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gonn1000

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

Muitos discos, alguns filmes, séries e livros de vez em quando, concertos quando sobra tempo

De volta aos hábitos pop

A still from Chela's "Bad Habit" video.

 

Com vários singles editados na primeira metade da década, CHELA prometia ser um dos nomes a fixar na nova pop electrónica australiana, seguindo um caminho já percorrido pelos Cut Copy, Presets, Ladyhawke e outros conterrâneos. Mas desde "Handful of Gold", de 2014, pouco mais se ouviu dela, tirando colaborações ocasionais em discos de amigos (como Seth Bogart), o que parecia antes deixá-la na lista das promessas por cumprir da editora francesa Kistuné.

 

Três anos depois, há finalmente novidades... e são boas. A cantora, compositora, produtora e multi-instrumentista, agora radicada em Los Angeles, anunciou que está a preparar um novo EP (sucessor da já distante "Zero Mixtape", de 2013) e partilhou a primeira canção, "BAD HABIT", uma aposta da sua própria editora, Artless Artists.

 

Menos guiado por uma synthpop redondinha do que temas anteriores, o single está a meio caminho entre umas HAIM não tão imediatas e uma Glasser não tão hermética, mantendo ecos dos anos 80 embora de forma mais subtil. Com um balanço apoiado em palmas sincopadas, a produção, dividida com Chris Zane (Holy Ghost!, Passion Pit), sabe tirar partido de variações rítmicas que vão convidando a novas audições em vez de se esgotarem à primeira.

 

Além de protagonizar o videoclip, como cantora e bailarina, CHELA também assumiu a realização. E face a um regresso em tantas frentes, parece que podemos voltar a apostar nela:

 

 

A soma de todos os medos

Crescer assusta e para os protagonistas de "IT" chega mesmo a ser terrível. Mas nem tudo é mau quando o lado mais tenebroso da adolescência inspira uma das melhores surpresas recentes do cinema norte-americano (e com direito a um reconhecimento merecido nas bilheteiras).

 

It

 

Obra-prima? Clássico instantâneo? Apesar do burburinho mediático e de algum aplauso crítico, o filme de Andy Muschietti (sucessor de "Mamã", de 2013) não chega a tanto. Longe disso. Mas não deixa de ter elementos estimáveis, daqueles que não têm tido grande paralelo noutros sucessos de bilheteira dos últimos tempos - muitas vezes entregues a sequelas, prequelas, reboots ou remakes pouco imaginativos.

 

Não é que "IT" seja propriamente uma pedrada no charco, desde logo porque não só parte do livro homónimo de Stephen King como surge depois da adaptação televisiva, no formato de minissérie, estreada em inícios dos anos 90. E esses nem serão os únicos parentes próximos de um filme devedor de outras versões para o grande ecrã da obra do mesmo autor (com "Conta Comigo" à cabeça) ou de mais tesourinhos dos anos 80 como "Os Goonies". Já para não referir, claro, a habitualmente comparada "Stranger Things", tanto por terem um actor em comum (Finn Wolfhard) como, e sobretudo, pelo misto nostálgico de drama juvenil e ficção científica. Por outro lado, a série da Netflix também já assumia uma devoção óbvia pelas histórias de Stephen King e não seria estranho encontrar "It" (o livro) entre seus pontos de partida.

 

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O filme-sensação da temporada até é substancialmente mais cru, conciso e arrojado do que a produção dos irmãos Duffer, ainda que o rótulo de terror possa levar alguns ao engano. Há tentativas de assustar, sim, mas as cenas com o palhaço Pennywise não estão entre as mais convincentes, embora Bill Skarsgård seja eficaz na construção do boneco diabólico.

 

Às tantas, as sequências de "jump scares" começam a parecer impostas num filme que respira bem melhor quando se concentra na dinâmica de um grupo de pré-adolescentes, aquelas onde o argumento de Cary Fukunaga (que esteve quase a assumir a realização), Chase Palmer e Gary Dauberman mais consegue fintar (ou pelo menos disfarçar) lugares comuns associados ao género.

 

"IT" vai ganhando um capital de simpatia apreciável ao acompanhar o dia-a-dia dos seus jovens protagonistas, "losers" (expressão repetida ao longo do filme) de uma pequena localidade norte-americana cujo contacto mais próximo os ajuda a ir superando medos individuais. Uma das características mais intrigantes do filme é, aliás, a forma como vai dando a ver os receios mais íntimos de cada um, movendo-se entre inquietações pessoais mas transmissíveis que desenham um quadro do lado árduo e desconcertante da adolescência.

 

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Só é pena que, ao longo desse mergulho nas personagens, o argumento acabe por não investir em todas de igual forma. Ao longo de pouco mais de duas horas, seria sempre difícil dar espessura a sete protagonistas, mas Mike e Stan só teriam a ganhar com mais tempo de antena - assim quase acabam reduzidos a representantes do jovem afro-americano e do jovem judeu, respectivamente. Ainda mais caricaturais são as figuras secundárias, dos pais a outros adolescentes (os bullies de serviço), mas esse contraste até acaba por jogar a favor da caracterização das principais, ao reforçar o seu isolamento, ao início, e espírito de entreajuda, mais para o fim - e reforça também o fosso geracional, decisivo para que a faceta sobrenatural funcione.

 

Apoiado num elenco de nomes praticamente desconhecidos, "IT" vale também como montra de alguns novos talentos que Hollywood não deve tardar a explorar. O casting feliz ajuda muito nos saltos de narrativas e atmosferas (além de drama e suspense, há espaço para o humor ou para um triângulo amoroso) e é essencial para que se sinta um coração a bater entre sequências por vezes um tanto mecânicas, periosamente próximas de demasiados blockbusters sem alma. Mas aqui não há mesmo nada a temer - como o final comovente comprova - e, por uma vez, isso nem é um defeito num (suposto) filme de terror.

 

3,5/5

 

 

Guia espiritual

little_dragon

 

Apesar de "High", o quinto álbum dos LITTLE DRAGON, ser relativamente recente - chegou às lojas e postos de escuta virtuais em Abril passado -, o novo single da banda sueca não foi retirado do disco.

 

"PEACE OF MIND" tinha ficado de fora do alinhamento, por ser um dos temas inacabados das sessões de gravação, e só chegou à versão final quando o grupo convidou outra voz para cantar com Yukimi Nagano.

 

A escolhida foi Faith Evans, uma das inspirações (não muito óbvias) que a vocalista mais ouviu na adolescência e cujo R&B de travo anos 90, de recorte nocturno e contemplativo, parece ter eco na canção - algumas baladas de Neneh Cherry dessa época também não serão uma referência distante, e uma até tem um título parecido.

 

Outro convidado, Raphael Saadiq, um dos nomes-chave da neo soul, participa no papel de produtor e garante que o resultado não deixe de ter traços mais contemporâneos, numa conjugação de universos que já é natural numa banda decidida a não permanecer no mesmo sítio durante muito tempo - e que tem aqui um dos seus momentos mais acolhedores da sua fase recente:

 

 

Alice no país das histerias

Wolf Alice

 

Convém ficar de pé atrás em relação ao que parte da imprensa musical britânica tem escrito sobre o segundo álbum dos WOLF ALICE. "Visions of a Life", que chega às lojas esta sexta-feira, já é apontado como a "obra-prima" (garante a Drowned in Sound) da "melhor banda do Reino Unido" (complementa a NME), epítetos que talvez obriguem alguns incautos a depositar expectativas desmesuradas no quarteto londrino.

 

Mas a banda liderada pela carismática Ellie Rowsell não merece esse peso nos ombros, sobretudo quando elogios superlativos como estes dão muitas vezes lugar ao desprezo ou esquecimento uns álbuns mais à frente (mesmo que o peso da imprensa musical de terras de Sua Majestade já não seja comparável ao dos dias da britpop e das quezílias Blur/Oasis).

 

Na verdade os WOLF ALICE não inventam nada, embora seja tentador simpatizar uma banda que resgata tão bem alguns ambientes do pop-rock alternativo de meados dos anos 90 sem se limitar a modelos copistas. As influências de nomes como os Belly ou os Elastica, entre outros grupos de guitarras com vozes femininas, já se notavam em canções como "She" ou "Blush", mantiveram-se em "Moaning Lisa Smile" e condensaram-se no álbum de estreia - "My Love Is Cool", de 2015, que também abria pistas para domínios da folk.

 

Visions of a Life

 

Até agora, os horizontes do novo disco não parecem muito diferentes. "Yuk Foo", o single de apresentação, mostrou os britânicos mais espevitados do que o habitual, com uma urgência entre o punk e a escola riot grrrl. "Don't Delete the Kisses" repescou a candura presente em alguns dos melhores momentos da banda, numa das suas canções mais envolventes, em atmosfera dream pop. A breve "Beautifully Unconventional", mais directa, sugeriu heranças dos girls groups dos anos 50 e 60, com Ellie Rowsell a dar novas provas de versatilidade. E "Heavenward", o cartão de visita mais recente, aposta num cuidado textural que convoca o shoegaze de uns Lush.

 

Avanços geniais? Nem por isso, mas também não são nada maus e até é seguro dizer que quase metade do álbum está ganho. Haja tempo para ir conhecendo o resto, sem deslumbramentos nem histerias precoces em busca da next big thing britânica: