendado para 16 de Fevereiro. O ex-vocalista dos R.E.M. é o principal produtor (BOOTS também ajuda) e colabora ainda na composição, além de emprestar a voz a alguns coros.

 

No novo single, a dupla nova-iorquina convida agora Caroline Polachek e talvez por isso "TOGETHERNESS" opte por uma pop esquizóide mais próxima dos Chairlift, banda que deu a conhecer a cantora, do que do passado electroclash de Warren Fischer e Casey Spooner. Este até será o maior desvio que a dupla nova-iorquina faz desses ambientes frenéticos, que de alguma forma acabaram por marcar a maioria das canções anteriores e são aqui trocados por uma produção mais arejada e contemporânea.

 

Fischerspooner_SIR

 

A Pitchfork, por exemplo, sugere influências de FKA Twigs ou Arca, embora os FISCHERSPOONER não cheguem a ser tão cerebrais, até porque o próximo álbum promete ser o mais emocional, íntimo e carnal de uma banda que nunca temeu ser insinuante. Mas a exuberância está, mesmo assim, mais contida, desde logo na imagem de Casey Spooner (Warren Fischer aparece cada vez menos), em parte para concentrar atenções no alinhamento, inspirado no final de uma relação de 14 anos do vocalista.

 

Nesta entrevista da Interview, o mentor do projecto conta a Michael Stipe - que além de colaborador é seu amigo e ex-companheiro (aliás, foi o primeiro) - o que tem mudado no seu processo criativo e o motivo da abordagem mais directa a canções sobre relacionamentos homossexuais (e os títulos das novas são elucidativos, de "Stranger Strange" a "Discreet", passando por "Dark Pink" ou "Top Brazil"). Vale a pena lê-la, nem que seja para perceber o considerável (e inesperado) corte com o passado da banda feito em "TOGETHERNESS".

 

O videoclip do single junta mais dois nomes à lista de convidados: o actor Juan Pablo Rahal, que contracena com Casey Spooner, e a artista transexual Juliana Huxtable:

 

 

De regresso como cavaleiros das trevas

MGMT

 

Parecendo que não, já passaram quase dez anos desde que "Oracular Spectacular" (2008) colocou os MGMT na bolsa de apostas indie. Mais do que o álbum, singles como "Time to Pretend" ou "Kids" catapultaram a dupla de Brooklyn para a linha da frente das novas sensações do momento, mas esse pico nunca voltou a ter resposta à altura nos discos seguintes.

 

Em vez de optarem pela pop electrónica das canções mais populares da banda, "Congratulations" (2010) e "MGMT" (2013) não colocaram de parte os sintetizadores mas seguiram uma via mais psicadélica, experimental e muitas vezes hermética, numa tentativa deliberada de evitar as pistas mais óbvias.

 

É também por isso que uma canção como "LITTLE DARK AGE", a primeira de Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser em quatro anos, acaba por ser uma relativa surpresa. Mesmo não sendo tão imediata como os primeiros singles dos MGMT, é o mais próximo desses ambientes desde então, e até reforça a carga synthpop com heranças de glórias anos 80 na composição, produção e voz (a lembrar a viragem igualmente sintética do último álbum dos Arcade Fire).

 

O videoclip nem tenta esconder essa escola, ao vincar o tom gótico com direito a uma vénia a Robert Smith, mesmo que a melancolia adolescente de outros tempos tenha dado lugar à ironia. A pose é mais blasé do que angustiada, mas o resultado deixa alguma expectativa para o quarto álbum do duo, prometido para inícios de 2018: